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EL COMANDANTE – Oliveira Dias

Março 7th, 2013 | by Oliveira Dias

topo_oliveiradiasHugo Chavez acaba de se imortalizar. A noticia do seu falecimento não deixa ninguém indiferente, quer se goste, quer não, daquele que durante os últimos anos mandou e comandou na Venezuela, tendo por grande referência Simon de Bolívar, o grande General fundador de vários países sul americanos.

A Venezuela, e Hugo Chavéz trazem-me à memória factos que jamais esquecerei, num misto de recordações.

Recordo o dia, nos idos de 2007, em que caiu na minha secretária uma carta do Presidente da Republica Bolivariana da Venezuela. Como chefe de gabinete do Presidente da Câmara tinha o privilégio de em primeira mão receber a correspondência e distribui-la por quem entendia dever fazê-lo. No caso desta missiva diplomática, dada a sua importância, ela incluía-se no lote da correspondência cujo tratamento era eu próprio quem preparava, as respostas.

El Comandante explicava, na missiva, as razões que o levavam, então, a propor alterações à Constituição Venezuelana de modo a permitir a alteração à limitação dos mandatos presidenciais. Essa questão teve grande repercussão internacional. A condenação da iniciativa era generalizada, por se considerar ser uma forma de Hugo Chavez, se perpetuar no poder.

As explicações eram poderosas, e dava como exemplo o caso português entre outros – nos casos do poder executivo, legislativo, não havia limitação de mandatos, logo porque haveria a Venezuela de ter essa limitação? Tinha razão, naquele país o Presidente da República é simultaneamente chefe do executivo.

Curiosamente nesse ano estávamos a preparar uma deslocação à Venezuela, onde existe uma importante comunidade madeirense emigrada, e dei comigo a pensar que tínhamos de responder ao “el comandante” dizendo-lhe que compreendíamos as suas razões, e quiçá, poder conhece-lo pessoalmente.

O Presidente da Câmara gostou da ideia e logo deu carta branca para a missiva. E a carta seguiu.

Um pequeno problema surgiu, pois o cônsul da Venezuela, na Madeira, militar pertencendo ao círculo íntimo do “El Comandante” e amigo de São Vicente por cujo Presidente da câmara tinha um afeto especial, fez saber da sua incomodidade por não termos respeitado o protocolo dirigindo diretamente ao presidente da Venezuela uma missiva. A coisa resolveu-se, “diplomaticamente”.

Meses mais tarde partia uma numerosa comitiva para a Venezuela. Eu portava no bolso um contato, obtido através de umas ligações pessoais, de um dos assessores do Presidente Chavez, a fim de uma vez na Venezuela agilizar um encontro oficial com Chavez e o Presidente da câmara. As expetativas estavam em alta.

Na Venezuela, aquilo foi uma correria. Muitos centros de portugueses, Vários  Alcaides e Governadores a visitar. O Presidente Chávez recebia, nessa exata altura 3 outros colegas, chefes de estado, de Países sul americanos integrantes da ALCA, uma espécie de alternativa ao Mercosul, onde o Brasil tinha um enorme ascendente e Chavez queria evitar isso. Acabou por não nos receber.

Pelo meio, numa deslocação à segunda cidade da Venezuela, Maracaibo, um episódio inesquecível: devido a uma infração de trânsito, num local bem afastado da cidade, um dos muitos postos militares existentes na estrada, obriga o Jeep em que seguíamos, a parar, metralhadoras apontadas, portadas por militares muito jovens, pouco faladores, e com as mãos em cima do tejadilho da viatura uma revista minuciosa. Foi uma sensação de impotência, agravada pela circunstância do nosso cicerone, empresário à muito emigrado naquele país, aparentar um visível estado de nervosismo. A prisão parecia ser o destino próximo. O contato do assessor do Presidente Chávez, com quem havia falado duas vezes, estava no meu bolso e utilizá-lo-ia como último recurso.

Não foi preciso, os militares deixaram-nos seguir o caminho. O ambiente não era o melhor porque sabíamos que fora das cidades tudo podia acontecer, sobretudo com as autoridades. O regresso a Caracas, à noite só se realizou, porque os portugueses insistiram, soubemos então que à noite só em caravana e acontecesse o que acontecesse ninguém pararia. Arriscámos, e uma caravana de 4 viaturas em alta velocidade regressa para Caracas. No caminho um carro atravessado na via, sobressaltou toda a gente. Ninguém parou. Contornou-se o obstáculo e ala para Caracas. Todos falaram do que acontecera à Comitiva do município da Calheta que uns meses antes tinha estado em Caracas, tendo sido assaltado o autocarro em que se deslocavam em pleno centro da Capital.

Aliás, a própria residência oficial de Hugo Chávez estava cercada por militares com bunkers de metralhadoras antiaérea, fortemente armados, fazendo guarda à avenida, isto em plena cidade. Era normal disseram-nos.

Tirando isto, a verdade era que Hugo Chávez era idolatrado pelo povo humilde. O Presidente não tinha nenhum pejo em limitar administrativamente os preços dos produtos básicos. E chegava até a distribuir os produtos gratuitamente, oriundos dos confiscos aos especuladores. Não havia perdão. Mas a verdade é que não conheci nenhum português que tivesse um comércio, com vontade de fechar o negócio e regressar à Madeira. Dava para todos.

Uma das coisas que mais me impressionou foi o preço da gasolina – mais barata que a água para consumo humano. Uma festa. E festa não falta, sobretudo à noite, e fica-se a perceber, também, porque razão os títulos internacionais de miss universo vão para à Venezuela, que é o país com mais títulos desses.

No regresso a Portugal mais uma odisseia no aeroporto. Tendo ouvido uma agente policial a ler uma lista de nomes, oiço o meu nome, enquanto aguardava a abertura da porta de embarque. Aproximo-me, meio incrédulo, meio receoso, afinal estava na Venezuela, e constato que eu e mais uns quantos tínhamos de seguir a agente.

Conduziu-nos por uns corredores estreitos e chegámos a um pequeno balcão onde um agente policial com cara de enjoado, recolhe os nossos passaportes. Aí fiquei seriamente preocupado. Sem passaporte era comos e estivesse despido. Ninguém sabia o que se passava.

De novo a caminho em fila indiana, por uma infinidade de corredores, desembocamos no que pareciam as catacumbas do aeroporto, um sítio imenso cheio de bagagem de porão, diversos agentes com variadíssimas fardas, de que se destacavam os uniformes camuflados. Então percebemos o que se passava.

Havia várias pessoas a quem se perguntava que malas lhe pertenciam. Apontadas eram abertas. Tudo vasculhado. Os produtos alimentares eram provados pelos militares que de facalhão em punho picavam cortavam cheiravam. Nós os portugueses estávamos para ali esquecidos, e só os falantes de castelhanos eram atendidos.

Lá me atrevi a questionar a nossa “cicerone” que entretanto ali ficou connosco, quando chegaria a nossa vez uma vez que o avião estaria para partir em breve. Nestas alturas é que percebemos que por muitas queixas que se possa ter da TAP uma coisa é certa, a TAP não deixa ninguém para trás. O avião esperaria por nós (e esperou mais de 3 horas). Então fomos atendidos.

Um militar perguntou-me qual era a minha mala. Indiquei-a. Abri o cadeado e ele abriu a mala olhou displicentemente para o seu conteúdo e reparou numa pequena caixa, daquelas tipo aliança. E perguntou-me autoritário “qui és isto” como o meu castelhano não é famoso mostrei-lhe um PIN com o brasão de Portugal que tinha na lapela (no estrangeiro ando sempre com um símbolo nacional), e o militar pergunta-me “qui haces en to pays” e eu disse-lhe que era Chefe de gabinete de um Alcalde português. Fechou a mala de imediato e mandou-me seguir.

Uma senhora da comitiva de são vicente já com alguma idade agarra-se a mim e diz-me “ senhor doutor não me deixe aqui sozinha” Descansei-a e disse-lhe que dali não saía e perguntei-lhe qual era  a mala dela. Pedi ao militar que trouxesse aquela mala para revista porque  a senhora estava comigo. Quando ele põe mala em cima da mesa a senhora diz-me que afinal a mala era da irmã e eu disse-lhe “oiça, veja lá se tem a chave porque se não tiver rebentamos o cadeado, porque para explicar aqui ao mouro que a mala não é sua, ainda vão buscar a sua irmã ao avião e nunca mais saímos daqui”. Quando se abriu a mala o militar pega num enorme salsichão picou-o e provou desconfiado. E eu disse á vicentina “porque carga de água a sua irmã vem à Venezuela comprar uma coisa que bem poderia ter comprado lá no Sá ? (O Sá é a Sonae da Madeira). E o café, então o da delta não é melhor ? Caramelos ? Bom aquilo era uma autêntica despensa.

Quando chegámos ao avião toda a gente pensava que tínhamos sido presos. Quando se respirava de alívio o comandante do avião chama mais alguns nomes, e a odisseia da espera recomeçava de novo.

Dei comigo a pensar que a Venezuela não seria certamente um país onde eu levasse a família a passar férias.

Apesar de tudo é um país com um enorme potencial. A natureza foi muito generosa com aquele país.

E também a verdade verdadinha é que se Cristovão Colon (conhecido português que muita gente pensa que foi italiano) descobriu aquele país dando-o a conhecer ao mundo, foi Hugo Chávez quem pôs a Venezuela no Mapa Politico Mundial.

A Venezuela não será a mesma sem este personagem, odiado por alguns e amado  por muitos mais. Era um amigo de Portugal e respeitava os portugueses que contribuíram para o desenvolvimento daquele país.

Para além do mais não conheço nenhum outro país no Mundo que homenageie Portugal como a Venezuela, composta por 23 Estados e um deles chama-se “Estado Portuguesa”, em memória de uma nobre portuguesa que, aquando a colonização no século XV, se afogou num enorme rio ficando este conhecido como Rio da Portuguesa, e que mais tarde haveria de dar o nome ao próprio Estado. O gentílico deste estado (o nome por que são conhecidos os seus naturais) é Portuguesanho.

 

Oliveira Dias, politólogo

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