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De Chelas à Póvoa de Santo Adrião

Janeiro 15th, 2010 | by Máxima Vaz
De Chelas à Póvoa de Santo Adrião
Patrimonio
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Dra. Máxima Vaz

Póvoa de Loures foi o seu primeiro nome; Santo Adrião da Póvoa, o segundo; Póvoa de Santo Adrião é o seu nome actual.
Desconheço o que teria levado à escolha deste mártir para padroeiro desta freguesia, mas poderei abrir um caminho.
Na igreja do antiquíssimo convento de Chelas, existe um altar com uma inscrição que afirma estarem ali depositados os restos mortais de Santo Adrião.
Conta a lenda que chegaram ali no século IX, juntamente com os de sua esposa Santa Natália e ainda os de mais onze cristãos, todos martirizados na cidade de Nicomédia, por ordem do Imperador Romano, Maximiano, no século IV depois de Cristo. Como chegaram a esta várzea, os ecos deste santo?
É possível que o caminho entre Chelas e a Póvoa de Loures fosse diferente do que é hoje, se admitirmos o que afirma Júlio de Castilho na sua obra – “Lisboa Antiga, Bairros Orientais”:
“A água entranhava-se por Enxobregas acima, o que, como também vimos, se confirmava no século XVI pela existência de numerosas petrificações marinhas conservadas no solo; seguia a Chelas e desaguava no vale inundado, da Paiã.”
Júlio de Castilho segue as opiniões de outros autores que afirmam ter existido um esteiro que se estendia pelo vale de Chelas e vinha encontrar-se com a água do rio de Sacavém, na “bacia aquosa” da depressão de Loures.
É do conhecimento geral que esta bacia foi navegável durante séculos e que o último porto a ser desactivado terá sido precisamente o da Póvoa de Santo Adrião, ainda activo em 1822. De barco, a distância de Chelas aqui, seria inferior à de hoje e mais fácil de percorrer.
O conhecimento do culto do mártir Santo Adrião, centrado em Chelas, facilmente teria chegado a esta várzea e admito que fosse essa a razão da mudança de nome para “Santo Adrião da Póvoa”, talvez para se distinguir de Santo Adrião de Chelas. É uma probabilidade.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, o cura desta freguesia diz que o Padroeiro é invocado por este povo, como advogado dos “quebrados e danados”, e que lhe pedem a cura, quando estes males os apoquentam.
Na Igreja Matriz existe a capela de Santo António, onde se pode ver uma pintura que representa Santo Adrião vestido de bispo, a expulsar “maus espíritos” do corpo de uma jovem mulher. Esclareço que Santo Adrião não foi bispo, mas o pintor Cristóvão Vaz imaginou-o assim e essa pintura apenas confirma a fé popular nos poderes sobrenaturais do seu patrono.
A Igreja Católica declarou-o padroeiro dos militares, porque terá sido essa a sua actividade, mas é também protector dos carcereiros, dos ferreiros, carteiros e mensageiros.
A sua imagem é apresentada com uma espada e um escudo e na mão uma chave, o que é uma alusão à sua possível profissão de carcereiro.
A imagem que existe na igreja da Póvoa é de pedra, com túnica pintada de azul e manto vermelho forrado de amarelo. Não ostenta as insígnias que são usuais. Na mão esquerda segura um livro e na direita um moderníssimo martelo. Embora o martelo seja uma alusão ao seu martírio, (diz a tradição que foi torturado sobre uma bigorna), a chave, por ser alusiva a um dos seus trabalhos em vida, teria sido uma melhor opção e poupar-nos-ia aos comentários jocosos que sempre se ouvem, quando visitamos a igreja.
Aqui deixo a sugestão, a quem de direito.
Quanto ao convento de Chelas, onde, para quem acredita, estarão os restos mortais de Santo Adrião, muito há para contar.
No edifício que foi o multissecular mosteiro, está instalado, desde 1898, o Arquivo Nacional do Exército. Foi muito adulterado antes desta data, para o adaptar a fábrica da pólvora, que ali funcionou.
Há indícios de ter começado por existir no local, um templo de Vestais dedicado à deusa Tétis, no século VII antes de Cristo. Uma lenda muito antiga conta que a deusa escondeu nesse templo o guerreiro Aquiles, a fim de impedir a sua ida para Tróia, mas que o astuto Ulisses acabou por encontrá-lo, não podendo Tétis levantar obstáculos à sua participação na guerra, da qual foi um dos heróis.
Obras feitas neste local, vieram pôr a descoberto materiais arqueológicos que confirmam uma edificação romana.
O convento cristão que ali se construiu posteriormente, parece datar do século VII depois de Cristo, mas também dele há poucas memórias.
É com a conquista de Lisboa que se restaura e renova, neste lugar, a vida monástica. O bispo D. João Peculiar, que participou na conquista, e era nessa altura Arcebispo de Braga, foi ao convento “das Donas” de Santa Cruz de Coimbra, buscar algumas Cónegas Regrantes de Santo Agostinho, a fim de virem habitar o convento de Chelas e organizarem a vida comunitária, que só terminou com a extinção das ordens religiosas em 1834.
Quem hoje visita o edifício pouco encontra da sua história e da sua arte, mas pela sua alta antiguidade e pelas relações histórico – religiosas que tem connosco, não podemos nem devemos ignorá-lo. O belo Portal Manuelino da Igreja e os azulejos da entrada, justificam uma visita. Trazê-lo ao conhecimento dos leitores, teve o objectivo de conservar a sua memória.

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