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O MITO DE ODIVELAS

Janeiro 31st, 2016 | by Oliveira Dias
O MITO DE ODIVELAS
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O MITO DE ODIVELAS

O topónimo “Odivelas” tem suscitado toda uma série de interpretações, quanto á sua origem, quase sempre apoiada em suposições, e raramente suportada em dados concretos.

Não sendo um especialista em topónimos, nem em origens históricas, antes um curioso interessado, não resisto á aplicação de uma disciplina mais cartesiana, e sujeitar a informação que me chega ao conhecimento.

Antes mesmo de “dar para este peditório” um dado, prévio, muito concreto sobre alguns conceitos, sem me preocupar muito com a correção cientifica dos mesmos, mas não fugindo á necessária exatidão do que se transmite, são eles – Curato, Paróquia, Diocese, Casal, Povoado, Aldeia, Vila, Cidade, Freguesia, Município,

Os 3 primeiros são de origem eminentemente religiosa, recordemos que antes das circunscrições administrativas civis, existiram, e fizeram fé, em termos de administração, até ao século XIX, em Portugal, as circunscrições religiosas.

Assim o “Curato“ era um pequeno território, semelhante a uma “missão”, com população muito reduzida. Sob a responsabilidade religiosa de um Cura. Este estava subordinado a uma paróquia e esta a uma diocese. A “nossa” Odivelas começou por ser um Curato, em 1290.

Temos depois a “Paróquia”, e esta já é uma circunscrição já mais alargada, em regra resultante do crescimento do curato, sendo o responsável religioso respectivo o Presbítero, que responde perante o seu Bispo, líder religioso da diocese. A “nossa” Odivelas passou a Paróquia, em 1840.

Segue-se a “Diocese”, uma circunscrição territorial, de base populacional, também, cobrindo várias paróquias, sob a batuta do Bispo. A “nossa” Odivelas nunca foi Diocese.

Os 5 conceitos que se seguem aos religiosos, são de origem puramente secular, e contemporâneos daqueles religiosos acima tratados. Muitas foram as vezes em que se confundiam.

Assim um “Casal” era uma espécie de quinta habitada por uma família, mais ou menos numerosa, e até com ramificações geracionais, que com o tempo haveriam de crescer até se tornarem povoados e muitas vezes aldeias. No território da “nossa” Odivelas existiram muitos e são vários os que ainda hoje subsistem emprestando o nome a Bairros inteiros (exemplo, casal Trigache, casal Silveira, casal das comendadeiras, etc).

O “Povoado” é uma circunscrição territorial que abrange vários casais, e em ambos os casos, estavam, habitualmente, sob a jurisdição religiosa do Cura. A “nossa” Odivelas foi um Povoado.

A “Aldeia” consistia num povoado alargado, com funções colectivas embrionárias, com características vicinais, de comunidade, bastante vincadas. A “nossa” Odivelas foi Aldeia

A “Vila” resulta directamente do crescimento e desenvolvimento da Aldeia, onde as funções comunitárias são bastante relevantes. A “nossa” Odivelas foi Vila.

A “Cidade” é uma circunscrição territorial com elevado grau de complexidade organizativa e colectiva, muitas vezes fruto da evolução e crescimento de uma ou mais aldeias. A autoridade religiosa quer na Aldeia, quer na Vila, quer na Cidade, é o Pároco. A “nossa” Odivelas é Cidade.

Por fim vêm as autarquias – “Freguesia” e “Município”. São ambas autarquias de carater municipal (o carácter municipal, segundo a melhor doutrina, é aferido por 3 características:

  1. a população com relações vicinais, ou vizinhança;
  2. território próprio comum, ou circunscrição;
  3. e o sufrágio universal dos seus dirigentes).

Quase todos os conceitos acima descritos são milenares, excepto “Freguesia” que nasce apenas no Século XIX, quando o governo da regência de D. Maria, acantonado nos Açores, criou por decreto real as “Juntas de Paróquias”, mais tarde classificadas como Freguesias.

A “nossa” Odivelas começa em 1290 como Curato, passa a Paróquia em 1840, pertenceu ao 4º Bairro de Lisboa em 1852, neste ano incluiu o Concelho de Belém, em 1855 passou para a Freguesia da Póvoa de Santo Adrião, em 1856 integra o Concelho de Santa Maria dos Olivais, em 1887 passou para o Concelho de Loures, em 1964 passou a Vila, e em 1999, foi uma das sete Freguesias fundadoras do Município de Odivelas, e hoje continua Freguesia, desde que foi criada, no século XIX, uma vez que as primeiras freguesias portuguesas nascem todas ao mesmo tempo com o decreto da Rainha D. Maria que instituiu as “juntas de paróquia”, que assumiram como circunscrição territorial a mesma que as paróquias tinham.

Mas se quisermos ser rigorosos, hoje existem, com o nome de Odivelas, em Portugal, aqui no Distrito de Lisboa:

  1. Freguesia de Odivelas (pessoa colectiva de direito público da administração descentralizada do estado);
  2. Município de Odivelas (pessoa colectiva de direito público da administração descentralizada do Estado);
  3. Concelho de Odivelas (mera circunscrição territorial da administração desconcentrada do governo)
  4. Cidade de Odivelas (mera circunscrição administrativa da administração desconcentrada do governo);
  5. Paróquia de Odivelas (pessoa colectiva de direito privado de administração religiosa).

Com maior rigor, ainda, é importante que se diga que não temos, em Lisboa, o exclusivo, pois no Distrito de Beja, Município de Ferreira do Alentejo, temos outras Odivelas. Desde logo a Aldeia de Odivelas, que em 1260 integrava o Concelho do Torrão, com o nome de Santo Estevão de Odivelas. Antes mesmo desta integração existira uma outra com o nome de São João de Odivelas no Concelho de Portel, entretanto extinta. Assim existem, ainda em Portugal e no Distrito de Beja:

  1. Aldeia de Odivelas (mera circunscrição administrativa da administração desconcentrada do governo);
  2. Freguesia de Odivelas (pessoa colectiva de direito público da administração descentralizada do Estado);

Isto, em Portugal, porque, no Brasil, temos:

  1. Município/Cidade de São Caetano de Odivelas (pessoa colectiva de direito público da administração Estadual de Belém do Pára, da Federação Brasileira), no Brasil Cidade e Município são a mesma coisa;

Este introito é importante para, não só relevar a existência de outras Odivelas, que se não podem ignorar, acabando com o mito da exclusividade do topónimo, e por outro ser muito ambíguo afirmar-se que se fundou a vila de Odivelas, porquanto o acto fundacional existe quando previamente inexiste seja o que for, e no caso a Vila de Odivelas não se trata de uma “fundação de” antes, isso sim, uma evolução populacional muito anterior á categoria de Vila.

Uma questão resulta obvia – que Odivelas nasceu primeiro, visto que, aparentemente, terão tido uma mesma origem?

Como a do Brasil tem origem em Portugal, e por isso, é a mais recente, foquemo-nos na de Lisboa e na de Beja.

Quando se diz que a Odivelas do Distrito de Lisboa, nasceu em 1143, com base numa inscrição românica datada de 1183, e refiro-me á placa depositada no museu da associação dos arqueólogos, que informa ali ter sido sepultado o prior naquele ano, fico na dúvida se a inscrição é românica ou se é em latim, visto uma e outra serem coisas distintas. Diz-nos a lógica tratar-se não de uma inscrição românica, mas sim uma inscrição em latim, língua grafada na época.

Mas a inscrição, não refere o topónimo, antes uma utilização, fruto de uns tantos casais que por aqui existiam dispersos, porquanto sabemos que este território dava pelo nome de Vale das flores, ao tempo de D. Dinis, 2 séculos depois, daquela inscrição, portanto o topónimo nasce muito mais tarde. A igreja Matriz da Odivelas de Beja, é referida desde 1186, e a aldeia de Odivelas existe desde 1260, embora sem ter a certeza de que já dava por aquele nome.

Por isso o registo histórico de ambas, em termos de ocupação, recente, remonta á época romana, se excetuarmos as antas e dólmenes, cujos vestígios existem em ambas também.

Joga a favor da Odivelas alentejana o facto desta se inserir no território da coutada Real de Beja, ducado pertença dos príncipes portugueses, onde D. Dinis efectuou muitas caçadas, e segundo a lenda, até terá ali eliminado, em luta corpo a corpo, um Urso. Revelações sobre este episódio, ficam para outra oportunidade.

A explicação, há falta de outra coisa, para a origem do topónimo é, assim, remetida para uma lenda.

A Lenda. A lenda do marido adúltero é assaz bizarra. Não passa pela cabeça de ninguém que a Rainha Santa Isabel se lembrasse de apoucar o seu real esposo, por algo, que, quer se goste ou não, era pratica corrente na época. Essa história tem outra que lhe subjaz, e cuja explicação fica também para depois.

O que importa desta lenda é aquela parte do “ide vê-las senhor” cuja corruptela, degeneraria em Odivelas.

Falando com um amigo meu, versado em latim e português arcaico, comentava eu que me parecia muito rebuscada esta tese, ao que ele me disse ser remotíssima, para não dizer impossível, que um “ide vê-las” degenerasse em Odivelas, algo que só a fonia actual permite estabelecer alguma proximidade, sucede, porém, que naquela época, século XIII, a fonia e a grafia eram radicalmente diferentes de hoje. Este é, pois, mais um mito que caí rotundamente. Podemos manter a lenda, para contar ás crianças, mas só isso.

Como não há uma sem duas, e duas sem três, resta a tese filológica. Basicamente esta diz-nos que Odivelas é a junção da palavra árabe ODI e da palavra Latina VELAS.

Esta tese não resiste a uma regra explicada no Ciberdúvidas, onde se refere que a palavra ODI resulta do árabe UAD, ou OD, cuja significação é, água ou curso de água, quando se junta a outra palavra começada por vogal … ora Velas começa por uma consoante, e não por vogal. E caso fosse assim, então teríamos não 2 mais bastante mais Odivelas por esse país fora.

Outra novidade é que a palavra ODI também existe em Latim, com significado diverso (detestar algo) logo a sua arabização também não é exclusiva. Mas se ODI existe em Latim, já VELAS não existe, porquanto VELA é o plural de VELLUM (vela de um navio) Outro MITO a fazer estrondo.

O mistério continua … .

Oliveira Dias

Politólogo

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