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O Círio dos Saloios nas Memórias de Odivelas

Maio 16th, 2010 | by Máxima Vaz
O Círio dos Saloios nas Memórias de Odivelas
Patrimonio
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Dra. Máxima Vaz

A freguesia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas estava colocada em 22.º lugar, quando se organizou o giro com 30 freguesias.

Tendo saído as freguesias de S. Silvestre de Unhos, N.ª S.ª da Purificação de Bucelas, S. Lourenço de Arranhó e Santo André de Mafra e posicionando-se as três primeiras antes de Odivelas, passou esta a ocupar o 19.º lugar, que mantém até hoje.

Lápide tumular

Quero deixar aqui algumas referências históricas sobre esta freguesia, possivelmente fundada logo a seguir à conquista de Lisboa, como sugere uma lápide tumular existente no Museu do Carmo e encontrada em Odivelas pelo arquitecto Possidónio da Silva e dali transportada para o referido museu, na qual pode ler-se:

“ João Ramires

   Primeiro Prelado desta Igreja

   Morreu a 13 de Fevereiro de 1183”.

 

Mosteiro de S. Dinis

Aqui mandou construir El-Rei D. Dinis um Mosteiro Cisterciense, na sua quinta de Vale de Flores, onde havia um paço real. Odivelas distava então, légua e meia de Lisboa.

Era um local muito frequentada pela corte, passando daqui ao paço real de Frielas donde seguia de barco, Tejo acima, até Santarém.

Na Igreja deste mosteiro de Odivelas, repousa no seu túmulo, o rei D. Dinis, o primeiro que apresenta uma estátua jacente e o primeiro a ser depositado dentro dum espaço sagrado.

No Paço real de Vale de Flores, a Rainha D. Filipa de Lencastre entregou aos três filhos mais velhos, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, as espadas que para eles encomendara e nestes paços faleceu, passados alguns dias.

No mesmo templo cisterciense, a Ordem Militar de Cristo realizou um velório ao defunto Rei D. João I, presidido durante uma noite pelo Infante D. Henrique.

Aqui representou Gil Vicente o auto da Cananeia, em 1534. Aqui diz Almeida Garrett ter conversado com João Mínimo o qual, garante, lhe confiou a Lírica que veio a publicar com este nome.

Estas são algumas das memórias que Odivelas guarda como pergaminhos seus, mas as memórias mais queridas e conhecidos do povo, referem-se ao Círio de Nossa Senhora do Cabo.

A Freguesia do Santíssimo nome de Jesus recebe a imagem Peregrina da freguesia da Ascensão e Ressurreição de Cascais e entrega-a a S. Martinho de Sintra.

Ao cumprimento desta tradição, faltou apenas um vez, em 1978.

 Não vou aqui tecer considerações sobre esta falta da freguesia, até porque as informações de que disponho não são seguras.

Quero antes destacar o empenhamento, ao longo dos séculos, na organização do Círio.

As memórias de Odivelas registam, quanto à organização dos círios, factos que a honram.

No ano de 1849, a freguesia da Ascensão e Ressurreição de Cascais não reuniu condições para receber N.ª S.ª do Cabo e Odivelas decidiu avançar, antecipando assim as festas que realizaria um ano mais tarde. A corte ajudou, entregando à comissão a importância de 25 mil réis.

Nas loas ecoam os sentimentos dos devotos, quando foram buscar a imagem:

“A Virgem Santa Maria

A Mãe das virtudes belas

Vêm buscar os seus devotos

Da freguesia de Odivelas.

Herdaram de seus maiores

Esta pia devoção

E com eles vão dar-lhes

Seus cultos, veneração.

Se a freguesia de Cascais

Não a pode receber

A paróquia de Odivelas

Veio a falta preencher

Vós sois Mãe de puro amor

Sois Mãe de santa esperança,

A paróquia de Cascais não afasteis da lembrança

E depois do pedido de protecção para a paróquia em dificuldades, veio a expressão de gratidão à Rainha que tinha contribuído com uma valiosa ajuda:

Abençoai Santa Virgem,

De Portugal a Rainha;

Afugentai do seu sólio

A sorte má e mesquinha.

Por um registo do ano de 1875 podemos ver quanto esforço se fez, pela grandiosidade com que ia o cortejo:

“O círio que seguiu até Odivelas, ia ordenado deste modo:

Uma carroça da Casa real com foguetes, um carro armado em forma de coreto, conduzindo uma filarmónica, 40 festeiros montados em bons e bem ajaezados cavalos, um carro puxado por três juntas de bois, conduzindo outra música, um carro puxado por uma junta de bois, conduzindo três anjos, o juiz e dois festeiros, berlinda da Casa Real com o pároco de Odivelas, 50 trens conduzindo as principais pessoas da freguesia que festeja. O círio atravessa três freguesias: Belém, Benfica e Odivelas.. Nesta última, estavam preparados grandes festejos, que hão-de prolongar-se durante a estadia da Senhora naquele sítio. Houve bodo, arraial, fogo de artifício, etc.”.

Pela descrição poderemos imaginar a beleza desta tradicional festa, na qual toda a população se empenhava.

O acto de maior relevo para Odivelas, foi ter retomado a tradição, depois de um interregno de 15 anos.

Em 1910 foi assaltada a igreja de Alcabideche onde se encontrava a imagem peregrina, que sofreu vários danos. Este acto de selvajaria e ignorância fez parar a tradição e tê-la-ia feito desaparecer se nenhuma das povoações do giro tivesse recomeçado o círio. Coube essa honra a Odivelas, que reclamou a imagem para continuar as suas peregrinações. Em 1926, a freguesia do Santíssimo Nome de Jesus devolveu ao povo saloio da margem norte do Tejo, “O Círio dos saloios a N.ª S.ª do Cabo Espichel”, que não foi interrompido até hoje, o que me parece pouco provável que volte a acontecer, dada a consciencialização dos povos no que se refere ao seu património cultural.

Maria Máxima Vaz

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