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Odivelas – O Melhor de Nós (Vós)… Ficou de fora.

Julho 20th, 2013 | by Antonio Tavares

topo_ATNão sou natural de Odivelas, embora esteja por cá há quarenta e cinco anos. A minha infância foi passada num dos Bairros Populares de Lisboa onde os Pátios e Vilas eram o que hoje se poderia chamar de condomínios populares fechados. Ainda existem alguns destes condomínios populares mas aceito que, para Edgar Valles, isto seja uma realidade perfeitamente desconhecida. Nos anos cinquenta, nestas comunidades, o saber dos mais velhos e sobretudo das mulheres mais velhas era muito respeitado. Eu como muitos outros da minha comunidade nunca soubemos o que era médico e, com exceção das vacinas que levei na escola primária, nunca soube o que era médico ou medicina tradicional. Todos tivemos papeiras e afins e as jovens mães sempre foram orientadas e aconselhadas pelas mulheres mais velhas, algumas com conhecimentos das plantas e respetiva aplicação medicinal. Antes dos exames e provas nacionais sempre bebi o respetivo chá de laranjeira… Obviamente que nasci em casa mais uma vez “à sombra” das mulheres mais velhas da comunidade. As experiências de vida são muito importantes na formação da personalidade e na verdade grande parte dos meus valores vêm desse tempo até aos 13 anos. Um dos valores fundamentais é o respeito pelos mais velhos, homens ou mulheres e, ainda para mais relativamente à minha Mãe, jamais permitiria que algum energúmeno, por mais graus de poder e sapiência que tivesse, mandasse calar a minha Mãe. São experiências diferentes e são valores diferentes. Na comunidade de onde venho não havia lugar à subserviência e muitos pagaram caro por isso.

Antes de entrar no âmago da questão deixo aqui alguns apontamentos:

Como compreenderão todos os que me leem, as minhas preocupações são do foro ético e moral. Sobre as leis e o seu uso e interpretação socorro-me de alguns amigos, o que é natural não sendo essa a minha especialidade e, não reconheço a Edgar Valles, qualidade superior a estes, na interpretação da matéria em causa. Aliás é normal que, sobre uma mesma matéria, existam várias interpretações dos especialistas e em muitos casos até, os juristas são meros instrumentos na persecução de determinados objetivos políticos. Voltando ao PS, eu ainda sou do tempo em que na banca ao cimo das escadas da sede do PS de Odivelas, se encontravam livros de Antero de Quental e Errico Malatesta, acredito que hoje não façam sentido até porque a palavra Socialista foi desvirtuada pelo PS que lhe deu valor de social-democracia… a formação teórica no PS é o que se sabe. Para que fique claro nunca fui do PS nem militante ou simpatizante de qualquer partido. Nesta como na resposta anterior vou evitar entrar demasiado na vida interna do PS mas, como o Edgar Valles já deve ter compreendido, posso ir tão fundo quanto o Edgar Valles pretender nas guerras dos Cristãos Novos e Cristão Velhos. Uma palavra final para esse conceito de “isenção” de que Edgar Valles e outras pessoas do PS me acusam de não respeitar. Em primeiro lugar há muita gente que não consegue distinguir o que é a atividade pessoal e a atividade profissional. Qualquer Cidadão não perde o seu direito de opinião pelo facto de ser jornalista. Essa ideia peregrina que os jornalistas são anjinhos inócuos, incolores e inodoros, deve ser norma no paraíso mas aqui no inferno as coisas são diferentes e se repararem nos debates e programas televisivos, os jornalistas, cada vez mais, têm opinião e transmitem-na até pela forma como colocam as questões e fazem determinadas perguntas. O que não é sério é alguém fazer-se passar pelo que não é. Na brincadeira costumo dizer que um jornalista que apenas relata notícias sem qualquer sentido crítico é um papagaio e, o que há mais por aí, são papagaios castrados a papaguear apenas aquilo de que os deixam falar.

Vamos então ao artigo de Edgar Valles, jurista que, segundo o seu código civil dos Sapateiros, ousou, não sendo escritor nem jornalista, expressar a sua opinião por escrito através de um Órgão de Comunicação Social (“Odivelas.com”), violando a norma fundamental (segundo ele) que estabelece que artigos nos jornais são para os jornalistas.

Comecemos pela realidade partidária do PS que Edgar Valles afirma eu desconhecer. Caro Edgar Valles, como já lhe disse antes, conheço muito bem a realidade do PS e quando tenho alguma dúvida tenho fácil acesso à informação. Não me parece adequado, relevante e com interesse público, dar público conhecimento das tricas partidárias mas, sei bem a relação de forças no PS – Odivelas, quem apoiou e esteve contra a candidata Corália, de que lado está o Edgar Valles, como foram escolhidos para Setembro os elegíveis do PS para a Assembleia Municipal… Eu ainda sou do tempo (2009) em que a Secção de Odivelas escolheu Nuno Gaudêncio e a CPC do PS impôs Luís Gameiro, da Entrevista ao “Odivelas.com” de Nuno Gaudêncio e do seu respetivo castigo com suspensão das funções na CMO (Adjunto da Vereadora Eduarda Barros). Convirá de qualquer modo não passar a ideia para o exterior que tudo decorreu na paz do senhor com esta candidatura do PS na Pontinha – houve impugnações a este processo e as respostas e justificações davam um excelente libreto de Maquiavel. Acrescente-se que era possível ter ido mais longe com os processos de impugnação mas não o quiseram fazer…

Voltemos à Pontinha e aplicando a lógica, a ética e o bom senso deixo a seguinte interrogação: Se os candidatos foram escolhidos em função da nova realidade que será a união de Freguesias a partir de Setembro, porque não foram desde já reorganizadas as Secções tendo em conta essa mesma alteração e só então, em coerência, escolhidos os candidatos? Eu respondo: Porque dessa forma a Secção de Odivelas não poderia ter uma artimanha técnico-jurídica para ter interferido na escolha do candidato da Pontinha. Aliás para que serve uma Secção que não escolhe o seu candidato? Para pendurar balões e agitar bandeirinhas? Como escreve Edgar Valles “A Lei nº 11-A/2003, que introduziu a denominada pseudo-reforma administrativa, criou no papel a freguesia da União das Freguesias de Pontinha e Famões, que só terá expressão material e concreta com as próximas eleições autárquicas, a realizar em 29 de Setembro.” Como já disse antes há muita gente que é contra a reforma administrativa mas aplica-a, até antecipadamente, quando lhe dá jeito, como é o caso de Edgar Valles. Ou seja, o candidato à Pontinha/Famões é escolhido para uma nova realidade que não é a mesma da organização atual das Secções, visão distorcida que convém aos interesses da Secção de Odivelas.

Sobre a questão de candidatos escolhidos pela mão invisível do chefe, recordo ao Edgar Valles a escolha de Nuno Gaudêncio pela sua secção de Odivelas em 2009 e a decisão de Susana Amador de impor outro candidato, como escrevi acima. Sobre chefes e Secções estamos falados. Quanto aos terceiros que me terão “assoprado” e aos fogos, não irei muito longe até porque não me parece curial essa expressão mas como lhe disse acima “Sobre as leis e o seu uso e interpretação socorro-me de alguns amigos” e assim continuarei a fazer.

Penso que por esta altura, Edgar Valles, já tenha compreendido que ao contrário do que afirma, conheço perfeitamente a realidade do PS, os jogos de poder e alianças nos quais Edgar Valles desempenhou um papel ao serviço dos interesses de uma fação.

Voltemos às leis…

Segundo Edgar Valles o artigo 15º do regulamento eleitoral interno do PS dá razão à intervenção da secção de Odivelas na escolha do candidato da Pontinha e Famões. E até transcreve o seu nº 5 “ os secretariados das concelhias e das federações, em articulação com as Assembleias gerais de militantes, assumem a coordenação da escolha dos candidatos quando o novo território não coincida com apenas 1 estrutura de base”, e daqui conclui “limpinho, limpinho”.

Bem prega frei Tomás. Sinceramente, não vejo como se retira aquela conclusão. Se quem manda na federação e na Concelhia tem a responsabilidade de coordenar, em articulação com as Assembleias gerais de militantes, isto significa exatamente o quê? É prosa para inglês ver. De acordo com os Estatutos (e os regulamentos não podem alterar os estatutos) continuam a ser as secções quem escolhe os candidatos das freguesias, e nem sequer é passível de avocação.

E mais nos diz Edgar Valles, que “chegará o momento de se proceder à reorganização da secção de Odivelas … até lá os militantes residentes em Famões estão vinculados à secção de Odivelas”.

Bem prega frei Tomás. Os militantes de Famões estão vinculados à secção de Odivelas, e os militantes residentes na Pontinha que têm a ver com os de Odivelas? Como e porquê os militantes da Pontinha têm de medir forças com os militantes de Odivelas?

A única maneira de resolver a questão é perceber que com a criação de um novo território, como é o caso da união Pontinha e Famões, nesse novo território subsiste uma única secção de residência, que é a da Pontinha. O problema é que os militantes de Famões são à volta de 20 ou 30, e os de Odivelas são mais de 1.000.

Pois, mas esse novo território só tem eficácia jurídica no dia 29 de Setembro, dirá Edgar Valles.

Bem prega frei Tomás. Está bem de ver que se fossem apenas os militantes do PS que residem em Famões e na Pontinha a escolher o candidato (única via sensata e sem esquemas), Eugénio Marques ganharia calmamente, por isso os dirigentes da secção de Odivelas, que apoiavam descaradamente a Corália Rodrigues (lá se foi a imparcialidade a que estavam obrigados) tiveram de chamar a votar os outros mil e tal militantes que nada têm a ver com Famões e muito menos com a Pontinha, para darem a Vitória a Corália Rodrigues.

Bem prega frei Tomás, mas se na vertente jurídica as coisas só “à força” encaixaram (teve de ser assim), registo que as outras considerações designadamente as que se referem à tomada de poder por parte de quem inicialmente foi chamada a ajudar Eugénio Marques já nada se diz. Aceito isso como uma confissão de concordância com o que escrevi.

Hesitei muito no título deste texto que tinha como opção inicial “Secção do PS da Pontinha Vende-se – trata Edgar Valles”. Decidi-me por um título mais ligado a um cartaz que se vê agora pela Pontinha e Famões. Ambos os títulos refletem a triste realidade de um PS e de uma Secção da Pontinha que escolheu um candidato – Eugénio Marques, o qual, agora, se vai apresentar como Candidato Independente. Edgar Valles e todos os envolvidos devem estar muito orgulhosos…

António Tavares

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