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A Morte do Super-Homem e o 11 de Setembro!

Setembro 21st, 2011 | by João Figueiredo

Já vai começar a misturada!

Passaram 38 anos desde o 11 de Setembro. Sim, estão a ler bem. Do 11 de Setembro de 1973, dia do golpe fascista no Chile. E não houve nenhum Super-Homem que pudesse salvar o presidente chileno democraticamente eleito Salvador Allende, de ser morto pelo fascismo chileno comandado por Pinochet. Até porque Pinochet teve o apoio dos EUA. Passaram 10 anos desde o 11 de Setembro de 2001. Dia hediondo para a humanidade, prova maior do que o ódio é capaz de fazer. Dia em que a grande maçã, Nova York, foi atacada da forma mais violenta que se podia imaginar, num ataque terrorista, visto até então apenas no cinema, na televisão ou na banda desenhada. E não houve nenhum Super-Homem que pudesse ter salvo as mais de três mil vidas inocentes.

O 11 de Setembro chileno foi a prova de como os governos norte-americanos, na sua ânsia de controlo mundial, e na tentativa de pôr um travão às vontades dos povos, apoiam movimentos fascistas, são cúmplices de ataques à democracia e servem apenas e só os interesses do capitalismo. Mesmo que isso leve à morte de uma das maiores mentes brilhantes no plano da política. Mesmo que isso leve à morte de três mil democratas chilenos, num fuzilamento colectivo, em pleno equipamento desportivo que deveria servir a população e não a carnificina.

O 11 de Setembro americano foi a prova de como os governos norte-americanos, na mesma ânsia de controlo mundial para servir o capitalismo, criam monstros horrendos. A Al Qaeda e o seu mentor, Bin Laden, foram criados pelos EUA para atacar o governo democraticamente eleito do Afeganistão e instaurar a ditadura taliban, só porque esse governo não pactuava com o Imperialismo. E porque era próximo da União Soviética. Pois é. Com o fim da Guerra Fria, o fundamentalismo islâmico (também muito bom para descredibilizar a luta palestiniana contra a ocupação fascista por parte de Israel) virou-se contra o Ocidente. Porque, em matéria de fundamentalismos, o que é bom para lutar contra o comunismo é excelente para lutar contra o capitalismo. Porque é exactamente isso. Fundamentalismo. Sem respeitar criadores. E quem sofre sempre na pele são vidas inocentes, que não são tidas e achadas em jogos que servem apenas e só o Capital.

Muito se fala que o 11 de Setembro de 2001 foi obra do próprio governo norte-americano. Teorias da conspiração à parte, o que é facto é que o 11 de Setembro serviu de bode expiatório para a política belicista do Imperialismo. 10 anos após a queda da União Soviética, sem travão à altura, o Imperialismo declarou guerra aos povos do mundo. Cobrando implacavelmente a heresia dos fundamentalistas islâmicos em terem atacado o pai criador, e em alegada perseguição a um só homem (morto recentemente de uma forma ainda mal explicada…porque será?), o governo dos EUA estabeleceu o controlo de um país riquíssimo em recursos. Liberdades para o povo? Será que foi mesmo isso que a invasão trouxe? Ou negócios milionários para os grandes empresários? E Portugal, cúmplice.

Depois, foram atrás de Saddam Hussein, ex-aliado, na maior mentira do início do século XXI. A existência de armas de destruição maciça ao serviço do ditador iraquiano. Não tendo piada nenhuma, pois foram mortas pessoas inocentes, a invasão do Iraque mais pareceu uma história absurda de controlo ineficiente de facturas. Porque Hussein foi armado pelos EUA. Sobre o petróleo iraquiano? Qual quê? O objectivo era a libertação do Iraque, mesmo que as primeiras vítimas tenham sido as vidas inocentes dos opositores democratas iraquianos.

E, depois destas “libertações”, tem sido o absoluto QUERO, POSSO E MANDO por parte da Casa Branca. Com prejuízos para a própria democracia americana e para os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos americanos e dos povos do mundo. Com a cumplicidade dos governos portugueses de PSD/PS/CDS. Foi para isto que o 11 de Setembro de 2001 serviu.

Mas se houve coisa que marcou toda a humanidade no 11 de Setembro, foram as imagens chocantes da devastação, nunca antes vistas, se não na ficção. Assim como marcou a destruição de um dos símbolos maiores de uma cidade. De uma nação. As torres do World Trade Center. Símbolo maior do American Way of Life. Mas quem acompanha os comics americanos (o que, nos EUA, são jovens dos 7 aos 77 anos) já tinha visto algo parecido e, relativamente falando, com um impacte também muito grande na opinião pública. A Morte do Super-Homem!

Tudo começou em 1992, naquela que foi a maior operação de marketing da história da Banda Desenhada. Dividida em 7 capítulos, espalhados pelas revistas da editora Detective Comics (DC). Foi-se preparando, ao longo dos meses anteriores, a ideia de que algo muito grave iria acontecer com o super-herói bandeira da DC. Foram espalhados teasers pelas várias revistas, até que o inimaginável aconteceu. A DC anunciava que tinha tomado a decisão de matar o seu herói, dando-lhe um fim memorável e épico, digno das grandes obras de ficção e fantasia.

Pois bem. Há quem diga que tudo não passou de uma estratégia da DC para relançar as suas vendas, pois desde a década de 70 que perdia (a olhos vistos) para os heróis da rival Marvel Comics. O que é certo é que a DC nunca foi parva nenhuma, e jogou pelo seguro. Decidiu lançar a ideia de matar o grande herói americano e ver como é que o público reagiria. Juntou uma equipa de desenhadores e argumentistas, do qual se destacava Dan Jurgens (argumento e desenho – o “assassino” do Super-Homem) e Brett Breeding (arte-finalista), a dupla Louise Simonson (argumento) e Jon Bogdanov (desenho), e ainda Karl Kesel (argumento), entre outros, e esperou começarem a sair os primeiros capítulos, para ver no que a estratégia dava. Deu em manifestações por parte do público à porta da DC, a exigir que o Super-Homem não morresse. E, obviamente, deu em sucesso de vendas. Missão Cumprida. O Super-Homem não só “ressuscitou” passados uns meses, como ganhou um look anos 90, actualizando definitivamente a imagem de um herói criado à luz da realidade de 1938, por Jerry Siegel (argumento) e Joe Shuster (desenhos). O Super-Homem renascido tinha cabelo grande, que só o veio a cortar no início deste século, quando finalmente Clark Kent casou com Lois Lane.

Em Portugal, os 7 capítulos foram juntos numa só publicação da editora Abril. Foi a primeira vez que o Super-Homem foi publicado com português de Portugal (se bem que…nos tempos que correm…com a invasão ortográfica…não faria muita diferença). A editora Abril tinha já há alguns anos uma filial portuguesa, responsável pela publicação dos livros da Disney e até do Batman ou do Homem-Aranha, em português de Portugal. No entanto, o Super-Homem só foi publicado (se a memória não me falha) aquando da sua morte. Para mim, foi a história que me fez pela primeira vez apreciar verdadeiramente o poderio dos comics americanos. Estávamos em finais de 1995. Começava o grande fenómeno que foi o DragonBall por terras lusas. Eu, muito mais influenciado para ler Disney e, fundamentalmente, Tintim, Astérix e Luky Luke (sempre fui um leitor que dá preferência à BD Franco-Belga, apesar de ser muito diversificado). Já tinha ouvido falar dos ecos da polémica que a morte do maior super-herói de sempre estava a ter (lembro-me perfeitamente em que café da Póvoa estava, quando o meu pai me leu uma notícia do jornal, que falava que o Super-Homem ia morrer). Alguns anos depois, chega a Portugal a tão esperada história. E eu li-a toda, segui o funeral (compilado nos dois livros seguintes), vi como é que o Super-Homem lidou, espiritualmente, com a sua aparente morte, assisti ao seu regresso e acompanhei mais dois anos de aventuras do maior herói de todos os tempos. Até ao fim da saga Zero-Hora, ou, por outras palavras, até ao momento em que o Dr. Francisco Pinto Balsemão, que se tornou dono entretanto da Abril portuguesa, dono da SIC, ex-primeiro-ministro e fundador do PPD/PSD, decidiu acabar com a editora Abril e com a publicação de comics americanos em Portugal. Deve ser pela urticária que a palavra Abril lhe deve fazer, eventualmente. Porque a BD deve ser coisa para crianças e, como tal, não deve trazer muitas vendas, vamos acabar com isso. Pois enganam-se os que pensam assim, porque A Morte do Super-Homem é uma obra-prima da literatura mundial.

Se não, vejamos. Do meio dos EUA (mais ou menos no eventual local onde os aviões deram a volta para iniciar o ataque a Nova York) abre-se uma falha no solo e um punho rasga a terra. É-nos apresentado um ser hercúleo, com a cara tapada e um braço aprisionado nas suas próprias costas, por meio de tubos e complicadas ligaduras. O braço que se encontra solto ergue-se. O ser hercúleo abre a mão. Um pássaro pousa nele. O monstro esmaga-o. A partir daí, sabe-se lá porquê, dirige-se para leste, destruindo tudo à sua passagem, numa rota para o litoral, dirigindo-se aparentemente para Metropolis, lar do Super-Homem e versão ficcional de Nova York. Mas onde é que nós já vimos isto? No 11 de Setembro.

Os membros da Liga da Justiça América, aliados do Super-Homem, partem ao encontro do monstro e, ao verificarem a devastação que o mesmo causou, matando inocentes, dão-lhe o nome de Apocalipse. Não o conseguem travar, até que o Super-Homem, que se encontrava a dar uma entrevista para a televisão sobre a necessidade da sua existência na luta contra o crime (se não me engano), é chamado a intervir. Se no primeiro murro de Apocalipse que o Super-Homem trava (numa imagem clássica de um Super-Homem de peito feito face ao mal), temos a ideia que isto são favas contadas para o grande herói, no pontapé rotativo seguinte que Apocalipse lhe aplica verificamos que o herói está bem tramado. A partir daí, são sequências espectaculares de destruição, extremamente realistas e bem desenhadas, antevendo com grande realismo as tristes imagens que todos nós assistimos a 11 de Setembro de 2001. Pelo caminho, Super-Homem continua a tentar salvar a humanidade de mais um ataque terrível, tentando sempre não causar danos colaterais nem vítimas inocentes (coisa que o exército americano nunca soube fazer), mas não sendo capaz de levar a melhor sobre Apocalipse. A esta luta, aparentemente inglória, vão-se juntando outros heróis, o exército e a polícia (como em Nova York, no 11 de Setembro), mas nada consegue travar a máquina de destruição. O conflito chega, irremediavelmente a Metropolis e acaba exactamente à porta do Planeta Diário, o jornal onde trabalham Lois Lane e Clark Kent. Super-Homem consegue, finalmente, travar Apocalipse. Mas perde a vida, entretanto. Lois Lane abraça-o, num choro contagiante, que não deixa nenhum leitor indiferente.

A última imagem, em que a capa do Super-Homem aparece rasgada e pendurada numa vara de madeira, é o inverso da imagem dos soldados americanos a hastear a sua bandeira, em Iwo Jima. Um país vencedor Vs um país derrotado.

 

A Morte do Super-Homem foi uma inovação e a pedrada no charco que estava a faltar aos comics americanos. E o que é que motivou essa pedrada no charco? Em primeiro lugar, porque o modelo do super-herói invencível estava (e está) esgotado. Em segundo lugar, porque a concorrência da rival Marvel era, no início dos anos 90, asfixiante para a DC. Em terceiro lugar, porque depois de um boom de expansão europeia nos anos 70 e 80, o velho continente começava a pôr de lado os heróis americanos. E, em quarto lugar, porque do Japão apareceram outros ventos, que até a Europa conquistaram (vindo a conquistar, definitivamente, os EUA já no inicio dos anos 2000).

Com A Morte do Super-Homem, iniciam-se um conjunto de histórias magníficas (Funeral para um Amigo, Super-Homem Além da Morte, O Regresso do Super-Homem), até um “renascimento” algo fraco, que deixou muito a desejar (O herói não tinha morrido, bastava ter ficado mais tempo ao sol, para captar energia solar e estaria como novo. Mas foi enterrado de seguida e ficou muito mais fragilizado. Ora, apesar de lógico, sendo Super-Homem um Kriptoniano, esta questão poderia ter sido melhor explorada), passando por um conjunto de aventuras de dois anos em Portugal (o que equivalia, sensivelmente, a 3 anos de publicações nos EUA), até a uma espectacular Zero-Hora, saga que junta todos os heróis da DC, contra um vilão muito imprevisível. O próprio Lanterna Verde, que enlouquece aquando da destruição da sua cidade natal, destruída por um impostor que se fez passar pelo Super-Homem, durante O Regresso do Super-Homem. Para este sucesso, muito valeram os desenhos de Dan Jurgens e Jon Bogdanov. Se o primeiro é um verdadeiro artista completo, com desenhos e argumentos dignos de um clássico, Jon Bogdanov é um desenhador com um estilo muito próprio. Eu, pessoalmente, considero-o muito fraco, comparativamente com outros desenhadores secundários, como Tom Grummet que, com Karl Kesel, criou o moderno Superboy (aparecido após A Morte do Super-Homem e um clone simultâneo de Super-Homem e do seu rival Lex Luthor). No entanto, Bogdanov teve uma grande importância junto da comunidade afro-americana, ao criar Aço, um herói inspirado nas lendas da luta contra a escravatura na América. O traço de Bogdanov assentou como uma luva nessa linha de histórias que foram as aventuras de Aço.

A Morte do Super-Homem é um marco, pois relata a primeira vez em que o mundo perde o seu maior defensor. E é a primeira vez em que um herói de Banda Desenhada morre nas suas aventuras (De facto, nos anos 60, Super-Homem já tinha morrido às mãos de Luthor. No entanto, essa história não teve, nem de longe nem de perto, o mesmo impacte que A Morte do Super-Homem teve.). Até aí, tal nunca tinha acontecido. Não se imaginava que um Super-Herói morresse. E, sendo pura ficção, teve um efeito muito semelhante ao 11 de Setembro, feitas as devidas ressalvas, claro. É que o 11 de Setembro é o momento maior, em que ficámos cientes de que não há invencíveis no mundo. E ficámos também cientes de que não existem super-heróis para nos salvar. Teremos que ser nós próprios a criar um mundo mais Livre, Democrático, Justo e Fraterno.

E, se a alguns ficou a ideia de que seria bom um mundo com super-heróis (mesmo que eles estejam, cientificamente perto e sejam geneticamente cada vez mais possíveis), aconselho a ler um pouco das histórias que enquadram os super-heróis da Marvel (ou ver os filmes, pois estão fidedignos). Vejam como é que o Capitão América nasce: Manipulação genética. Qual a sua contraparte? Hidra Escarlate, um vilão nazi. Hulk nasce como? Manipulação genética. Contra-parte? O próprio exército dos EUA, que o persegue. Como é que são os poderes do Iron Man? Tecnologia pura, ao serviço dos interesses americanos, mesmo que esses interesses não sejam os melhores para a humanidade.

Também aconselho a ler The Watchmen, obra maior de Alan Moore (argumento) e Dave Gibbons (desenho), que relata na perfeição como seria o mundo se realmente existissem super-heróis. E os perigos que isso acarretaria.

Ou, simplesmente, leiam as aventuras do Batman. Na generalidade, encontramos verdadeiras lições sobre a humanidade.

Ah. Pois! Mas já não se publicam comics americanos em Portugal, tirando os esforços das Editoras Devir e BD Mania, ou o mau tratamento que as publicações brasileiras da Panini têm por estas paragens. Obrigado, Dr. Francisco Pinto Balsemão. Os jovens portugueses dos 7 aos 77 anos agradecem.

NOTA FINAL: O 11 de Setembro foi obra, alegadamente, de Bin Laden, criação dos próprios EUA. Apocalipse foi criado em Krypton, planeta natal do Super-Homem, como se veio a descobrir na saga Super-Homem Vs Apocalipse. Apocalipse foi vítima de experiencias científicas dos kryptonianos, milhares de anos antes do Super-Homem nascer. Sendo, fundamentalmente, um feto que se desenvolveu em ambiente hostil, é fruto de mais de 40 anos de pesquisas sobre a atmosfera de Krypon. Morto todos os dias e, todos os dias ressuscitado, acaba por se revoltar contra os seus criadores e matá-los. Dificilmente controlado, é enviado numa cápsula para um planeta, na altura inabitado. A Terra. Até que se solta e, ao sentir na Terra um kryptoniano, persegue-o até à morte. E esta, heim?

João Figueiredo

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