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MAÇONARIA e FERNANDO PESSOA

Janeiro 13th, 2012 | by Oliveira Dias

Nunca imaginei que o primeiro tema do ano de 2012, a merecer a atenção da minha pena fosse, novamente, a Maçonaria.
Na realidade têm vindo a público várias pseudo-noticias (uma noticia é a narração, objectiva, clara e sucinta de um facto, sempre sujeito ao crivo do contraditório) cujos objectivos inconfessados, só os autores o saberão, isto claro a não ser que os queiram retirar do secretismo em que os mantêm. Convenientemente.
Jornalistas de vários órgãos de comunicação social, escrita, vulgo jornais, têm discorrido sobre o tema, evidenciando desconhecer do que falam. Um pouco a reboque da exposição televisiva do tema e de um ou outro Mação entrevistado.
Sim, não é engano. Maçon é um termo francês, e a língua portuguesa, tem já há muito tempo, um termo adequado – Mação, no singular, e Mações, no plural.
António Arnault, foi o único, do que visionei, a utilizar a palavra adequada para quem é membro de uma agremiação maçónica.
O tema Maçonaria está na “berra” graças á colagem que é feita ao tema das “Secretas”, e o impulso público, a exposição, foi bastante aumentada graças ao relatório que uma deputada do PSD elaborou sobre as “Secretas”.
A título de registo de interesses, importa dizer o seguinte: Como jornalista de opinião, e politólogo, não tenho habilitação alguma para discorrer sobre a Maçonaria em si, pois o que por lá se passa, ou não, aos próprios diz respeito. O meu escopo resumir-se-á á instituição, enquanto ente integrada na sociedade e sujeita ás mesmas vicissitudes sociais que as demais.
O assunto desperta-me, particularmente, o interesse devido aos seguintes pressupostos:
a) A generalização do tema Maçonaria, como se de algo uno e indivisível se tratasse;
b) O alegado secretismo de que se revestirá a mesma (ou mesmas);
c) O poder que lhe é imputado, pela comunicação social;
d) A exposição pública da condição de mação imposta a políticos;

Tenho estado a aguardar os desenvolvimentos sobre esta matéria á espera que, alguém, jornalistas ou Mações, autorizados a glozar sobre o assunto, lançassem alguma luz sobre a matéria.
No Diário de Noticías edição de 10 de Janeiro de 2012, das várias peças dedicadas á Maçonaria, destaco uma página inteira do Grande Oriente Lusitano, a qual é uma declaração do respectivo grão mestre sobre a sua obediência maçónica.
Esta é da maior importância, uma vez que recupera, ainda que de modo muitíssimo superficial, um artigo publicado no Diário de Lisboa, em 4 de Fevereiro 1935, escrito pelo nosso maior Vate do século XX, Fernando Pessoa, ácerca da proposta legislativa que um Deputado (sr. José Cabral) apresentou na então Assembleia Nacional (rebatizada após o 25 de Abril como Assembleia da República) visando a ilegalização de sociedades secretas.
Este texto, de Fernando Pessoa, é um contributo magistral, que de tão actual até me parece premonitório – acenta que nem um a luva ao ruído que se está a gerar hoje, em relação ao tema.
Confesso que hesitei várias vezes ao escrever este artigo, pois, para mim, suficiente me parecia reproduzi-lo, e aqui fechava, com chave de ouro o que se me oferecia debitar sobre o assunto.
Feita esta importante e incontornável referência, vamos então á minha modestíssima opinião começando pelo primeiro elemento que a estampa noticiosa oferece aos incautos ouvintes e leitores:

a) A generalização do tema Maçonaria, como se de algo uno e indivisível se tratasse;

Em artigo anterior, nesta coluna, expliquei, que só em Portugal, existem não uma mas várias Maçonarias, logo fazer-lhe referência, ainda que em abstracto, como se fosse uma organização unitária, quer em Portugal, quer no Mundo é uma imbecilidade monumental.
Claro que o GOL (Grande Oriente Lusitano) ao fazer publicar no DN a sua declaração dá a imagem de aglutinar as obediências portuguesas, o que é inexacto, e está muito longe da realidade portuguesa. Mas isso é lá com cada obediência.
Da mesma forma um Mação não representa a sua obediência, porque não tem essa legitimidade, que é um exclusivo do respectivo Grão-Mestre. Equivale a dizer uma maçã não é representativa da fruta do cesto, assim se uma maçã estiver podre, isso não significa que as demais também o estejam.
Isto é mais ou menos “La Palisse” página 17, pois aplica-se a qualquer organização e respectivos membros. É do mais elementar bom senso.
Aliás a propósito isto recorda-me um episódio passado na Madeira, quando um determinado individuo assassinou um cidadão do Porto Santo, o regime do governador, só para chatear, veio lembrar que o assassino tinha sido militante do PS local, a fim de dar uma determinada imagem dos socialistas locais. Foi uma risada laranja generalizada. As coisas mudaram de figura quando o Presidente do PS Madeira, acrescentou que para além de militante do PS o assassino era católico, baptizado, com primeira comunhão e crismado, enfim com todos os sacramentos da Santa Igreja.
Conclusão, o cidadão criminoso, não representava nem os seus camaradas de partido, nem os crentes católicos da Região Autónoma.

b) O alegado secretismo de que se revistirá a mesma (ou mesmas);

Este pressuposto é dos mais hilariantes pela estupidez que encerra. Então as lojas Maçónicas são apontadas por se reservarem o direito de admissão no seu seio, apenas aos seus membros ? E não é exatamente isso que acontece, com a Opus Dei, e outras entidades semelhantes ? Mesmo nas várias confissões religiosas existentes, em alguma as reuniões dos seus membros são públicas ? E não me refiro aos serviços religiosos, porque esses são mesmo destinados ao público em geral, mas sim ás reuniões restritas aos seus membros.
Fernando Pessoa dá o exemplo do Conselho de Ministros, que não é público, e a ninguém é permitido assistir ao que por lá se passa.
E as reuniões do Conselho de Adminsitração do Sporting ? E do benfica ? e do porto ? E as da Fundação Calouste Gulbenkian ? Enfim a lista é infindável.
Em Portugal só as reuniões dos órgãos deliberativos das autarquias locais são todas obrigatoriamente públicas, tudo o resto cabe na classificação de secreto.
O mesmo se diga dos rituais seguidos pelas lojas maçónicas. Nas outras organizações também não são públicos os respectivos regimentos ou regulamentos de funcionamento. Alguém sabe qual é o ritual das estruturas da Opus Dei ? E do Grupo de Bildenberg ?
As obediências maçónicas portuguesas são tudo menos secretas, pois têm os seus estatutos associativos publicados, tal como as demais associações formadas ou constituídas ao abrigo da lei civil portuguesa. Sabe-se onde são as suas sedes, sabe-se quais são os seus fins, sabe-se quem são alguns dos seus membros, pois alguns têm reserva de identidade por opção, legitima, pessoal.
Se um trabalhador sindicalizado pode, e muitas vezes opta, por esconder a sua condição perante a sua entidade empregadora, porque razão um Mação não haveria de ter o direito de reserva sobre a sua condição ?
Se um jornalista pode invocar o segredo jornalístico, mesmo em tribunal, se um médico pode invocar o segredo da profissão para não revelar aspectos médicos de um paciente, se um advogado está obrigado ao dever de sigilo sobre os seus clientes, se a confissão, inventada por um Papa, permite a um padre a não revelação do que nessa sede lhe é dito, porque não há-de o Mação ter o mesmo direito de reserva se esse for o seu desejo ?
Como se vê, o secretismo das obediências maçónicas é igual ao de tantas outras organizações, e o direito de reserva dos mações é semelhante ao de tantos outros cidadãos nas respectivas actividades.

c) O poder que lhe é imputado, pela comunicação social;

O poder define-se (grosso modo) como a capacidade de influenciar o corolário de um processo, neste ou naquele sentido.
Têm as obediências maçónicas esse poder em Portugal ?
Imagine-se um clube Rotary ou Lyons (duas das maiores organizações filantrópicas do mundo) que nos seus membros tem um deputado do PSD e outro da CDU. Devido a esta circunstância poder-se-á antever uma “coligação” de ocasião na Assembleia da República, por simples solidariedade clubistica ? Será incompatível a sua condição de deputados e membros de um clube Rotary, ou Lyons ? E se forem colegas no Sporting ? Ou no Benfica ? Estarão condicionados nas suas posições politicas por via dessa solidariedade ?
É precisamente a situação relativa ás obediências maçónicas: os seus membros, que também são membros de outras associações de interesses distintos, ficam condicionados, ou compelidos a violar a Lei, por simples solidariedade fraternal ?
É um perfeito disparate pretender que se legisle no sentido de um cidadão Mação, lá por ser politico, venha a ser obrigado a revelar essa sua condição. Então e a pertença ao Grupo Amigos de Olivença ? Impede de se pertencer ao governo, á Assembleia da República ? Isso não faz sentido nenhum. A reserva pessoal tem de ser respeitada, excepto em situações de crime ou violação da lei, obviamente, seja ele Mação, ou outra coisa qualquer.

d) A exposição pública da condição de mação imposta a políticos;

António Arnaut, e João Cravinho vieram a público apelar para que os Mações se revelem como tal.
Isso é simples de dizer mas mais complicado de concretizar. No meu artigo anterior (Maçonaria vs Maçaria) dei nota de um despedimento ocorrido na Região Autónoma da Madeira, por ordens do regime autonómico, de um cidadão cujo crime “lesa madeira” era o de ser Mação e pior ainda ser o responsável da respectiva obediência naquele território português. De resto vejam o que Alberto João Jardim tem dito sobre as obediências maçónicas. Isto aconteceu em pleno século XXI.
Os Mações ainda são perseguidos em Portugal. Claro que já não do modo como o foram durante o Miguelismo, na guerra liberal; claro que já não como aquando da ocupação do nosso solo pátrio pelos ingleses, que aqui ficaram com a retirada da corte portuguesa para o Brasil, tendo o General Beresford enforcado o Grão Mestre Português por este General se opor á “colonização” inglesa.
Não se me oferece nenhuma dúvida que a revelação da condição maçónica pode vir a envolver o Mação em questão em prejuízo sério á sua vida social, profissional e até familiar.
Isto em Portugal, porque nos Estados Unidos da América até é um orgulho ter um Presidente Mação, como alegadamente é o caso de Barack Obama, mas quanto por exemplo a Clinton já não há nenhuma dúvida sobre a sua condição maçónica. Isso é público, como público é o conhecimento de vários Presidentes dos estados Unidos terem sido Mações, desde logo o seu primeiro Presidente Washington.
Na Inglaterra o Grão Mestre é da família Real. Na Austrália vários Presidentes eram mações. E então ? Vai-se hostilizar esses Mações também ? Esses países deverão ser ostracizados ? Não me parece.
E a baixa Pombalina, toda ela eivada de simbologia maçónica vai abaixo ? E a bandeira nacional criada por mações que até nem se coibiram de lhe emprestar as cores da secção maçónica do partido republicano, vai ser mudada ?
Já alguém reparou no símbolo do Banco Montepio ? É um bicharoco que dá pelo nome de Pelicano. Este animal na iconografia iniciática simboliza a caridade. Veja-se que o pelicano arranca a sua própria carne para a dar aos seus filhotes. É este o símbolo daquele banco que foi criado por Mações, com objectivos mutualistas. Fecha-se o banco ?
Haja bom senso.

Oliveira Dias, Politólogo

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