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Espaço-Tempo – Painho Ferreira

Outubro 29th, 2013 | by Odv

topo_painhoOs problemas das relações entre espaço e tempo sempre intrigaram o ser humano. Durante séculos o Universo foi concebido como uma realidade no centro da qual se encontrava o nosso “planeta azul”. Galileu pagou caro perante o Santo Ofício da Inquisição a ousadia de admitir um sistema segundo o qual o Sol não girava em torno da Terra, mas sim que tudo se passava exactamente ao contrário.

Séculos depois Einstein  veio demonstrar que o tempo é afinal uma quarta dimensão que se soma às três que intuímos com toda a facilidade. Segundo a Teoria da Relatividade, não faz sentido falar de espaço sem introduzir a variável tempo. Assim sendo, espaço e tempo fundem-se numa realidade única. Afinal o tempo não passa por nós, mas exactamente ao contrário, nós é que passamos pelo tempo.

Os cientistas dos nossos dias investigam aspectos que ao senso comum podem parecer bizarros:

– Qual a razão pela qual o tempo parece fluir em sentido único? Qual a razão porque não parece possível inverter o sentido do tempo? Porque envelhecemos sempre e não acontece, pelo menos uma vez, que ao invés, rejuvenesçamos? Tais estudos suportam-se em complexos cálculos matemáticos de que a física laboratorial tenta obter confirmação experimental. O recente exemplo do famoso bosão de Higs é elucidativo dos modernos caminhos da ciência.

Para além do mais a ciência moderna não se limita à abordagem de um Universo quadridimensional mas parece garantir que estamos mergulhados numa realidade bem mais pluridimensional. Não satisfeitos com isso os cientistas colocam nos seus estudos as hipóteses de Universos paralelos e até parece concluírem que a partícula de matéria mais ínfima não é afinal partícula mas sim vibração pura.

Seja como for parece ser possível reter duas questões:

– A primeira é que nos movemos em referênciais de multiplas dimensões.

– A segunda é que, mesmo as maiores evidências do senso comum, podem ser cientificamente postas em causa.

A primeira questão ensina-nos a não ser precipitados pois a questão dos referenciais não é uma questão menor. As análises que fazemos, qualquer que seja o aspecto da vida que se aborde, não podem iludir a questão dos referenciais. Assim sendo parece que,  para quem estuda os fenómenos sociais, políticos ou outros quaisquer, há uma obrigação de considerar o referencial da abordagem que se leva a efeito. Trocar por vezes os referenciais de análise parece ser um método recomendável. Cada referencial mostrará uma realidade diversa. Contudo a essência da realidade continua lá esperando “docemente” a análise científica ou, se quisermos dizer de outro modo, esperando que o tempo e a evolução a demonstre essa realidade em toda  a sua pujança.

Tudo isto vem a propósito das teorias das inevitabilidades que andaram e andam em voga nos dias de hoje. Pessoalmente não acredito em inevitabilidades na exacta medida em que elas se transformam em certezas absolutas e daí passam com toda a facilidade à categoria de dogmas. Sou mais adepto do Princípio da Incerteza de Eisenberg.

Aos que se afirmam detentores de certezas absolutas apetece-me sempre sugerir que um pouco de “dúvida metódica” não faz mal a ninguém.

Não sei como viverão os portugueses daqui a uns anos. Se a trajectória induzida pelos actuais governantes se mantiver, tudo indica que globalmente estaremos mais pobres e provavelmente mais infelizes e sofredores que agora.  Sei no entanto que tudo se move e que, o que nos dias de hoje nos parece fora do senso comum, poderá vir a ser uma realidade assumida num espaço-tempo a que chamamos futuro.

Coloco-me assim no debate público assumindo dúvidas e incertezas, “desconfiando” sempre das análises que conduzem ao fim da História.      Creio aliás que esta será porventura uma das maiores contribuições das Teorias Marxistas no que à análise social e histórica diz respeito.

Com dúvidas e incertezas acredito que o nosso Poder Local Democrático poder ser um excelente espaço-tempo de debate, de confronto franco, directo e enriquecedor. Pode-o ser para todos os actores políticos mas sobretudo para este País empobrecido forçadamente por políticas desastradas  e desastrosas. Assim sendo, cabe a todos os eleitos o confronto leal e aberto na defesa do que pensam e daquilo que pensam aqueles que os elegeram. Essa defesa não pode, nem deve ser cega. O caminho mais seguro será com elevada probabilidade o contacto permanente com todos os eleitores. Gosto de chamar a isso o  exercício de uma política de proximidade. Assim, urge criar condições para que essa proximidade seja concreta.

Será bom que os eleitos não esqueçam que esse conjunto de cidadãos  que os elegeu, se move igualmente num universo pluridimensional que não é absolutamente controlável, pelo simples facto de que existe por si mesmo.

Assim, o confronto de pontos de vista será vazio se corresponder apenas a uma retórica que não desperta em cada um a necessária dúvida. Ora, a predisposição para sentir essa dúvida é uma questão de ordem subjectiva a que uma cultura democrática livremente assumida pode dar um impulso significativo.

Uma cultura democrática moderna deve ter um conteúdo político, económico e social. Terá porventura o dever de se aprofundar em todas as esferas da vida e isso é uma tarefa gigantesca para a qual cada um de nós parece ter a obrigação de contribuir.

Parece que tal como a seta do tempo é de sentido único, também a evolução geral das sociedades humanas segue a mesma lei. Haverá avanços e recuos, marchas à frente e retrocessos civilizacionais, mas no final o novo substituirá inevitavelmente o que é velho e caduco.

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