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Odivelas – COMETNA 1992

Dezembro 10th, 2015 | by Oliveira Dias
Odivelas –  COMETNA 1992
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Vi, e devo dizer que apreciei, a peça publicada aqui sobre a COMETNA, e não resisti a dar para este “peditório”.

OliveiraDias-Socrates

Já comentei, em tempos, com o meu camarada e amigo Paulo César, hoje vice-presidente da câmara municipal de Odivelas, que por vezes fica-se com a sensação de Odivelas apenas ter “nascido” em 1998, por acaso altura da constituição do movimento Odivelas a concelho, graças ao qual hoje é quem é, na autarquia, e ainda bem porque demonstra capacidade e competência para o efeito.

Eu diria, em rigoroso abono da verdade, que as primeiras diligências sobre a COMETNA não começaram exatamente em 1998 … verdade incontornável, concedo, é o município de Odivelas ter tomado contato com a temática quando nasceu “de iure”, mas a COMETNA e tudo quanto lhe está associado é bem anterior, e estou á vontade nisso porque fui protagonista no processo enquanto eleito local, bem antes de existir o município pelo qual lutei.

A paternidade, se quisermos ir por aí, nesta questão muito séria que é a COMETNA, terá de ser atribuída ao sr. Mota, residente em Famões, hoje já falecido, e muitas vezes apodado de “Bruxo de Famões”, mas na realidade inventor por gosto e dedicação, que na década de 80 do século passado levantou a questão da enorme impacto que aquela unidade industrial tinha, não só na freguesia de Famões, como em todo o País. Na verdade o sr. Mota defendia teses incríveis sobre os malefícios da COMETNA.

Isso é facilmente comprovável pela enorme quantidade de cartas, faxes e telefonemas (não existia ainda nem o telemóvel nem a internet) que enviou a tudo quanto era autoridade pública em Portugal, a começar pelo Presidente da república e a acabar no Presidente da Junta de freguesia de Odivelas, á qual pertencia o território de Famões, este criado apenas em 1989, altura em que esta autarquia toma conhecimento formal do assunto.

Obviamente a comunicação social da época fez eco destas iniciativas do Sr. Mota o, então, paladino solitário contra a COMETNA.

Em 1992, sendo vogal-secretário da junta de freguesia de Famões, tendo, entre outros, o pelouro do Ambiente, resolvi dedicar a minha atenção ao assunto, até porque as lides autárquicas aproximaram ambos, o sr. Mota e eu, muito acente nas relações vicinais existentes (e nisto acenta de resto o poder local).

O Sr. Mota fez questão de me explicar e documentar a sua apologia, e confesso que muito do que defendia fazia sentido.

Oficiei formalmente a COMETNA instando-a a dar respostas, respostas que sempre se recusara a dar, até então. Num assomo de “boa vizinhança” a administração recebeu-me para me explicar duas coisas:

1º lamentavam que as pessoas tivessem construído nas redondezas, estando já a COMETNA ali implantada, isto para meu espanto.

2º o problema era mesmo uns filtros muito caros que estavam instalados, mas cuja manutenção eles evitavam dados os custos inerentes, isto para minha revolta.

Primeiro fiquei espantado, porque o administrador simplesmente ignorava que o que dizia era totalmente falso, eu próprio já morava no Bairro Novo do Trigache, “vizinhança” da COMETNA, e o Bairro remontava a 1973. Foi a minha vez de explicar ao sr. Administrador, que não só acompanhei a construção da fábrica desde o primeiro tijolo, como muito antes disso atravessava os terrenos em que ela estava implantada, para ir á missa em Famões, numa época em que esta se fazia num celeiro pequeno bem antes da actual igreja de Famões existir. Pior que isso, e loures nisso tem culpa, era a circunstância de nem sequer a fábrica ter licenciamento adequado quando começou a sua actividade.

Depois adverti-o que era simplesmente inaceitável, que os custos de manutenção dos tais filtros, estivessem em primeiro lugar em detrimento da saúde dos famoenses, e não me conformaria com isso. A resposta que obtive foi um simples “não está nos nossos planos alterar esta conduta”. Face a essa posição anunciei que a questão iria evoluir para outro patamar, e esse era o do governo, no caso na secretaria de estado do ambiente.

Depois desta reunião, elaborei um extenso relatório para a Câmara Municipal de Loures, e falei com o vereador de então e meu camarada, Fernando Queiróz, que me apoiou prontamente, garantindo que da parte dele tudo faria a contento da freguesia, e oficiei a secretaria de estado do ambiente solicitando com urgência uma reunião.

Fui recebido, na época, na secretaria de estado do ambiente, e não tenho memória se foi pelo próprio secretario de estado ou se por um director-geral, onde, perante, as evidências me afiançaram que não tinham nenhum problema em ordenar o fecho da fábrica.

Porém essa predisposição (se era séria ou não não sei) contou com a minha imediata oposição uma vez que declarei ser contra o encerramento de uma unidade fabril que dava emprego a cerca de 800 pessoas, 800 famílias dependiam daquela laboração e que o mais sensato era simplesmente a fábrica cumprir com a legislação e colocar a funcionar os filtros, cuja inatividade afectava a freguesia.

Finda as minhas funções no executivo famoense, onde estava em substituição, nunca mais tive qualquer contato com este tema, e com a COMETNA, a não ser quando já em 1999, vim a saber que os alunos das engenharias da Universidade Independente faziam excursões àquela unidade fabril a fim de vivenciarem “in sito” a realidade dos altos fornos e dos processos de fabricação, algo, que na região de Lisboa, não existia em mais lado nenhum.

Hoje continua a ser inaceitável, tal como já o era em 1992, a subsistência de um problema desta natureza, quase como que a garantir que o Poder Local Português vai caindo na obsolescência, tal a impotência para fazer a diferença para a saúde das populações.

Oliveira Dias, Politólogo

 

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