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Um folhetim rasca! – Painho Ferreira

Agosto 5th, 2013 | by Odv

topo_painhoPoucas sucessões de acontecimentos espelharão melhor a real situação política do País, que o conjunto de factos que decorreu entre a demissão do Ministro Victor Gaspar e os dias de hoje. Trata-se de uma novela rasca da qual o respeito pelo sofrimento de milhões de portugueses esteve totalmente ausente. O desenrolar desta história mostra bem como muito mais do que alternância precisamos de desenvolver e criar uma alternativa.

Vale a pena passar em revista os acontecimentos.

Primeiro: pouco tempo após a greve geral conjunta e por pura “coincidência”, o Ministro das Finanças, Victor Gaspar, apresentou o seu pedido de demissão. Reconheceu então dois pontos que importa reter:

a)     O falhanço das políticas seguidas, com o consequente falhanço das metas que o Governo se propunha atingir;

b)    A falta de coesão na coligação que sustentava essas políticas e a falta de apoio social às mesmas políticas.

Segundo: Passos Coelho, nomeia de imediato para substituir V. Gaspar, a Secretária de Estado deste, Maria Luis Albuquerque. Esse gesto leva a reter que o Primeiro Ministro não pensava em alterar as políticas que o seu Ministro das Finanças acabava de reconhecer que eram um profundo fracasso.

Terceiro: o Ministro Paulo Portas seguiu Victor Gaspar e apresentou a sua “irrevogável” demisão. Dessa demissão deve reter-se que:

a)     A demissão era fruto de uma reflexão profunda e das divergências insanáveis com o seu parceiro de coligação, o PSD;

b)    Segundo  o próprio Paulo Portas a continuação no governo seria uma farsa e um processo de aviltamento pessoal.

Quarto: Maria Luis tomou posse, horas depois de Paulo Portas se demitir, numa cerimónia patética da qual estiveram ausentes os ministros do CDS. Com aparente embaraço o Presidente Cavaco Silva deu posse à Ministra e manteve o seu habitual silêncio.

Quinto: Passos Coelho veio às Tvs para dizer que:

a)     Não aceitava a demissão de Paulo Portas;

b)    Não se demitia.

Deve assim reter-se que Portugal ficou com um Ministro dos Negócios Estrangeiros refém do Primeiro Ministro. Pela primeira vez (que eu me lembre) é negado a alguém o direito de se demitir. Note-se, no entanto, que o modo como Passos Coelho negou a demissão a Paulo Portas é o modo de alguém que sabe que o pode fazer com toda a impunidade, o que reforça a ideia de um Ministro refém. Entretanto começou a circular que no dia seguinte se demitiriam os restantes ministros do CDS.

Sexto: Cavaco Silva interrompeu o seu crónico silêncio e veio propor um “acordo de salvação nacional”! Com quem? Com o PSD, o CDS e o PS.

Cavaco percebeu que a política de direita tinha sido derrotada e resolveu intervir para a salvar! “Democraticamente”, como é seu timbre, excluiu do putativo acordo o PCP e o BE.

Para conseguir um tal acordo Cavaco “dá um rebuçado” a A. J. Seguro: eleições antecipadas para 2014, se este se portasse bem, e ajudasse a salvar a política de direita que “tinha caído na lama”!

Sétimo: A. J. Seguro reagiu e disse que só negociava a cinco! Ou queria salvar a face ou mostrou que não tinha percebido que o P. R.  não pretendia nenhum acordo de salvação nacional, mas apenas um pacto para salvar a política dos seus protegidos no Governo, política essa que tinha acabado de ser derrotada.

PCP e BE respoderam ao PS que estavam disponíveis para dialogar mas no âmbito da criação de uma alternativa às políticas que tinham sido seguidas até ao momento. Parece lógico, até porque o P. R. os tinha excluido à partida dessas negociações. Mas o que é lógico para o comum dos mortais não faz sentido no cérebro de A. J. Seguro!

Oitavo: A. J. Seguro sentiu-se então livre para “cair no colo da direita” e disparou contra o “sectarismo da esquerda” , PCP e BE que, pasmem os espíritos mais esclarecidos, nunca estão disponíveis para assinar acordos que salvem as políticas de direita. Seguro e o PS avançaram, assim, para negociações a três…

Nono: do que se passou nesses encontros nada “transpirou” para a opinião pública, o que provocou o gáudio de Sua Excelência o Sr. Presidente da República e de parte dos comentadores habituais, que nisso conseguiram ver uma prova de grande maturidade política dos intervenientes nas conversações .

Ao fim e ao cabo, os portugueses não têm o direito de saber o que se “cozinha” nas suas costas! É melhor entretê-los com telenovelas e futebol!

Décimo: O Presidente, “apaixonado” pelas questões do mar, partiu em excursão para as Ilhas Selvagens, muito bem acompanhado por A. J. Jardim.

Entre  festinhas a umas cagarras e umas pisadelas a lacráus, disse para o Continente que lhe chegavam boas notícias de Lisboa. Assim mostrou que apesar das léguas marítimas que o separavam da Troika Portuguesa, se mantinha atento e vigilante para que ela encontrasse o tal acordo de salvação, que tão bem caíria no goto dos “mercados” e dos credores internacionais!

Décimo Primeiro: Saem a terreiro alguns históricos do PS como Mário Soares e Manuel Alegre e publicamente “puxam as orelhas” a A. J. Seguro. Que raio anda o rapaz a fazer? Por este caminho o PS ainda acaba por se partir ao meio! A. J. Seguro fez então marcha atrás! Contrariado, supõe-se…

Décimo Segundo: Passos Coelho aproveitou, foi às TVs, e já senhor dos acontecimentos avisou que não queria eleições em 2014, ou seja, Passos já tinha percebido que tinha na mão A. J. Seguro, o CDS e o próprio P.R.  O Presidente que se deixasse de conversa: com acordo ou sem acordo as eleições seriam quando a Ele (Passos Coelho) bem lhe aprouvesse! Quem assim fala é porque pode…

Décimo Terceiro: em apenas 24 h o que eram (a crer nalguns comentadores e na expressão facial de Cavaco Silva) umas negociações bem sucedidas, passaram a  ser um total fracasso!

Um dia saberemos o que se terá passado. Consta agora por aí que o PSD terá entregue por “engano” uns documentos secretos ao PS! Ora isto eleva os “suspense” da novela! Uma boa novela precisa de momentos como este…

Décimo Quarto: A. J. Seguro veio a público explicar que o acordo tinha falhado. Da ladaínha retira-se que nada tinha percebido do que se estava a passar. Aparentemente Seguro sonhava converter a direita e fazê-la aceitar  as propostas “sensatas” do PS.

De relações de força e de táctica Seguro não percebe nada e nem entendeu como, afastando-se da esquerda, a direita o “meteria no bolso”. O PS terá que resolver mais tarde ou mais cedo este problema de liderança.

Décimo Quinto: Cavaco regressou das Selvagens e falou ao País para dizer

– Afinal faço o que Passos Coelho manda. Fica o Governo que ele quiser, que cá estarei para o suportar!

– O PS que “tire o cavalinho da chuva” que agora só haverá eleições em 2015!

– A bem da Nação!…

E assim se resolveu a crise!

Fica Portas, sai  Álvaro (que de facto nunca entrou), entra Machete (que nunca saíu), pernanece Maria Luis (embrulhada nas Swaps), entra a nova estrela, Pires de Lima, acompanhado de Moreira da Silva (o “politicamente correcto”). Paulo Macedo continuará a cobrar impostos no SNS e Mota Soares aparecerá de novo “proletarizado” na sua lambreta.  Portas volta  “irrevogavelmente” a sorrir publicamente, enquanto Aguiar Branco se entretem com os negócios da defesa. Entram novos Secretários de Estado e, por mero acaso, quase todos eles estão ligados à alta finança.

Não se preocupem pois tudo isto é natural e até coincide com a época das contratações no futebol!

Este “folhetim” da direita portuguesa não tem obviamente graça nenhuma até porque se liga à entrada na “linha da miséria” de milhões de pessoas.

Estes factos, são contudo, o espelho de uma direita desorientada e moribunda, uma direita que tinha sido derrotada e que foi salva pelo P. R. com a inaceitável ajuda de A. J. Seguro. Este “sopro de vida” dado pelo PS ao Governo é sem dúvida o mais lamentável. Creio mesmo que ficará para a história  do PS como uma mancha negra de consequências ainda imprevisíveis.

Como afirmámos anteriormente, o PS tem que escolher entre ser alternativa ou ser alternância. Como se acabou de provar, cada vez que o PS se decide pela alternância é “engolido” pela direita e o País dá mais um passo em direcção a um desastre social que dia a dia assume maiores proporções. A alternativa só pode ser construída com a esquerda.

Vem-me à memória uma canção de Pete Seager e a sua  letra: “De que lado estão vocês rapazes?De que lado estão?…” . Não se aperceberam que tinhamos uma maioria, um governo, um Presidente e um caminho certo para o desastre?

Espanta-me como A. J. Seguro se consegue ainda manter à frente do PS!

Que diabo! Escolham lá um lider mais inteligente, que pelo menos não vos faça passar pela vergonha de ser enganado por um politíco de “segunda água” como Cavaco Silva!

Ao isto escrever, quero afirmar e deixar escrito que não pretendo ofender o P. R.. É apenas a minha humilde opinião…

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