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Marilyn Monroe – Oliveira Dias

Março 28th, 2013 | by Oliveira Dias

topo_oliveiradiasNorma Jean, haveria de se celebrizar com o nome artístico que titula o presente texto. A última coisa que eu esperaria ver era que esta mulher icónica iria servir de exemplo para uma comparação com José Sócrates, pela boca de José Miguel Júdice, na circunstância para ilustrar uma característica do nosso ex-primeiro ministro: a de ninguém ficar indiferente à sua pessoa.

Como o ego pessoal é algo que todos têm, logo eu não fico disso isento, dei por mim a saborear algum contentamento, por ter deixado impressa essa ideia num meu escrito anterior, antes daquele comentador de respeito.

Isto aconteceu num painel formado por uma televisão concorrente à RTP, especialmente dedicado a analisar a entrevista de José Sócrates. Este painel contou com um conjunto de personalidades bem conhecidas: José Miguel Júdice, Miguel Sousa Tavares, Ricardo Costa, e o inenarrável José Gomes Ferreira.

Achei curioso que um painel de comentadores políticos se juntasse para comentar … outro comentador politico.

Quando alguém se dá ao trabalho de analisar um dos seus pares, de forma critica, e supostamente superior ao analisado, isso revela bem um complexo de superioridade a roçar aquilo que vernaculamente se apoda de “pôr em bicos de pés”. Foi o caso.

Sei bem que este meu texto corre o mesmo risco, residindo a diferença na circunstância de todos eles serem bem mais importantes que eu, logo não corro riscos especiais.

Uma palavra curta para a entrevista da RTP a José Sócrates. Foi uma lição de Ciência Politica. O homem está em grande forma. Já todos percebemos que a seguir a Mário Soares tivemos o saudoso António Guterres, seguindo-se-lhe José Sócrates, e este não tem ninguém à sua altura.

Registei o tom dos jornalistas da RTP no trato com o seu entrevistado, tratando-o por “José Sócrates”. Está-se mesmo a ver como seria com Marcello Rebelo de Sousa, que é tratado por “sr. Professor” ou com Manuela Ferreira Leite que é tratada por “Dra. Manuela Ferreira Leite”, ou mesmo com o Presidente da República sempre tratado por “senhor Professor”. Mas com Sócrates já não é assim. É apenas tratado pelo nome de baptismo. Sobranceria a rodos.

Outro registo, que se vai tornando moda nas TV’s cá do burgo, é o entrevistador fazer uma pergunta e dar a resposta, porque o entrevistado não está ali para brilhar. Ou então o entrevistador emite uma opinião e coloca-lhe um ponto de interrogação para dar a impressão que está a fazer uma pergunta.

José Sócrates resolveu, com mestria, essas questões. Colocou os entrevistadores no seu sitio.

Agora vejamos os comentários produzidos noutra TV pelo referido painel de celebridades.

Começo com Judice, que teve a arte de trazer a Marilyn comparando o efeito que esta produzia nos outros, com Sócrates. Dei comigo a pensar como foi o homem lembrar-se daquilo ? Ah, depois percebi, ao puxar pela memória, é que Marilyn Monroe teve muita importância na vida de um malogrado Presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, e dizem as más línguas que a moça foi a desgraça do Presidente.

A comparação era adequada. Afinal Cavaco Silva foi ao tapete em minutos com as directas de Sócrates. Cá se fazem cá se pagam.

Sousa Tavares até esteve bem, mas quando rematou aquela de Sócrates nunca ter assumido nenhum erro, fiquei a pensar se não era de propósito, pois Sócrates assumiu ter errado ao ter formado um governo minoritário. Foi na trave. Outra à trave é quando Sousa Tavares sentenciou que se o regresso de Sócrates até era bom para o debate politico, nada acrescentava para resolver a crise do País.  Então ninguém avisou o Miguel que Sócrates foi convidado para fazer comentário politico … e não para governar Portugal ? só pode ser distração.

Passo por cima da jornalista pois não fixei o nome dela. Isto acontece-me quando a vulgaridade, e a impreparação campeia. Nem perco tempo, pois já não tenho pachorra para essas coisas. É da idade.

Segue-se o Ricardo Costa. Entre irmãos existe sempre o síndrome do “mano velho”, e fico sempre com a impressão que o Ricardo gostaria de ser tão bom politico como o António. Mas não é. E como jornalista de opinião politica tem o estigma de ter de se distanciar do mano, politicamente falando. Disse ali umas coisas banais, e “prontos”. Se fosse a ele ficava-me mesmo pelo jornalismo porque isto de politica, ciência politica, etc, não é para quem quer é para quem tem pergaminhos para o efeito, e ele não os tem.

Finalmente o José Gomes Ferreira. Economista de formação, percebe da poda, e sente-se como um tubarão na água sempre que se fala de números. Fica-se com a sensação que ficou muito aborrecido por não ser ele a entrevistar José Sócrates, pois dessa maneira teria colmatado a impreparação técnica dos seus colegas da RTP, isto a fazer fé nas suas próprias palavras. Uma deselegância para com os colegas claro.

Por outro lado também se fica a perceber que o economista fica fulo mesmo por não ter sido ele o entrevistado para poder ensinar os políticos a fazer bem as coisas. Tudo quanto Sócrates disse era falso, segundo o douto economista. A teoria deste economista/jornalista, frustrado por não ser politico, é que se Sócrates não tivesse gasto um tosto na educação, na saúde, nas obras públicas, etc, é que era bom e não estaríamos em crise. Se Adam Smith pudesse regressar da tumba, acusaria este jornalista/economista de plágio e exibiria a sua tese “A Riqueza das Nações” para dizer que o missal de José Gomes Ferreira era mesmo autoria dele.

Os economistas, os jornalistas e os políticos têm todos de perceber que cada um tem o seu papel. E que poucos, como Sócrates, têm a capacidade de fazer a síntese daquela tríade.

Socorro-me de outro filósofo politico, Hegel com a sua sistematização da realidade sob a forma de TeseAntíteseSíntese. Nisto consistindo a Dialéctica da vida em sociedade.

Dê José Sócrates, as explicações que der, uma coisa é certa, os gurus de pacotilha irão sempre ter a mesma perspectiva daquela senhora que quando foi assistir ao juramento de bandeira do filho, ao vê-lo marchar na parada, exclamou para o marido “Tás a ver zé, o nosso toni é o único que leva o passo certo …”.

Finalizo com uma frase que um amigo, militante numa formação partidária diferente da minha me disse um dia “ Oliveira Dias, nunca ninguém, em politica, está definitivamente morto … só se tiver sete palmos de terra por cima”. José Sócrates é bem disso exemplo.

Em jeito de Post Scriptum (PS) e contrariando alguns mentalistas cá da praça, a minha aposta, quanto ao futuro de José Sócrates, não passará tanto pela politica activa interna, mas a externa. Na Europa ou na ONU, quem sabe. Afinal António Guterres (ONU), José Cutileiro (UEO), Durão Barroso (EU), Ramiro Lopes da Silva (ONU substituindo o malogrado brasileiro que morreu no Iraque depois de ter liderado a transição em Timor Leste), todos eles passaram por altos postos internacionais. E porque não José Sócrates também ? A ver vamos.

 

Oliveira Dias, politólogo.

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