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Odivelas na História Nacional

Janeiro 16th, 2010 | by Máxima Vaz
Odivelas na História Nacional
Patrimonio
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Dra. Máxima Vaz

Quando estavam a decorrer os preparativos para a conquista de Ceuta, sobreveio uma forte epidemia que atingiu, sobretudo, as cidades de Lisboa e Porto. Para fugir ao contágio, a Corte deslocou-se para Sacavém, onde não havia, até ali, notícias de ter chegado a peste. Quando neste lugar começaram a adoecer algumas pessoas, a Família Real e nobres que a acompanhavam, vieram para Odivelas. O Rei partiu primeiro, seguido, algumas horas depois, pela Rainha e a Corte, mas Dona Filipa de Lencastre já apresentava alguns sintomas de doença. Passados três dias chegaram a Odivelas o Infante D. Henrique e o Conde de Barcelos vindos do Porto, onde tinham estado a organizar os navios que viriam a fazer parte da frota que havia de partir para a conquista de Ceuta.
O Príncipe herdeiro, D. Duarte, estava junto da sua Mãe, que não mais abandonou e o Infante D. Pedro, no cumprimento de ordens recebidas, encontrava-se em Lisboa, supervisionando os preparativos para a conquista de Ceuta.
Tendo-se agravado, entretanto, o estado da Rainha, todos os filhos se reuniram à sua volta, em Odivelas, acompanhados pelos membros da Corte. E puderam fazê-lo porque aqui havia um paço real, que já existia no tempo do Rei D. Dinis, que continuou a existir durante toda a Monarquia e do qual ainda havia de pé algumas dependências no século XX, as quais vieram abaixo em 1922/23. Infelizmente, o zelo pela preservação do nosso património ainda era inferior ao que existe hoje, por muito que isso nos custe a acreditar. Se essa relíquia do século XIII existisse hoje em Odivelas, seria, com toda a certeza, um motivo de atracção para muitos visitantes.
Foi neste paço que residiu a Família Real e a Corte, durante os últimos dias de vida da Rainha, que estava consciente do seu fim.
Antes da sua doença, tinha já encomendado as espadas para serem armados cavaleiros os seus três filhos mais velhos, que eram, por ordem de idades, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Reconhecendo que os seus dias estavam contados e que não lhe seria dado assistir a essa festa, decidiu entregar-lhas, mesmo sem a cerimónia que isso implicava.
Mandou que lhas trouxessem e que os seus filhos se aproximassem do seu leito e com ternas e sábias palavras lhas entregou. Começando pelo filho mais velho, D. Duarte, dirigiu-se-lhe nestes termos:
Meu filho, porque Deus vos quis escolher para serdes herdeiro destes reinos, eu vos dou esta espada e vos recomendo que vos seja espada de justiça e vos encomendo seus povos e que sejais sempre a defesa deles, não consentindo que lhe seja feito nenhum desaguisado. E quando digo justiça digo justiça com tolerância, porque justiça sem tolerância é crueldade.
Tomou depois outra espada e dirigiu-se a D. Pedro dizendo:
Meu filho, porque sempre vos vi muito chegado à honra e serviço das donzelas, encomendo elas a vós, as quais vos rogo que sempre defendais.
Por último, chamou a si o Infante D. Henrique e, entregando-lhe a espada, disse:
A vós quero encomendar todos os senhores, cavaleiros, fidalgos e escudeiros destes reinos, porque muitas vezes acontece os reis fazerem contra eles o que não devem.

Os infantes acolheram respeitosamente as palavras da Rainha e tranquilizaram-na quanto ao que lhes pedia. Viveu ainda alguns dias, manifestando sempre grande presença de espírito, até que a 19 de Julho de1415 faleceu. Realizadas as cerimónias fúnebres, continuaram os preparativos para a conquista de Ceuta e só aí, depois da conquista, é que os Infantes foram armados cavaleiros, tendo o Rei, para tal, mandado purificar e benzer a mesquita, transformada assim em templo cristão.
A Rainha ficou sepultada em Odivelas e aqui permaneceu durante quinze meses. Só depois de regressarem de Ceuta é que se procedeu à trasladação do seu corpo para o Mosteiro da Batalha.
No ano de 1433, Odivelas foi novamente cenário de cerimónias fúnebres, desta vez do Rei D. João I.
Faleceu este monarca nos paços da Alcáçova em Lisboa e realizaram-se na Sé as cerimónias religiosas. Terminadas estas, organizou-se o cortejo com destino a Odivelas.
O ataúde foi posto numa carreta, toda armada de luto. Dentro de Lisboa, foi conduzida por D. Duarte, os Infante e os Condes. O cortejo ia assim organizado:
Na frente seguiam cinco belos cavalos, ricamente ajaezados e conduzidos por nobres. O primeiro ia coberto de damasquim branco e vermelho, tendo bordadas as armas de S. Jorge;
A cobertura do segundo era de damasco vermelho e azul, tendo bordadas as armas do Rei;
O terceiro levava cobertura igual, com excepção do bordado que, em vez das armas reais, tinha o mote de D. João I – “ por bem “ – repetido várias vezes;
O quarto cavalo tinha cobertura do mesmo tecido e das mesmas cores, mas com pilriteiros bordados, emblema que o Rei adoptara de sua esposa;
O quinto ia todo coberto de damasquim preto, sem qualquer bordado.
Depois deles, vinha então a carreta com o falecido monarca e, após ela, doze cavaleiros de estirpe, conduzindo as bandeiras e armas do Rei – o elmo, o estandarte, o guião, a lança, a acha, o escudo, a espada. Imediatamente a seguir, numerosas pessoas vestidas de burel, fazendo pranto.
À saída de Lisboa, foram atrelados à carreta quatro cavalos, tendo D. Duarte e os seus irmãos montado a cavalo. Vinte e quatro monges segurando tochas acesas ladeavam a carreta, rezando. Assim chegou o cortejo, ao entardecer do dia 25 de Outubro de 1433, a Odivelas, onde o esperava o Abade de Alcobaça, a Dona Abadessa de Odivelas, abades de outros mosteiros e conventos, muitos religiosos e religiosas. No Largo do Couto, que é hoje o Largo D. Dinis, parou o cortejo e o féretro foi retirado do carro que o transportava e, desatrelados os cavalos, todos os cavaleiros desmontaram. O Rei defunto foi levado para a igreja do mosteiro, seguido de todos quantos o acompanhavam e também dos que aqui o aguardavam. Ficou uma noite na igreja do mosteiro, sendo feito o velório por todos os Comendadores da Ordem de Cristo, e presidido pelo Infante D. Henrique. Só no dia seguinte seguiu o cortejo fúnebre com destino ao Mosteiro da Batalha, onde já se encontravam os restos mortais da Rainha, também ida de Odivelas, em fins de 1416.
Se outros factos não tivessem aqui acontecido, estes eram suficientes para elevarem Odivelas à categoria de cidade histórica. Estes acontecimentos são património histórico e cultural tão valioso como os edifícios que os perpetuam. É este património que valoriza Odivelas, que acolheu tão grandes Reis. Qual é a povoação dos arredores da capital que se pode orgulhar de ter um tal património?
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