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Chocolate – Oliveira Dias

Novembro 30th, 2012 | by Oliveira Dias

A realidade vivida hoje em Portugal é bastante “sui generis” com um quadro macro económico que não resulta exclusivamente de motivos endógenos, cuja receita, imposta por decisores políticos exógenos, transformam Portugal num laboratório de políticas pensadas por ilustres desconhecidos.

Nunca como agora os cientistas políticos de outras eras, mas cujas teses vêm sendo esgrimidas no plano teórico, foram tão utilizados.

Assim de uma assentada vêem-me á cabeça pelo menos 4 gurus, estudados na ciência politica e económica – Adam Smith, Hobbes, Maltus, Gresham.

Com a obra “A riqueza das NaçõesAdam Smith apresentou ao mundo a teoria da “mão invisível” que regularia o mercado, desde que o Estado se abstivesse de “atrapalhar”, isto é, as relações entre particulares seria regulada pelos próprios mercados, e o Estado remeter-se-ia a tomar conta dos jardins e passeios. Era a apologia do Capitalismo em todo o seu esplendor.

A saga privatizadora do governo português indicia o retorno a essa apologia, onde o social não tem nenhum lugar, daí os cortes nos subsídios da mais variada espécie.

Hobbes teorizou que o “homem era o lobo do próprio homem”. Quando o capitalismo selvagem, incentivado pelos agentes financeiros, mormente os bancos, seduzindo o incauto cidadão a consumir par além das suas necessidades, e depois, face a um incumprimento lhe retira os bens, coloca-o a viver na rua e a mendigar a sopa para os filhos, elucida-nos bem a premissa deste teólogo.

Mas é com Malthus que me assusto mais. Este, face á sua conclusão que a humanidade crescia numa base geográfica, podendo atingir níveis de crescimento demográfico incompatíveis com  a produção dos bens necessários para alimentar toda essa gente, dá-nos uma solução – restringir a qualidade de vida das populações, pagando-lhes miseravelmente, e impedindo-as de aceder aos cuidados de saúde primários, de forma a não puderem constituir famílias numerosas, ficando assim no limiar da sobrevivência.

O direito social mais preocupante, em Portugal, neste preciso momento é o direito á alimentação, sem menosprezo para os demais direitos que estão a ser esbulhados aos cidadãos.

Por último Gresham, este economista, cujas premissas recorro várias vezes para ilustrar uma realidade. Gresham ao estudar os fluxos monetários da idade média conclui que o povo sempre que apanhava uma moeda em ouro, guardava-a (entesourava-a em economês), e utilizava nas suas trocas comerciais, as moedas em prata, assim chega a esta premissa – “ a má moeda (a de menor valor), afasta a boa moeda (a de maior valor), entesourando esta”.

O curioso, desta Lei de Gresham, é a sua aplicação á politica. Os maus políticos (porque em maior numero), afastam os bons políticos (minoritários). Por isso se suspirar, hoje por políticos de ontem, seja ao nível nacional seja ao nível internacional.

Veja-se como tudo isto está a ser experienciado hoje no nosso País. É assustador.

O governo, defendendo-se, clama aos 4 ventos que a culpa é da herança recebida, e diz ainda que foi a festa socialista, que nos conduziu á austeridade.

Depois vêm os números, de preferência os que só apanham o “consulado” socialista: de 2005 a 2011 a divida pública aumentou de 90 mil milhões para 174 mil milhões, portanto um acréscimo de 84 mil milhões, e apontam onde se desperdiçou, foi nas Parcerias Publicas Privadas, vulgo PPP’s.

Omitem porém que as amaldiçoadas PPP’s foram iniciadas, em Portugal pelos governos de Cavaco Silva, e que o governo de Durão Barroso e Paulo Portas foram responsáveis por 10 PPP’s hospitalares, 5 linhas do TGV, cujos contratos firmaram de modo a que o governo de Sócrates lhes desse continuidade, sob pena de, em contrário, se operarem perdas avultadas, e ainda a célebre compra de 3 submarinos, num negócio que não se pode inverter. Estranho mesmo foi este negócio ter levado á prisão responsáveis alemães, naquele país, e aqui os papeis terem simplesmente desaparecido do Ministério da Defesa.

O também estranho caso das Pandur, cujo contrato o governo acaba de mandar às urtigas, e assim lançar no desemprego mais 200 trabalhadores, num negócio do ministro da defesa de Durão Barroso, hoje ministro dos negócios estrangeiros.

Para ajudar á “festa”, não socialista, mas sim neoliberal, a Região Autónoma da Madeira dá um bailinho da Madeira ao ocultar uma divida monumental de mais de 6 mil milhões. Obviamente nada acontece mesmo perante a assumpção pública do seu governador da responsabilidade e intencionalidade nessa ocultação “para contornar a Lei do Sócrates” disse, sem pejo.

Sem admiração. O governador relapso, no momento em que escrevo (a 2 dias de uma eleição interna do PSD Madeira) garantiu publicamente dar uma vassourada nos apoiantes de uma lista opositora á liderança do partido local, mas que o governador acha não terem o direito de serem candidatos a algo que ele quer só para si, á semelhança do que tem acontecido nos últimos 37 anos lá na ilha.

É isto a democracia desta gente. É esta a nossa desdita.

Por cá a melhor forma que o governo Neo-liberal de Passos e Portas tem de atrair os investidores internacionais é a mão-de-obra barata – com os despedimentos em massa a engrossarem as estatísticas do desemprego galopante, com ofertas de emprego a profissionais qualificados a preços miseráveis, Portugal aproxima-se da condição de China Europeia, com pessoas a aceitarem trabalho escravo a qualquer preço só para puderem ter um prato de sopa na mesa para os filhos.

E tudo isto para quê? Vejam o que diz Mario Draghi presidente do Banco Central Europeu “ Se os governos no Sul da Europa (leia-se Portugal, Grécia e Espanha) continuarem a implementar com sucesso as reformas estruturais como nos últimos meses, os contribuintes alemães vão ter lucros com as nossas aquisições (dos títulos de divida pública desses países)”.

Ora isto é como o chocolate, quanto mais se come, maior o apetite.

Assim os Alemães lambuzam-se com Portugal e Irlanda e anseiam pelos torrões de Alicante espanhóis. Problema mesmo são os gregos: compraram á Alemanha a maior parte das armas que equipa o seu exercito de 200 mil militares, os submarinos e paletes de aviões, e não os pagaram, assim como não pagam o dinheiro troikista. Para os Gregos trata-se de justiça poética, é que os Nazis limparam os cofres Gregos, e ainda fizeram um empréstimo internacional de 100 mil milhões, ficando os gregos como avalistas.

É caso para dizer que o chocolate sai caro.

 

Oliveira Dias, Politólogo

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