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Um presente verdadeiramente”REAL”

Agosto 6th, 2010 | by Odv
Um presente verdadeiramente”REAL”
Patrimonio
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 Recebi há tempos, de Inglaterra, quatro páginas fotocopiadas de uma revista, enviadas pelo senhor Clive Gilbert, a quem eu tinha proporcionado a visita ao mosteiro de S. Dinis, juntamente com sua esposa, integrados numa turma de alunos meus, com quem ali fiz uma visita de estudo. O interesse deste casal inglês era conhecerem o local onde falecera a sua compatriota, a Rainha D. Filipa de Lencastre, desejo que não conseguiam concretizar, sendo-lhe vedado o acesso, sempre que o solicitaram. Encontrei-os casualmente no largo D. Dinis. Abeiraram-se de mim e fizeram-me as suas queixas e eu decidi incluí-los na turma dos alunos.

O assunto dessas quatro páginas era um artigo sobre uns famosos e reputados ourives ingleses, produtores de valiosas peças de arte.

O artigo tem o seguinte título: “Paul Crespin´s silver-gilt bath for the King of Portugal”.

Fala de vários presentes, executados em Londres, encomendados pelo nosso rei para oferecer a Paula Teresa da Silva, freira em Odivelas. O primeiro a ser descrito foi encomendado em 1720 e “ é uma magnífica secretária de madeira lacada e doirada, com os nomes do casal entrelaçados e inscritos na parte interior das portas. Esta secretária ainda existe numa colecção particular em Lisboa.”

Será a escrivaninha que foi a leilão em Lisboa, no ano de 2004, com base de licitação de 400 mil euros, calculando-se que atingiria a oferta de 600 mil euros?

Passa seguidamente a um outro presente:

“ Poderemos ainda afirmar que o mais extravagante desses presentes – ainda que o nome do convento e da freira para a qual foi destinado se não encontrem mencionados – foi uma banheira de prata de tamanho normal, com o interior “doublement dorée”, encomendada em 1724 por D. João V a um jovem ourives huguenote de Londres, Paul Crispin. O objectivo desta nota é chamar à atenção para a descrição contemporânea da referida bacia, a qual, embora publicada, passa despercebida nos escritos sobre Crespin e os ourives huguenotes de Inglaterra.”

O objectivo da articulista é destacar a arte da ourivesaria inglesa e as suas obras-primas.

Casa da Madre Paula – Odivelas

O meu objectivo não é o mesmo. É talvez menos nobre, mas com relativo interesse para nós, porque se destinou a uma pessoa que aqui viveu desde a sua adolescência e aqui está sepultada – Madre Paula. E depois deste parêntesis, continuemos a acompanhar a articulista:

“É notável a qualidade deste trabalho de Crispin, que inclui diferentes técnicas, incluindo trabalho cravado, gravado e fundido.

Sabemos que a encomenda desta tina foi feita em Londres pelo embaixador português, ao tempo António Galvão de Castelo Branco, (enviado extraordinário de 1721-1730).

A peça foi ensaiada em Julho do mesmo ano como noticia o Welkey Jornal: “Na passada 3.ª feira foi feito na câmara dos ourives um ensaio com uma curiosa “banheira” de prata, a qual pesava cerca de 6030 onças, dizendo-se que havia sido feita para o Rei de Portugal.”

Calculem que a peça era de uma tal beleza e valor, que foi mostrada ao próprio Rei de Inglaterra, segundo a mesma fonte:

“Em 15 de Agosto, a mesma fonte afirmava que a mesma bacia tinha sido mostrada ao Rei Jorge I no palácio de Kensington: “há alguns dias o Senhor Crispin, ourives nesta cidade de Londres, trouxe a bela bacia de prata (feita para o Rei de Portugal), a sua Majestade em Kensington, a qual dificilmente poderá ser imitada em toda a Europa”.

A bacia fora vista por um jovem viajante, César de Saussure, que era amigo da família de Crispin. (…)

A descrição do objecto tão ricamente ornamentado, feita por De Saussure aparece nas suas cartas de Lisboa, publicadas em 1909.”

Vou abandonar a descrição que vem na revista e optar por transcrever esta de 1909, uma vez que está traduzida em português:

“O Rei é tido por pessoa espirituosa e de engenho (…). Ama excessivamente a magnificência e a ostentação (…).

Em Londres vi eu uma peça de sua encomenda, que bem lhe revela a bossa para a magnificência. Era uma banheira de prata maciça, de que passo a fazer a descrição e mencionar as dimensões que me foram dadas pelos irmãos Crispin, ourives que a executaram.

A parte de dentro mede seis pés de comprido por quatro de largura, à cabeceira. A largura vai diminuindo até aos pés, onde apenas tem dois e meio. Sustentam-na três delfins, cujas caudas se recurvam pelo corpo da banheira, que tem as suas paredes exteriores cobertas de baixos-relevos. Um deles representa os banhos de Diana e Actéon e o outro Perseu e Andrómeda. Na parte mais larga da banheira eleva-se Neptuno empunhando o tridente. Em oposição aos três delfins que lhe servem de pés, surgem de dentro da banheira três sereias que se debruçam sobre o rebordo. Todo o resto da superfície está recoberto de ornatos e cinzelagens.

Esta peça admirável pela delicadeza, pelo bom gosto e pela perfeição da obra, é dourada por dentro e por fora (…)

Logo que a obra se concluiu, os principais senhores e damas da corte de Londres foram em multidão à oficina do ourives para a admirar.

Quando o ministro fez a encomenda ajustou-a a um guinéu por onça, peso e feitio, preço comparativamente alto, mas de acordo com o objecto decorado desta maneira.”

Considerando que o peso era de 6030 onças, Crispin recebeu 6030 guinéus.

Solicito a colaboração dos leitores, no sentido de virmos a saber o peso e o preço desta peça de ourivesaria, destinada à Madre Paula.

Há um autor que nos dá o peso desta jóia em marcos e refere 900 marcos de peso. Corresponderá às 6030 onças?

Agradecemos todas as ajudas que nos possam enviar.

Maria Máxima Vaz

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