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A Revolução Republicana

Setembro 9th, 2010 | by Máxima Vaz
A Revolução Republicana
Patrimonio
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Não falarei hoje dos ideais republicanos nem das medidas tomadas pelos governos republicanos, nem, como seria meu gosto, dos homens e mulheres que sonhavam com “Um Governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Hoje quero falar apenas do movimento revolucionário que conduziu à proclamação da República.

Toda a acção assentava em três pilares fundamentais: a Marinha, o Exército e os civis. Uns e outros estavam organizados e preparados para actuarem mediante as ordens dos chefes revolucionários.

Aos civis implicados na conjura tinham sido distribuídas armas e bombas, no dia 2 de Outubro. Na Marinha, a República tinha muitos adeptos. Era particularmente importante, a tripulação dos navios de guerra, pelo que se tornava indispensável a presença destes barcos no Tejo, quando o movimento rebentasse.

Aliás, estava combinado que o sinal do início da revolução seria uma salva de 31 tiros dada de um barco de guerra.

Os acontecimentos precipitaram-se com a ida de um grupo de marinheiros à sede do Directório do Partido Republicano, na noite do dia 1 de Outubro, para informar os seus membros que iam ser dadas ordens para os barcos de guerra saírem do Tejo e que, por isso, era urgente o eclodir da revolução.

Directório do Partido Republicano

Atitude semelhante tinham tido já alguns sargentos e cabos do Exército, apresentando ao Directório uma mensagem pedindo urgência na acção, porque os soldados que tinham acabado a instrução iam ser licenciados e, na sua maioria eram adeptos do republicanismo e estavam comprometidos com o movimento.

Almirante Cândido dos Reis

Machado dos Santos

No dia 2, reuniram-se os membros do “comité revolucionário” e tanto Cândido dos Reis como Machado Santos, figuras importantes do comité, insistiram para que se marcasse rapidamente o dia do início da revolta, propondo ambos o dia 4, à 1h da manhã.

Nesse mesmo dia 2, da parte da tarde, houve nova reunião e foi confirmado o dia 4 e a hora – 1 da manhã.

No dia 3, às vinte horas, os dirigentes voltaram a reunir-se, agora com a presença dos delegados das unidades militares comprometidas: Infantaria 16, Infantaria 5, Artilharia 1, Cavalaria 4, Lanceiros 2, a Marinha, a Guarda Fiscal e os chefes dos grupos de civis.

À meia noite já todos os responsáveis estavam nos lugares combinados e aguardavam o sinal – a salva de 31 tiros vinda de um barco de guerra ancorado no Tejo. Cada um estava consciente da sua missão e determinado a levá-la a cabo. Mas o imprevisível, o inexplicável veio contrariar o que estava combinado. A descarga dos 31 tiros não aconteceu e todas as dúvidas assaltaram os revolucionários e deitaram por terra o plano traçado previamente. Mas por que razão não foi dado o sinal?

O Vice-Almirante Cândido dos Reis, comandante da marinha revoltada é que tinha sido escolhido para ordenar a salva no navio. Helder Ribeiro tinha o encargo de fazer a ligação das forças de terra e mar. Estava combinado encontrarem-se com outros oficiais da marinha no cais da Viscondessa, os quais deviam acompanhá-los a bordo, entre eles o capitão de fragata, Fontes Pereira de Melo e o 1.º tenente Carvalho Araújo. Os dois primeiros chegaram à hora marcada e já ali se encontravam todos aqueles que os iriam acompanhar ao barco de guerra. Estranhamente, os vapores da Parceria Lisbonense que os deviam transportar a bordo, tinham ainda as caldeiras apagadas. Demorou tempo até que a máquina do “Dinorah”, para a qual o almirante saltara, tivesse pressão suficiente para que o barco pudesse largar. Embarcaram entretanto os oficiais acompanhantes e quando se ia desamarrar o cabo para largar, chegou ao cais, em grande correria, Aragão e Melo, à paisana, dizendo que tudo estava perdido, que se trocaram as “senhas” e que a Infantaria 16 saíra para a rua a favor do governo e estava a atirar sobre o povo. O almirante, em desespero, mandou desembarcar os companheiros e autorizou-os a irem para casa.

Viram-no ainda perto dos balneários de S. Paulo. Encontraram-no, de madrugada, morto, na Azinhaga das Freiras, em Arroios. É opinião generalizada, que se suicidou.

Contudo, o movimento, ignorando o sinal, eclodiu em terra à hora prevista, graças ao arrojo e determinação de Machado Santos que, temerariamente, iniciou e seguiu o plano traçado: à 1h menos 15m, saiu do Centro Republicano de Santa Isabel, acompanhado por um punhado de arrojados civis, e caminhou para o portão de armas do quartel de Infantaria 16, onde estava previsto encontrar-se com os militares à 1h da manhã do dia 4. Aqui, os soldados revolucionários formaram uma coluna e, com os civis, marcharam para Artilharia 1. Machado Santos, comissário naval, era o único com patente de oficial. Com os revoltosos deste quartel, formaram-se 2 colunas militares que se encaminharam para os quartéis que tinham declarado aderir, mas que faltaram ao compromisso, dadas as já referidas circunstâncias que trouxeram a descrença na vitória.

Militares de Civis na Rotunda

Mas  os que estavam  na rua não perderam a esperança e prosseguiram o caminho traçado, até à Rotunda, onde tomaram posições às 3h da madrugada do dia 4 de Outubro. Ao clarear da aurora, certificaram-se que havia forças fiéis ao governo no Rossio e no Largo de S. Domingos. Tinha havido tiroteio durante a noite, de que infelizmente resultaram alguns mortos. Aqui foram chegando notícias desanimadoras, uma das quais foi a morte de Cândido dos Reis e outra dizendo que o cruzador D. Carlos tinha içado a bandeira azul da Monarquia, o que era verdade. Houve desânimo na Rotunda! Os oficiais que entretanto se tinham juntado aos revoltosos ali barricados, reuniram com eles em conselho e tomaram a decisão que comunicaram aos presentes: considerando que era inútil a resistência e dado o pequeno número que ali se mantinha, resolveram abandonar o campo, convictos do fracasso total, pelo que aconselhavam a retirada e o regresso dos soldados quartéis e dos civis a suas casas. Era o que ordenava o bom senso e os factos. Ignorando uma coisa e outra, como já tinha ignorado a falta do sinal à 1h da madrugada, Machado Santos não arredou pé! Participava na revolta. Só tinha que cumprir o previsto no plano de acção! Ele ficava. Quem não quisesse ficar, podia partir.

Com ele ficaram alguns sargentos, praças e civis, mas poucos. Contavam-se em dezenas, nem chegavam à centena.

Com as suas dragonas doiradas, montou a cavalo e tomou o comando. Simples comissário naval, 2.º tenente.

Rotunda – Revoltosos nas barricadas

Os civis barraram o acesso à Avenida. Todas as tentativas de subida desta artéria foram mal sucedidas. Tinham a esperança de, mais hora menos hora, receberem a ajuda dos marinheiros, que também não desistiram. Ali ficaram, para o que desse e viesse! Durante o dia 4 tudo se encaminhou no sentido da renovação da esperança. Os marinheiros não goraram as expectativas destes resistentes.

No desconhecimento de todas as ocorrências, as guarnições dos cruzadores S. Rafael e Adamastor insubordinaram-se e pelas 4 horas da manhã do dia 4, içaram a bandeira da revolução. Pelas 11horas, estes navios estavam já a bombardear o palácio das Necessidades e à tarde” surgiram em frente do Terreiro do Paço e aproximaram-se do Cais das Colunas varejando a praça e limpando-a das forças da Guarda Municipal que ali estacionavam”.

Cruzador D. Carlos I (Cruzador Almirante Reis-1910) – Foto: Arquivo Histórico da CML

Anoiteceu. A marinha no Tejo fez a abordagem do cruzador D. Carlos e pela 1h da madrugada do dia 5, a notícia da tomada deste navio já tinha chegado à imprensa, que rapidamente deu conhecimento dela aos revolucionários, fortalecendo a sua esperança e ânimo. Constava que os marinheiros iam desembarcar na Praça do Comércio e que o exército fiel à Monarquia declarara que não faria fogo contra eles, o que se cumpriu. Houve ainda algum tiroteio durante a noite, mas nada de preocupante.

Amanheceu o dia 5 de Outubro.

Depois das 7h da manhã, uma bandeira branca subia a Avenida sem que fosse impedida. Era um diplomata alemão que ia parlamentar com Machado Santos, a fim de negociar a saída dos seus compatriotas.

“soldados confraternizavam com os civis” – foto:Arquivo Municipal de Lisboa

Todos se convenceram que eram os monárquicos a render-se. Quem espreitava os acontecimentos saiu à rua para festejar. O povo afluiu à Avenida saindo de todos os lados, clamando vitória. O Rossio encheu-se e os soldados confraternizavam com os civis. Ouviam-se vivas à República.

Machado Santos é vitoriado.

Um marinheiro hasteou a bandeira verde rubra no Quartel General.

A revolução triunfara.
“Às 9 horas da manhã do dia 5 de Outubro de 1910,
José Relvas, membro do Directório do Partido Republicano Português, proclamava a República das varandas da Câmara Municipal, perante o povo de Lisboa. Ladeavam-no Inocêncio Camacho e Eusébio Leão, que também falaram ao povo.

José Relvas Proclama a República da Varanda da CML

Com um dia de atraso é certo, estava implantado o novo regime em Portugal.

Ignorando o desenrolar dos acontecimentos, Loures, Almada, Barreiro e Moita, proclamaram a República no dia 4, como estava planeado e teria acontecido, caso o sinal não tivesse falhado.
 
Maria Máxima Vaz
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2 Comments

  1. MaximaVaz says:

    Apenas relatei factos, não enalteci nem diminui, não valorizei nem desvalorizei.
    Imparcialidade é o que se exige do historiador. Não quis fazer um artigo de opinião. Já não tenho paciência nem idade para alimentar polémicas. Claro que tenho opinião, mas não é isso que aqui importa.
    Deixo isso para os leitores.

  2. Ruben says:

    O Centenário da República , particularmente temos que admitir que grande parte , dos Anos destes 100 Anos, foram vividos , em Regime Não-Democrático , se vamos comemorar a Ditadura , e 1ºRepública foram sangretas e Ditaturiais , só em Democracia podemos ter Liberdade de Expressão , sou Democrata , e sempre o serei mas admita-mos que o centenário não é razão de grande festa .