breaking news

Do facilitismo ao dificultismo

Julho 26th, 2011 | by Luis Santos

Todos os anos, no início do verão, milhares de jovens definem muito do seu futuro através da realização dos exames nacionais do ensino secundário. Esses exames, têm pesos diferentes no percurso dos jovens, consoante as suas necessidades e objectivos.

Neste período de pré-silly season, quando são conhecidos os resultados dos exames nacionais do 12º ano emerge uma discussão acerca das políticas educativas, temdo por base esses resultados. Note-se que essa discussão é necessariamente rápida, e por consequência pouco aprofundada, até porque as férias estão aí ao virar do calendário.

A discussão em torno dos resultados dos exames nacionais do ensino secundário, funda-se essencialmente numa tentativa, mais ou menos sustentada, de legitimar uma perspectiva política sobre educação. Neste contexto, a perspectiva dos alunos – talvez a parte mais interessada!? – não tem nenhuma importância e visibilidade.

Quando as notas sobem, os dois grandes pólos de opinião publicada dividem-se entre o facilitismo e os bons resultados de uma política educativa. Os adeptos do facilitismo defendem  que os resultados melhoraram porque o grau de dificuldade dos exames foi reduzida. Do outro lado, diz-se que a subida dos resultados se devem à implementação de políticas adequadas, mesmo que tenham sido criadas há um ou dois anos lectivos, o que significa que ainda não passou tempo suficiente para que as alterações produzam efeitos sensíveis.

Já quando os resultados descem – como aconteceu este ano – a dicotomia mantem-se, mas com sentidos opostos. Os adeptos do facilitismo, quando os resultados sobem, defendem, neste caso, que os resultados demonstram as falhas do sistema educativo, bem como a falta de rigor e exigência desse mesmo sector ao longo do(s) ano(s) lectivo(s). A outra «tribo», defende que não se podem retirar conclusões acerca do desempenho de um sistema através do resultado de um exame e que, provavelmente, os conteúdos desse exame não correspondem aos conteúdos e/ou às exigências dos programas escolares.

Desta bipolarização auto-legitimadora resultam discursos públicos, em torno das questões da educação, que tendem a acentuar perspectivas de curto prazo e, particularmente, resultadistas. Por outras palavras, estas discussões, tendem a resumir um percurso de aprendizagens de, pelo menos, 12 anos, ao resultado de um exame.

A par da desvalorização do percurso escolar como um todo, a análise publicada sobre os resultados dos exames nacionais do ensino secundário, prima por uma omissão ainda mais grave. Nesta luta entre facilitismo e dificultismo, o esforço dos estudantes nunca é valorizado. Se os resultados melhoram é porque os exames foram fáceis, mas se pioram é porque os alunos são/estão impreparados.

Curiosamente, ou talvez não, essa falta de respeito pelo esforço dos alunos esquece que a carga de trabalho no ensino básico e secundário tem vindo a aumentar. Na última década, após a conclusão do processo de massificação do acesso ao sistema básico de educação, as perspectivas competitivas/economicistas têm levado as perspectivas das ciências da educação. Tal como noutros domínios da vida, no sector da educação as prespectivas resultadistas estão a impor-se, deixando para segundo plano as questões da aprendizagem, formação e pedagogia.

25 de Julho de 2011,

Luís Miguel Santos

Comments are closed.