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A Democracia e o Interesse Nacional – Painho Ferreira

Dezembro 12th, 2013 | by Odv

topo_painhoHoje em dia a defesa de um Portugal soberano, justo e desenvolvido passa pelo confronto “olhos nos olhos” de todos aqueles que têm como matriz comum a defesa do sistema democrático.

Quando assim dizemos, referimo-nos seguramente não a formalidades democráticas mas a uma democracia com conteúdo económico, social e político.

Aprofundar a democracia e o seu conteúdo significa aceitar a livre participação dos povos e, nomeadamente dos democratas de diferentes correntes e opiniões. Significa alargar um espaço público livre, em que o debate, a abertura ao diálogo e a procura de novas soluções para o país sejam uma realidade.

Acredito que a defesa da democracia e o interesse nacional são nos tempos actuais dois vectores de acção inseparáveis.

Não é possível defender a democracia alienando os interesses nacionais.

No quadro das relações internacionais tem sido frequente que muitos dos nossos responsáveis políticos, numa clara ingenuidade, falta de compreensão, pura cegueira, ou obstinação ideológica, substimem os interesses nacionais ou os mitiguem, em troca de supostas solidariedades interncionais, nomeadamente a solidariedade europeia.

Nas relações internacionais diria que, o que deve comandar, o que deve ser decisivo são os interesses nacionais.

Quando um país permite que os seus interesses nacionais sejam secundarizados no espaço geo-político em que se pretende inserir, perde força no contexto das nações, o seu papel internacional torna-se reduzido e é frequentemente amesquinhado.

O preço de tais políticas é sempre pago pelos povos.    Creio que é isso que em grande medida tem acontecido em Portugal.

Julgo que muitos de nós sentimos que essa alienação dos interesses estratégicos e da soberania de Portugal, enquanto nação de muitos séculos, terá sido um dos maiores erros das últimas décadas. Esse erro aprofundou-se no contexto da actual crise em que os nossos governantes se sentam servilmente para negociar com três funcionários estrangeiros os destinos de todos nós.

Como a vida vem provando, a alienação de soberania para um suposto quadro europeu solidário não contribuiu de forma sustentável para o desenvolvimento nem para a promoção da justiça social.

Essa alienação de soberania, subtilmente acompanhada de uma tentativa sistemática de introdução de um normativo a que a cultura portuguesa é alheia, compromete o nosso futuro colectivo.

As evoluções mais recentes vêm mostrando uma Europa dividida e incapaz de responder à crise internacional. Essa dita Europa solidária, primeiro a uma velocidade, depois a duas e agora a nenhuma, encontrou como solução para os seus problemas o esmagamento e a espoliação dos países periféricos.

A tal Europa, de facto a Europa dos grandes interesses económicos e financeiros, encontrou como solução a deslocalização das suas indústrias, e colada a essa deslocalização, o desemprego e o sufoco das economias periféricas. Como consequência, milhões de cidadãos entraram na pobreza e no desespero.

Em Portugal a direita e a extrema direita neo-liberal tentam fazer-nos crer que todo este quadro é inevitável.

Sabemos que não há vias únicas e recusamo-las.

À conta das inevitabilidades vão realizando paulatina mas seguramente uma quase completa destruição e alienação do aparelho produtivo nacional e em particular dos sectores estratégicos da nossa economia.

Creio que existe uma enorme tradição interventiva dos sectores democráticos da sociedade portuguesa.

Nestes momentos difíceis julgo que os portugueses esperam desses sectores da sociedade uma palavra, um grito de protesto e indignação.

Os portugueses esperam também a contribuição desses sectores para o desbravar de novos rumos e caminhos que ponham o ser humano no centro das preocupações e consequentemente como centro da actividade política.

O centro das preocupações não pode continuar a ser, permitam o sarcasmo, “os nervos dos mercados agiotas”!

Estamos talvez perante o mais brutal ataque às conquistas transformadoras de Abril.

O desenvolvimento de uma ampla frente social que possa travar as sucessivas investidas do governo contra o próprio quadro Constitucional, está pois na ordem do dia.

A frente social e política que poderá determinar a derrota das políticas neo-liberais de direita encontará seguramente terreno de acção e de luta ideológica em muitas esferas da vida colectiva.

Contudo, é também no terreno do concreto quotidiano que nos devemos manifestar e intervir.

O que se passa hoje com os ENVC é na realidade um verdadeiro atentado ao interesse nacional, interesse esse que tem nas políticas do mar um vector estratégico.

Estamos perante um claro crime contra os interesses de Portugal.

Do meu ponto de vista os ENVC deveriam continuar no sector empresarial do Estado. A este caberia nomear para a sua administração gente verdadeiramente convicta  da defesa do interesse público.Tal gente encontraria seguramente mercado para a viabilização, rentabilização e desenvolvimento dos estaleiros.

Está por demonstrar a teoria da superioridade da gestão privada, teoria essa tão do agrado dos nossos actuais governantes.

A privatização dos ENVC só tem  justificação na corrente ideológica reinante de tudo entregar aos grandes grupos económicos nacionais e estrangeiros.

O interesse estratégico nacional não conta para quem nos governa actualmente.

A fúria privatizadora chegou às próprias empresas lucrativas do estado como os CTT’s, ANA, EDP, etc,….Um dia será claro para todos o que agora parece opaco e escuro. Saberemos então, quem realmente lucrou com tais crimes económicos. Saberemos os seus nomes e de onde vieram.

Saudar os trabalhadores dos ENVC que numa verdadeira lição de ética e de patriotismo vêm afirmando ao País que não pretendem indeminizações mas sim trabalho, trabalho esse que permita manter de pé uma industria tão importante para o futuro de Portugal, é um acto interventivo que aqui desejo expressar.

Painho Ferreira

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