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Doces lembranças do mosteiro de Odivelas

Março 7th, 2010 | by Máxima Vaz
Doces lembranças do mosteiro de Odivelas
Patrimonio
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Este era o título de uma pequena brochura, exposta com muitos outros livros de culinária tradicional portuguesa, numa iniciativa da Biblioteca Nacional, realizada no ano de 1986, em Lisboa.

Eu frequentava, na altura, diariamente, a B.N. e, ao percorrer a exposição, este título despertou-me interesse e curiosidade, ao mesmo tempo que sentia uma grande alegria, pois pensava para comigo: que sorte, vou finalmente conhecer os doces que se faziam no mosteiro de Odivelas!

Encerrada a exposição, requisitei o livro para a sala de leitura mas, contrariamente ao que eu esperava, não continha as receitas que eu tanto procurava.

Refeita da decepção, iniciei uma leitura indagadora e vim a colher uma informação valiosa: o autor falava de um caderno de receitas escrito pelo punho da última freira de Odivelas e que estava na posse de uma senhora chamada Maria Helena dos Santos Abrantes, em casa de quem ele o tinha visto. Esta senhora tinha-o recebido de uma sua familiar, a quem a freira o tinha legado.

De imediato iniciei uma pesquisa, inquirindo junto das pessoas mais idosas de Odivelas, se conheciam a referida senhora ou pelo menos alguma família com o mesmo apelido. Bati a muitas portas em Odivelas, sem obter qualquer informação. De Odivelas alarguei a pesquisa até Caneças e, com tanta sorte que à primeira pessoa a quem me dirigi, disse-me logo:

– Conheço essa senhora muito bem. É minha madrinha!

A pessoa que me deu esta feliz resposta, ainda é viva e há-de ser por uns anos. É a senhora D. Maria Amélia Figueiredo Paisana, proprietária da quinta e da fonte de Castelo de Vide e que na altura era a presidente da Junta de Freguesia de Caneças.

Disse-lhe a razão da minha pergunta e ela logo se ofereceu para ir falar com a senhora D. Maria Helena.

Passados poucos dias telefonou-me para me dizer que o caderno já estava nas suas mãos e que eu podia tê-lo uns dias para consulta, o que veio a acontecer.

Receita manuscrita da Marmelada Branca de Odivelas

Eram realmente as receitas manuscritas pela última freira, as genuínas, as autênticas! Os doces do nosso Mosteiro têm uma certificação autenticada pelo manuscrito, que é um documento. Tentei a transcrição e verifiquei que havia obstáculos – muitas abreviaturas, pesos e medidas anteriores ao sistema métrico decimal.

Telefonicamente, sugeri à depositária das receitas a sua publicação, ideia que foi pronta e asperamente recusada, apesar de a Câmara de Loures já ter afirmado que assumiria os custos da edição.

Perante tão irredutível atitude, argumentei o melhor que pude e soube, dizendo que aquele manuscrito era um documento; o papel que o suportava poderia ser sua propriedade, mas o conteúdo não era propriedade sua nem de ninguém – era património cultural de todos nós. Fiz-lhe ver que o suporte físico era muito frágil – um fósforo, uma vela, um copo de água, poderiam destruí-lo, o que seria uma perda que ela deveria evitar, entregando-o num arquivo que o soubesse tratar e guardar. Por mim fiz o que estava ao meu alcance. Era útil a existência de vários exemplares, em locais diversos. Se um viesse a desaparecer, teríamos outros…

Defender a sua existência foi para mim um dever e decidi fotocopiá-lo, sem autorização, para que não me fosse recusada. O meu objectivo justificou a minha decisão – garantir a sua preservação.

Entreguei um exemplar à senhora que na altura exercia, no Instituto de Odivelas, o cargo de Regente, outro nos serviços culturais da Câmara de Loures, um terceiro na junta de Freguesia de Odivelas, o quarto na Junta de Freguesia de Caneças e o quinto está na minha posse.

Com mais garantias de não se perder este património, tinha uma ténue esperança que as minhas palavras produzissem efeito no espírito da proprietária do caderninho, mas, com o tempo, essa esperança foi-se desvanecendo. Mas, uma surpresa me aguardava. Com grande satisfação, vi aparecer nas montras das livrarias, “O Livro das receitas da última freira de Odivelas”! Felizmente, a detentora do manuscrito tinha decidido a sua publicação. Estávamos no ano 2 000. Mais vale tarde que nunca!

As receitas estavam salvas e ao dispor de quem as pudesse e quisesse adquirir.

Considero este livro uma valiosa peça do património de Odivelas. Não sei se outros doces, ditos conventuais, poderão comprovar, com tanta certeza, a sua autenticidade.

 Doces ditos conventuais, há muitos. Ficaram famosos os pastelinhos de manjar branco de Chelas, os bolos secos do convento das grilas ao Beato, os pastelinhos de Marvila, as raivas e ferraduras de Sant´Ana, a água de cisterna e caramelos das Mónicas, os bolos folhados de Carnide, os rebuçados das flamengas, também chamados bolas d´ovos, os queijinhos e broinhas das bernardas da Esperança, o arroz doce das Albertas. Isto só em Lisboa!

Havia ainda especialidades famosas de conventos espalhados pelo país. De referir, por excelentes, as morcelas doces de Arouca e os beijinhos de Lagoa. Mas “ a todas levavam as lampas, as bernardas ricas de Odivelas”, diz-nos Gustavo de Matos Sequeira, acrescentando ainda que, “as galantes e aristocráticas freirinhas foram inatingidas no fabrico da marmelada – a sua coroa de glória.”

Não só a marmelada ficou famosa. Famosos foram também os tabefes, penhascos, esquecidos e suspiros. Eram peritas na confecção do manjar real, manjar branco e bolo podre.

As freiras de Odivelas, em doçaria, não tinham rivais, ou não fosse este o mosteiro feminino mais rico de Portugal. Que o digam os cortesãos e poetas, que ao largo do couto acorriam nos dias de Abadessado. É ainda Gustavo de Matos Sequeira que nos garante – “Os outeiros de Odivelas eram de todos os mais concorridos. Em nenhum outro mosteiro as recompensas aos vates eram mais generosas. A cada mote glosado despejava-se uma catadupa de bolos, a cada rima feliz, um dilúvio de rebuçados. E de vez em quando lá vinha, à mistura, um bilhete perfumado, cheio de promessas ainda mais doces do que a própria marmelada.”.

O último outeiro de Odivelas realizou-se em 1852.

Na noite de S. João de 1827, aqui poetou o romântico Garrett.

Foi nessa noite que, segundo afirma, conheceu aqui o João Mínimo, o da sua Lírica, quando respeitosamente se acercava do túmulo do Rei poeta, desse túmulo ameaçado de destruição, o que não permitiremos que aconteça,…ou permitiremos?!

Os odivelenses que me respondam!….

Maria Máxima Vaz

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