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Almeida Garrett

Março 7th, 2010 | by Máxima Vaz
Almeida Garrett
Patrimonio
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Dra. Máxima Vaz

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto a  4 de Fevereiro de 1799.

Era filho de António Bernardo da Silva, selador da alfândega e de D. Ana Augusta de Almeida Leitão.

O apelido Garrett foi buscá-lo a sua avó paterna, de ascendência irlandesa, possivelmente de linhagem nobre. Quem  o iniciou nos estudos foi um seu tio, Bispo em Angra do Heroísmo, para onde a família se retirara, por altura das invasões francesas.

Em 1814 entrou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, donde saiu formado em1821.

São dessa mesma época as suas primeiras obras literárias de teatro e poesia. Em 1819 publicou «Lucrécia» e compôs poemas arcádicos que, posteriormente, publicou (1829) com o título de «Lírica de João Mínimo».                                                        Foi com esta obra que Almeida Garrett se quis ligar a Odivelas. Conta-nos que veio um dia a Odivelas e aqui se encontrou com um tal João Mínimo. O motivo da sua vinda terá sido um «Outeiro», que se realizava no «Couto das Freiras», pelo S. João. Almeida Garrett veio (de burro) com outros poetas seus amigos, «aterrar tudo com sonetos e colcheias», segundo palavras suas, pois o que interessava era «fazer bulha e estalar como um foguete de lágrimas nos ouvidos» dos presentes.

Uma vez aqui, fez questão de visitar o túmulo do Rei D. Dinis e     entrou na Igreja do Mosteiro Cisterciense. Ficou indignado com o que viu e não se conteve:                                                                           «Pois nem o singelo monumento do grande rei D. Dinis escapou à emplastragem universal! Nem o respeito à sua memória, nem a veneração a tão honradas cinzas, nada valeu!».

Que diria hoje Almeida Garrett, se repetisse a visita?

Este monumento do «grande rei» pode desaparecer se nada for feito. «A veneração a tão honradas cinzas», continuará a nada valer?

Estava o poeta tecendo as suas considerações, quando a presença, de um homem ainda moço o chamou à realidade. Era o «sacristão menor» daquela igreja, informou o recém chegado. Chamava-se João Mínimo e entregou-lhe um grosso volume de poesias suas, para que as publicasse. Assim explica o escritor, esta sua obra, a que deu o título – «Lírica de João Mínimo», atribuindo-o a um personagem fictício, com o qual diz ter-se encontrado em Odivelas. Só por este facto, «A Lírica de João Mínimo» faz parte do património cultural de Odivelas. Foi uma honrosa oferta do grande escritor. Parece-me que lhe devíamos retribuir condignamente. Já temos uma rua com o seu nome mas, a meu ver, é muito pouco. Merecia que alguma instituição de instrução e cultura o elegesse como patrono. Almeida Garrett é uma figura grande da nossa cultura e da nossa história política.

Não vou falar da sua obra literária. Creio que todos a conhecem o suficiente para saberem que cultivou diferentes géneros literário – da poesia ao romance, do teatro à história. Foi na literatura que se imortalizou, mas prefiro referir-me a Almeida Garrett como homem político.

Começou por ser o único membro da sua família que aderiu ao liberalismo. A revolução de 1820 teve nele um dos principais historiadores, com a publicação da obra a que deu o título «O Dia Vinte e Quatro de Agosto, pelo Cidadão João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett», datado, muito significativamente, assim : Ano I – Lisboa – 1821. Queria com isto significar, o início de uma nova Era.

Com o  regresso do poder absoluto, após a Vilafrancada, viu-se obrigado ao exílio em Inglaterra e França. São desta época os poemas «Camões» e «Dona Branca», com os quais introduziu o Romantismo em Portugal.

Em 1826 voltou ao seu País mas, em 1828, com D. Miguel novamente no poder, volta ao exílio e só regressa à Pátria, integrado nas hostes de D. Pedro, que desembarcaram em Pampelido e sofreram, a seguir, o prolongado cerco do Porto.

Com a vitória dos liberais em 1834, Almeida Garrett foi nomeado encarregado de negócios em Bruxelas, cargo diplomático de que sempre se lamentou, pelos constantes e aflitivos apertos de dinheiro.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, cidadão irrequieto e inconformado, não podia faltar com o seu apoio à Revolução de Setembro de 1836, chefiada, ideologicamente, pelos irmãos Passos e após a qual é encarregado por Passos Manuel, de elaborar um projecto com o objectivo de fundar um Teatro Nacional.

É este o período áureo da sua vida literária e política. Deputado às Cortes Constituintes participa activamente na vida política sem esquecer o teatro. Funda o Teatro  e o Conservatório Nacional e leva à cena, em 1838, «Um Auto de Gil Vicente»; em 1840,«D. Filipa de Vilhena»; em 1842, «O Alfageme de Santarém»; em 1843, «Frei Luís de Sousa».

Com a chegada de Costa Cabral ao poder, Almeida Garrett passa à oposição, onde se manteve até à queda dos Cabrais em 1851. Durante a vigência do cabralismo sofreu vexames de vária ordem e foi mesmo forçado a esconder-se da polícia. São desta fase da sua vida «As Viagens na Minha Terra», o «Romanceiro» e o «Cancioneiro Geral», cuja edição é de 1843.

Com a Regeneração acalmou a sua vida política. É dignificado com o título de Visconde, ele que tão crítico fora, quanto à atribuição de títulos de nobreza a membros da burguesia. É sobejamente conhecida a sua frase – «foge cão que te fazem barão! Mas para onde se me fazem Visconde?!» Considerava mesmo que, antes os frades da velha monarquia do que os barões nascidos com o regime liberal. A sua opinião ficou bem expressa noutra frase célebre – «o barão mordeu o frade, devorou-o e escoiceou-nos depois !».

Não se pode ser mais crítico. Ridicularizar é a forma mais acutilante de fazer crítica e foi essa a forma que Almeida Garrett escolheu para atacar as pretensões de uma burguesia incapaz de se afirmar e aspirando sempre, ascender à nobreza.

Em 1852 foi nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros e elevado a Par do Reino. Esta condição social dava-lhe direito a um lugar na Câmara dos Pares.

Perdoemos ao cidadão João Baptista da Silva Leitão, as contradições do Visconde de Almeida Garrett, pelo grande talento do Escritor e ainda pela generosidade do combatente e convicto liberal.

Faleceu em Dezembro de 1854, com 55 anos de idade, mas não morrerá nunca, porque o seu nome foi gravado a letras de oiro na História do nosso País.

Maria Máxima Vaz

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