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O Presente e o Futuro da Esquerda em Portugal

Junho 14th, 2011 | by Rui Cabral

Após um resultado eleitoral expressivo ficou evidente que dois partidos saíram claramente derrotados, o PS e o BE.

O PS pagou o preço por ser governo na maior crise do século e por ter de tomar medidas que garantissem a sustentabilidade do Estado Social numa altura em que este é mais necessário.

O BE, por sua vez, foi o único partido da oposição que perdeu votos, numa dimensão raramente vista na política portuguesa: 50% dos votos!

Cedo aconteceu o que aconteceria num partido democrático, o pedido da demissão dos responsáveis do partido que levaram o BE a este resultado desastroso, e rapidamente se viu que o BE é um partido com défice democrático. Fernando Rosas, procurando argumentar a perda de eleitores, justifica que esta foi uma eleição em que todos os partidos de esquerda perderam, abrindo a excepção do PCP que tem um eleitorado fixo. Embora possa iludir muitos militantes do BE, é claro que isto é uma leitura enganadora. Primeiro porque o PS estava no Governo, e como tal a sua perda de votação não pode ser encarada com um argumento tão simplista como o “é de esquerda logo perdeu votação” e segundo porque o próprio MRPP subiu no número de votos expressos (a maior votação de sempre!).

Neste sentido parece-me óbvio que o BE está a viver uma dicotomia entre aquilo que são os seus militantes (extrema esquerda) e a grande parte do seu eleitorado. O BE decidiu ser uma alternativa ao PCP enquanto o seu eleitorado pretendia uma alternativa ao PS. O PCP, a meu ver, faz o seu trabalho muito bem e o que realmente faz falta à política portuguesa é um partido de esquerda que não tenha medo de assumir responsabilidades, que não tenha medo de governar juntamente com o PS caso seja necessário. Acredito que se o BE não for capaz de entender que este é o seu espaço, poderá desaparecer tal como o PRD (Partido Renovador Democrático) desapareceu após ter conseguido 18% dos votos em 1985.

O PS, por sua vez, aprendeu pouco com a derrota. Apostando no efeito Mourinho de José Sócrates* o PS decidiu não procurar uma reflexão profunda sobre o seu papel futuro num mundo global diferente, mas simplesmente trocar de protagonista. O PS não se apercebeu que deverá encontrar-se a si mesmo primeiro e renovar-se posteriormente e, como tal, iniciou uma corrida de apoios sem que sejam conhecidos os programas e as ideias de cada candidato.

Mário Soares disse e bem que o PS deve “Regressar às ideias e à ideologia” pois percebe que os responsáveis do partido que ajudou a fundar estão mais preocupados em declarar apoios antes que outros o declarem, do que repensar o partido e as suas bases programáticas.

Este será um Congresso decisivo para o PS se reformar e renovar, mais do que uma oportunidade de julgar o passado, deverá ser uma oportunidade de desenhar o futuro do Estado Social em Portugal e desenvolver uma ideia sobre a Europa que a esquerda quer construir. Parece-me apenas estranho que antes da realização do Congresso em Setembro, o líder e o programa já estejam escolhidos em Julho.

* Aquilo que chamo de efeito Mourinho em Sócrates consiste na sua capacidade de centrar em si todos os erros dos seus Governos e de conseguir ilibar quaisquer acções dos seus Ministros. Nos Governos de Sócrates parece que não houve ministros maus ao contrário de outros Governos. Este efeito por vezes até nos faz esquecer que existiam Ministros e ficamos com a noção que o Governo era José Sócrates e Teixeira dos Santos.

 

Rui Cabral

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