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Este parte… aquele parte…

Julho 4th, 2014 | by Odv
Este parte… aquele  parte…
Painho Ferreira [Opinião]
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topo_painhoNo dia 2 de Julho a RTP1, no noticiário da hora de almoço, transmitiu uma pequena reportagem que focava o tema da emigração de trabalhadores da construção civil. Uma reportagem oportuna que merece apreço.

Nessa reportagem podiam ver-se dois jovens de lágrimas nos olhos enquanto se despediam da sua família.

Por engenho da memória fui transportado até ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos onde, nos anos sessenta, embarcavam em grandes paquetes milhares de jovens que iam combater na guerra colonial. Nessa década também muitos milhares de portugueses abandonavam o País em busca de uma vida melhor lá fora.

Enquanto isto desfilava subtilmente na minha memória, ocorreu também  nesse retrato do passado  a voz de Adriano Correia de Oliveira na sua balada que tão bem retratava a situação que então se vivia nesses anos já longínquos. Daí o título destas breves notas.

Daí a a revolta que me assaltou, logo seguida de um certo desânimo que apenas a razão pôde acalmar. É que todos estes pensamentos se desenrolavam num certo contexto que as notícias do dia ajudavam a definir.

O Correio da Manhã dava destaque à venda pelo Fisco de cerca de quarenta mil casas. O Ministro da economia que há pouco se havia declarado contra um eventual aumento de impostos afirmava afinal perante os Deputados que esse aumento poderia ser inevitável.

Havia ainda as negociatas da família Espírito Santo a fazerem lembrar e temer um novo BPN. E logo a palavra impunidade colada a isso tudo…

Depois já sabemos para cima de quem vão sobrar tantos desvarios…

Apesar de tudo, a pouco vergonha de alguns não os inibe de cantarem como sucessos esta cadeia de desgraças que se tem abatido sobre o País e o Povo Português.

Na verdade este rol de desgraças tem outra face: o enriquecimento desmedido de uns quantos.

A promiscuidade entre o poder económico e financeiro e muitos responsáveis políticos que têm governado o País nas últimas décadas é um facto que só por cegueira, má vontade ou má fé não se reconhece.

Contudo não é isso que interessa reter. O que realmente importa compreender é que sem se romper com este ciclo do chamado “arco da governabilidade”, o que teremos pela frente será mais do mesmo. Mais exploração, mais perda de direitos no mundo do trabalho, menos justiça e piores serviços públicos, mais abusos sobre os mesmos de sempre, mais corrupção…

Está montada uma monstruosa máquina de alienação das mentes e de adormecimento das consciências. Nenhuma sinistra PIDE poderia conseguir melhores resultados que a campanha meticulosa, suportada científicamente, que neste momento tenta produzir esta espécie de “anestesia social”.

Se atentarmos nos detalhes podemos vislumbrar até que ponto esta “intoxicação” colectiva já conseguiu avançar.

Às vezes a vida dá-nos sinais e é importante retê-los e reflectirmos sobre eles. Vejamos, apenas alguns desses sinais merecedores da nossa atenção.

No tôpo da hierarquia do Estado temos Cavaco Silva. Ele é o Presidente que não quis (seguramente por falta de tempo, coitado!) acompanhar o Prémio Nobel José Saramago à sua última morada. Afinal portugueses merecedores desse prémio há-os por aí aos pontapés!

O mesmo Sr. Presidente preparou meticulosamente uma cerimónia de despedida à Selecção Nacional de Futebol (os “nossos heróis”… como alguns dizem!). Lá estavam todas as TVs para a cobertura integral da cerimónia. Nesse acto digno de ser gravado para a eternidade pelas mãos de um Grão Vasco, um Van Gogh ou mesmo um Renoir, Cavaco Silva sugeriu que estava perante os verdadeiros embaixadores da Pátria….

Cavaco Silva não é o presidente dos prolongados silêncios, é antes o Presidente que dá cobertura a todo este triste e folclórico espectáculo tendente a confundir o essencial com o acessório.

Na governação há um pouco de tudo. Paulo Portas, o homem da demissão irrevogável e da linha vermelha, encontrou forças para inverter o significado das palavras. Sabemos hoje que a palavra irrevogável devia ser abolida do dicionário pois já não significa inalterável. Sabemos também que a linha vermelha inultrapassável originou na práctica um descarado assalto aos bolsos dos reformados e pensionistas, exactamente aqueles com que Paulo Portas justificava a sua irrevogável decisão. Vai muito mal tratada esta nossa língua portuguesa!

Sabemos, pela boca de muitos responsáveis do Governo, que a situação do País está agora muito melhor! Apenas com um pequeno senão: as pessoas vivem pior!

Creio que estas declarações, este tipo de frases, entendidas na sua lógica mais profunda são um verdadeiro sinal vital do retrocesso civilizacional que a direita neoliberal tenta impor em Portugal.

Que frase poderia sintetizar melhor a política reinante?

É claro que se pode entender tudo isto assim: para alguns “grandes senhores” as coisas estão melhor que nunca! Não é por acaso que as suas fortunas subiram em flecha.

Para a maioria dos portugueses e apesar de tudo estar melhor, a vida piorou, o que é apenas um infortúnio, um mero azar que o tempo se encarregará de corrigir.

É evidente que nada disto “cola” num pensamento esclarecido. Daí a monstruosa campanha de intoxicação colectiva; daí o quererem decretar o fim das ideologias e apresentar todo este cenário como uma inevitabilidade, como se nele se consubstanciasse o fim da própria História.

Fico por aqui que o texto já vai longo e afinal segundo os nossos governantes o desemprego tem vindo a cair cá na terra.

Aqui neste “ jardim à beira-mar plantado” cai tudo: cai o desemprego, cai o poder de compra, cai a natalidade, cai do céu a corrupção, o enriquecimento ilícito e outras virtudes similares!

Cai o Carmo e a Trindade e, se os deuses nos ajudarem, os sucessivos desmandos governamentais acabarão por nos conduzir ao Jardim do Eden!

Nesse jardim lá estarão todos os portugueses a passear tranquilos e em paz. Uns de Ferrari, outros de Porsche, Bentley ou Rolls Royce, exibindo os seus fatos e vestidos Yves Saint Laurent, Bottega Veneta, Roberto Cavalli, exalando perfumes parisienses enquanto nos pulsos cintilam maravilhosos Rolex. Outros andarão de bicicleta e outros mesmo descalços e esfarrapados. Uns de “pança” cheia e outros com a “barriga a dar horas”.

Que mal tem isso?

Afinal, ricos e pobres sempre os houve!

Quando e onde é que eu já ouvi isto?

A retórica das forças de direita tem nos dias de hoje uma roupagem nova a que é preciso dar atenção. O conteúdo doutrinário dessas forças é no entanto velho e caduco, como velhas, caducas e injustas são as políticas que dele decorrem. As consequencias dessas políticas conhecemo-las bem!

Este parte… aquele parte…

Painho Ferreira

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