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Precariedade, Aqui ou no Japão!

Setembro 10th, 2011 | by Odv

Neste meu novo texto, após um período de férias que não tive, e depois de uma Festa do Avante que marca a reentré do PCP – mesmo que tal expressão não se aplique ao meu Partido, pois os comunistas, por norma, não param (já que A Luta Continua) – venho falar de Precariedade. Aqui, ou no Japão. E adiciono o Japão, porque decidi fazer uma crítica literária a um livro de Banda Desenhada Japonesa, ao mesmo tempo que denuncio certas coisas e proponho alternativas.

Comentário de um qualquer leitor menos prevenido, respondido por um qualquer gajo da Póvoa de Santo Adrião que conheça o autor deste texto: Espera lá! O gajo é Comunista? É. E porque é que vem falar de BD, ainda por cima japonesa? Porque é fã incondicional da 9ª Arte e tenta ser autor semi-profissional, a par de Engenheiro do Ambiente, explorado e mal pago (ok, isto é um pleonasmo). Está bem, mas tinha que ser a BD japonesa? É pá, ele por norma não é racista/elitista e lê tudo, desde Astérix, Tintim, Dragonball ou Super-Homem. Ah, ok. Mas porque raio quer falar de precariedade e de BD (japonesa…) ao mesmo tempo. Porque lhe deu para aquilo.

Sendo assim, aqui vai. Ultimamente, ao se falar de precariedade, faz-se sempre alusão à situação dos jovens. Ora, essa alusão é obvia, visto serem os jovens os que mais sofrem com esta política de incerteza. Como disse anteriormente, a vida dos jovens não está fácil. Oferecem-nos a precariedade, baixos salários ou desemprego, aumentam-nos os custos de uma educação que deveria ser Universal, Gratuita e de Qualidade, dificultam-nos o acesso à habitação, retiram-nos os apoios sociais, como o caso das bolsas de estudo ou do abono de família, e agora até já a pílula contraceptiva vai deixar de ser comparticipada. E os jovens, querendo o Capitalismo e seus vassalos (PSD/PS/CDS) torná-los cada vez mais precários, têm saído à rua em diversas alturas, desde o 12 de Março, à participação de milhares de jovens na Manifestação de 19 de Março da CGTP, à Manifestação da Juventude Trabalhadora realizada em inícios de Abril, ao Piquenique contra a Precariedade e à grande contribuição que a Juventude Trabalhadora dará à Manifestação de 1 de Outubro, convocada pela CGTP. Aqui e na Europa. Então e no Japão?

Lá está o gajo e os japoneses.

Antes de falar do tal livro, pensemos todos num qualquer casal de jovens a viver juntos. Quais as principais preocupações? Pagar as rendas e ter emprego. Quem é que os apoia? Os pais, muitas vezes com comida e invariavelmente com cestos de vegetais (quem é que nunca recebeu os cestos de vegetais?). Quais os sonhos? Uma casa maior, trabalhar naquilo em que é formado e/ou o faz sentir realizado.

Foi numa visita a fóruns bedéfilos que ouvi falar de Solanin, uma história da autoria de Inio Asano, publicado originalmente na revista Weekly Young Sunday, da editora Shogakukan (Sim, os japoneses dão atenção à mangá, ou Banda Desenhada, ao contrário do que alguns querem fazer ao público português.), depois passado para dois tankobons (Nome dado aos volumes que reúnem os capítulos publicados anteriormente nas revistas. Por exemplo a saga DragonBall é composta por 42 tankobons, que a editora ASA se encontra a publicar no formato original, apenas traduzindo os textos.) e finalmente publicado em inglês pela Viz Media (A versão que eu li, como é obvio.) e noutras línguas. Quis ler o livro quando li o resumo. Meiko e Taneda, dois jovens licenciados à pouco tempo, a viver em Tóquio, sem grandes perspectivas de vida. Meiko trabalha como empregada de escritório para poder pagar as despesas da minúscula casa que o casal tem. Taneda, explorado e mal pago como ilustrador para a imprensa. Apaixonado por música, sente-se frustrado por não ter levado para a frente a sua carreira de músico. É então que cada um decide dar um rumo à sua vida. Taneda junta de novo os seus amigos da banda que tinha na universidade e Meiko demite-se do emprego. Começam a viver o seu sonho, com as incertezas de querer vingar na vida fazendo o que querem, até que…e o resto terão vocês que ler o livro, para não se estragar uma magnifica história de amor, à volta de dois jovens japoneses e os seus amigos. Ah, e o casal também recebe, logo no início do livro, as já famosas cestas com vegetais.

E eu, ao ler este resumo e ter visto um preview no site da editora inglesa, pensei: “Raios, isto é, mais ou menos, a minha vida. Ou a vida de muitos amigos meus.”. Dirigi-me a uma loja da especialidade e encomendei o livro. Destaco nesta obra a capacidade como Inio Asano conseguiu descrever a realidade dos jovens japoneses (e de todos os jovens, diga-se), os seus anseios, os seus problemas, e a forma como, ao retratar a precariedade na juventude, consegue dar à mesma um rosto humano. Tão mais humano quanto o facto deste livro ter sido passado a filme em 2010 e os actores serem muito parecidos com os desenhos de Asano. Para finalizar, digo mais algumas coisinhas sobre o livro. Ganhou um Prémio Eisner em 2009 e mostra que a BD japonesa (mangá) não é só coisas violentas. É classificado como mangá seinen (para os 20-30 anos), estilo cujas histórias tendem a ser realistas e verdadeiros romances.

Três notas finais: Vale a pena ler o livro, facilmente requisitáveis em qualquer loja da especialidade; Valeria a pena que o filme viesse para Portugal; O PCP apresentou o Projecto de Lei n.º1/XII, que “Combate os «falsos recibos verdes» convertendo-os em contratos efectivos, uma proposta chumbada por PSD, PS e CDS – Ainda há dúvidas de quem é que não serve a juventude portuguesa e é conivente com a nossa situação de precariedade?

João Figueiredo

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