breaking news

O Memorial

Março 8th, 2010 | by Máxima Vaz
O  Memorial
Patrimonio
0

Dra. Máxima Vaz

Memorial, Memória, Cruzeiro, são nomes usados pelos odivelenses para designarem o mesmo monumento.

Quando foi construído, ficava à entrada de Odivelas, que noutros tempos apenas tinha duas ruas : a Rua Direita e a Rua da Igreja. Começavam ali, na Memória e terminavam na Igreja Matriz. O nome da Rua Direita, só batia certo quando os odivelenses vinham da Igreja, porque quando iam, ficava à esquerda. Hoje é uma parte da Rua Guilherme Gomes Fernandes.

Muitos autores têm escrito sobre o Memorial, divergindo alguns, quanto à época e quanto ao que teria motivado esta construção.

Dizem uns que ali descansou o ataúde do rei D. Dinis, quando veio repousar no seu túmulo; afirmam outros que ali terá feito paragem o cortejo fúnebre do rei D. João I.

Quando aqui relatei o percurso deste cortejo, que passou por Odivelas para o Mosteiro da Batalha, referi –me ao velório feito ao defunto Rei de “ Boa Memória” durante uma noite, na Igreja do nosso Mosteiro, velório a cargo da Ordem de Cristo, tendo presidido às orações o Infante D. Henrique.

Na opinião de uns e outros, construíu-se para dar dignidade ao lugar onde estava prevista a paragem dos cortejos reais.

Duas opiniões diferentes colocavam o problema da época da construção: século XIV ou século XV?

Posteriormente, surgiram outras opiniões consensuais – o monumento assinala o limite do poder da Abadessa do mosteiro. Há bons argumentos para concordar com esta opinião.

Quanto a quem o mandou construir, possivelmente foi o Rei D. Dinis e provavelmente foi trabalho dos mesmos canteiros que edificaram o Mosteiro.

Para chegar a esta conclusão, não encontrei fontes escritas.

Persistindo na busca de uma resposta, propus-me procurar uma marca de canteiro, observando pedra a pedra, e a minha persistência foi premiada. Encontrei uma marca de canteiro, igual a outras que se podem reconhecer nas paredes do Mosteiro!

As marcas identificam os canteiros e são uma marca individual. Se as marcas são as mesmas, os canteiros eram os mesmos, porque se os filhos quisessem utilizar as marcas dos pais, tinham de lhe acrescentar alguma referência que indicasse que eram de um descendente. Ora a marca que está no memorial é exactamente igual às que há no mosteiro.

Uma pesquisa de que ninguém se tinha ainda lembrado  foi bem sucedida. Os mestres passam às vezes ao lado das soluções, porque as coisas mais evidentes e simples, nem sempre lhes ocorrem. O monumento tinha a explicação que os historiadores só procuravam nos arquivos.

Se foi obra de D. Dinis, como creio, o mais provável é ser um marco que limitava o território sob poder da Abadessa.

Quando a construção de habitações começou a abafá-lo, reservaram-lhe um pequeno largo. Quando se traçou a estrada Lisboa/Caneças, surgiu a primeira ameaça de perigo, dada a excessiva proximidade desta via. Mas o perigo mais ameaçador para a sua degradação veio com a abertura do largo da Memória ao trânsito. Para protecção, colocaram-se, e bem, aos quatro cantos da base, marcos cilíndricos. Inicialmente, estas protecções não existiam, porque não eram precisas e o ideal seria que nunca tivessem sido precisas, nem as protecções nem as obras.

Para defender este monumento, o melhor que se podia fazer, era retirar dali o trânsito e protegê-lo do movimento de carros na rua Guilherme Gomes Fernandes.

Foi o que se fez recentemente, com as obras no largo da Memória, que são de aplaudir. É evidente que o Memorial está, agora, defendido das agressões do trânsito, retomou a sua imagem primitiva e o domínio do seu largo. Foi uma obra bem pensada, bem executada e louvo a determinação de quem pensou, de quem decidiu e de quem executou. Há muito que devia ter sido feita.  Nunca deveriam ter permitido ali o trânsito. Para o evitar, deviam ter-se estudado alternativas, recusando a solução mais fácil e mais cómoda, embora a menos aconselhável para a preservação do monumento mais popular de Odivelas.

O historiador J. M. Cordeiro de Sousa, no III volume da sua obra “Colectânea Olisiponense”, nas páginas 42 e 43 afirma que a “Memória” de Odivelas é Monumento Nacional desde 1881.

Com estas obras não se fez mais do que assegurar a sua protecção e distanciá-lo, na medida do possível, das situações de risco em que estava.

Foi feito o que era preciso ser feito, mesmo que isso incomode. Por estranho que pareça, o que está bem, às vezes, incomoda mais do que o que está mal. Não dá jeito para lançar a confusão!

Maria Máxima Vaz

________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.

Comments are closed.