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O MONUMENTO DE TOCADELOS- A “STELLA MARIS” LOURENHA [Vídeo]

Maio 19th, 2010 | by Odv
O MONUMENTO DE TOCADELOS- A “STELLA MARIS” LOURENHA [Vídeo]
Patrimonio
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Tocadelos – Monumento Inspiração Maçónica from TVL on Vimeo.

Dr. Vitor Manuel Adrião

“Sempre por bom caminho e segue”

Francisco Grandella

Na vida em sociedade, axiomática e objectivamente, basicamente há dois tipos distintos de pessoas: as que fazem e podem errar, e as que não fazem e nunca erram. Humildemente, considero-me entre as primeiras.

Quando escrevi sobre As Seráficas de Tocadelos (in Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993), sitas em convento junto a Ponte de Lousa no sopé do Cabeço de Montachique, mais exactamente em Tocadelos, devido ao formato estrelado do edifício inacabado que aí está – e que forma no todo uma estrela, o que em princípio me sugeriu a Stella Maris – vim a associá-lo ao desaparecido Convento de Nossa Senhora dos Poderes (sobre o que, em Loures, publiquei vários artigos no jornal regional Vento Novo), fundado no século XVI por Dona Brites de Castelo Branco, e que estaria dentro da “Via Longa de Clarissas”, no dizer de Frei Agostinho de Santa Maria, portanto, no itinerário da saúde já referido por Pinharanda Gomes (in Povo e Religião no Termo de Loures. Loures. Edição da Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1982).

Mesmo assim, em boa verdade semelhante edifício desencaixa do conceito clássico arquitectural de sanatório, que os há com fartura nesta parte do Concelho lourenho. Apresenta ele dois corpos dianteiros rectangulares a toda a extensão ligando por arcos ao centro constituído de seis absidíolas, mais uma abside como corredor central indo até à entrada principal. O conjunto forma um M tendo sete espaços rectangulares ao centro formando uma Estrela, o que me sugeriu de imediato o apelativo mariano do Carmelo, ou seja Stella Maris, que as Franciscanas também veneraram como Mater Dei Regina Coelis.

Como se não bastasse, a toponímia local e o concebido místico do imóvel só me reforçavam a ideia de ser esse o desaparecido convento das Clarissas, tanto mais que os próprios compartimentos estão rigorosamente dispostos conforme os cânones arquitecturais de casa religiosa de recolhimento, ou seja, de convento ou mosteiro, como descrevi então (in ob. cit.). Tudo, mas tudo, garantia-me ser esse o eremitério das Franciscanas de Nossa Senhora dos Poderes.

Contudo, várias vozes acauteladas, dentre elas a de Pinharanda Gomes que as encabeçou, afiançaram-me a possibilidade desse meu estudo estar inconclusivo e inclusive haver nele “hiatos”, e todas me incitaram a aprofundar mais ainda a investigação. Assim fiz, tanto no terreno como em gabinete, e tudo teimava em apontar Tocadelos como o sítio do convento, mas, ainda assim, aos poucos a atenção foi-se desviando para Via Longa, no Concelho de Vila Franca de Xira fronteiro ao de Loures.

O documento mais antigo sobre essa casa religiosa data de 1621 e está na Biblioteca Nacional de Lisboa, levando o longo título: Livro que contém em si a fundação e rendas deste Convento de Nossa Senhora dos Poderes da Ordem de Santa Clara de Vila Longa, termo da cidade de Lisboa. Esta peça original (BNL, RES. Cód. 8591, 61 ff. numeradas) foi manuscrita antes da data apontada, ou seja, em 1615 pela escrivã do mosteiro, Soror Joana Evangelista, quando era abadessa uma sobrinha da fundadora, Madre Maria da Encarnação. Em 1621 foi encadernado o texto, ao qual se acrescentaram listas das religiosas que viveram no eremitério, pelo menos até 24 de Outubro de 1681, data em que o provincial, Fr. Manuel de Santiago, taxou o número de freiras e educandas que ali poderiam ser sustentadas. Entre elas contava-se uma supranumerária, Soror Maria da Glória, cuja genealogia inspirou a D. Francisco de Mascarenhas Henriques uma galante composição a que deu o título de Cousas maravilhosas e razões extraordinárias que sucederam para chegar a meu poder a muito esclarecida e endeusada genealogia da senhora Maria da Glória, religiosa no Mosteiro de Vialonga (BNL, RES. Cód. 6333, ff. 75 v. – 88 r).

O convento comportou sempre número de residentes excedendo a sua capacidade, que não ia além de 36 freiras, tal qual a capacidade numérica a que estava destinado o sanatório de Tocadelos, monumento inacabado que recentemente alguns quiseram destruir por estar ocupando «improdutivamente» o espaço destinado a edifícios fabris. Obviamente opus-me a isso, e houve mesmo o director proprietário de um desses jornais de Loures – Jornal de Loures – que passou por vergonha desnecessária quando quis iniciar campanha nesse sentido. O monumento está muito bem onde está e assim deve permanecer, ao abrigo do decreto-lei 516/71, de 22 de Novembro (“Imóvel de Interesse Público”) que protege o património histórico municipal.

Posteriormente a 1621, quer Fr. Agostinho de Santa Maria (in Santuário Mariano, Lisboa, 1707), quer Fr. Manuel da Esperança e Fr. Fernando da Soledade (in História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco da Província de Portugal, Lisboa, 1656-1721), quer ainda Jorge Cardoso (in Agiológio Lusitano, vol. I, pág. 201, e vol. II, pág. 223), detalharam sobre o convento instalando-o em Via Longa de Clarissas e fundado em 1561 por Dona Brites de Castelo Branco (cf. História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida. Nova edição, vol. II, pág. 151, Porto, 1968). Mais tarde, Mendes Leal (in Admirável Igreja Matriz de Loures, Lisboa, 1909) e o Padre Álvaro Proença (in Subsídios para a História do Concelho de Loures, Lisboa, 1940) situarão nas cercanias de Tocadelos a existência de eremitério religioso, que terá sido definitivamente abandonado à rapina e retalho cerca de 1838 (cf. Enciclopédia Luso-Brasileira, vol. 12).

Consultando vários documentos indo dos finais do século XIX à metade do século XX referindo o monumento em causa, apareceu-me o nome do comerciante rico Francisco de Almeida Grandella (1853-1934), como o seu idealizador para fins sanatoriais. Ainda supus que se trataria dum aproveitamento e reconstrução do primitivo edifício religioso, mas tal suposto revelar-se-ia errado, e esse erro foi induzido pela própria documentação demasiado imprecisa por confundir a localização exacta de ambos os imóveis, tanto mais que Via Longa de Clarissas desagua em Santo Antão do Tojal onde inicia a Estrada Real de Mafra que passa nas cercanias de Tocadelos, mais precisamente em S. Pedro de Lousa, onde está a ruína dum outro e enorme sanatório. Este, como todos os outros na região, encerraram definitivamente em 1971, e vários, poucos, desses edifícios foram progressivamente convertidos para outros fins. A maioria deles permanece ao abandono das ruínas…

Neste ponto, dirigi a atenção para a presença de Grandella em Cabeço de Montachique. Procurei o projecto da obra e ele foi-me mostrado. Não data mais que 1919 (in Arquitectura Portuguesa, 23, 1920) e contém a legenda definitivamente esclarecedora: «Inauguração dos trabalhos para o edifício destinado a raparigas indigentes, tuberculosas (candidatas à tuberculose), no Cabeço de Montachique, em 6 de Abril de 1919 pelo Clube dos Makavenkos». Esse projecto era do arquitecto Rosendo Carvalheira (contemporâneo de Alexandre Herculano), que inclusive trabalhara na reconstrução da Sé da Guarda. Esse ilustre artista pertencia a uma Associação de Amigos de Fanhões, freguesia encostada a Tocadelos que pertence à freguesia de Lousa, e cedo se integrara no Clube dos Makavenkos, fundado por volta de 1880, sendo um dos fundadores o supracitado capitalista Francisco Grandella que publicaria em Lisboa, em 1919, um livro acerca do mesmo: Memórias e Receitas Culinárias dos Makavenkos (cf. Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, 12, pág. 695). Essa obra, reeditada em Lisboa em 1994 pela Marginália Editora, foi originalmente subscrita apenas com as iniciais do autor. E como se lê na página inicial, «o produto da venda deste livro, retiradas as suas despesas, reverterá a favor do Sanatório Albergaria, de Montáchique, mandado erigir por iniciativa da Sociedade dos Makavenkos». Também a folha ilustrativa do projecto de sanatório por Rosendo Carvalheira, era vendida ao «preço de 5 centavos a favor das obras do Sanatório». Houve, pois, campanha de marketing intensa para juntar as verbas necessárias a fim de realizar a obra, num tempo em que a “gripe espanhola” campeava e ceifava vidas a rodos por todo o país. Rezava que o Sanatório pretendia «minorar quanto possível a miséria e a doença no meio da crise tremenda por que está passando o mundo inteiro» (conflagração mundial de 1914-18), e apelava «aos novos-ricos, que têm feito fortunas fabulosas com os lucros da guerra» para que «doassem uma pequena parcela dessa enorme riqueza» às vítimas dessa mesma guerra. O apelo não teve resposta, e foi o início da paragem da construção e da morte da ideia generosa…

Grandella subsidiou fortemente o Clube dos Makavenkos – a que pertenceram, dentre outros, o contra-almirante Ferreira do Amaral, que fora antigo presidente do Conselho de Ministros reinando D. Manuel II, António Batalha Reis, Júlio Mardel, Rafael Bordalo Pinheiro, Josué dos Santos, o dr. Fidelino Figueiredo e o general Filomeno da Câmara – que era autêntico Grémio republicano anti-monárquico e anti-eclesiástico, imbuído do humanismo laico dos pedreiros-livres.

A convicção republicana de Grandella já se fizera sentir em 1881, quando fundou no Rossio a Loja do Povo, pintando a fachada de vermelho berrante, de alto a baixo, o que lhe valeu uma ordem de despejo do senhorio, um desengraçado visconde da Graça, que não gostava dessas republicanices de fachada.

O terreno onde se encontra o imóvel inacabado de Tocadelos seria comprado a António Mateus Catarino, sogro de José Alves Antão, a quem entrevistei, sendo cerca de 1912 lavrado o referido projecto arquitectónico de Rosendo Carvalheira, que já disse trazer a data de 6 de Abril de 1919, posterior à sua morte, possivelmente a altura em que se tencionava inaugurar o edifício, conforme o próprio projecto sugere, pois o terreno de 3.500 metros quadrados que Grandella comprara fora oferecido em 1918 à Sociedade dos Makavenkos, destinado à construção do supradito sanatório para tratamento e internato temporário de moças ingentes tuberculosas.

Destinado a ficar a 200 metros de altitude a meia encosta do Cabeço de Montachique, o plano inicial previa quartos para 36 doentes em regime de internato gratuito, quartos para vigilantes, uma grande cozinha, refeitório, varanda de cura, farmácia, sala de pensos, arrecadações, banhos, forno crematório para pensos, desinfecção e enfermaria de isolamento. Para ajudar a custear os encargos da obra, seriam criadas também 14 moradias independentes, que igualmente procurariam dar resposta «à grande falta de habitação para os que, embora com meios para se tratarem, careçam de aí se instalar» (in O Século, II Série, n.º 686, 14 de Abril de 1919).

Rosendo Carvalheira traçou um esquisso grandioso para o edifício. «O conjunto do projecto é muito simples, gracioso e pitoresco e fortemente inspirado em motivos portugueses», escrevia a Arquitectura Portugueza em Julho de 1918.

Foi Francisco Grandella quem lançou a primeira pedra de fundação (in Illustração Portugueza, 1919, artigo ilustrado com a fotografia do evento), com pompa e cerimónia não faltando as bandeiras desfraldadas da recente República de Portugal, do Brasil e da Maçonaria Lusitana, e para sempre essa obra colectiva ficou ligada quase exclusivamente ao seu nome sem que os enciclopedistas mostrem preocupação em desenvolver o assunto, como é o caso de Raul Proença, quando passageira e secamente tão-só aponta «o Sanatório Grandella, em Montachique» (in Guia de Portugal, I, pág. 473. Lisboa, 1924).

As obras terão durado de 1912/13 a 1919, altura em que pararam por falta de verbas, ficando para sempre inacabadas. Tal carência fiduciária atribui-se à crise económica por que o país passava em plena I Guerra Mundial e ao “crash” de Grandella, principal accionista, que insensatamente havia pensado, como a maioria pensou, não durar mais de três meses o Conflito de 1914-1918.

Tanto a publicação do livro das receitas culinárias dos Makavenkos como a do projecto do sanatório de Montachique, foram talvez a última medida desesperada de arranjar as verbas necessárias para cobrir as despesas das obras. O dinheiro que arranjou foi gasto nas pedras necessárias à construção, as quais vieram em carros puxados por bois das pedreiras próximas de Fanhões, donde eram naturais muitos dos pedreiros empregados na empresa, como foi o caso do falecido sr. José Grande, contemporâneo do já referido sr. José Alves Antão.

Pretendendo-se fazer aí um sanatório para moças pobres atingidas pela tuberculose, como já disse, todavia ele não chegou a acontecer pelas razões já igualmente apontadas, e assim o imóvel foi doado à Assistência Nacional aos Tuberculosos, que nele não pegou, preferindo construir um sanatório novo junto à Estrada de Fanhões. Ficaram, como memória da obra inconcluída, os empilhamentos de pedras à esquerda da sua entrada central, votados ao completo abandono tal qual o monumento, e isto (por razões que deixo à dedução do leitor, conforme o que se segue), talvez por iniciativa do próprio Dr. António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920), o capitalista humanitário que mandou fazer o Palácio da Quinta da Regaleira em Sintra, para sua morada, e um dos fundadores e mecenas da Assistência Nacional aos Tuberculosos.

Pois bem, se afinal aqui nunca houve casa de religiosas, ante a evidência indesmentível, então onde estaria o antigo Convento de Nossa Senhora dos Poderes de Via Longa de Clarissas?

Obviamente em Via Longa. Mas esta mistura-se com a outra e longa Via Real, que passa perto de Tocadelos. Será que era mesmo aí que estava? Sim, era. Situava-se na freguesia de Via Longa, que passara do extinto concelho dos Olivais para o de Vila Franca de Xira, distrito e patriarcado de Lisboa (in Invocações de Nossa Senhora em Portugal (De Aquém e Além-Mar e seu Padroado), de Padre Jacinto dos Reis, págs. 456-457, Lisboa, 1967).

O Pe. Jacinto dos Reis diz ainda, no seu livro sobre esse convento das Franciscanas:

«Deste mosteiro tratam várias obras, entre as quais Mapa de Portugal (parte III); Sant. Mar. (tomo I, liv. II, tít. LXI); Port. Ant. e Mod. (vol. X).

«Desta última obra, a propósito, lê-se (pág. 321 e Seg.): “estava o mosteiro ameaçando ruína iminente, pelo que, por portaria de 24 de Outubro de 1838, foram as freiras transferidas para o mosteiro de Nossa Senhora da Anunciada, do lugar de Sub-Serra (…). Em 1873, ou 1874, o Governo pôs em praça a venda do terreno em que tinha sido edificado o templo e o mosteiro, e o resto da pedra que ainda existia”.

«O comprador “naquele chão construiu uma abegoaria e loja de ferrador”.»

Acrescenta ainda o Pe. Jacinto dos Reis:

«No álbum n.º 6 dos Registos dos Santos da Biblioteca Nacional de Lisboa, há uma estampa, se não duas, de Nossa Senhora dos Poderes, “orago do convento das religiosas de Vª Longa”, indulgenciada pelo Patriarca de Lisboa.»

De facto, o Inventário da Colecção de Registos de Santos, organizado e prefaciado por Ernesto Soares (Biblioteca Nacional, Lisboa, 1955), regista:

«02996 e 02997 – NOSSA SENHORA DOS PODERES – Em corpo inteiro sobre peanha, com o Menino Jesus, segurando pequeno ramo de flores, ambos coroados. INS. – Imagem de Nª Sª dos Poderes Orago da Igª e Convtº das religiosas de Vª Longa. (seguem indulgências). D. – 118 X 68 mm. P. – Buril. E. – Completa. O. – Há outra colorida (nº 02997).»

Esta imagem da Virgem dos Poderes, cuja invocação fora confirmada por Pio IV, era tida por milagrosa pelas gentes de Via Longa e populações vizinhas. Dona Brites, fundadora do convento, viu-se assim contrariada, pois queria para a Mater Dei o título “N.ª S.ª da Encarnação”. Recebeu essa pia senhora o hábito franciscano de D. Marcos de Lisboa, depois bispo do Porto, religioso dos Recolectos de Santo António, passando a chamar-se soror Brites de São Francisco. Na base do voto da ilustre senhora esteve uma revelação celeste, a qual lhe apresentara, em sonhos e nas mãos de um anjo, o hábito franciscano: «E isto constou por testemunho da própria fundadora, e se achara em uma crónica da ordem, que mandou fazer o R.mº P. frey Francisco Gonzaga, sendo geral da ordem» (BNL, RES. Cód. 8591, f. 3 v). Cf. Fr. Francisco Gonzaga, De origine Seraphica et Religionis Franciscanae, parte III, cap. 17.

Praticamente todas as obras consultadas sobre o convento baseiam-se no Agiológio Lusitano, e só a de Lino de Macedo transcreve parte dum códice da Biblioteca Nacional de Lisboa referente ao assunto. Do consultado, destaco: Jorge Cardoso, ob. cit., t. I, Lisboa, 1652, p. 201, e t. II, Lisboa, 1659, p. 223; Fr. Agostinho de Santa Maria, ob. cit., t. I, pp. 437-439; Fr. Fernando da Soledade, ob. cit., t. V, pp. 86-129; João Bauptista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, 2.ª ed., t. III, 1763, pp. 490-491; Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, vol. X, Lisboa, 1885, pp. 321-322; Lino de Macedo, Antiguidades do Moderno Concelho de Vila Franca de Xira, Vila Franca de Xira, 1893, pp. 337-339; Francisco Câncio, “As milagrosas Imagens do Convento de Nossa Senhora dos Poderes”, Ribatejo. Casos e Tradições, vol. II, s. 1, 1949, pp. 366-372; Fortunato de Almeida, ob. cit., nova ed., preparada e anotada por Damião Peres; Rui Parreira, “Inventário do Património Arqueológico e Construído do Concelho de Vila Franca de Xira”, Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, n.º 1, 1985, p. 115.

Estou quase convencido que Rosendo Carvalheira conhecia todos esses elementos (tanto mais que andou de relações próximas com as dignidades eclesiais e trabalhou no restauro de várias igrejas matrizes, dentre elas a da Guarda, como já referi), e conhecendo-os os terá usado para em Tocadelos imitar ou recriar o convento desaparecido, mas numa nova versão tanto em arquitectura como em finalidade: de eclesial a hospital, para todos os efeitos sempre de reclusão. Tanto mais que o orónimo “N.ª S.ª dos Poderes” também se assinala tradicionalmente pela Stella Maris. Além disso o convento ainda existia em seu tempo, certamente muito arruinado, mas suficiente para o inspirar ao traçado original deste pretendido sanatório lourenho.

Dele remanesce, hoje mesmo, na Quinta de Santa Maria, onde houve o eremitério das Clarissas de Via Longa, passadas em 1838 para o outro franciscano de Sub-Serra de Castanheira, uma quadra contígua a um portal adornado, na parte superior, por elegantes enrolamentos de cantaria e encimado por uma cruz franciscana com a legenda I.N.R.I. Transposta a entrada, notam-se restos de uma nora e do tanque adjacente, além dos muros da cerca do mosteiro cuja igreja, completamente desaparecida, possuía dois altares colaterais, um dedicado a S. João Baptista e outro a S. João Evangelista, presidindo ao centro, no altar-mor, Nossa Senhora dos Poderes, que não deixou de ser a Stella Maris dos Templários que antes por aqui andaram, tendo-lhes pertencido os lugares próximos da Granja e de Alpiatre (vd. A Granja de Alpiatra nas Memórias Paroquiais de 1758, por Maria Micaela Soares. In Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, n.º 3, 1989).

Reminiscência do Convento de N.ª Sr.ª dos Poderes, Via Longa

Se a fonte de inspiração de Rosendo Carvalheira para a arquitectura deste pretendido sanatório foi a Franciscana de Via Longa, com tudo, como iniciado que era no simbolismo maçónico, terá usado no seu projecto dos princípios da Arquitectura Sagrada, e para isso serviu-se da disposição do lugar e da sua toponímica para dar ao monumento a feição que entendeu, para por ela velar leitura ou interpretação já do domínio iniciático, para todos os efeitos, sob o auspício protector e maternal da lourenha Stella Maris.

Partindo a iniciativa da colectividade do Clube dos Makavenkos, na verdade este era apenas o exterior ou aspecto visível de Loja franco-maçónica sediada em Fanhões, a quem se deve a proclamação da República do dia 4 de Outubro de 1910, um dia antes da data combinada por desinformação entre os republicanos de Loures e os de Lisboa, que quase levou ao fracasso da revolução, não estivesse o Governo Central do Reino tão dividido como estava!…

D. Manuel II, já no exílio, ataca o contra-almirante Ferreira do Amaral, apodando-o depreciativamente de “O Makavenko”. Anos antes, em pleno Parlamento, Ferreira do Amaral, acusado do dito “crime”, respondia afoitamente aos deputados contrários: «Makavankei e Makavenkarei».

Acerca do significado do nome Makavenko, na contraparte do livro citado de Francisco Grandella o seu amigo Josué dos Santos dá-lhe uma origem muito singular e creio mesmo que satírica e farsante, como era usual entre esses clubistas face ao exterior, certamente escondendo o sentido último de Makara, Hierarquia privilegiada de Iniciados advinda desde o Portugal Atlante ao Ariano: « – “Makavenkos” eram um povo que existia aqui, no nosso paiz, e provincias vascongadas, vindo do Japão, das ilhas Curilas, muito antes da civilisação grega, antes do desapparecimento da Atlântida, e que tinham uma seita que professava uma espécie de culto pela mulher esbelta, mundana, com quem conviviam e protegiam aproveitando a mesma para fins de utilidade geral».

Apesar de saltar à primeira vista o Clube dos Makavenkos não passar de associação jantarista, anedotária e boémia, compartilhada por homens e mulheres, ainda assim vez por outra benfeitores dos desfavorecidos, a verdade é que terão sido muito mais que isso.

Fundado inicialmente com 13 Makavenkos ordinários, o Grémio adoptaria o lema “Um por Todos e Todos por Um”, como se ornamenta na capa do Acto Adicional aos Estatutos da Sociedade dos Makavenkos, prolongamento dos Estatutos do Regimento Makavenkal, publicados em 1900, em cujos “princípios gerais” diz-se ser patrono do mesmo o Patriarca Noé, este que, só por “acaso”, figura com a sua família no painel das Lojas das Eleitas da Maçonaria de Adopção. Reuniam-se nas sextas-feiras à noite, consignado dia de Vénus esta que é, afinal de contas, a Stella Maris carmelitana, aqui transformada makavenkal, antes, Makárica!…

Com efeito, no simbolismo maçónico a estrela de 7 pontas ou heptágono é tomada como representação do Mestre Maçom que, simbolicamente, atingiu a Perfeição Humana, logo, tornando-se Homem Perfeito ou Adepto Real, Senhor da Vida e da Morte com é assinalado no Apocalipse (1:16).

Lançada a pedra de fundação deste “Sanatório-Albergaria” no já referido dia 6 de Abril de 1919, e ao qual se deu o nome de Catedral (terá sido a escolha deste nome mero acaso?), estiveram presentes ao acto solene, dentre muitos outros, o maçom-makavenko e vinicultor Camilo Alves, e o sr. Leitão, igualmente makavenko, proprietário do restaurante Abadia no Palácio Foz, Lisboa (in Francisco Grandella, ob. cit., pp. 187-193). Na cerimónia de inauguração ficou um auto em pergaminho, encerrado num cofre, nos alicerces, e juntamente um bilhete-postal dirigido “aos vindouros”, redigido nestes termos: «Ó vós que encontrasteis o caminho já desbravado, se alguma coisa de bom fizesteis pela humanidade, nós vos saudamos…»

O inacabado “Sanatório-Albergaria” em Tocadelos, Loures

O inacabado “Sanatório-Albergaria” em Tocadelos, Loures

Semelhante à rapina sofrida pelo convento de N.ª S.ª dos Poderes, o mesmo aconteceu na igreja paroquial de Fanhões. Edificada em 1575 e restaurada em 1796, ela seria incendiada e rapinada (14.5.1915) pelos carbonários de Loures, tendo começado por delapidar o aparelho de azulejaria do século XVIII (in Aditamento n.º 3 de Pinharanda Gomes ao livro Admirável Igreja Matriz de Loures, de Joaquim José da Silva Mendes Leal).

Quanto ao etimólogo Fanhões, corruptela de Fanhais, não deixa de ser assaz interessante ao contexto geográfico e mítico em que se inscreve o Sanatório “Catedral”. Segundo o professor Batalha Gouveia (in O etimólogo Fanhais, Lisboa, 1983), esta palavra procedente do baixo-latim fanalis é uma importação do grego phanós, significativo de “tocha”, “facho” ou “lanterna”. Ora o phanós helénico tem por matriz a voz egeia wanu, literalmente significativa de “filha” (W) do “céu” (Anu). O hierónimo Wanu foi adoptado pelos latinos para denominarem aquele luminoso planeta que, tal como um facho, anuncia o aparecimento do Sol. Trata-se de Uénos – posteriormente prosodiado Vénus – ou a Stella Maris que mesmo antes da lenda bíblica assumida pelo Carmelo já era a estrela guia dos antigos navegadores.

Acrescento, ainda, que a par da Virgem Mãe é Orago de Fanhões São Saturnino. No Santoral cristão considera-se este personagem patrono de ascetas, anacoretas e eremitas, com isso associando-o à ideia clausural havida nas Clarissas de Via Longa, sob o patronímico de Nossa Senhora dos Poderes, cujo “segundo tomo” gorado se terá pretendido fazer aqui em Tocadelos, e gorado, estou em crer, por um dos homens mais ricos de Portugal na época, Carvalho Monteiro, mostrar ampla e aberta antipatia político-religiosa para com o ideal republicano e laico, por sua afiliação monárquica e católica de todos conhecida. Mesmo assim, não fechando os ouvidos, o coração e a bolsa ao sofrimento de seu próximo, não deixou de contribuir avultadamente para a construção dum novo sanatório próximo deste monumento inacabado…

Neste lugar saloio muito se louva a Estrela-do-Mar, e tanto assim é que uma loa devota, cantada pelos romeiros da Confraria do Cabo, Na Ocasião de ser transportada a Milagrosa Imagem de Nossa Senhora do Cabo Espichel da Parochial de São Pedro de Louza para a Freguesia de Santo Antão do Tojal (impressa na Imprensa Nacional, Lisboa, sem autor e sem data mas que presumo ser 1852), assim se dirige à sempieterna Stella Maris:

Immaculada Senhora,

Virgem sacrosancta e bella,

Vara de Jessé florida,

Do mar luminosa estrella.

 

Com que prazer vosso povo

Vem receber neste dia

A vossa Imagem Sagrada

Sancta, divinal MARIA!

Vitor Manuel Adrião

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One Comment

  1. MaximaVaz says:

    Vitor, dizia Bento de Jesus Caraça “Se não temo o erro, é porque estou sempre pronto a corrigí-lo”.
    Só não erra quem nunca fez nada. Quem faz, corre o risco de errar. Mas, o muito que já trouxe ao nosso conhecimento, generosamente, gratuitamente, pelo que me toca, agradeço reconhecida. E isso que já nos deu, é muitíssimo mais do que o que já errou. Normalmente, não se repara naquilo que os investigadores trazem ao nosso conhecimente, mas, às vezes repara-se num ou outro erro sem grande importância, que nem vem alterar o resultado final da pesquisa, que é feita e oferecida sem esperar recompensa. M.ª Máxima