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Alternância ou alternativa? – Painho Ferreira

Abril 29th, 2013 | by Odv

topo_painhoPortugal não é um País  pobre e contudo, a Direita Portuguesa  arremeda ciclicamente com essa ideia. Antes fazia-o de forma explícita e  nos tempos de hoje fá-lo de modo implícito.

Tal ideia é o húmus  de  que se alimentam as actuais teorias segundo as quais, por exemplo, uma eventual saída da Zona Euro se traduziria numa catástrofe nacional. É ainda o alimento das teorias que secundarizam toda a problemática ligada à Soberania Nacional.

Para os ideólogos da teoria da pobreza nacional, a soberania assume um lugar secundário na condução política, o que logicamente decorre de uma visão miserabilista das potencialidades do País e do seu Povo.

A política da Direita e do Centro-Direita acaba na teoria das fatalidades e da alternância. A fatalidade consiste em “vender” que o caminho para o futuro é único. Assim sendo, tentam inculcar nas mentes a ideia de que o futuro é um qualquer lugar a que se chega sem escolhas possíveis.

A palavra alternância aparece na generalidade dos “media” em ostensiva e manipuladora substituição da palavra alternativa. O significado de ambas é, como se sabe, profundamente distinto no contexto político. Não obstante a Direita e o Centro-Direita usam a palavra alternância como se ela encerrasse em si própria a essência da Democracia. Assim,  a Democracia Portuguesa resumir-se-ia, para tais pensadores, a mudanças de PS para PSD e vice-versa, com as variantes de inclusão de alguns acólitos de ocasião. A síntese desta visão é feita com a expressão frequentemente utilizada “Partidos do arco do poder”.

Contudo, o actual momento político , económico e social que a crise fez aparecer de forma tão negra e evidente, tornou urgente que se reponha a questão das alternativas e não a das alternâncias.

É sabido que, (quem contesta?), o actual rumo político conduz a uma verdadeira catástrofe económica e social de consequências imprevisíveis.

o problema central que se coloca à sociedade portuguesa é o da produção de uma alternativa.

Encontrar e construir um caminho alternativo é uma tarefa que se impõe a todos os sectores progressistas da sociedade.

A construção desse novo rumo implica uma reflexão sobre o passado, reflexão essa feita sem complexos nem tábus e com a seriedade e profundidade que a gravidade da situação exige.

Em texto anterior abordámos a questão dos dois caminhos alternativos que se discutiram para Portugal nas décadas de setenta e oitenta do século passado. A visão que apelidámos de europeísta triunfou e é hoje tempo de fazermos um balanço do percurso efectuado ao longo das últimas décadas.

É tempo de se abordarem as novas tendências que emergem numa Europa em recessão, onde os velhos fantasmas de um passado não tão longínquo como isso, parecem ressurgir.

O que resta hoje do chamado projecto europeu a que Portugal aderiu?

Que Europa é esta em que se deitaram fora os princípios da igualdade, da convergência e da solidariedade?

Que Europa é esta em que ressurge uma pretensa supremacia dos povos e Países do Norte?

É neste barco que pretendemos navegar?

Para superar a actual crise algumas “mentes esclarecidas” apontam o caminho do Federalismo.

Imagino uma Europa federada comandada pelos vigentes valores éticos, políticos, financeiros, económicos e sociais e  nela não consigo vislumbrar um Portugal desenvolvido nem um Povo livre da pobreza e feliz. Vejo sim a continuação da perda de soberania, o agravamento da crise,  a marginalização e o aumento do fosso que já hoje separa os países do norte e do sul da Europa.

A opção federalista é a fuga para a frente!

A opção federalista não carrega consigo mais prosperidade e igualdade mas sim, mais dependência e perda da Identidade Nacional. Não é, portanto, uma alternativa.

Como afirmámos, é sem dúvida a produção de uma alternativa que está em jogo. Uma tal alternativa tem que ser construída pelos que não aceitam este caminho de declínio nacional, pobreza e perda de soberania.

A opção alternativa tem que ser construída pelos sectores sociais e políticos que não endeusam os chamados “mercados”, palavra que mascára uma verdadeira agiotagem moderna que tomou conta do mundo financeiro e de largos sectores da vida política que se lhes submetem servilmente a troco de “patacos”.

É triste observar como alguns sectores políticos portugueses se “ajoelham” perante os  chamados “mercados” e desprezam  o sofrimento de muitos milhares de famílias que caíram abaixo da linha da pobreza.

É inaceitável que continue este quadro político de total submissão a essa minoria financeira espoliadora!

É intolerável que Portugal tenha  um Ministro das Finanças que se comporta como um verdadeiro porta-voz dos interesses da  alta finança especuladora! Ministro esse que deixa os portugueses envergonhados quando, pelos jornalistas irlandeses, é apelidado de ministro da troika!

Palavras duras! Mas como dizer de modo diferente?

Como fazê-lo num quadro em que se assiste, por exemplo, em Portugal e Espanha a que milhares de famílias foram despejadas das suas casas e condenadas a “viver debaixo da ponte”? A responsabilidade das instituições financeiras e das próprias políticas governamentais não existe neste processo? O que dizer quando o número efectivo de desempregados em Portugal rondará em termos reais 1,5 milhões?  O que dizer quando se assiste diariamente ao fecho de lojas, fábricas e a uma hecatombe em practicamente todas as actividades económicas? Que dizer quando a frieza de todos os números nos mostram uma economia em profunda recessão e consequentemente uma enorme maioria social  a empobrecer?

São vastos os sectores da sociedade portuguesa que hoje fazem frente à política do Governo.

É determinante compreender o facto de que uma alternativa só pode  ser encontrada no rompimento com a actual lógica política.

É igualmente decisivo que os portugueses identifiquem com clareza quem são os protagonistas de cada um dos lados.

A confusão e o embuste terão que ser combatidos.  É um combate desigual pois, para a ideia da alternância trabalham practicamente todos os analistas e comentadores ao serviço dos interesses instalados. Mas, como se costuma dizer, só é vencido quem desiste…

Portugal não é inevitavelmente um  país pobre. O Dr. Álvaro Cunhal desmontou magistralmente as teorias que defendiam a pobreza intrínseca dos recursos de Portugal. Mostrou, (vale a pena relê-lo), que a pobreza se devia sobretudo à política das classes então dominantes.

Hoje o empobrecimento quase generalizado tem origem em políticas similares e em escolhas incorrectas.

A pobreza hoje combate-se também lutando pela defesa da soberania dos povos.

Hoje, a pobreza combate-se forjando novos caminhos em que a independência  face aos centros de decisão trans-nacionais não é uma questão menor.

Os que dizem defender uma nova política para Portugal terão de colocar a questão da soberania na sua agenda.

O desenvolvimento económico e o progresso social não se conseguirão obter pactuando com aqueles que acreditam, ou  fingem acreditar, que é neste entregar progressivo da soberania do Povo Português aos centros de decisão europeus que está a salvação.

A Democracia Portuguesa pode produzir uma alternativa ao rumo de desastre que tem vindo a ser trilhado. Assim o entendam os portugueses que nos dias de hoje sofrem na pele as consequências de políticas desastradas ao serviço de minorias cuja ganância não tem limites.

Não haja dúvidas: uma alternativa pode existir num quadro democrático e multi-partidário. Uma tal alternativa não desembocará em qualquer ditadura. Pelo contrário, essa alternativa significa o prosseguimento do caminho aberto a 25 de Abril de 1974. Essa alternativa criará as condições para o crescimento económico e para uma melhor e mais justa distribuição da riqueza produzida.

Ao invés, o prosseguimento do rumo político actual conduzirá inevitavelmente a uma ditadura, mesmo que a “capa” de uma democracia meramente formal a tente esconder e disfarçar.

O Partido Socialista tem nos tempos actuais a  responsabilidade histórica de compreender que a criação de uma verdadeira alternativa é impossível sem o rompimento com as actuais políticas.

O que está em causa nos tempos de hoje são as opções políticas de fundo e não meros jogos de poder.

Se o Partido Socialista quiser contribuir para a criação de uma alternativa deve procurar, sem complexos, entendimentos com os sectores políticos e sociais que à Esquerda têm combatido as orientações políticas vigentes.

Se quiser ser alternância então entender-se-á com a Direita.  Contudo, nesse caso, nada de determinante mudará e o caminho para o desastre irá aprofundar-se.

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