breaking news

Odivelas – 15 Anos … – Oliveira Dias

Dezembro 14th, 2013 | by Oliveira Dias
Odivelas – 15 Anos …    – Oliveira Dias
Colunistas
0

topo_oliveiradias14dez2013

14 de Dezembro de 2013

Há precisamente 15 anos, pelas 18 horas, nasciam, em Portugal dois novos municípios – Odivelas e Trofa, fruto da concepção operada 1 mês antes, em Novembro, com a aprovação destas duas autarquias, tendo sido apenas no caso de Odivelas por unanimidade.

De então para cá muita coisa mudou, em Odivelas. Afastados os que se envolveram no levantamento de colunas deste novel município, com uma única excepção que chegaria a ser vereador na equipa do primeiro presidente do município, todos os demais, “obreiros” da fundação de Odivelas, foram sendo paulatinamente arredados dos destinos da autarquia odivelense.

Mas isso são peculiaridades de um partido, cuja militância, no passado, era só para quem tinha a camisola vestida, sem cuidar de prebendas, que o presente coloca ao alcance de um cabaz de votos amestrados.

Em 15 anos o que mudou em Odivelas? Depende de qual Odivelas estamos a falar… da cidade de Odivelas? Da freguesia de Odivelas? Do município de Odivelas, todas no distrito de Lisboa? Depende.

Sendo o território de uma cidade área de intervenção da administração desconcentrada do estado, podemos dizer que a cidade de Odivelas viu desparecer o representante do governo no distrito de Lisboa – o governador civil – que era quem, coordenava as várias entidades tuteladas pelos ministérios. Exemplo? As corporações de bombeiros que o digam pois o governo civil destinava verbas próprias para os soldados da paz. Isso acabou.

Sendo o território da freguesia área de intervenção da administração descentralizada do estado, podemos dizer que a vitalidade identitária desta autarquia foi absorvida pela força centrífuga de uma outra autarquia, curiosamente, gerada no seio desta última – o município – tendo perdido a gestão do cemitério local, precisamente para o município, e as fricções entre esta freguesia e a sua irmã município acentuaram-se de tal forma que estou em dizer que ultrapassam já as que levaram há 15 anos ao rompimento do cordão umbilical com Loures.

Sendo o território do município sujeito á mesma natureza descentralizada que a freguesia, o que se pode dizer é que com a criação do município de Odivelas, até hoje muita coisa aconteceu. O cimento consolidou-se. O curioso é a inexistência de espaços de lazer ou de equipamento público, correspondentes á urbanização do cruzeiro, a qual surgiu do dia para a noite como se fosse de geração espontânea. Quem como eu, viveu e acompanhou o processo de recuperação dos bairros clandestinos (não é gafe, recuso-me utilizar o eufemismo augis), e da dificuldade em cumprir com a exigência legal de cada bairro ter de “oferecer” ao município uma área correspondente a cerca de 10% da área total do bairro destinada a equipamentos públicos, estranha que a urbanização do cruzeiro, tenha um tratamento diferenciado (e não me venham dizer que o pavilhão multiusos preenche essa lacuna, porque acredita quem quer ser enganado).

Outra coisa que o município de Odivelas perdeu foi o clube local. Desaparece o clube, e os campos para a prática desportiva desaparecem também, numa névoa que obnubila tudo o resto.

Nestes 15 anos o Município de Odivelas vê extinguirem-se 6 freguesias: Pontinha, Famões, Caneças, Ramada, Póvoa de Santo Adrião e Olival Basto. Em contrapartida nascem 3 novas freguesias eufemisticamente baptizadas como “Uniões”: Pontinha/Famões, Caneças/Ramada e Povoa santo Adrião/Olival Basto. Contas feitas há uma redução efectiva de 3 freguesias.

Se tive o privilégio de ser um dos “fundadores” da freguesia de Famões, tenho hoje a sorte de não ser o “coveiro” desta freguesia, nascida no mesmo ano da minha filha mais velha, e onde recebi o “baptismo” das lides autárquicas.  Foi também a partir desta Freguesia famoense, que como Presidente da Assembleia de Freguesia, dei o meu empenhado, e genuíno contributo, para a criação do município de Odivelas, e se foi importante a batalha travada a partir das freguesias, em concreto a partir de Famões. Outros, estando na primeira linha contra a criação do município, por lá continuam, agora como substitutos legais da actual presidência da união.

Odivelas (todas as Odivelas supra citadas) perdem também a sede territorial do único órgão de comunicação social de áudio visual, cujo serviço público em prol destas Odivelas é inestimável – a OdivelasTv, hoje TVL. Isto corresponde a uma total inépcia dos poderes autárquicos desta região saloia, que levam demasiado à letra, pela negativa, a identidade saloia.

O município viu ainda extinguir-se a única unidade industrial – a cometna – apetrechada com altos fornos, na região de Lisboa, objecto de visitas de estudantes de engenharia, para estes observarem “in loco” como funcionam as coisas. Neste particular Odivelas segue as pisadas do que aconteceu com a Bombardier (na amadora), que ao perder esta unidade fabril (ex-sorefame) perdeu um centro de know how único no mundo, e de Viana do Castelo com a iminente perda dos estaleiros navais, perdendo-se com isso o glorioso cluster da construção naval de primeiro nível. Mas diz o povo, com o mal dos outros podemos bem.

Odivelas perdeu também, nestes 15 anos, a possibilidade de gerar entendimentos com Loures quanto ao destino a dar a uma separação ainda não consumada e bastante sofrida – os serviços municipalizados. Embora neste domínio ainda se possa recuperar o tempo perdido.

Mas 15 anos depois o grande problema de Odivelas é mesmo a sua putativa extinção, por sucção da capital do país.

Ninguém duvide que depois da investida troikiana sobre as freguesias, cuja reacção popular ficou bem aquém do esperado pelos respetivos eleitos, os únicos que verdadeiramente ofereceram alguma resistência, chegará em breve a vez dos municípios.

Eventualmente a resistência será mais feroz. Mas a “coisa” quer-me parecer, é imparável … e no distrito de Lisboa, os municípios não terão grandes hipóteses de travar o rolo compressor que cilindrará Odivelas e Amadora (só para falar de duas autarquias criadas pós 25 de Abril).

Para quem assistiu ao nascimento da freguesia de Famões, e acompanhou a respectiva comissão instaladora, vindo posteriormente a ser, orgulhosamente, um dos seus primeiros eleitos;

Para quem assistiu, e se envolveu genuinamente no nascimento do município de Odivelas, e agora assiste ao estertor anunciado de mais uma “morte”, não pode deixar de se questionar se algo podia ter sido diferente … .

Muita coisa mudou, não necessariamente para melhor. Mas não se pode negar a evidência de coisas boas, fruto do caminho trilhado.

O paradoxo é que assistimos a toda uma nova geração de eleitos e agentes partidários, a quem as luzes da ribalta ofuscam o destino para onde se caminha alegremente, alheios ao que nos espera, dando por garantido o que se tem hoje.

Confesso que não consigo de deixar de sentir uma certa nostalgia por um tempo onde a força das convicções se sobrepunha à convicção da força, e o poder, abrasivo, por vezes era magnânimo, condição necessária para manter um certo equilíbrio.

Famões acabou, e Odivelas vai acabar, e no final fica um sabor agridoce porque bem ou mal, certo ou errado, foram duas guerras nas quais me envolvi e nas quais acreditei, e agora num curto prazo tudo não passará de uma atípica e eufemística “união”, seja de freguesias seja de capitalidade alargada.

A ironia é esta – percebo agora a razão que levou algumas pessoas (as próprias sabem a quem me refiro) a nunca fazer publico reconhecimento aos “ingénuos” que há 15 anos, acreditavam numa longa vida deste projecto – sabiam que era a prazo. Assim restará a breve trecho homenagear os “coveiros” pois ficarão para a história por serem os últimos, os que fecharam as portas ao sonho.

FIM

Oliveira Dias, politólogo

Comments are closed.