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Ao acaso… por aí…. Painho Ferreira

Agosto 24th, 2014 | by Odv
Ao acaso… por aí…. Painho Ferreira
Painho Ferreira [Opinião]
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Ao acaso… por aí….

É Agosto. Uma brisa suave sopra dos lados da foz enquanto o Sol insiste em espreitar lá pelo poente.

Caminho sem pressa pela beira do rio.

Gente, muita gente, teima como eu em receber os últimos raios como se aquele conforto pudesse fazer esquecer a amargura dos dias lentos nos quais não se vislumbra mais que um outro dia, o dia seguinte que, quem sabe, talvez traga a luz de uma nova esperança…Procuro-a teimosamente por entre os rostos que fito com alguma ansiedade.

Há muitos turistas por ali, mulheres esbeltas e loiras que não se confundem e cujo ar veraneante as separa sem piedade de muitas outras ali presentes…As esplanadas da grande praça estão cheias de homens e mulheres refastelados que saboreiam requintadamente uns vinhos e tagarelam sem pressas como se o tempo não contasse para eles.

Sinto-me estrangeiro e no entanto sou eu que sou de cá!

Penso: estes espaços são de todos e daí talvez a sensação de que não são de ninguém…

Há um “não sei quê nor ar” que me intranquiliza nesta tarde amena de Agosto. Talvez esteja aqui a mais, talvez seja por estar só, talvez seja porque não encontro o fio desta meada ou talvez porque… não sei… No entanto, consigo reparar na beleza da cidade sempre delicadamente bordejada pelo seu rio. Aprecio os quadros humanos que fervilham de vida nesta cidade que me parece querer sempre engolir o tempo.

Apenas contemplo sem me contagiar, num absorto estado em que nada me ocorre à memória, nada se me pega a não ser a maldita sensação de intranquilidade! Olho agora o rio mais de longe. As águas escureceram e o Sol já não ilumina como há pouco.

Resolvo virar costas e caminhar sem destino como se todas aquelas ruas fossem de todos e de nínguem. São apenas ruas cheias de gente e que nada têm a ver com a rua em terra batida onde ficava a casa em que nasci. Essa sim, era minha. Era de todos quantos por lá moravam.

Sinto saudades! De quê? Dos que já partiram, da minha infância, daqueles velhos sentados às portas da rua nas noites escaldantes de Verão, daqueles sons que vinham dos campos sempre doirados por estes meses de estio,das tardes escaldantes…

Assalta-me a largura, a grandeza dos horizontes alentejanos. Essas paisagens sempre me perseguiram!

Assalta-me aquele sentido comunitário das gentes daquela rua. Aquela sensação de pertença colectiva…Percebo que ali não havia solidão como na grande cidade. Havia pobreza, sofrimento, exploração! Bem me recordo. A riqueza estava apenas na alma daquela gente!

Penso: então é dessa alma que tenho saudades! Estas ruas da cidade grande não são a minha rua! Decididamente eu não sou daqui. Talvez a isto se chame raízes…

Sigo caminho avenida acima onde pontuam as lojas de luxo que não me atraem. Os luxos e os seres pretensiosos e sofisticados nunca me atraíram. Talvez por causa daquela rua onde nasci. Talvez por causa daqueles camponeses que me cercaram a infância.        Penso: não trocava aqueles anos por nada deste mundo!

Continuo a caminhar avenida acima e tropeço na miséria absoluta de uns quantos sem abrigo.

Penso: quanta miséria é necessária para produzir aquele luxo pelo qual passei há pouco? Aqui estão as duas faces da mesma realidade!

Pergunto-me: por que será que estas brisas de verão não assaltam as consciências?

Continuarei como até aqui a amar a simplicidade da gente que me viu nascer. Estarei como sempre ao seu lado quer morem naquela rua de terra batida ou não tenham mais que um cartão sujo onde se deitar.

No fundo eu sei que isto é apenas uma forma de egoísmo: é que não me poderia tranquilizar se procedesse de outro modo.

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