|

Um Projecto de desenvolvimento Regional

Dra. Máxima Vaz

Desde finais do século XIX que os habitantes da região saloia reivindicaram, insistente e consistentemente, a construção de uma linha-férrea que percorresse o território do Termo transversalmente.

Uma Comissão de Melhoramentos do concelho de Loures apresentou, em 1912, a seguinte proposta de traçado:

- partindo de Lisboa por Campolide, com estações na Luz, Odivelas, Caneças, Loures, Tojais, Fanhões, Bucelas, Freixial, Montachique, Malveira, ….., até à Ericeira.

No relatório que integrava essa proposta, afirmavam que este pedido já tinha sido feito há 20 anos atrás, portanto em 1882.

Em 1924, o vice-presidente da Câmara de Loures retomou esta questão de uma via de comunicação inter-regional e propunha o seguinte traçado: Lisboa, Odivelas, Caneças, Loures, Montachique, Bucelas, Vila Franca de Xira, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço, Mafra, Ericeira.

E explica porquê:

“Tornar vilas trabalhadoras e de largo futuro, actualmente engarrafadas pela dificuldade de comunicação, centros comerciais de contacto rápido e constante com Lisboa… e tornar Vila Franca, ligada pela sua ponte com o sul e com o resto do país (pelas vias Norte, Oeste, – ramal Loures-Arruda e fluvial), o centro preferido, o entreposto indiscutível do mais largo movimento e assegurado futuro dos nossos centros de comunicações.

E de que séries de empresas e de indústrias esse caminho-de-ferro não poderá ser origem.

As facilidades agrícolas justificariam esse empreendimento; o direito que todos estes povos têm a uma parcela de bem-estar e civilização, tornam obrigatória a sua construção; as riquezas naturais, actualmente inexploradas ou em estado primitivo, como os mármores, impunham-no, para a riqueza do país, como necessário. Mas não são apenas os mármores; é também a indústria dos carbonetos e mais riquezas a explorar e que na região têm matérias-primas e ficará, pelo caminho-de-ferro, a uma hora do ponto de embarque. E tantas outras coisas…”

Este projecto considerava ainda as zonas com potencialidades turísticas:

“Servir uma zona de repouso como Caneças e Montachique, estabelecer, pelo transporte regular, estadias de Verão nessa travessia de pequenas montanhas que vai até ao Oceano, à Ericeira…”

Uma equipa técnica realizou estudos na globalidade e na especialidade e, depois de concebido e traçado o projecto, acompanharia a obra. O vice-presidente da Câmara de Loures, Augusto Dias da Silva era, como político, o elemento dinamizador e aglutinador, como se depreende de um artigo publicado em Novembro de 1924, no jornal “Vida Ribatejana”:

“Por motivo da ponte sobre o Tejo, que ligará a futura cidade ribatejana ao sul do país, estiveram em Vila Franca, na passada terça feira, acompanhados de Dias da Silva (que, com a conhecida persistência, promete levar a bom fim o útil melhoramento), os Engenheiros encarregados dos respectivos estudos. Eram esperados pelo Presidente da Comissão Executiva, Sr. António Lúcio Baptista e pelos Sr.ºs José Santos Natividade, António Redol da Cruz e António de Oliveira Raimundo. A visita tinha por fim fornecer ao Engenheiro alemão, representante da casa proponente, os elementos necessários para o estudo da parte metálica da importante obra. Os visitantes tiveram ocasião de constatar mais uma vez, a riqueza que esse tão necessário e ambicionado melhoramento virá trazer à capital ribatejana.”

Considerando estas fontes impressas, era estreita a colaboração autárquica, motivada por interesses comuns de desenvolvimento. Registe-se, com agrado, o facto de, apesar dos novos meios de comunicação, se continuar a apostar, também, na “via fluvial”.

Os povos e seus líderes nunca desistiram do transporte ferro-carril, mas o estado, a partir de 1926 andou a “encanar a perna à rã” durante 8 anos, acabando por arquivar definitivamente o processo em 1934.

Os projectos centrados numa região eram justificados naquele tempo, pois congregavam esforços e meios que facilitavam a sua concretização.

Este caminho de ferro nunca se construiu e as vias rodoviárias desta zona, nunca se viram livres de engarrafamentos.

 Maria Máxima Vaz

________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.

Os comentários deste site são publicados com moderação prévia não ficando disponíveis automaticamente. Os comentários serão publicados na integra.
Esta funcionalidade foi adicionada para promover o diálogo, a troca de opiniões de uma forma saudável e elevada.
Por favor, não submeta o seu comentário mais de uma vez.
O seu IP não será divulgado, mas ficará registado na nossa base de dados.
 

Necessita estar registado para Comentar Login