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Paulo Sousa do BE – discurso de candidatura à Câmara Municipal de Odivelas

Julho 17th, 2017 | by Antonio Tavares

Decorreu ontem em Odivelas a apresentação dos Candidatos do BE à Câmara Municipal e Assembleia Municipal. Numa esplanada alargada do Francisco dos Caracóis, decorreram as intervenções antes do inicio do almoço. Das várias características do discurso ressalta a autenticidade das palavras feitas de coerência e clareza de posições que ao longo dos tempos deste mandato foi timbre do BE. Goste-se ou não das teses do Bloco, uma coisa é certa, foi o melhor discurso até agora na campanha eleitoral – sem complexos e muito direto nas criticas e nas propostas. Para além de Paulo Sousa discursaram Cláudia Elias, Candidata à Presidência da Assembleia Municipal e Catarina Martins.

Intervenção de Paulo Sousa do Bloco de Esquerda, Candidato à Presidência da Câmara Municipal de Odivelas:

O Partido Socialista, tendo maioria à esquerda nos órgãos municipais, preferiu aliar-se à direita.

Camaradas,

Amigos e amigas,

É bom estar aqui. Para muitos do que aqui estão hoje, bem sei, “estar aqui” não é propriamente uma novidade. E provavelmente, no momento em que apresentamos esta candidatura, era assim que tinha de ser: foi precisamente aqui neste espaço que começaram as primeiras conversas, com algumas das pessoas que aqui estão esta noite, sobre a cidade a forma de a transformar. A boa notícia, sinal da força com que partimos para esta campanha, é que na altura dessas primeiras conversas ocupavamos uma mesa, talvez duas. Hoje ocupamos o restaurante inteiro.

A todos e a todas, aos que cá estão desde o primeiro momento e aos que se juntavam ao longo dos anos, à Cláudia Elias e à Catarina Martins, quero agradecer a vossa presença. Muito obrigado por estarem aqui hoje.

Vamos ao que interessa. Partimos para estas eleições com uma certeza: estas não são umas eleições quaisquer. Na verdade, nunca o são e no Bloco habituamo-nos a viver as coisas assim: cada desafio é o mais importante das nossas vidas e cada eleição é mais importante que o anterior. Mas o que faz destas eleições um acontecimento especial é o contexto em que estas acontecem. Há quatro anos, quando disputavamos as últimas autárquicas, tínhamos um Partido Socialista em Odivelas que admitia querer discutir um compromisso à esquerda ao arrepio do compromisso ao centro que governava o país. E hoje, precisamente quatro anos depois, o que temos? Temos um compromisso à esquerda no país e um Partido Socialista em Odivelas com um acordo de bloco central que, pelas convicções e pela prática, inviabilizou qualquer acordo à esquerda nos últimos quatro anos.

Entendemo-nos: neste mandato que agora chega ao fim, o Partido Socialista, tendo maioria à esquerda nos órgãos municipais, preferiu aliar-se à direita. Esta escolha é contrária à expectativa que se vive no país e as opções que o PS tomou nos últimos anos demonstram que tinha razão quem, em Odivelas como no país, sempre defendeu que o bloco central não é, não pode ser, o único caminho.

Desengane-se quem espera nesta candidatura do Bloco de Esquerda encontrar quem prometa alargar a Calçada de Carriche ou o IC17 para dezanove faixas de cada lado, porque não prometos o que não está ao nosso alcance cumprir. Como nesta candidatura não encontrarão quem se lembre de ser oposição durante umas semanas de quatro em quatro anos, como PSD e PS, para logo que passa a campanha eleitoral correrem de novo para os braços uns dos outros.

O que encontrarão nesta candidatura, isso sim, é gente que denuncia problemas e propõe soluções. E o que vos propomos nestas eleições são cinco soluções para cinco problemas.

Primeiro, uma autarquia que se leva a sério tem de dar o exemplo. Onde há opacidade nas contas públicas tem de haver transparência. Odivelas ocupa o lugar 150 no índice de transparência dos municípios portugueses. Digamos que não é grande cartão de visita: se fizéssemos a certamente abusiva comparação com o ranking mundial da transparência, Odivelas ficaria ali entre o Tajiquistão e o Uganda. PS e PSD transformaram Odivelas numa república da opacidade, onde imperam as rubricas escondidas nos orçamentos municipais, as Parcerias Público-Privadas nos grandes equipamentos, as avenças e os avençados, a privatização dos serviços públicos que retiram a sua gestão da esfera democrática. No Bloco, norteamos o nosso trabalho pela correcta e transparente gestão das verbas públicas, com rigor e transparência, com empenho e dedicação à causa pública. O projecto do Bloco é pura e simplesmente incompatível com a opacidade nas contas públicas e com esta ideia de que Odivelas tem que ser um offshore de democracia.

Segundo, onde há precariedade e abuso tem de haver trabalho com direitos. Odivelas é este sítio onde o maior empregador privado do concelho é uma empresa de trabalho temporário. E o município, que já sabíamos ser um offshore de democracia, comporta-se também como offshore laboral: PS e PSD têm vindo a reforçar até o número de trabalhadores do município com vínculos precários e multiplicaram-se os Contratos Emprego Inserção em vários locais, das juntas de freguesia às escolas, onde há pessoas a trabalhar praticamente a custo zero. Não nos esquecemos disso. E não nos esquecemos de onde estavam PS e PSD, às vezes com o envergonhado apoio da CDU, quando se votou o fim do abuso sobre os Contratos Emprego Inserção ou quando se votou, por proposta do Bloco de Esquerda, a reposição das 35 horas para os trabalhadores da autarquia. Quem desiste do compromisso com o trabalho, quem se esquece que a razão da esquerda é a luta pelos de baixo, pode dizer-se socialista, mas há muito deixou o socialismo pelo caminho.

Em terceiro lugar, o combate à nova construção e à construção desenfreada. O planeamento urbanístico ficou demasiados anos refém da especulação imobiliária e de interesses particulares. Não nos iludimos e sabemos que dificilmente recuperaremos o tempo perdido: onde existiu nova construção devia ter existido reabilitação urbana, onde existiu especulação devia ter imperado o interesse público. Mas há soluções concretas que podem fazer a diferença na vida de milhares de pessoas. É urgente um Plano de Irradicação de Barracas, que leva mais de 20 anos de atraso, para que se arranje uma solução para os habitantes do Barruncho. Como é urgente uma intervenção concertada nos bairros do IHRU, deixados ao abandono há anos demais e que estão hoje num estado lastimável. Responder ao problema da habitação é um passo determinante para acabar com as desigualdades num concelho onde a multiculturalidade vive em cada bairro e tem por vizinhos o racismo, a xenofobia e a exclusão social. Não desistimos desse compromisso.

Em quarto lugar, mobilidade e transportes. Quem vive em Odivelas sabe bem do que falamos. E mesmo que não soubéssemos, o quotidiano trataria de nos lembrar todos os dias: transportes insuficientes, um trânsito infernal, horas para chegar ou voltar do trabalho, cada dia é um bico d’obra. A tudo isto se junta a completa inexistência de mobilidade interna, num concelho em que a única volta do “Voltas” liga o centro da cidade ao centro comercial mais próximo. Conhecemos os problemas e sabemos as soluções: uma rede transportes públicos inclusiva, com acesso a pessoas com mobilidade reduzida, circulação dentro do concelho com criação de linhas de bairro, criação de ciclovias internas ao concelho e também com ligações intermunicipais. E, sobretudo, mais estacionamento e estacionamento devidamente ordenado, sem que seja para entregar a gestão à EMEL, num negócio estranhíssimo e ainda não explicado em que Fernando Medina anuncia a construção de parques de estacionamento num concelho para serem geridos pela empresa municipal do concelho vizinho.

Por último, o mais importante: um concelho em que se possa viver com dignidade tem que colocar os serviços públicos à frente dos interesses privados. Queremos responder aos problemas de quem cá vive e por isso, no concelho que se orgulha de ter a maior taxa de natalidade do país, tem de haver creches públicas que garantam que a paternidade e maternidade não são um peso que as famílias não podem suportar. Queremos escolas públicas com condições para os jovens do concelho e, para isso, é necessário arrancar com um plano de reabilitação de equipamentos. E não nos esquecemos nunca deste número: 53 mil. 53 mil pessoas sem médico de família, um terço dos habitantes deste concelho onde o maior equipamento é entregue ao Grupo Espírito Santo e os equipamentos de proximidade em Famões, Olival Basto ou Odivelas são sucessivamente adiados há mais de trinta anos. Saúde e educação, pilares do Estado Social, no país como nas autarquias. Quem se esquece disto bem pode reivindicar os valores da esquerda, mas sabe que não há projecto de esquerda sem igualdade e não há igualdade sem serviços públicos.

Camaradas,

Amigos e amigas,

Começamos hoje uma campanha que durará precisamente dois meses e meio, até 1 de outubro. E não escondemos ao que vimos: dois meses e meio é precisamente o tempo que temos para garantir que Fernando Seara, o candidato saltitão que fez carreira a prometer cumprir em Lisboa o que não cumpriu em Sintra, acumula no seu currículo mais uma histórica derrota eleitoral. Dois meses e meio é o tempo que temos para assegurar que cada voto à esquerda, cada voto que defende a democracia do autoritarismo e os serviços públicos dos interesses privados, é um voto para impedir a maioria absoluta do Partido Socialista. E dois meses e meio é precisamente o tempo que temos para conseguir, pela primeira vez, eleger um vereador do Bloco de Esquerda no concelho de Odivelas.

Apresentamos hoje o nosso projecto e apresentamos hoje as nossas listas. O Bloco apresenta a estas eleições as listas mais jovens, com uma média aproximada de 35 anos. Apresenta listas em que a paridade é assumida por inteiro porque as mulheres são metade deste concelho e metade deste país. Apresenta listas que se fazem de gente e gente que se faz de percursos: somos operários da indústria que resiste a um país devastado pela auto-proclamada construção europeia; somos administrativos e técnicos superiores num Estado em que as carreiras estão congeladas há demasiados anos; somos desempregados, precários e reformados que sabem que um país decente não deixa ninguém para trás; somos sociólogos, antropólogos, engenheiros e arquitetos que pensam a cidade e, mais do que isso, fazem a cidade. E somos sobretudo activistas, como o Bolche, deputado municipal há mais de uma década, a quem tudo devemos nos últimos anos e deveremos ainda mais nos próximos.

Dois meses e meio para as eleições. Falta pouco, temos tudo à nossa frente. Vamos a isso.

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