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Odivelas – “Cortinas de fumo”

Junho 12th, 2017 | by Painho Ferreira
Odivelas – “Cortinas de fumo”
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Num artigo anterior expressei algumas da razões pelas quais discordo do protocolo celebrado entre a actual Maioria que governa o Município de Odivelas e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, protocolo esse que respeita aos terrenos do Complexo Lúdico-Desportivo de Porto Pinheiro, nas Colinas do Cruzeiro. 

Em resumo, tentei explicar que a cedência desses terrenos ao SJPF, significa a perda dos mesmos para a população do Concelho e em especial para os jovens.

As contrapartidas negociadas são, em minha opinião ridículas e lesivas dos interesses das populações.

O processo peca ainda pelo acintoso afastamento do movimento associativo e desportivo local, em favor de uma entidade estranha ao Concelho, o que, em meu entender, fere e choca com a definição de uma estratégia global para a prática desportiva a nível concelhio.

No presente texto a minha reflexão incide sobre o surgimento do apelidado “Parque multiusos das Colinas do Cruzeiro”, exactamente colocado sobre o parque de estacionamento frente ao Pavilhão Multiusos.

O referido parque foi, aliás, profusamente divulgado por um jornal local, pretendendo-se com isso passar a imagem de que algo de novo e útil estaria a nascer naquele local.

Na placa identificativa e evocativa da sua inauguração, está: “Parque Multidesportivo”, o que parece ser menos exacto.

Em primeiro lugar interrogo-me se não será um abuso de linguagem definir a obra com o pomposo nome de “Parque Multiusos”. Nesse artigo o Vereador do Pelouro apresenta como mais valia para o Concelho a entrega dos terrenos de Porto Pinheiro ao SJPF, o qual, segundo esse artigo, realizará já em Junho o estágio do Sindicato. O mesmo irá avançar com a construção da sua sede com enormes benefícios para os moradores que eu não consigo vislumbrar.

Colocam-se inevitavelmente algumas questões:

saber se os lugares de estacionamento em causa são ou não necessários e se a solução encontrada é compatível com a utilização simultânea de duas valências tão distintas.

avaliar se aquele é o local indicado para a construção do parque multiusos.

Questionar as motivações que levaram os responsáveis a decidirem-se por aquela e não outra solução.

4ª – Como é que estas acções pontuais se enquadram na problemática, sempre adiada por esta Maioria, de reestruturação das áreas centrais do Concelho.

Em política, a questão da memória é de grande importância.

Convém relembrar que quando da construção do Pavilhão Multiusos, obra essa feita através de uma Parceria Público-Privada (PPP), existiam duas soluções. Uma que previa a construção de estacionamentos em pisos subterrâneos (mais cara) e outra em que os mesmos se construiriam em espaços exteriores (mais barata).

Relembremos que optaram pela segunda solução mas com um valor de adjudicação mais elevado do que aquele que os técnicos municipais tinham estimado para a primeira.

Hoje sabemos que, se não se concretizar a renegociação da PPP, o Pavilhão Multiusos custará à população do Concelho mais de quarenta milhões de euros! (40 000 000€).

Seja como for, necessariamente se conclui que os lugares de estacionamento eram considerados necessários como suporte para a actividade diária do Pavilhão e em especial para a realização de eventos de significativa dimensão. Esta parece ser a resposta inequívoca à primeira questão levantada.

Quanto à compatibilidade da utilização simultânea daquele espaço para duas valências tão distintas (desportiva/parqueamento) a resposta parece estar dada pelo que se observou nas últimas semanas. Nos dias 10 e 11 do corrente mês realizou-se no Multiusos o Campeonato de Judo.

Se somarmos os locais ocupados em parqueamento, nestes dias, em terrenos em “terra batida” junto ao pavilhão, não teremos qualquer dúvida em afirmar que no futuro, o apelidado Parque Multiusos teria que estar aberto para estacionamento e fechado para a prática desportiva.

Basta observar e fazer as contas! Aliás, a problemática do estacionamento em toda aquela zona, e não só, carece de uma reflexão séria e em profundidade.

Coloca-se contudo outra questão: será que aquele é o local mais adequado para a implantação deste tipo de equipamento desportivo?

Trata-se de um local agreste no Inverno e muito quente no Verão. Para além do mais confina com uma encosta de grande declive e sem qualquer protecção.

Porquê afastar as populações dos terrenos de Porto Pinheiro e conduzi-las para ali?

Porquê esta solução se existe à disposição um outro local com condições que, se devidamente aproveitadas e negociadas com parceiros locais, permitiriam a edificação de algo mais funcional, útil e digno?

Isto leva-nos a reflectir sobre as motivações que determinaram a implantação do chamado “Multiusos das Colinas” exactamente em cima de um parque de estacionamento.

Parece que neste processo, a determinada altura os responsáveis municipais se aperceberam dos custos políticos que lhes acarretava a decisão da cedência do Complexo de Porto Pinheiro ao SJPF. Então tentaram “compensar” a população das Colinas com esta solução atamancada, não medindo convenientemente os contratempos com que se defrontariam! Em pouco tempo, muitos se aperceberam das limitações da solução encontrada!

Remendar, nunca é a melhor solução. De uma decisão errada não é expectável um bom resultado.

A solução está em desistir da decisão errada e em corrigi-la, procurando um outro caminho, enquanto é tempo.

Isto remete-nos inevitavelmente para a quarta questão levantada neste texto.

Tenho afirmado que o Concelho necessita urgentemente de uma visão integrada de planeamento urbanístico.

Chegou o tempo em que as medidas avulsas têm que ser afastadas da prática governativa, sob pena de provocarem danos irreversíveis ao Concelho.

A escala de análise dos problemas tem que se alargar de forma a compatibilizar-se e a permitir a definição de orientações estratégicas.

Como já referi, num outro artigo, a governação local deve integrar as oportunidades que surgem ao longo do tempo e tender a adquirir para o Município as posições estratégicas que lhe permitam defender os interesses das populações e influenciar o desenvolvimento social e económico.

É neste quadro que defendo que se devem equacionar em simultâneo a utilização a dar ao Mosteiro e seus terrenos em articulação com o Complexo Desportivo de Porto Pinheiro.

Se analisarmos em conjunto estes elementos referidos anteriormente, surgem quase de imediato as possibilidades de desenvolver acções para a reestruturação de toda a área central do Concelho.

Surge a ideia da criação de uma centralidade que, pelo seu peso e dinamismo, não só promova uma efectiva melhoria da qualidade de vida das populações como seja um verdadeiro motor do desenvolvimento económico e social.

A construção de uma centralidade de referência, aquilo a que por vezes chamo de “coração pulsante” do Concelho, obriga a que os responsáveis pela CMO assumam o seu papel em estreita relação com os seus potenciais parceiros locais, envolvendo também por aí as “forças vivas” e a população em geral.

Neste contexto, o surgimento do apelidado “Parque Multi-desportivo das Colinas do Cruzeiro” exactamente m cima de um parque de estacionamento, não pode deixar de ser visto como o lançamento de uma “cortina de fumo” que tenta esconder a falta de visão estratégica.

Trata-se de um “fait divers” que tenta esconder o erro de entregar os terrenos de Porto Pinheiro a uma entidade estranha ao Concelho, negando por aí a sua fruição às populações envolventes.

É uma forma de esconder um mal maior com uma solução de mais que duvidosa qualidade.

Este tem sido o caminho a que a governação “a retalho” conduz.

É preciso travar esse caminho!

Fernando Painho Ferreira

** Num próximo texto abordarei com mais algum detalhe a visão que tenho para a estruturação das áreas centrais, tentando complementar com novos contributos o texto que escrevi para este orgão de comunicação e que se intitulava “Odivelas e o Futuro”.

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