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O Castelo da Amoreira

Janeiro 16th, 2010 | by Máxima Vaz
O Castelo da Amoreira
Patrimonio
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Dra. Maria Máxima Vaz

Não estranhem o termo “castelo”. Eu não ousaria, mas a pessoa que me ensinou tudo o que sei sobre o castro, é assim que fala dele.
Na década de 80 esteve entre nós um arqueólogo –Gustavo Marques – de quem pouco falamos, mas com quem muito aprendemos.
Nasceu em Lisboa em 1929, era arquitecto de profissão, mas desenvolveu projectos de investigação no domínio da Antropologia e principalmente da Arqueologia. Trabalhou para várias autarquias no levantamento do património cultural e, nesse âmbito, participou no inventário e caracterização do núcleo antigo de Odivelas, na década de 80.
Acompanhei parte do seu trabalho na quinta da Memória, quando fez prospecção no arruinado edifício de habitação a que eu chamei Casa do Arcebispo, por me parecer na altura que não poderia chamar-lhe palácio. Não sei onde param os trabalhos feitos pelo Arquitecto Gustavo Marques, em Odivelas, mas duma coisa eu tenho a certeza – seriam para nós uma informação segura e muito útil.
Foi ele que identificou a estação arqueológica do Casal do Carrasco, na altura no solo de Odivelas, hoje na freguesia da Ramada e a estação neolítica do Pedrógão, em Caneças.
É dele o estudo que trago ao conhecimento dos leitores, sobre o castro da serra da Amoreira e que, felizmente, foi publicado, embora poucos o conheçam.
Vou transcrevê-lo sem comentários e com o respeito que merecem os trabalhos sérios e rigorosos, que nos trazem informações seguras e contribuem para um melhor conhecimento da nossa história. É para compensar algumas “estórias” sem fundamento, que têm vindo a público nos últimos anos, induzindo em erro os leitores desprevenidos, que as tomam como história.
Escreveu ele o seguinte:
“A Serra da Amoreira tem merecido várias referências, atendendo ao seu especial relevo e constituição geológica.
A partir de 1912, Vergílio Correia faz menção de materiais paleolíticos recolhidos por Joaquim Fontes e por ele próprio, na encosta do Monte da Bica (designação geodésica do local).
Há uma única referência assinalando o achado de um fragmento de cerâmica do tipo “campaniforme” (época do Cobre), em condições e data que se desconhecem.
Os indícios existentes eram manifestamente insuficientes e vagos, para permitirem a exacta caracterização duma jazida arqueológica.
Em Janeiro de 1983, o estudante Carlos Valverde, residente em Odivelas, encontrou ocasionalmente um machado polido, nas terras negras para “vasos” que preenchiam uma ampla escavação resultante da sua extracção. O machado chegou ao conhecimento do Dr. Ludgero Gonçalves, que promoveu uma visita ao local, em Julho de 1985, tendo na ocasião recolhido vários fragmentos de cerâmica que depositou no Museu Municipal de Loures. Ali permaneceram até que, em Abril de 1986, o autor, ao verificar o conteúdo dos sacos que continham esses materiais, identificou mais uma estação da Cultura de Alpiarça (época do ferro inicial).
Esta verificação originou algumas visitas à estação, sempre esclarecedoras; nas terras restantes da escavação para a sua extracção recolheram-se mais fragmentos de cerâmica, numerosos sílices paleolíticos e de épocas posteriores. Também se fez o reconhecimento de possíveis muralhas do povoado.

Destas circunstâncias se deu a necessária informação à Câmara Municipal (5 de Maio de 86); posteriormente foi oficiada ao IPPC (24 de Junho de 86), acompanhada de um pedido de classificação do monumento e duma proposta de delimitação da área de protecção.
Com a ajuda dos jovens da OTL-86, procedeu-se à recolha, por peneiração, dos materiais revolvidos que se encontravam nas terras subsistentes da escavação para a extracção das “terras negras”.
É o resultado destas acções que ora se apresenta, em notícia preliminar.

Catálogo

Do conjunto de materiais recolhidos, escolhemos as seguintes peças, por serem mais representativas das culturas reconhecidas. O espaço desta notícia não consente mais”.
Por não poder apresentar as imagens, interrompo aqui o trabalho do arqueólogo e vou apenas informar que nos apresenta o desenho de cada peça, o nome do instrumento que era naquele tempo e o material de que era feito, ordenando-os cronologicamente:
5 raspadores do período Paleolítico;
8 peças (várias utilizações) do Neolítico/Época do Cobre
5 fragmentos de peças de cerâmica da época – Ferro Alpiarça.

Retomemos o trabalho do autor:

“Conclusões e votos

A estação arqueológica do Castelo da Amoreira, pela área que ocupa, pela forma e disposição dos seus amuralhados e espólio recolhido, situa-se no âmbito da Cultura de Alpiarça. A datação atribuída a esta cultura, ronda a passagem do século IV para o V a. C.
Constitui um dos maiores castros reconhecidos da época do Ferro, no Sul do nosso território. Tem semelhanças indesmentíveis com outros povoados da mesma cultura, que se localizam na sua proximidade. É o caso do povoado da mesma época reconhecido no claustro da Sé de Lisboa e provável ocupação no Castelo, no povoado de Santa Eufémia (Sintra), no grandioso castro do Socorro (Torres Vedras), na Pena do Barro (Torres Vedras)…., todo um horizonte cultural que corresponde em data, aos clássicos “lusitanos” da nossa proto-história.
Esta magnífica atalaia, senhoreava, vigiava e protegia a numerosa população sediada nos casais agrícolas, que já foram reconhecidos no aro do concelho (Marzagão, Abrunheira….), e que formavam a base do povoamento destes chãos riquíssimos para a agricultura, tal como ainda acontece hoje. No castelo se refugiavam em caso de perigo eminente. No castelo se adensam os vestígios do trabalho desses modestos casais.

Fazemos votos para que a sensibilização actual para os assuntos da defesa, conservação e estudo do património cultural, persista e se desenvolva com entusiasmo aumentado.
(…)
Estamos empenhados na valorização destas formas de cultura menos vistosas, mas fundamentais para uma mais apurada consciência da nossa cultura regional e da sua personalidade própria, colectiva.”
Curvo-me perante tão apurado saber, tanta precisão, rigor e eficácia, e lamento que os seus votos tenham esbarrado com ouvidos “moucos”. De 1987 para cá, que se fez?
O leitor dar-me-à razão, quando digo que não tenho comentários. Só tenho que aprender.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, quem tem humildade para aprender, aprenda!!!
Ah! Só mais uma nota breve – o Arqueólogo Gustavo Marques não contava “estórias.”

Maria Máxima Vaz

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