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PODER LOCAL 2

Fevereiro 12th, 2010 | by Mariana Cascais

As escutas são hoje um dos aspectos que caracterizam o nosso quotidiano.
Provavelmente passam ao lado das preocupações da maioria, ou não passam e a vulgaridade com que acontecem já as legitimou.
E estão aí, nesta democracia que ainda não soubemos construir e que me parece não ter a sustentabilidade que é necessária para lhe assegurar a sobrevivência.
Mas isto fica para outro dia.
O que me preocupa de facto hoje é a questão das escutas; de onde vêm e até onde nos podem levar.
É verdade que já nos habituámos a “escutar” gravações de processos surreais que, periodicamente, almoçam e jantam connosco. E aqui ou ali sentimos até um certo prazer quase mórbido em assistir à derrocada daqueles a quem, não importa como, a vida algum dia sorriu.
Em qualquer caso, não é realmente este o lado mais preocupante das escutas; este é, apenas, o lado das escutas revelador do nosso carácter.
É o caminho que isto leva que me assusta.
Porque vivemos numa sociedade que se pretende de cidadãos de facto, e em que a cidadania deve passar necessariamente pela participação de cada um nas políticas e nas decisões que afectam a sua vida.
 Se à escala nacional essa participação se restringe ao voto, eventualmente a alguma manifestação de rua, para além do funcionamento normal da AR que só muito esporadicamente se deixa “atrapalhar” por questões do âmbito local que a elegeu, à escala local as coisas são, efectivamente, diferentes. Ou deviam sê-lo, caso tivéssemos populações mais motivadas.
Na realidade, a democracia participativa, se não foi ainda integrada pelo quotidiano dos portugueses, entrou contudo no léxico das nossas classes intelectual e política.
Até adoptámos a gestão democrática, e importámos o empowerment para ganharmos a consciência crítica que nos permite participar com convicção.
Participar deixou de ser um direito para se tornar um dever paradigmático, nesta espécie de cultura em que os paradigmas justificam quase tudo o que parece ter-se instalado para ficar. Esquecemos certamente que um paradigma se constrói de um conjunto de pressupostos “criteriosamente” escolhidos por “quem de direito”, e que isso se traduz na ignorância consciente de todos os outros.
Mas isto também não tem importância.
 Participar é ter o direito de opinar, e é a informação que nos transmite os conhecimentos que nos permitem julgar.
Julgamos todos, todos os dias; à mesa do café, no escritório ou em cada fórum televisivo que fala de futebol, de medidas políticas, de religião, de casamentos gay e até de escutas. De tanta opinião, de tanta capacidade de julgar, já perdemos a noção das proporções e da própria ética que devia estar subjacente à nossa participação.
Aqui começam os riscos de uma informação sem fronteiras e de uma participação sem freios nem escrúpulos, em tudo quanto a comunicação social se lembra de colocar na “praça pública”. E se felizmente uma grande parte destas situações é inconsequente, certo é que nos deleitamos a participar, essencialmente quando se trata do destino dos outros.
Para o bem e para o mal, as escutas reforçam ou desmentem afirmações, permitem que se ilibe ou se acuse seja quem for. Mas obrigam, sem nenhuma dúvida, a que cada um de nós tenha cuidados redobrados cada vez que abre a boca.
Porque todos podemos ser escutados, se passarmos a barreira do anonimato.
Não sei se sem as escutas a justiça seria ainda menos eficiente; mas não é por aí que se resolve. E sei que não é este o país que eu quero.
Como também não quero um país que me persiga com sistemas de vídeo vigilância, em nome de uma insegurança relativamente à qual o Governo tem manifestado a maior incompetência.
É questionável o problema da indisciplina na escola, como a falta de regras na abertura das fronteiras ou a ausência de polícias nas ruas.
Mas isso também fica para outra altura.
Todos os dias vemos na televisão assaltos que a vídeo vigilância nos faculta em primeira mão. Todos os seus autores fogem e muito raramente algum é apanhado; e se o é, em escassas horas os responsáveis se apercebem que não há suporte legal para os manter presos. Penso que está aqui o ponto fundamental da questão.
Além disto, vivemos hoje uma crise económica que começa a ter consequências sociais extremamente graves, nomeadamente ao nível da situação de um número muito significativo de famílias e das reacções daqueles que têm que responder por elas; e que o fazem, independentemente de qualquer sistema de vigilância; todos precisamos de comer todos os dias.
Não se trata de uma falácia ou de um exercício de especulação; em Portugal há hoje quem roube para comer.
Trata-se de defender uma liberdade que é minha e de cada um de nós e que não deve ser ameaçada em nome da sua própria defesa.
Trata-se de usar “o mesmo peso e a mesma medida”; e o que é opressão noutros regimes políticos não deixa de o ser nesta espécie de democracia em que vivemos.
Trata-se, em última análise, de evitar os abusos inevitáveis do poder, que podem traduzir-se em todo o tipo de intromissões ou perseguições.
E não é este o país que eu quero, porque não é legítimo tirarem-nos com uma mão o que nos dão (?) com a outra.

Odivelas, 11 de Fevereiro de 2010

Mariana Torres Cascais
Deputada Municipal

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