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O Aqueduto das Águas Livres

 “DA  FÁBRICA  QUE  FALECE  À  CIDADE  DE  LISBOA”

Dra. Máxima Vaz

Este é o título de um “escrito” feito em 1571 por Francisco de Olanda e dirigido a EL – REI  D. Sebastião, aconselhando-o a trazer a Lisboa a “ Água Livre », porque, afirmava ele, “ esta cidade morre de sede”. O rei mandou que se fizesse uma vistoria à Fonte da Água Livre e consultou o Senado da Câmara sobre a forma de obter os recursos necessários a uma tão dispendiosa empresa. Era antiquíssimo o lançamento de impostos para a execução de obras de utilidade pública e, fundamentada nessa tradição, decidiu a Câmara lançar o imposto de um “real” em cada arrátel de carne e de dois “reais” em cada canada de vinho, para obras das águas. Isto em 1597, já sob a dominação filipina. A este imposto se chamou “real d’água”.

No ano de 1619, Filipe II visitou Portugal e  o dinheiro amealhado foi, em grande parte, gasto com os festejos em sua honra. Mas a Câmara nunca desistiu da obra ! As sucessivas cartas enviadas ao rei tinham dois objectivos : conseguirem a emissão do Alvará que ordenasse o início das obras e garantir que o dinheiro do real de água não fosse utilizado para outros fins, objectivos que o monarca procurava ludibriar, entretendo-se a “encanar a perna à rã”. A cidade ainda tinha muito que padecer! 

Mais de um século depois, no ano de 1728, dois homens farão renascer a esperança no povo de Lisboa. São eles Cláudio Gorgel do Amaral, procurador da cidade e o Rei D. João V. Nesse ano, Cláudio Gorgel propõe ao Senado que se estude mais uma vez  o assunto das águas e logo nesse mesmo ano o monarca publica um decreto ordenando ao Senado que indique os meios para se iniciarem e custearem os trabalhos. A resposta exigia sérios e longos estudos, consultas, cálculos, orçamentos…

Foi decidido que as obras seriam pagas, recorrendo ao tradicional imposto : “ o real d’água”, lançado sobre produtos de consumo corrente e que as importâncias seriam as seguintes :

   6 réis em cada canada de vinho;

   5 réis em cada arrátel de carne;

   10 réis em cada canada de azeite;

   60 réis em cada alqueire de sal;

   50 réis em cada pano de palha.

Calculou-se que se arrecadariam anualmente trezentos mil cruzados.

Contra este imposto levantou-se, indignada, a voz do clero, que não foi isentado de o pagar, clamando que ofendia a imunidade eclesiástica. Apesar disso, pagou.

Por Alvará de 12 de Maio de 1731, mandou Sua Majestade El – Rei D. João V, dar início às obras. Principiaram os trabalhos no dia 16 de Agosto de 1732.

Passados 16 anos chegava, finalmente, a água a Lisboa.

Embora a obra tenha  estado sob a direcção de sucessivos responsáveis, destaco o mérito, conhecimento, rigor, capacidade de trabalho e grande competência daqueles que eu considero os principais : Manuel da Maia e Custódio Vieira.

Esclareço que nas obras do Aqueduto não houve derrapagens.

 No arco das Amoreiras existiu uma lápide com a seguinte inscrição :

“ No ano de 1748, reinando o Piedoso, Feliz e Magnânimo D. João V, o Senado e o   Povo Lisbonense, à custa do mesmo povo, e comum satisfação dele, introduziu na cidade as Águas Livres, desejadas pelo espaço de dois séculos, e isto por meio de trabalho, durante vinte anos, em arrasar, desfazer e furar os outeiros na redondeza de nove mil passos”.

Os documentos deitam por terra as afirmações que pretendem convencer-nos de que o Aqueduto foi construído graças ao ouro do Brasil. O povo pagou impostos e quem foi incumbido de gravar a inscrição que transcrevi, não deixou isso no esquecimento, afirmando, com ênfase, que a água foi trazida à cidade, “à custa do povo”.

Porque a  respeito de medidas e lugares, as informações nem sempre coincidem, transcrevo, para os leitores, o que nos diz  Gustavo de Matos Sequeira , na sua obra “ Depois do Terramoto”:   « O Aqueduto das Águas Livres tem o comprimento total de 18.605 metros, desde a Casa da Água, no Rato, até ao Olival do Santíssimo, em Caneças. Juntando-lhe, porém, todos os ramais, antigos e modernos, obtém-se a extensão total de 48.036 metros, aos quais, acrescentando-se ainda, as galerias de distribuição dentro da cidade, perfaz o comprimento de 59.838 metros.

Em toda a sua extensão possui 137 clarabóias.

Os túneis têm o comprimento de 4650 metros, e o restante do Aqueduto é em parte construído à flor da terra e assenta sobre pontes de cantaria as quais contêm 109 arcos de diferentes alturas.

O Aqueduto, que era alimentado por diferentes aquedutos parciais, quase todos posteriores a ele, ( são 27 ), parte da primeira clarabóia,  a Mãe de Água Velha.

Posteriormente foram as águas conduzidas desde o Olival do Santíssimo, que assenta  numa encosta a poente de Caneças, onde se juntam com as dos aquedutos de Poço da Bomba e Vale de Mouro. Entram depois na clarabóia das Três Águas e, reunindo-se em seguida com as dos aquedutos das Carvalheiras, dos Salgueiros e dos Frades Marianos, entram depois nas Pontes Grandes sobre a margem direita da ribeira de Carenque».

O Aqueduto do Olival do Santíssimo é o maior dos aquedutos secundários e tem o seu início na quinta do Macário, onde está a ser construída uma nova urbanização. Esperamos, como é lógico e natural,  que os urbanizadores tratem o monumento com o respeito que é devido a uma das mais notáveis obras de engenharia do século XVIII, classificado como monumento nacional, particularmente admirado pelos viajantes que visitam o nosso País e recordado nos seus livros de viagens.

É necessário o acompanhamento, nesta fase das obras, por parte das autoridades municipais e nacionais, a fim de garantirem que são cumpridas as normas legais estabelecidas para defesa dos Monumentos, como por exemplo, respeitar as distâncias

previstas na lei, 50 metros de cada lado, não utilizar o Aqueduto como muro de suporte das terras que sejam movimentadas e verificar se é feito o escoamento das águas de forma eficaz. O não cumprimento de qualquer destas cláusulas, põe em risco a conservação e a integridade do monumento naquela área, e esta não é uma questão de somenos importância. O Aqueduto das Águas Livres é só a peça mais importante do património que temos no nosso concelho. 

Foi apresentada a candidatura do Aqueduto a Património Mundial e é muito provável que seja aceite. Esta obra é a prova da nossa inteligência, do nosso conhecimento e capacidade de realização. Não é obra de um indivíduo. É obra do saber de um povo. Devemos-lhe respeito.

O que se espera é que todos o saibamos preservar de agressões que o fragilizem, como seria, com toda a certeza, a pressão de terras ou águas paradas.

Maria Máxima Vaz

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