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Cardeal de Portugal

Fevereiro 22nd, 2012 | by Odv

A Igreja Católica Portuguesa tem todos os motivos para estar em júbilo, pois é mais do que merecido – um dos seus tornou-se no terceiro Príncipe da Igreja Português, ao ser investido, no passado dia 19 de Fevereiro de 2012, Cardeal, por sua Santidade Bento XVI, no consistório realizado com o propósito de investir 16 Cardeais Europeus, 3 Norte americanos, 2 Asiáticos e 1 Brasileiro.

Portugal tem, assim, motivo de orgulho, numa altura tão dramática da sua história contemporânea.

No computo dos Países com cardeais, Portugal ocupa a 13ª posição, a Itália ocupa a 1ª posição com 52 Cardeais, logo seguida dos EUA com apenas 19, o Brasil tem 10, tantos quanto a Espanha, a França e a Alemanha, ficam-se pelos 9, a Polónia 8, a Índia consegue 6, Suiça e México e Argentina com 4 cada, e a Austrália, Filipinas e Canadá juntam-se a Portugal cada qual com 3. Assim se compõe a tabela do top 13.

D. Manuel Monteiro de Castro, de 73 anos natural de Guimarães, é assim o mais recente Cardeal da Igreja Católica, tendo começado as suas importantes funções, uma vez que faz parte de um dos Discatérios do Governo do Vaticano, em 2009, quando assumiu o cargo de Secretário da Congregação para os Bispos. Mais tarde é nomeado consultor da Congregação da Doutrina e da Fé e Secretário do colégio Cardinalício. A sua investidura como príncipe da Igreja decorre da sua recente nomeação como Responsável da Penitenciária Apostólica, um dos três Tribunais da Cúria Romana.

D. Saraiva Martins, Cardeal Português que também integra o governo do Vaticano – Cúria Romana – está á frente da Congregação dos Santos, e só não é eleitor no conclave que elege o novo Papa, por ter ultrapassado a idade de 80 anos.

D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, é talvez o mais conceituado Cardeal Português, tanto que havia até quem o apontasse como sucessor de João Paulo II.

Assim dos 3 Cardeais Portugueses, 2 estão em postos da maior relevância, na Cúria Romana, e são também 2 os que ainda podem vir a ser Papas, com a maior fatia de probabilidade a caber ao cardeal de Lisboa.

Isto diz bem da importância do clero Português. Mas junte-se a isto outros factores da maior relevância e teremos um quadro muito positivo para o clero Português a permitir outras ambições.

Senão vejamos:

Em Fátima encontra-se um dos maiores centros de culto Mariano do Mundo, ao ponto de 3 Papas já cá terem realizado visitas peregrinas – Paulo VI (21 de Junho de 1961), João Paulo II ( 12 de Maio de 1982, 1991 e 2000), e finalmente o actual Papa Bento XVI (2010).

Fátima recebeu ainda a visita de 2 Cardeais, que mais tarde viriam a ser Papas, foram eles Angelo Giusseppe Roncalli, que viria a ser o Papa João XXIII, e Joseph Ratzinger, o actual Papa.

A honra de se cingir a teara Papal, e assim ocupar o trono de Pedro coube por três vezes a dignitários oriundos de Portugal, embora se atribua apenas a Pedro Hispânico, Lisboeta de nascimento,  essa honra.

S. Dâmaso, Papa de 366 a 384, foi um dos Papas mais distintos de todos os tempos. Dele se diz ter nascido em Roma, para onde a família se teria deslocado e aí fixar residência.

Outros dão-lhe com o certa a condição de Espanhol. Outros ainda asseguram ter nascido nas proximidades de Guimarães. Ora a condição de espanhol certamente advirá da circunstância de quando nasceu Dâmaso ainda não existir Portugal e por isso o território de então ser todo ele considerado como Hispania. Aliás veja-se como ficou conhecido o Papa João Paulo XXI, nascido em Lisboa – Pedro Hispano. É como dizer que Viriato era espanhol. A Mátria (terra onde se nasce) de Dâmaso é sem dúvida portuguesa.

Aos 62 anos é eleito Papa, em 1 de Outubro de 366. A ele se deve que o Latim seja a língua litúrgica ao invés do grego, que o povo não conhecia. Também é ele quem introduz a palavra “aleluia” bem assim como se lhe atribui a autoria da oração “ Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio agora e sempre, pelos séculos dos séculos, Amén”.

É também este Papa português quem ordena a S. Gerónimo a tradução da dos textos Hebreus das sagradas escrituras, dando origem á versão Latina, conhecida como Vulgata (latim significando vulgar ou popular).

D. Mauricio Burdino, não nasce em Portugal, mas fica ligado a Braga de forma inequívoca. Para uns Papa de 118 a 1121, para outros Anti-Papa Gregório VIII.

D. Henrique, Pai do nosso primeiro Rei, nomeou Burdino Bispo de Coimbra e posteriormente Arcebispo de Braga, dando-lhe senhorio. Burdino tudo fez para libertar Braga da tutela religiosa de Compostela.

Sendo enviado á corte germânica de Henrique V, Imperador, vê-se envolvido na questão das “querelas de investiduras” que opunha o clero aos Imperadores germânicos, tendo sido este Arcebispo Bragantino nomeado Papa, por se encontrar vaga a cadeira de S.Pedro, em Roma. O clero refugiado em Avinhão, não o reconhecendo elege outro Papa, Calisto II. Verdadeiramente D. Mauricio Burdino era o Papa legitimo, mas a dinâmica das lutas da época induzem numa inversão das coisas e Burdino, que durante 3 anos foi reconhecido como Papa legitimo por metade da cristandade, acaba transformado em Anti-Papa, preso, acabará os seus dias nas masmorras. Não fora isso e hoje seria celebrado como mais um Papa oriundo de Portugal.

Pedro Hispano, Papa João XXI, 1276 a 1277, teve um pontificado de apenas 8 meses. Era um distinto cientista, médico, filósofo, etc. A sua eleição não terá sido pacífica, como também várias das suas orientações não teriam caído bem no seio de alguns Cardeais. Apostou decisivamente no ecumenismo e sonhou juntar as igrejas desavindas do ocidente com as do oriente. Não teve ou não lhe deram tempo para tudo quanto queria fazer.  Este Lisboeta terá sido um dos mais letrados Papas até então, foi conselheiro do pai de D. Dinis, Bispo de Coimbra e de Braga, terá ficado desagradado por não o terem nomeado Bispo de Lisboa.

Assim a história destes 3 Bispos saídos do clero Português, com a excepção de S. Dâmaso que só terá ingressado em Roma na vida religiosa, emprestam a Portugal e á Igreja Portuguesa um brilho especial.

Mas se alargamos esse universo aos falantes da nossa língua, á Pátria, como diria Fernando Pessoa, o caso assume um peso bem maior. Um dos novos Cardeais, o Brasileiro, criticou a eurocentrismo do Vaticano. Com razão ou sem ela, será difícil trilhar outro caminho, para a cúpula da igreja cujo Estado, cidade do Vaticano, se situa num enclave de Itália.

Mas o conjunto dos Cardeais que falam Português são um grupo a ter em consideração, sobretudo quando alguns até fazem parte do governo do Vaticano, como é o caso dos portugueses. E isso pode vir a fazer a diferença na futura eleição.

 

Oliveira Dias, Politólogo.

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