breaking news

Relações de vizinhança entre os povos do baixo Tejo

Abril 24th, 2010 | by Máxima Vaz
Relações de vizinhança entre os povos do baixo Tejo
Patrimonio
0

O elo de ligação foi sempre e durante séculos, o rio.

O Tejo foi fonte de riqueza e via de comunicação entre as terras da lezíria ribatejana e a várzea de Loures/Odivelas.
Sobre as suas águas navegavam os barcos que transportavam “as gentes” e os produtos da região do baixo Tejo, para alimentar a capital do reino.

Todos os autores afirmam que o Tejo entrava na várzea e espraiava as suas águas até muito longe para Oeste.
Trazia-nos o sal e o peixe. Quando o rio se retirou decaíram os portos e as salinas, definhou a pesca e a navegação.

O Rei D. Dinis viajava de barco, Tejo acima, de Frielas até Santarém.
O Mosteiro Cisterciense de Odivelas era dono de muitas propriedades em toda a zona do baixo Tejo.

Era este rio a origem de interesses comuns entre as populações das duas margens. E esses interesses comuns procuraram soluções com benefícios comuns.

São já do século XX duas iniciativas que são dois exemplos das boas relações de vizinhança entre a autarquia da várzea de Loures/Odivelas e Vila Franca de Xira, que mutuamente se apoiaram, relativamente a dois grandes melhoramentos:
A drenagem das nossas “lezírias”, como noticiavam os jornais regionais, e a ponte sobre o Tejo.
No dia 9 de Novembro de 1924, “O Heraldo”, porta-voz do nosso concelho, transcrevia um artigo de “A Vida Ribatejana”, porta-voz do concelho de Vila Franca de Xira, que dizia o seguinte:
“Numa linda manhã de um destes dias lindos de Outono, dois dos nossos redactores, Fausto Dias e Francisco Câncio, a convite gentilíssimo do Sr. José dos Santos Natividade, vereador da nossa Câmara Municipal, foram a caminho de Sacavém para visitarem as obras da abertura do canal que vai pôr em comunicação o rio Tejo com Loures, obra importantíssima e de um alto interesse económico para toda a região, devido, sem dúvida alguma, à vontade de ferro, à inteligência e iniciativa do Sr. Augusto Dias da Silva, ex-ministro do Trabalho, ex-deputado e actual vereador da Câmara Municipal de Loures.
Não conhecíamos ainda pessoalmente o Sr. Dias da Silva e só então tivemos o prazer de, de perto, admirarmos os seus dotes de trabalhador incansável.
Amavelmente nos recebeu S. Ex.ª, amavelmente nos mostrou e explicou o funcionamento das potentes máquinas escavadoras que tivemos ocasião de ver trabalhando e que escavavam, cada uma delas, cerca de cem metros de extensão de terreno por dia.
É verdadeiramente interessante ver, pouco a pouco, lentamente, a água ir entrando à medida que o canal se vai abrindo e aprofundando…
Tenciona S. Ex.ª ter até ao fim do ano corrente, perto de 400 hectares de terreno drenado. Conseguiu energia eléctrica das Companhias Reunidas de Gás e Electricidade para a laboração das máquinas e julga poder fornecer iluminação eléctrica a todo o concelho e, possivelmente, à Póvoa, Vialonga e Alhandra.
Falou-nos ainda dum caminho-de-ferro ligando Loures, Arruda dos Vinhos, Alenquer, e Vila Franca e como nós, não resistindo mais tempo, lhe falássemos na ponte sobre o Tejo, em Vila Franca, S. Ex.ª prontamente nos elucida:
Jaz o projecto na Circunscrição Hidráulica, de onde transitará para o ministro. Tudo depende da rapidez com que for despachado… Uma grande casa inglesa possuidora de enormes capitais, por intermédio da Casa Toscano &, C.ª propõe-se construir a ponte sobre o Tejo, uma das maiores aspirações dos povos do Baixo Ribatejo….
Esperemos que muito em breve essa importante obra seja uma realidade.
Seguiu-se depois um almoço ao ar livre, junto das máquinas, a que assistiram M.me Rizzi, M.me Dias da Silva, Eurico Vale, Manuel Coelho, Quirino Ribeiro e Alves Costa, assistente do Instituto Superior Técnico, José Alves de Figueiredo, vereador da Câmara de Loures, Inocêncio Vasco Gamito, José dos Santos Natividade, o mecânico Matos e os redactores deste jornal.
Ao champanhe, entre outros, falou o Sr. Dias da Silva que traduziu a sua muita simpatia por Vila Franca, se referiu em termos encomiásticos à nossa Câmara ali representada na pessoa do seu vereador o Sr. Natividade, ao progresso do Ribatejo e levantando, a seguir, a sua taça por Vila Franca e por Alhandra. O nosso camarada de redacção agradeceu pedindo que S. Ex.ª não deixe de trabalhar para que os vila-franquenses possam enfim ver realizado o grande e importante empreendimento que é a ponte sobre o Tejo. O nosso camarada de trabalho disse-lhe ainda que todos os vila-franquenses, bem como os povos do norte e do sul do Tejo, estão incondicionalmente ao seu dispor, desde o mais rico ao mais humilde, e bem assim ao dispor da Câmara de Vila Franca. Depois levantou a sua taça pelo progresso dos dois concelhos, pelo futuro do Ribatejo e pela firma Toscano & C.ª, a honrada e progressiva casa que tanto trabalha para que a drenagem das lezírias seja um facto e que tanto se esforça para que a ponte sobre o Tejo se levante na nossa terra.
Falou também o Sr. Engenheiro Vale que classificou de grande o carácter e o patriotismo dos vila-franquenses, salientando que estes, ao contrário de outros povos, inimigos do progresso de suas terras, receberam com o maior entusiasmo a notícia da construção da ponte e isso, para ele e para a casa Toscano que ali representava, era motivo da maior alegria, afirmando ainda que a casa Toscano fará tudo para que os vila-franquenses vejam realizado o seu sonho.
Finalmente falou o Sr. Natividade que bebeu pelo progresso dos dois concelhos e pela construção da ponte, cujos trabalhos iniciais, é justo que aqui o digamos, ao Sr. Natividade se devem.
Depois de assistirmos à escavação de mais alguns metros, trabalho admirável e interessantíssimo, retirámo-nos indo rio acima, avaliando o quão importante é esse trabalho e quanta riqueza ele representa para o fomento e, muito especialmente para a agricultura naquela vastíssima região de terrenos até agora incultos e alagadiços”.
Esclareço que quando se fala de Loures se está a falar do concelho e não da povoação e que nesse território estava incluído o actual concelho de Odivelas. Os projectos consideravam todo o território e por isso, também Odivelas.
Este artigo de um jornal de Vila Franca de Xira é uma inequívoca demonstração das boas relações entre as duas autarquias e seus povos, e do desejo mútuo da vitória do progresso nas suas circunscrições administrativas.
Fica clara a intervenção de Augusto Dias da Silva, (naquela data vice-presidente da nossa Câmara), no sentido de tornar possível a construção da ponte de Vila Franca e da aprovação dos vila-franquenses às obras de drenagem dos pântanos do nosso solo e à abertura de canais que possibilitassem, de novo, a navegação nas águas do Tejo, até a Calçada de Carriche, como estava projectado. A empresa que forneceu as máquinas escavadoras, Toscano e C.ª, estava também empenhada na construção da ponte e quem tinha o conhecimento com estes investidores era o Sr. Augusto Dias da Silva, industrial em Lisboa.
E o projecto do caminho-de-ferro regional, com estação em Odivelas e em Vila Franca de Xira, também estava iniciado. Já tinha assegurado todo o material circulante.
As obras estavam em bom andamento quando o movimento do 28 de Maio de 1926 as parou. Só em 1938 foram retomadas, mas o caminho-de-ferro foi esquecido e o projecto dos canais foi abandonado.
O saneamento dos terrenos pantanosos atrasou-se 14 anos e, por isso, deu vida à agricultura na várzea por um quarto de século, quando muito, mas se a abertura dos canais tivesse sido levada a cabo como o projecto previa, ainda hoje poderiam ser utilizados em termos desportivos e turísticos, e que atracção não exerceriam sobre a juventude que pratica desportos náuticos!
Além disso conservaríamos a comunicação com os nossos bons vizinhos de Vila Franca de Xira, pelo nosso amado Tejo!!!
O projecto da construção da ponte, entregue em 1924 no Ministério das Obras Públicas, foi também lançado no rio do esquecimento. 24 anos passados, novo pedido vem
retomar  este sonho do povo de Vila F. de Xira, e em 1948 foi concedida autorização de construção. Em 1949 começaram as obras. Em 30 de Dezembro de 1951 foi inaugurada a ponte Marechal Carmona, com a presença do chefe de Estado, General Craveiro Lopes, do presidente do Conselho de ministros, Prof. Doutor Oliveira Salazar, e do Cardeal Cerejeira. Levara mil dias a ser construída.
Aqui deixo o meu protesto pelo abandono desta obra, começada por homens com visão de futuro, provocando um atraso e prejuízos incalculáveis de que foi vítima uma geração inteira.

Maria Máxima Vaz

________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.

Comments are closed.