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Pelas Ruas de Odivelas

Janeiro 13th, 2010 | by Máxima Vaz
Pelas Ruas de Odivelas
Patrimonio
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Dra. Máxima Vaz

Falemos de ruas, ou antes , de nomes de ruas. Proponho o nome de uma – Rainha Dona Leonor. A minha escolha fundamenta-se mais na importância do nome do que na importância da rua, uma paralela da Avenida Professor Doutor Augusto Abreu Lopes.
Quem foi esta Rainha Dona Leonor ? Temos de escolher entre as várias Leonores
portuguesas por nascimento ou por casamento e que foram rainhas :
1 – Houve uma Leonor ,filha do Rei D. Afonso II e que foi Rainha da Dinamarca, por ter casado com o Rei Valdemaro III daquele país.
2 – O Rei D. Duarte casou a sua filha Dona Leonor, com Frederico III, Imperador da Alemanha, pelo que foi Rainha/Imperatriz. O casamento realizou-se em Lisboa e com tal pompa que se esvaziaram os cofres da Coroa, atingindo as despesas a importância de 150.000 cruzados. Esta Dona Leonor foi mãe do Imperador Maximiliano , e bisavó do Imperador Carlos V, talvez as duas figuras históricas que detiveram maior poder político na Europa, até hoje.
3 – Dona Leonor Teles, Rainha de Portugal por ser a esposa do nosso Rei D. Fernando. O povo português não aprovou este casamento e nunca simpatizou com esta rainha.
4 – Uma outra Rainha com o nome de Leonor, foi a mulher do Rei D. Duarte. Era filha do Rei de Aragão. Apesar de ser conterrânea da Rainha Santa, não cativou, como Ela, o coração dos portugueses.
5 – Dona Leonor, casada com o D. João II, irmã de D. Manuel I.
Fundou as Misericórdias, o hospital das Caldas da Rainha, os conventos da Madre de Deus e da Anunciada, dispensou grande protecção a Gil Vicente, pois sem essa protecção nunca poderia ter-se atrevido a escrever alguns dos seus Autos, que chegaram a estar proibidos devido às duras críticas que fazia ao comportamento dos poderosos.
Algumas vezes lhe foi confiado o pesado encargo de substituir o Rei na ausência deste, tanto em vida de D. João II, como depois de viúva, no reinado de D. Manuel.
6 – A terceira esposa do Rei D. Manuel I, chamava-se também Leonor. Era irmã do aqui já referido Imperador Carlos V e, como ele, neta do também já mencionado
Imperador Maximiliano. Com 60 anos de idade, D. Manuel casou com esta jovem, nascida na Flandres. O que este casamento tem de mais insólito é que a jovem Leonor era a prometida noiva de seu filho, o futuro D. João III que, nunca terá esquecido esta ofensa que o pai lhe fez. Ficou viúva dois anos depois e o povo de Lisboa expressou a vontade de a ver casada, agora sim, com o herdeiro do trono, o que não veio a acontecer por se lhe sobreporem os interesses políticos do seu irmão Carlos V, que assinou com o Rei Francisco I de França, um tratado, cujo sucesso dependia do casamento de Dona Leonor com aquele monarca francês, o qual veio a realizar-se pouco tempo depois.
Pelo lado materno era neta dos Reis Católicos de Espanha, que eram os pais de sua mãe, conhecida na História por “Joana a Louca”. Contrariamente ao que se afirma em textos recentemente publicados, seu pai nunca foi rei de Espanha. Chamava-se Filipe e apelidou-o a História, de “ Belo “.Era alemão, filho do Imperador Maximiliano. À morte dos Reis Católicos a herdeira do trono espanhol seria realmente sua esposa Joana, mas Filipe morreu antes de seu sogro, o Rei Católico D. Fernando, razão pela qual não pode subir, com sua esposa Dona Joana, ao trono de Espanha.(1)Parece ter sido a morte do marido que levou Joana à loucura.
Esta sua filha Leonor, Rainha de Portugal primeiro e de França depois, foi uma vítima dos jogos e dos interesses políticos e diplomáticos. Do seu casamento com D. Manuel nasceu a Infanta D. Maria, notável pela sua grande cultura e riqueza, considerada mesmo, a princesa mais rica da cristandade. O seu nascimento trouxe uma tão grande alegria ao Rei D. Manuel, que o levou a cometer o erro de lhe dar um dote tão grande, que veio a ser o maior obstáculo ao seu casamento. O Rei D. João III, seu irmão, serviu-se sempre do nome dela nos jogos diplomáticos, tendo-a prometido várias vezes em casamento, mas nunca permitindo que ela se casasse, para não ter que lhe entregar o dote, o que a verificar-se, traria a Portugal graves dificuldades
A sua imagem foi impressa numa das últimas emissões das notas de cinquenta escudos, como alguns ainda se recordarão.
7 – Não quero concluir sem fazer uma, embora breve referência, a uma outra Leonor, filha de D. Afonso IV. Veio a ser Rainha de Aragão, por ter contraído Matrimónio com o Rei D. Pedro IV, parente próximo da Rainha Santa.
Destas sete rainhas, todas elas com o nome de Leonor, qual teriam os Odivelenses querido homenagear, ao darem o seu nome a uma rua? Nunca fui pessoa de certezas absolutas, mas tenho boas razões para crer que a homenageada foi a esposa do Rei D. João II e não, como se afirmou, num texto recente, a terceira esposa do Rei D. Manuel. É que quando se fala na Rainha Dona Leonor sem acrescentar mais explicações, todos subentendem que é a fundadora das Misericórdias. Bem ou mal, ganhou um tão grande prestígio que, no entendimento dos portugueses, “ Leonor só há uma, a Rainha Velha e mais nenhuma”.
O termo “ Rainha Velha” era usado pelo seu protegido Gil Vicente e não era desrespeitoso; indiciava até alguma deferência e afecto, possibilitando, ainda, estabelecer a distinção entre ela e a Rainha Consorte.
Todas as outras rainhas com o mesmo nome, são muito pouco conhecidas, com excepção de D. Leonor Teles que, a manter-se o juízo que os portugueses
fazem dela, não verá, tão cedo, o seu nome na placa de uma rua.

(1) nota – não confundir este príncipe alemão com o rei francês, também chamado Filipe o Belo, famoso, entre outras razões, pela extinção dos Templários.

Odivelas, 26 de Outubro de 2006

Maria Máxima Vaz

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