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É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!

Março 1st, 2010 | by Antonio Rodrigues

Entre 7 e 18 de Dezembro de 2009 decorreu em Copenhaga a conferência do clima das Nações Unidas. Destinada a substituir o Protocolo de Quioto, esta cimeira redundou num fracasso que poucos tentaram disfarçar.

Os sinais são alarmantes e os factos inquestionáveis: 11 dos anos mais quentes desde 1850 registaram-se entre 1995 e 2006; a temperatura média global aumentou 0,74º C entre 1906 e 2005; a tendência de aumento da temperatura nos últimos 50 anos praticamente duplicou relativamente aos 100 anos anteriores.

Um simples aumento de 2º C desencadeará impactos catastróficos como a subida do nível dos oceanos, secas prolongadas, desertificação em grande escala, falta de água potável, furacões e inundações em série, epidemias de malária e cólera…

Se em Quioto o protocolo instituiu uma redução da emissão de gases com efeito de estufa que ninguém cumpriu e um sistema que transformou o carbono num negócio, em Copenhaga exigia-se, face às evidências científicas, à multiplicação das catástrofes naturais e à urgência de medidas concretas, um plano muito mais ambicioso. No seu lugar surgiu um acordo tímido e não vinculativo.

O pretexto em que George Bush se apoiou para não ratificar o acordo de Quioto é o mesmo que levou ao fracasso de Copenhaga e que se pode resumir ao slogan de James Carville, o famoso assessor de Bill Clinton na campanha presidencial de 1992 – é a economia, estúpido!

A responsabilidade para o desastre ecológico actual e anunciado tem nome. Chama-se capitalismo. O aquecimento global, a poluição atmosférica, a destruição das florestas tropicais, a redução da biodiversidade, o esgotamento dos solos são consequências de um sistema assente numa lógica de acumulação de mercadorias e lucros. Os lucros a curto prazo e a expansão económica infinita são incompatíveis com o tempo lento dos ciclos naturais e com os recursos finitos e frágeis da Terra.

É aqui que socialismo e ecologia terão que se cruzar. Justiça social e equilíbrio ecológico. Um programa radical que não pode abdicar da redução drástica da emissão de gases com efeito de estufa, do desenvolvimento de fontes de energia renovável, da promoção de transportes públicos gratuitos e da eliminação da energia nuclear.

De Copenhaga a Odivelas. O salto necessário para perceber a dimensão do nosso atraso.

Numa edição especial a propósito da cimeira de Copenhaga, a revista Visão, apresentou 30 concelhos com boas práticas ambientais. Entre muitos outros exemplos, ficámos a saber que, em Ferreira do Alentejo os sacos plásticos foram erradicados de todos os serviços municipais, em Aveiro foram disponibilizadas 220 bicicletas para uso gratuito da população, em Matosinhos foram criadas 12 hortas biológicas comunitárias, em Sintra as frotas de camiões das empresas de saneamento são movidas a biodiesel, em Lagos substituíram os contentores de lixo colocados à superfície, por contentores subterrâneos, em Macedo de Cavaleiros a água das piscinas municipais é aquecida com painéis solares e as salas das escolas com biomassa e que em Arraiolos, Estremoz, Loulé a iluminação pública se faz com tecnologia LED que permite uma poupança de 60% na energia consumida. Concelhos de norte a sul do país e de todos os quadrantes políticos.

Odivelas não consta da lista. Não poderia constar. O executivo camarário não tem para apresentar nem medidas simbólicas nem uma política ambiental coerente e avançada.

Das conclusões retiradas de um debate organizado pelo PS Odivelas sobre energias renováveis ressalta a necessidade de debater, reflectir, pensar acerca das problemáticas das matérias energéticas e ambientais. Pensar, reflectir, estudar nunca fizeram mal a ninguém mas, neste caso, têm apenas um significado – adiar.

Quando se fala de ambiente o debate precede a acção. Quando se fala de parcerias público-privadas a acção precede o debate. Prioridades invertidas? A resposta vem sob a forma de murmúrio dos lados da Quinta da Memória – é a economia, estúpido!

António Rodrigues

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