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As Sardinhas de Portimão e a Troika

Junho 28th, 2011 | by Rui Cabral

Estava a desfrutar o final da minha licença paternal no Algarve quando me apeteceu saborear umas belas sardinhas em Portimão. Assim que cheguei à zona típica das sardinhas debaixo da ponte, cedo fiquei espantado com a oferta: 8 sardinhas + salada + 8 camarões por apenas €5!

Cedo os meus pensamentos começaram a deambular pelas maravilhas do mercado concorrencial (defeito de quem tem formação em economia) e nos seus benefícios para os consumidores. Como achava formidável que anos depois, continuava a comer sardinhas sem notar a inflação e agora com direito a camarões! Mais por menos preço (em termos reais), tudo devido a um mercado concorrencial.

A Troika entra nesta história uma vez que um dos seus principais objectivos é promover este mercado concorrencial em determinados sectores, mais especificamente, no sector dos bens não transaccionáveis, ou seja, em bens que pela sua natureza não são possíveis exportar. As Sardinhas de Portimão (servidas no restaurante) são um exemplo de um produto não-transaccionável, dado que não conseguimos entregar um belo prato de sardinhas acabadas de assar para alguém em Frankfurt.

A Troika é muito explícita neste ponto, referindo que existem sectores protegidos que se tornaram mais lucrativos relativamente a outros que estão expostos a uma concorrência forte e conseguiram, por esta razão, desviar recursos para financiar as suas actividades.

Apesar de considerar que o caminho inicial através da redução da Taxa Social Única não é o mais adequado (desvalorização fiscal), o objectivo de conseguir uma maior concorrência em bens não-transaccionáveis é uma medida extremamente importante.

Desde 2000 existem dois sectores cuja rentabilidade disparou em termos comparativos:

Comunicações e Electricidade, Gás e Água:

Fonte: IMF Country Report No. 11/127

Estes sectores são extremamente importantes para a capacidade concorrencial de uma empresa, uma vez que de nada serve a uma empresa ter salários reduzidos se em todos os outros custos de estrutura é menos competitiva que os seus concorrentes estrangeiros.

No entanto, não é apenas sobre os benefícios da concorrência que as Sardinhas de Portimão nos dão umas luzes. Para Portugal ter sucesso deve aproveitar aquilo que tem de único (e.g. sardinhas servidas no Algarve ou nos Santos Populares) e, naquilo que não tem de único, tem de conseguir fazer melhor que qualquer outro país (e.g. pescar as melhores sardinhas e ser os melhores assadores).

Para que tal aconteça é necessário continuar o investimento na educação e investigação, uma vez que é este sector, em primeiro plano, que irá permitir colocar Portugal nos mercados internacionais com produtos de elevado valor acrescentado que, por sua vez, possibilitará a existência de salários elevados.

De acordo com dados divulgados pelo Eurostat, no final de 2010 57,8% de empresas Portuguesas declararam inovação, valor que fica apenas atrás dos 79,9% da Alemanha., 64,7% do Luxemburgo e que se aproxima bastante dos 58,1% da Bélgica. Este é o caminho que deve ser continuado e que trará frutos no médio-longo prazo.

Podemos observar nos nossos actos de consumo esta constatação. Muitas vezes quando compramos um telemóvel ou um automóvel não compramos o mais barato que está à venda, mas aquilo que consideramos melhor tendo em consideração o dinheiro que podemos gastar com esse bem.

Enquanto caminhamos no sentido da inovação, vamos aproveitando este verão único que o nosso país nos oferece e que devemos incorporar como qualidade de vida.

Rui Cabral

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