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Formação, para onde vamos?

Janeiro 31st, 2010 | by Luis F. Silva

Quando em tempo os meus amigos Paiva Setúbal e António Tavares me convidaram para colaborar neste projecto no âmbito da àrea desportiva, convite que eu aceitei de imediato com muito gosto e mais orgulho, nunca me passou pela cabeça produzir artigos opinativos, mas antes, relatar com rigor toda a actividade desportiva do Concelho de Odivelas, o que, como facilmente entendem, não será fácil apenas com uma pessoa. Melhorar todas as semanas é o objectivo.

Quiz o destino que, acontecimentos lamentáveis em jogos de escalões de formação de futebol, que se repetem de uma forma sistemática, justificassem um artigo opinativo, que hoje inauguro, tecendo algumas considerações sobre o tema.

Fez sábado oito dias aconteceu o que todos os envolvidos e nós também lamentamos, na Pontinha, no jogo de júniores entre o Cultural e o Sacavenense, assunto que foi noticiado neste local. As Direcções dos clubes lidaram bem com a situação, reuniram todos os envolvidos, que pediram desculpas mútuas e embora o que se passou venha certamente a ter consequências disciplinares, que podem prejudicar a época aos dois emblemas, entre todos e de uma forma pessoal o assunto ficou resolvido e enterrado. Outra coisa não seria de esperar de duas associações, uma delas centenária, que tanto têm feito pelo desporto de formação e na área do acompanhamento pós-escolar. Até aqui, menos mal, humanamente se erra, humanamente se emenda.

Acontece porém que uma semana volvida, uma jornada depois, no mesmo escalão, mais dois jogos terminam com cenas que se lamentam e a todos envergonham. O Tenente Valdez-Operário, com sete cartões amarelos e mais sete vermelhos chegou ao fim, mas após o apito final aconteceu tudo o que não deve acontecer num recinto desportivo. A foto que ilustra este artigo, foi tirada à volta dos dez minutos da primeira parte e já nessa altura se adivinhava que o jogo não seria um hino ao desporto, nem ao tão badalado “fair-play”. Ali mesmo ao lado, o Santa Maria-Domingos Sávio, também em júniores era interrompido aos 65 minutos por comportamento incorrecto dos jogadores, quando os visitantes venciam por 1-2.

Posto isto é imperioso perguntarmos o que está a acontecer nos escalões de formação, sim porque júniores ainda são formação. Que formação é que temos e como é que é ministrada. Apesar dos três casos recentes citados terem acontecido em campos da freguesia da Pontinha, Concelho de Odivelas, este problema não é exclusivo da freguesia nem do Concelho.

Há muito tempo que não respiro um balneário por dentro, mas as coisas não mudaram assim tanto que tenham transformado o futebol em algo mais do que um jogo, onde para vencer um tem de perder o outro e às vezes até nem ganha nenhum. Pode ter nascido alguém, a alegria por vezes é incontrolável, mas nunca morreu ninguém por o seu clube ter perdido. É só um jogo e na semana seguinte há mais. Estas noções sempre me foram ensinadas pelos treinadores que tive, entre os quais destaco o Carvalho, velha glória do Mundial de 1966. “Joga bem, não te aleijes, nem aleijes ninguém”,
era um conselho tantas vezes ouvido, que ainda hoje está na memória.

Mas será que ainda se ouve essa conversa nos balneários? Que preocupações presidem à formação. Apenas se apura a técnica e se esqueçe o ser que se desenvolve? Tal como a Escola não educa o Futebol também não, mas pode ajudar. Que será de um treinador que substitui um jovem que está a ser agressivo em demasia? E temos treinadores com coragem para o fazer? E que dizer das reações e comentários dos pais na bancada, que começam nas escolas e vão por aí fora? O mal é que o futebol é o espelho da sociedade, onde é preciso vencer nem que para isso se tenha de espezinhar todos os mais.
Depois idolatram-se treinadores de topo que cospem para o chão, mastigam pastilha elástica nas conferências de imprensa e afirmam que o “fair-play” é uma treta. Pois é. A treta que fizeram do futebol e com este futebol eu não me identifico.

Para terminar, quero deixar expresso o meu apreço pelo trabalho desenvolvido pelas Direcções do Cultural da Pontinha,Tenente Valdez e Santa Maria, clubes do Concelho de Odivelas referidos neste artigo e que tenho a certeza são alheios a estas tristes figuras. Sobretudo no caso do Santa Maria é inegável a importância social que o clube tem para a população envolvente. O que é preciso é ter outra atitude desportiva. Aquilo não é nenhuma guerra, apenas uma disputa
leal, com muita arte, muito suor e mais respeito pelo nosso semelhante, que por essa altura é nosso adversário, mas não deixa de ser nosso semelhante.

Para aqueles que já estão a “rotular-me”, acrescento que sempre fui e sou adepto da Académica de Coimbra, o meu clube de sempre e que essa condição não influi em nada, com a minha capacidade de apreciação das coisas fundamentais
do futebol, nem com o meu dever de isenção, desde os tempos dos Emissores Associados de Lisboa, onde dei os meus primeiros passos e prossegui na RNA, RHT, RDP e agora também em “O Meu Jornal” e “Odivelas.com”

Luis Filipe Silva

One Comment

  1. Carlos Alhinho says:

    Eu, como técnico de futebol na área da formação, com passado na formação do Odivelas Futebol Clube, no Sport Grupo Sacavenense, fiquei varado com aquilo que li numa crónica referente a alguns jogos de juniores. Não me admiro nada com este tipo de atitudes e desfechos, pois existem pseudo-técnicos na formação, e aqui falo nos escalões mais baixos, escolas e infantis, que já incutem nos jovens destas idades (8 a 11 anos) uma agressividade, no mau sentido, utilizando inclusivé termos desapropriados para a formação psico-social desta franja etária. Eu sei do que falo porque assisti “in loco” a barbaridades destas que nada prestigiam os técnicos de formação, nem os monitores que nos facultam os seus ensinamentos através dos respectivos cursos de treinadores. Acredito plenamente que muitos candidatos não têm o perfil, formação e educação para desempenhar tal cargo. Isto parte de base e muitos não sabem encaminhar os jovens pelos trilhos do respeito pelos
    outros, sejam eles, árbitros, colegas de outras equipas, público, etc.. Lamento que estes casos se tenham passado com clubes onde exerci esta actividade tão aliciante que é formar jovens e não apenas formar jogadores de futebol.
    Um abraço deste vosso leitor atento às notícias desportivas do nosso concelho.
    Carlos Alhinho