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No extremo mais ocidental da Europa – Painho Ferreira

Março 21st, 2013 | by Odv

topo_painhoÉ aqui que estamos como País desde o ano de 1143. Um percurso turtuoso,difícil, feito de avanços e recuos. Cinco séculos a navegar, deixando aqui e ali (em quase todo o Mundo) a “pégada” de Portugal.

Em 1974/75, fechámos oficialmente um longo ciclo colonial. Digo oficialmente porque esse longo ciclo se fecha de facto agora neste início do XXI século.

Quando um País e um Povo têm um percurso histórico como o Português, alguma particularidade há-de existir. Diria que essa peculiaridade se moldou em grande parte no próprio percurso. Foi primeiro no ouro das costas de África. Depois no Império Comercial das Índias substituido a seu tempo pelas riquezas do Brasil. Por fim ficaram a Guiné, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Sao Tomé, Macau e Timor.

Eis pois um Povo que durante séculos viveu dentro e fora do seu território de origem. Ao nosso modo fizemos do Mundo e dos mares uma estrada que imaginávamos poder percorrer incessantemente. Talvez esse prolongado modo de vida tenha influenciado a nossa capacidade de nos imaginarmos apenas aqui neste recanto mais ocidental da Europa.

Enquanto Povo são notórias as nossas dificuldades para definir um rumo colectivo. Fomos adiando o “aqui”, esquecendo o que está dentro e trocando-o pelo que o “fora” nos podia oferecer.

Quando em 74/75 nos apercebemos de repente que esse Portugal tinha desaparecido iniciou-se uma discussão sobre o que fazer neste espaço, no contexto das nações e num Mundo em acelerada mudança. Confrontaram-se então fundamentalmente duas opções:

– A primeira priveligiava a integração de Portugal na CEE e subordinava todo o seu programa político a essa integração.

– A segunda imaginava um Portugal herdeiro da sua vocação histórica e como tal não previa a adesão à CEE. Antes se apontava para vários espaços geo-políticos e geo-estrtégicos. Uma visão Atlântica com especial relevo e orientação para os Povos e mercados da América do Sul. Uma visão de parceria estratégica com as Ex-colónias. Uma visão de parceria com todo o Espaço Europeu (o qual incluia os chamados Países do Leste), mas feita com regras próprias e livre do peso decisório dos grandes  interesses económicos e financeiros. Uma visão que pretendia o desenvolvimento do País tomando como ponto de partida uma posição neutral face aos dois grandes blocos então existentes, tirando exactamente vantagem da nossa própria situação geográfica e do nosso percurso histórico. Um tal projecto não apostava em  nenhuma ditadura, antes sim previa  o aprofundamento do processo democrático. Queria-se uma democracia moderna e participada em estrito respeito pela independencia Nacional. Uma democracia económica, social e política.

A primeira opção preconizada pelos europeístas acabou por triunfar.

O Povo Português nunca foi chamado a sancionar em referendo essa opção política de fundo.

Por esses tempos começou a desenhar-se no espaço político português a já cansada mas então rendosa “teoria das fatalidades”.

Portugal seria uma Albânia atrasada e pobre caso não aderisse à CEE. Sem CEE, Portugal cairia inevitavelmente numa feroz ditadura de direita ou de esquerda. Era assim que argumentavam algumas “elites” políticas, ao mesmo tempo que acenavam com os  milhões e milhões que os “amigos “ europeus fariam chover sobre  o pobre e atrasado Portugal.

A escolha do caminho, foi  apresentada aos Portugueses não como uma opção mas como uma fatalidade. A opção europeia significou em multiplos aspectos uma ruptura coma nossa identidade criada ao longo de séculos.

A opção europeia foi, no fundo, a “miragem” que prolongou ao nível do inconsciente colectivo o ciclo colonial. Findas as Índias, os Brasis e as Colónias arribaríamos alegres e sem sobressaltos a esse novo “el dorado”: o europeu. Tudo seria fácil e sem acidentes de percurso. Para tal bastava que fossemos bem comportados, bons e aplicados alunos dessa Europa que nos “ encheria a dispensa” a troco de nada.

Assim fizemos…

Como bem comportados deixámos destruir as indústrias estratégicas, abandonámos grande parte da produção agrícola e em profundo contraponto com toda a tradição mandámos abater a frota pesqueira.Nada de especial…Apenas um exemplo: o Plano Siderurgico Nacional foi metido na gaveta como salvaguarda das grandes acearias alemãs.

Como alunos aplicados trouxemos para cá o maior rol de normas e regulamentos com a chancela UE. Fizemos crescer a burocracia e o faz de conta a níveis nunca antes vistos. Como alunos aplicados mas acríticos, fomos dizendo a tudo que sim, desde que continuassem a vir os fundos europeus. Sem o menor espírito crítico permitimos uma espécie de aculturação que se traduziu na tentativa de normalização dos pensamentos,  do comportamento e no chamado “politicamente correcto”.

Como “bons alunos” que se preocupam em agradar concluimos o que o mestre queria: Portugal deve ser um país de serviços e de turismo.

Certos da incondicional solidariedade europeia aderimos à zona euro, esquecendo os efeitos perversos que isso trazia para o frágil tecido económico português.

Manda a verdade que se diga que apesar desta visão triunfante e sobretudo fruto de um forte impulso democrático, o País conseguiu algumas victórias significativas:

– no plano das infraestruturas básicas (redes eléctricas, de águas e saneamento;

–  no plano da democratização do ensino;

–  no acesso geral à saúde materializado no Serviço Nacional de Saúde.

Em certo sentido Portugal modernizou-se tanto quanto conseguiu avançar com a democratização.

Os erros estratégicos que derivam de um posicionamento submisso face aos interesses das grandes  potências europeias, esses persistem e mostram agora as suas terríveis consequencias.

A tal Europa solidária afinal parece não existir.

A tal Europa solidária  parece querer afastar-se dos países do sul, mandando a solidariedade porta fora e insistindo em lançar milhões de pessoas na pobreza. Dizem que essa gente lá do sul é madraça, pouco trabalhadora e muito diferente deles.

No fundo o que está a ruir é o sonho de uma Europa dos povos, baseada na diversidade cultural  e enriquecida por essa diversidade.

O que emergiu e acabou triunfar foi a Europa dos grandes grupos económicos e financeiros. Essa, contudo, não quer saber nem da cultura, nem da diversidade, nem dos povos.

 Ao contrário do que alguns sectores têm defendido, não é de cócoras perante  uma tal Europa que resolveremos nenhuns dos males que nos afligem.

 Como defensor da segunda opção que nesses longínquos anos se discutia penso que chegou o momento de voltar a pôr sobre a mesa muito do que então se preconizava.

Os ultimos tempos mostram como é urgente  que os portugueses voltem a reflectir sobre o seu futuro.

A crise está aí. Como então previamos chegou o momento em que nos vieram apresentar a factura. Afinal como tantas vezes se sublinhou, nada vinha para cá de graça. Afinal precisamos de reindustrializar o País , de desenvolver a agricultura e de pescar. Precisamos, em suma de explorar os nossos recursos e as nossas potencialidades. Precisamos de independencia e soberania nacional.

A famosa espiral recessiva está aí e por isso e antes que tudo se agrave ainda mais precisamos de fazer sair do Governo os responsáveis políticos que a ela nos conduziram.

Há sempre novos rumos para  os Povos. Acabaremos por descobrir caminhos alternativos ao caos que se instalou.

Esperemos que a discussão colectiva sobre o nosso futuro se possa desta vez fazer sem fantasmas e fatalidades castradoras.

Painho Ferreira

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