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Pregões Saloios

Janeiro 15th, 2010 | by Antonio Tavares
Pregões Saloios
Patrimonio
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Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

Não vai muito longe o tempo em que Lisboa acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do Termo com que nutriam as gentes da cidade.

A pé ou em seus burricos, os saloios formavam um tipo sui-generis de graça e cor que há muito o alfacinha se habituara a não dispensar. Lisboa não era só a tagana varina canastreira, mas igualmente a alcandorada saloia garrida. Uma e outra davam vida e movimento ao bem típico espírito popular, misto de bairrista com campesino.

O grande olisipógrafo Júlio de Castilho (in Lisboa – Revista Municipal, n.º 116-117, pág. 73, 1968), no seu estudo Pregões de Lisboa, Música do Coração do Povo, escreveu:

«A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das bandadas casaleiras. Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»

Diz, ainda, Júlio de Castilho: «Há pregões ternos e melancólicos; há outros engraçados e burlescos; há outros indiferentes, sem inteligência e sem cor; uns são preguiçosos e estiraçados como lazarones; outros, finos e flexíveis como enguias; outros, fleumáticos e calculistas como os onzeneiros da Rua Nova; uns são gordos, outros, magros; estes são garotos, aqueles circunspectos. (…) Em suma: o pregão é feição especialíssima da comédia das nossas ruas, e espelho do carácter nacional de uma classe. O certo é que, salvas algumas excepções, os pregões de Lisboa são afectuosos, afinados, e teatrais.

 «Finalmente, lembraremos que há (ou havia) pregões que se ouviam com mais frequência neste ou naquele bairro, nesta ou naquela zona. Dependia do produto vendido, o qual, muito naturalmente, tinha um maior número de interessados em determinadas partes da capital. Também variam com as horas do dia e as estações do ano. Melancias e sorvetes, por exemplo, não eram vendidos no Inverno, e as castanhas, ontem como hoje, aparecem no Outono, adivinhando o Inverno que se aproxima…» (in Lisboa Antiga – Bairro Alto, vol. V, pp. 223-224, 3.ª ed., 1966)

Neste estudo, apenas indicarei os pregões saloios que Lisboa foi ouvindo ao longo dos tempos, em especial nos últimos 110 anos que vão dos meados do século XIX até cerca de 1960. Contudo, não se deve esquecer, como informa Júlio de Castilho, que os pregões de Lisboa são muito antigos e que já no século XVI eram apregoados os produtos vindos nas naus da Índia.

Em 1980 ainda se ouvia, por uma ou outra ruela dos bairros alfacinhas, a voz de uma ou outra velha varina, tentando perpetuar os seus encantadores mas já moribundos pregões… era o seu canto de cisne!

Mesmo hoje, 2008, ainda ouço quase fantasmagoricamente, tal a raridade, os pregões de um amolador de facas e tesouras ou dum vendedor ambulante de mantilhas e capachos. São raridades etnográficas em rápida extinção…

Mas vamos aos pregões saloios que recolhi, aconselhando, a quem queira fazer um estudo mais pormenorizado deste tema, a consulta à bibliografia no final do presente.

Água: Áá-Áá! – Áúúú! (1903); Á–ú! – Áááuga! (1903).

Alecrim: Mér-c´Àlecriim! (1903); Mérc-c´ò mólho d´alecriim! (1903).

Alhos: Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos! (1903).

Amêijoas da Ribeira de Frielas: Quem quér a-mêêi-joas, pr´à àrrõz?! (1903); Amêêijôas p´r àrrôôz! (1940).

Amoras: Riic´àmóra da hóórta – Amóóra-friia! (1903).

Azeite, petróleo e vinagre: Azêêêti dôôci! (1903); Aa-zêite dôôce! (1903); Aazêite duuce! – Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine! – Azêite dôô-c´i bom vináágre! (1903); Óh petroliiii-ne… Azêite dôôce i vináágre! (1903).

Azeitonas: A trinta réis ô salamiin! Quem quer azêitõonas nóóóvas? (1903); Déz tostões – salamiim! Quem quer azêitõonas nóóóvas?! (1940).

Broas: Nem p´lô Natal… há brõa igual! Ó meniinas, vinde comprár as brõas do Manél, que curam a tosse – e sábem a mél! (1903).

Vassouras, abanos, chapéus de palha: O abano fáz ô bento – bis, Par´ácender ô fõgão…, Báárre, báárre, bassourinha – bis, Bassourinha bárr´ô chão…, Ólh´ò lindo cestiinho!!! (1940).

Favas: Fáva tôrradiinha! (1903); Fáva riiica! – Fááá-va rii-ca! (1903 e 1940).

Figos: Quem quér fiigos, quem quér álmôcáár? Quem quér fiigos de capa rôôta?! (1903); Óh figui-nhu de capa rôôta!… Quem quér fiigos –, quem quér álmôçáár…! (1940).

Galinhas: Éh! Galiiinhas! (1903); Mérca frâangos! (1903); Galiiiiiiiii-nhas! Quem nas quér i com ôvo?! (103).

Hortaliças: Ólh´à cou-ve lombar-da! (1903); Mérc´à mão de náá-bos! (1903); Méérc´ò mólho de náábos! (1903); Ólh´ò timááti, quem quér timááti? O móó-di cinou-las… (1940); Ólh´àbóbra, quem quér abóóbra? Côrteirão de pimentos… Ólh´àlfácia, quem quér àlfáácia…? (1940); Cá estão nábos, cenouras, tomátes ou pepinosi tud´ô mais que a hórta dá! (1940).

Laranjas: Mééc´à la-rããnja da Chii-na! (1864); Quem quér do rããmo?! Quem quér larããnjas nóóvas?! (1940); É do rããmo!… Quem quér laranja bõõa?! (1940).

Leite: Éééé, chêga lá vaquiii-nha, chêêga! – Anda lá, Rosita… Então estás a fazer-te esquerda?! (estas palavras, este pregão de 1903, eram dirigidas à vaca que o saloio trazia até à porta da freguesa. Leite mais fresco não havia… Este uso de vender leite levando as vacas ou as cabras às portas dos compradores, terminou em 1920, com proibição imposta por lei, apesar de não serem raras as transgressões à mesma).

Marmelos: Óólha ô marméé-lo – assadiinho nô fôrno! (1940); Quem quér – ôs ricos marmelos – assadiinhos no fôrno?!!! (1940).

Melancia e melão: Mérc-c´ ò par de melancii-as! (1903); Mérc-c´ ò par de melõões! (1903); É da Váárzia… Melanci´à – fááca! (1903).

Mexilhão da Ribeira de Frielas: I-érre, I-éérre, me-xi-lhão! Ih! Êrre-érre, mexilhão! P´r´à patroa i p´r´ò patrão!… (1903); Éérri éérre, mexilhão! Cá está ô mexilhãão, óh mexilhãão! (1940).

Morangos: Mérc-c´ò cabáz de môran-gos! (1903); Ólh´òs môrãangos! São de Siintra! (1940).

Ovos: Mérc´à dúzia de óóvos! (1903).

Pão: Pãizinhos quentiinhos – com linguiiça! (antes de 1903).

Pêras: A vintém o quarteirão! – Quem acáb´às pê-ras?! (1903).

Perús: Méér-c´ò casál de perús!… – Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!! (1903).

Queijo saloio: Méérca ô quêi-jo sa-lôôio! (1864); Quem n´ô quér salôôio – ?! (1903); Queijô sa-lôô-io! – Ái! Ô quêi-jô salôôio…!!! (1903); Óh quêêijô salôôi-ô! Óh quêêijô frêês-co! (1940).

Rebuçados caseiros: A tôstãão, cada matacãão! (1940).

Tremoços: Óh tremôô-ço saalôôio! – Tremôôç´salôôi-ô! – Tremôô-çôs salôôi-ôs! (1940).

Uvas: A quin-ze réis – Quem acá-b´àzúú-vas?! (1903); Quem quér úvas de vi-nha! Quem quér bôô-as úúvas! (1903).

Os saloios, depois de venderem as hortaliças e terem almoçado, encetavam o regresso ao Termo percorrendo as ruas da cidade apregoando: Léév´às fôôlhas – Léév´às cááscas… E as donas de casas davam as sobras imprestáveis do que haviam comprado, pois “não ficavam com lixo em casa”, o qual se destinava aos animais da horta.

Lamento não ser possível que todos esses pregões não estejam acompanhados das respectivas músicas. Mas voto que, mesmo assim, tenha dado uma ideia tanto quanto possível aproximada dos pregões saloios, pedindo a compreensão do leitor. A quem interessar a transcrição musical pode consultar a obra de Calderon Dinis, indicada na bibliografia final, que transcreve 25 pregões, com música do pianista Norberto Wolmar Silva.

OBRAS CONSULTADAS

Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa. Lisboa, 1994.

Júlio de Castilho, Ribeira de Lisboa e Lisboa Antiga, em especial o volume V do Bairro Alto.

Luís Chaves, Notas de Etnografia de Lisboa. In Lisboa – Revista Municipal, n.º 6, Ano II, 1940, pp. 39-53.

Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, em especial o volume 3, 1992.

Calderon Dinis, Tipos e factos da Lisboa do meu Tempo. 2.ª edição, s/d 1993, Editorial Notícias.

Guilherme Felgueiras, Comércio Popular Errante em Lisboa e Subúrbios. In Boletim Cultural – Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 87, 2.º Tomo, 1981, pp. 39-58.

Alfredo Mesquita, Portugal Pittoresco e Illustrado – Lisboa – Compilação e Estudo por… Lisboa, 1903.
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