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SÓCRATES

Março 26th, 2011 | by Oliveira Dias

Se desde o 25 de Abril, para considerar apenas o período da nossa democracia, um politico foi sistematicamente atacado, vilipendiado, verberado até á exaustão dos maiores dislates que se possam conceber, claramente a taça, a existir, seria atribuída a José Sócrates.

Escrevo, escassos instantes após ter visto em directo, a reprovação do PEC 4, bem assim como os discursos que antecederam o corolário forçadamente natural dos esforços de uma coligação negativa, ideologicamente atípica,  apostada em derrubar um governo minoritário, chumbado um documento que, ironia das ironias, nem sequer estava obrigado a votos, e indo a votos, a consequência do seu chumbo, em condições normais, não constituiria sequer um problema.

Esta coligação negativa, efémera, levou dois longos anos a obter o derrube de um governo minoritário. Fraca gente aquela.

Espantoso é este derrube acontecer num momento em que a execução orçamental dava sinais de melhorar, a julgar pelos dois primeiros meses terem sido fantásticos, isto no plano interno, e no plano externo as instâncias europeias terem de forma expressa declarado que Portugal estava no bom caminho, em vésperas ainda de um conselho europeu da maior importância.

Com os olhos pregados na televisão imensas coisas passaram pela minha cabeça. Desde logo a lição de que um governo minoritário está á partida, para o governo da Nação, como a pescada para o pescador – ambos acabam cozidos.

Aqueles que após as eleições foram, por Sócrates convidados a integrar uma solução governativa para o País, em tempos difíceis, (atravessámos então as ondas de choque de sucessivas crises internacionais) e recusaram terminantemente de então fazer parte da solução, coligaram-se hoje para fazer parte do problema.

Manda o bom senso que quando a nau está a braços com uma tempestade a marinhagem se una, para chegar a bom porto, e não que se tire proveito da borrasca para tomar o poder. Nestas condições o desastre é fatalmente previsível e sobretudo incontornável.

O momento escolhido para a coligação negativa mostrar as garras deixando cair a máscara que puseram a seguir ao veredicto popular que deu a vitória a Sócrates, á 2 anos foi o pior.

Sócrates é um político de uma dimensão ainda mal compreendida por muitos, especialmente por aqueles que invejosamente lhe disputam o poder.

Ah o homem é arrogante ! E então aquele que o não for que atire a primeira pedra.

Tudo serviu para derrubar Sócrates: o título de Engenheiro obtido numa universidade privada, que acabou por sofrer as consequências da publicidade gerada pelo caso. No final Sócrates tem mais cadeiras feitas que muitos licenciados que conheço.

Ah a Universidade não era de confiança. Pois não lá leccionavam distintos professores, alguns deles vindo a fazer parte do coro dos “bitaites” (Marques Mendes, Alberto João Jardim, Alvaro Amaro) tudo gente do PSD.

Eu próprio lá tirei uma licenciatura e duas pós-graduações e peço meças a qualquer licenciado na minha área noutra universidade.

O famoso processo do Freeport de Alcochete, coisa simples de se explicar – um assunto despachado por um secretário de Estado, mas cujo ministro era Sócrates, e como nem toda a gente está familiarizada com os procedimentos da máquina administrativa do Estado, lá acharam que o ministro tinha de ser o culpado.

Depois os magistrados que se sentiram intimidados só porque um colega lhes disse ao telefone que certos aspectos estavam prescritos. Aqui del rei porque isto é uma pressão inaceitável sobre a independência da magistratura.

Até se foi ao ponto de escrutinar o trabalho feito por Sócrates enquanto quadro do município de Portalegre – fez muitos projectos, diziam. Então não era para isso que lhe pagavam ?

Até se foi ao cúmulo de lançarem uma onda de suspeição sobre as orientações sexuais do homem. Desconheço seja crime qualquer orientação sexual. Mas pior é inventarem relações que não existem. A mim, na Madeira até me garantiram onde se encontrava o homem com suposto amante.

Duas coisas me fazem admirar este político – primeira as capacidades que demonstra no combate aos problemas. Recordo que quando era Ministro do Ambiente, acabou com todas as lixeiras existentes transformando-as em aterros controlados, e protagonizou uma tenaz, mas persistente luta pela co-incineração. Recordo certa vez quando num curso de auditorias ambientais uma Engenheira me explicou as virtudes da co-incineração, desafiando-a eu no final a dar voz pública dos seus conhecimentos pois era precisamente o que Sócrates na altura fazia. Só que existem pessoas que acham sempre deverem ser os outros a fazer tudo.

No governo os exemplos de reformas por ele feitas são inúmeras, muitas delas reivindicadas por todos como necessárias, mas teve de ser ele a implementá-las.

No que ao Poder Local diz respeito posso dar aqui alguns exemplos: Acabou com as mordomias dos eleitos a tempo inteiro, tipo os anos contarem a dobrar para a reforma. Conheço gente que se dedicou ás lides autárquicas na esperança de poder juntar á sua reforma mais outra obtida nestes moldes.

Outra reforma importante foi o código da contratação pública, mais exigente e adaptado aos novos tempos; a reforma do diploma orgânico do Tribunal de Contas, conferindo-lhe mais poderes – onde houver um cêntimo do Estado o TC chega lá; o diploma que vem por ordem nas taxas e tarifas municipais, acabando com o regabofe de se taxar a olhómetro; o sector empresarial local outro diploma que acabou com certas habilidades obtidas com as empresas municipais, reforçando a responsabilidade, cível e financeira e penal dos protagonistas; a Lei das Finanças Locais, e a Lei das finanças Regionais; o regime jurídico da função pública velhinho, do tempo da outra senhora; a avaliação do desempenho de funcionários, dirigentes e dos serviços.

Noutras áreas da governação vem-me logo á cabeça os enormes avanços com a utilização da internet – hoje não temos de nos deslocar á segurança social, finanças e outros organismos públicos para resolver os nossos problemas – tudo está ao alcance de um click. Incrível.

O Diário da República electrónico, extraordinária ferramenta para todos, impensável á alguns anos. A extinção de organismos (Prace, simplex, etc).

E sobretudo o investimento no social, avassalador se comparado com o passado.

A outra razão porque admiro Sócrates é devido ás imensas mentiras que sobre ele inventam para o desacreditar. Quem recorre á mentira normalmente dá trunfos a quem quer atingir.

Cometeu erros ? Claro que sim. Só não os comete quem nada faz, nada fez e nada virá a fazer.

Este espaço é curto para demonstrar que as opções face ás várias crises foram as adequadas. Podia falar nas “melhorias de Paretto” que recomendam em tempos de recessão investimentos públicos reprodutivos para alavancar a economia.

Podia dissertar sobre a obrigação de um governo emitir mensagens de esperança e positivas como forma de motivar a Nação, ao contrário de slogans “o País está de tanga”.

Sócrates aguentou o que mais nenhum outro político aguentou. Teve o tremendo azar das sucessivas crises internacionais, quais tsunamis, invadirem Portugal sem apelo nem agravo, num momento em que a oposição se roía de inveja face aos sucessos da governação que inclusivamente levaram Sócrates a baixar o IVA, naquilo que foi a primeira vez que se baixou impostos em Portugal. Sucessos a que se juntou uma excelente Presidência da União Europeia, e o orgulho do Tratado de Lisboa, do qual os invejosos e os medíocres só retiveram o “porreiro pá”.

À que reconhecer que resistir á entrada do FMI era uma tarefa dantesca. Parece que a coligação negativa não percebeu que até podem derrubar o Sócrates e o PS, mas vai ter de se fazer obrigatoriamente aquilo que hoje votaram contra. E se o FMI cá entra então nem o PEC 4 chega.

Para terminar sabem quanto ganhou o FMI com a intervenção na Irlanda e na Grécia ? 1 bilião de euros só de lucro). Agora outra dica, a intervenção naqueles dois países não resolveu nada e até agravou. E ainda há, em Portugal, quem se diga pronto a governar com o FMI ! Quem são ? são os mesmos que tanto queriam derrubar Sócrates, para se sentarem na cadeira salomónica. Só que para isso é preciso sabedoria, e esta não abunda por aí.

Oliveira Dias, Politólogo

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