breaking news

O Monumento Megalítico Nº3 de Trigache

Fevereiro 20th, 2010 | by Máxima Vaz
O Monumento Megalítico Nº3 de Trigache
Patrimonio
0

Dra. Máxima Vaz

Os Monumentos Megalíticos de Trigache não tinham todos a mesma forma.

Como os monumentos já não existem, temos de socorrer-nos do que nos diz quem estudou os documentos que lhe foram legados por quem os descobriu.

Referi-me, no último artigo, ao Dr. Octávio da Veiga Ferreira, que foi quem fez o estudo, e que diz assim :

“ Em 1950, tivemos a possibilidade de ter à mão os apontamentos das escavações de um estudioso chamado Carlos Ribeiro. Entre os vários papeis, vinha o desenho duma casa do tipo das encontradas pelo general Carlos Ribeiro, fundador e primeiro director dos Serviços Geológicos de Portugal.”

Também já falei, anteriormente, no referido artigo, deste estudioso Carlos Ribeiro : vivia em Odivelas e foi quem descobriu os monumentos. Só insisto na informação, porque nos aparece outra pessoa com o mesmo nome – o general Carlos Ribeiro – e poderão pensar que é a mesma pessoa. O general Carlos Ribeiro viveu no século XIX, era Geólogo e, nos seus trabalhos, encontrou tantos materiais arqueológicos, que acabou por ser considerado, também, Arqueólogo. Estes dois homens com o nome de Carlos Ribeiro,  estão ligados pela Arqueologia, mas viveram em épocas diferentes e não se conheceram.

O que é interessante é esta coincidência de ambos terem descoberto monumentos com forma quadrada, os quais, na opinião de alguns especialistas, antes de servirem para enterrar os mortos, teriam tido outra função.

Vejamos, novamente, o que sobre o monumento n.º3 de Trigache, nos diz Veiga Ferreira:

“ A construção apresenta, em planta e em corte, uma espécie de cripta quadrangular, servida por um pequeno corredor de acesso. Todo o conjunto foi escavado na rocha, tendo-se feito crescer as paredes acima da escavação do terreno, por meio duma alvenaria ensossa. Toda a casa era tapada com dois grandes blocos ou monólitos de calcário, tal qual como seria a dos arredores da Figueira da Foz ou a de Monte Serves.”

Os monumentos de forma quadrada ou rectangular começaram por  ser confundidos com construções mais recentes e alguns deles foram utilizados até aos nossos dias, como foi o caso deste de Trigache, que era referido como “o casinhoto”, por quem por ali trabalhava. Alguns, depois de rebocados,  serviram de abrigo aos  guardas das propriedades. Só as escavações revelaram a utilização que sucessivamente lhe foi dada. Nas camadas superiores nada se encontrou, mas continuando a escavar em profundidade até ao solo natural, encontraram-se os mais variados materiais : pontas de seta de sílex, furadores de osso, percutores, núcleos de sílex, cerâmica pré-histórica, ossos, etc. Perante estes achados, concluiu-se que estas construções quadrangulares eram  também monumentos pré-históricos. A cobertura era feita com dois blocos megalíticos, única afinidade  que, à primeira vista, tinham com os dólmens.

Mas outras descobertas vieram trazer novos elementos para interpretar estas construções. Uma das mais significativas apareceu em Pai Mogo, próximo da Lourinhã, onde se encontrou um altar numa camada inferior à da necrópole .

Diz Veiga Ferreira :

“ … viu-se nitidamente que o altar assentava directamente no fundo da construção, ou seja, da cripta, e que o nível do cemitério estava sobre o altar, o que demonstra que, após deixar de servir como templo, passou a ser túmulo colectivo durante toda a época do horizonte de importação…”

Acreditam os seus descobridores , no que têm o apoio de outros arqueólogos, que estas construções seriam templos que, posteriormente, teriam sido utilizados para local de enterramento.

O que leva a esta conclusão é a existência do altar numa camada inferior à dos enterramentos e a forma quadrangular, igual à  parte dos templos gregos a que se dava o nome de “megaron.”

Veiga Ferreira é de opinião que “estas curiosas construções seriam templos de origem egeia (das ilhas do mar Egeu ) e que acompanharam os navegadores para Ocidente  até à península de Lisboa e ao cabo Mondego. Nós estávamos no final do período Neolítico, sem metal ainda e os habitantes da zona do Mar Egeu e Grécia estavam no começo da Idade do Bronze e por isso vinham em demanda de cobre e de estanho para prepararem a liga com que fabricavam as armas e outros objectos, e que era o bronze.

De acordo com estes  achados, e há vários casos iguais, o monumento n.º 3,    que era diferente dos outros quatro, antes de ser necrópole, terá sido templo, o que nos permite admitir que os navegadores egeus terão pisado o nosso solo.

 Maria  Máxima  Vaz                   

________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.

Comments are closed.