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Cenas e Humores do Termo

Janeiro 15th, 2010 | by Vitor Adrião
Cenas e Humores do Termo
Patrimonio
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Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

Para a efectuação dum trabalho desta natureza sem descambar literalmente para o sarcástico pueril do anedótico fácil, tem-se primeiro que situar o estilo de vida local, o porque dos epítetos de desagravo e, por fim, a razão de haver anedotário saloio.

 Tomei por bases bibliográficas, para a feitura do presente estudo, o magnífico livro do padre Álvaro Proença, Benfica Através dos Tempos (Depositária União Gráfica – Lisboa, 1964), e o excelente artigo de Maria Eugénia Borges, Anedotário, Provérbios e Idiomatismos Mafrenses, inserto no Boletim Cultural´94 da Câmara Municipal de Mafra, além da recolha oral que procedi no Concelho de Loures, na época (1995) englobando o actual Concelho de Odivelas.

O Termo de Lisboa foi o lugar de fixação do antigo saloio, espaço confirmado sobretudo durante o reinado de D. João I, como recompensa dos seus habitantes haverem participado na defesa de Lisboa contra Castela. Muitas terras reais foram então distribuídas por doação. Os colonos francos e flamengos, vindos na época do (re) povoamento saloio, instalaram-se em ricas quintas e mansões ao longo da estrada principal Odivelas – Loures (exemplos: Quinta da Flamenga dos De Rouze, Quinta do Barruncho dos Van Praet), tendo colaborado na formação social do tipo clássico do saloio e, simultaneamente, influído no desaparecimento etnológico dos últimos focos de moçarabismo.

Os moçárabes haviam florescido nos séculos VIII-IX d.C., aquando da ocupação Árabe da Península Ibérica. O etimólogo moçárabe, nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que D. Afonso VI de Leão e Castela concedeu (1101) à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos «quos vulgo mozarabes vocitant», de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas (in Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84). O moçárabe é o “como que árabe”, o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele.

Fisiologicamente, em toda a região saloia ou campesina o seu habitante tradicional era, ordinariamente, baixo, entroncado, resistente e trabalhador. De tez morena, pele encorreada e queimada pelo sol, por norma mostrava-se fortemente barbado; cabelo preto, nariz grosso, bem saliente e abatatado, com pernas por vezes arqueadas, aparecia por toda a parte com as suas célebres suíças, mais largas em baixo a acompanhar o alargamento da zona pilosa. Por sua vez, a saloia era morena: a partir dos trinta anos já pouco ou nada lhe restava da beleza ou simpatia da mocidade. Umas vezes, devido aos trabalhos esforçados no campo, ora se apresentava feia e ossuda, ora avantajada e requeimada, acompanhando bem o homem que, por regra, não era o tipo exacto de Adonis ou Apolo. Por vezes e não raro, trabalhava ainda mais que ele…

Seja como for, não deixa de haver muita beleza no rusticismo do tipo saloio. Homens aptos para as lides do campo, mulheres fortes, psicologicamente, por herança genética árabe, todos um pouco esquivos, manhosos, astutos nos negócios, teimosos nos sentimentos, assim armados naturalmente contra a esperteza citadina. E quanto mais desprezados ou incompreendidos, tidos por «chaparrões», maiores as suas defesas naturais: astúcia, habilidade e, às vezes, egoísmo, se tornavam mais fortes e aguçadas. Com boa saúde, atingiam idades avançadas, pouco se ralando com o porvir mesmo porque, habitualmente pacíficos e não se poupando ao trabalho duro, consentiam cada coisa ter o seu tempo para ser feita.

Um dos seus meios de transporte preferidos era o pachorrento burro, companheiro precioso, aparelhado com albardão para os serviços do campo, com albarda para uma simples viagem, e com almantricha para o transporte de qualquer saloia rica.

Por vezes aparece com ceirões de esparto semelhantes aos de Marrocos, ou de albardão mourisco, com arção em meia-lua. O jumento é um amigo fiel, um meio seguro de locomoção, nada caro, pouco exigente e razoavelmente rápido para as andanças da época.

Por seu lado, o vestuário também evoluiu. Por estas bandas de Odivelas – Loures, no século XIX, já aparecia muita gente vestida “à cidade”, embora a gente da terra e com raízes de avós e bisavós aqui bem lançadas, apenas admitisse uma leve evolução no vestuário. Como por toda a parte, havia sempre uma certa diferença entre o vestuário habitual e o de “ver a Deus” ou de festa. Também o saloio janota, com peneiras e a aproximar-se da cidade, arranjava andaina mais catita. De colete, jaleca azul e botas brancas, faixa e carapuço pretos, fazia um vistão. Barretes verdes, poucos se viam, mas chapéus desabados à Mazantini, esses apareciam sobretudo em dias de festa nas feiras e romarias. Nos actos solenes, um capote azul, parecido com o albornoz mourisco, dava-lhe uma certa imponência. Em tempos relativamente modernos, há uns cem anos, já apareciam as calças de “boca-de-sino”, justas às pernas e alargadas em baixo, cinta preta para os casados e encarnada para os solteiros, jaleca a contornar os quadris, camisa mole sem gravata, colarinho mole e barrete de borla preta para os casados e encarnada para os solteiros. O barrete, à entrada da igreja, era deixado no muro das carapuças; agora o chapéu à Mazantini esse era verdadeiramente estimado e não saía das mãos do seu dono, pois aguentava, ordinariamente, uma vida inteira. De aba larga e copa redonda, dava a cada saloio rico – pois eram esses os que o usavam – um verdadeiro ar de grande senhor.

Por sua vez, a saloia, de saia rodada, botas de cano, casaquilho apertado aos seios, xaile aos ombros e lenço na cabeça, fazia um vistão. As botas, mantéus e carapuças que também usou, tornaram-se quase instituições regionais. Mantéu de “parrilha”, saragoça, e de cor berrante como o colete, saia debruada, xaile do melhor e, por cima do lenço, a carapuça, fazia um vistão.

 Sempre sujeita a evoluções, embora ligeiras, em tempos mais modernos a saloia calçava botas pregadas, vestia jaleca, uma saia de chita sobre a outra de beata encarnada, sempre bastante curtas… para os costumes da época. Na cabeça, sempre o indispensável lenço.

A saloia rica ia à feira na sua égua se não dispunha de uma jumenta mais ou menos ricamente arranjada. A saloia pobre arranjava montada menos ajaezada, ou ia a pé. Aliás, o saloio andava habitualmente a pé; apenas, se chovia, tinha o cuidado de cobrir o chapéu com um lenço de chita. De resto, para jornadas mais ou menos longas, tenha sempre o cuidado de se munir do seu inseparável guarda-chuva garrido, ou de um varapau.

Económico como era, arrumava os fatos, em cómodas, cuidadosamente dobrados e guardados no meio de toalhas.

Deitando-se logo após as Ave Marias, “com as galinhas”, sempre complicado no falar e em mostrar o que pretendia, era também um madrugador de alto lá com ele, sobretudo se o seu negócio na cidade o exigia: os produtos das hortas, o leite, etc., tinham que estar de madrugada em Lisboa. Havia pouco tempo para dormir.

Sendo o saloio manhoso por temperamento e educação, se o queriam enganar coçava a cabeça, passava os dedos pelos lábios, muito lentamente, calado, resistindo sempre. Pacato, incapaz de assaltar uma pessoa ou uma casa, também raras vezes armava desordem, a não ser nas feiras, aquecido pela bebida ou estimulado por rivalidades de terras, ou freguesias.

Por vezes essas rivalidades manifestavam-se da maneira como se alcunhavam uns aos outros. Os de Odivelas eram os “rapa-caldos”, certamente por rasparem os pingos sobrados no fundo da malga de magra sopa; os da Póvoa de Santo Adrião, eram os “cágados” e “cagádos”, não sei se por haverem cágados nas margens da ribeira ou se, por certo, haver o costume de aí praticar-se as necessidades fisiológicas; os de Frielas, “rãs”, pela abundância destas nas terras encharcadas da várzea; os de Loures, “socas da cana”, epíteto inspirado nos canaviais ribeirinhos da freguesia, com cujas canas se armavam as latadas; os de Caneças, “animais”, por estes terem confundido, durante um sermão do padre local, no século XVIII, referente a terem sido poupados à peste que assolou as regiões vizinhas, a frase «animar os vossos filhos» com «animais os vossos filhos»! É possível que provenha desse episódio anedótico alcunha semelhante para os de Montemor: “animal-mor”! Os de Benfica, “enforcados”; os de Carnide, “cães”; os de A-da-Beja ou Daveja, “não lhes tem inveja”; os do Lumiar, “cadelas”; os da Ameixoeira, “catalões”; e os da Charneca eram assinalados por alcunha mais ofensiva: “lobos” e “ladrões”, decerto por causa das desavenças comerciais havidas aí por ocasião da feira do gado (in Caneças, por Padre J.T.T.R. (Amora). Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por Raymundo Alves. Lisboa, 1911).

Até em quadras essa rivalidade se exprimia:

Cágados da Póvoa
Rãs de Frielas
Invejai os rapa-caldos
Da feira de Odivelas. 


Cães de Carnide
Cadelas do Lumiar
Acudi aos de Benfica
Que se querem enforcar.

Por essas e outras, às vezes, nas feiras e romarias, havia pancadaria grossa. De resto, o saloio era o homem mais pacato e sofredor do mundo.

Por vezes, um ou outro lá furtava uns frutos de uma árvore ou as aves de uma capoeira, ou as roupas de um secadoiro, mas havia de ser um reles ladrão. Mil vezes pior do que “estar reles” (estar doente), era um desgraçado roubador. De resto, o fiel cão saloio fazia a polícia aos bens do seu dono, e com toda a dedicação e competência de um bom animal amestrado.

Por seu temperamento rústico talhado nas durezas da vida no campo, dando-lhe o tipicismo rural que o caracterizou mas também o maginalizou como ente inferior naturalmente estúpido aos olhos do sabido da cidade, o saloio viu cair sobre si um chorradilho anedótico destinado a demonstrar, por via do humor sarcástico, a sua natural propensão para a estupidez.

Encaixou os golpes injustos e, servindo-se de armas iguais às do agressor, inventou um anedotário demonstrativo de quanto o finório alfacinha propende para a estupidez natural.

Hoje, muitas dessas anedotas só são lembradas pelos mais velhos e já despossuídas do sentido agressivo de outrora, sendo contadas por diversão e nada mais. Eis algumas:

            O filho chega a casa bêbado e diz-lhe a mãe:
– Ai filho, como tu vens…
O filho olha para a mãe e pergunta:
– A gente, mãe?…

            (Gradil e Loures)

Antigamente, muitas das pessoas que iam à festa de Nossa Senhora da Saúde, na Serra de Montemor, freguesia de Loures, pernoitavam encostadas umas às outras, debaixo do alpendre, pois não tinham meio de transporte nocturno para regressar a suas casas.

A certa altura da noite, um homem começa a agarrar a respectiva mulher que se encontrava a seu lado. Ela, espantada com um segundo apetite do marido, diz-lhe, admirada:

            – Outra vez?…
– Outra vez o quê? Comigo é a primeira!!!
            (Loures)

Um saloio, que tinha vindo para a cidade servir em casa de um carniceiro, escrevia tempos depois à mãe:

“Minha querida mãe, escrevo-lhe estas duas regras para lhe dar uma boa notícia: o meu amo está contentíssimo comigo. Já me mandou sangrar algumas vezes, hoje mandou-me esfolar e disse-me que, se assim continuar, me manda matar para a Páscoa.”
(Loures)

Quando um avião sobrevoou pela primeira vez Loures, vários homens que estavam a trabalhar no campo ficaram muito assustados, começando a correr atrás da sombra do avião com as enxadas, para tentar apanhar aquele bicho. Como viram a sombra entrar num palheiro, correram na sua direcção, fecharam-lhe a porta e deitaram-lhe fogo.
(Loures)

É muito frequente o saloio não ter sempre presente o seu nome, assim como os nomes dos parentes mais chegados. Isto também se deve em grande parte ao abuso de alcunhas que chega a fazer esquecer o nome verdadeiro. Durante muitos anos, e talvez ainda hoje aqui e acolá no que resta da cultura rural saloia, estropiavam tanto os nomes que não raro se tornava difícil saber qual o nome verdadeiro.

 Numa determinada aldeia da nossa região saloia, há muitos anos, o pai de uma criança pequena que tinha falecido, foi ao médico, para que este lhe passasse o documento de óbito. É o próprio médico, dr. Fernando da Cunha (da Câmara Municipal de Loures), que nos conta o seguinte:

 Ouvi tudo resignado e passei a preencher o impresso da certidão de óbito, fazendo as perguntas habituais:

– Nome da criança?
– Pedro Luís.
            – Seu nome?
– Luís Francisco.
– Nome da sua mulher?

O saloio coçou a cabeça, costume saloio para ganhar tempo ou para avivar as ideias, e respondeu-me:

– Não m´alembra.
– Não se lembra? Então como é que lhe chama lá
em casa?
– Eu, chamo-lhe ó mulher!

E teve que voltar a casa, duas léguas bem puxadas, para perguntar o nome à mulher.

(Fernando da Cunha, Etnografia Saloia: Subsídios para o seu Estudo. In Boletim da Junta da Província da Estremadura, s. 2, n.º 18, Mai. – Ago. 1948, pág. 284)

Um saloio entra numa repartição pública da sede do seu concelho e pergunta a um amanuense:

            – Vancê saberá-me dizer onde mora aqui o
senhor juiz?
– Qual deles? Só nesta vila há nem menos de três.
– O mais reles… o mais reles que eu pescuro.
             – O mais reles?
– Sim senhor, o mais reles… de menos estimação.
– Você procura talvez mas é o juiz ordinário?
– Deu no vinte! É como canta! Juiz ordinário é que
eu queria dizer, mas não m´alembrava!

              (O Mafrense, 4 Dez. 1890)

E para terminar

Quando vinha para cá, uma púrria afadista que se apeou no Cacém, com os farnéis, os garrafões e a sua estupidez, entretivera-se com graçolas uns aos outros toda a viagem, e porque um deles quisesse ripostar a um outro que lhe diminuíra a inteligência, perguntou-lhe assim:

– Ó pá! Tu julgas que eu sou saloio? Olha que eu, pá, não tenho cara de saloio!

Eu ando com muito pouca vontade de falar, seja com quem seja, e muito menos com quem não me interessa, mas aquela cara de saloio com dois pás, buliu-me cá com o fígado que anda, como já disse ao leitor, há uns dias para cá, do lado esquerdo, e não me contive:

– O sr. faz-me um favor? Podia informar-me que cara têm os saloios pela qual logo se vê que são parvos?
– Mas eu não me referi ao senhor.
– Claro que se referiu, pois se eu lhe estou a dizer que sou saloio.
– Mas isso que eu disse foi para reinar, e não para ofender ninguém.
– Está bem, mas para a outra vez, quando lhe chamarem parvo, mesmo que para reinar, não se meta com os saloios que não têm nada com isso.

(O Concelho de Mafra, 16 Fev. 1949, extraído do livro O Saloio, de Paulo Freire)

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