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	<title>Odivelas.com - OdivelasTV &#187; Vitor Adrião</title>
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	<description>Odivelas Portal de Noticias e TV</description>
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		<title>Larmanjat e outros transportes no Termo</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 09:44:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Topo]]></category>
		<category><![CDATA[Larmanjat]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[
 Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

O projecto literário que encetei no início de 1990 sobre a Cultura Saloia do Termo de Lisboa, o qual ainda aguarda edição pela Entidade Autárquica Odivelense ou Lourense (das duas, uma… que ambas foram contactadas há muito, e de ambas ainda aguardo resposta), levou-me a inscrever no mesmo e publicar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/Larmanjat.jpg"></a></p>
<p style="text-align: right;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/Larmanjat.jpg"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/Larmanjat.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2008" title="Larmanjat" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/Larmanjat-223x300.jpg" alt="" width="223" height="300" /></a> Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)</p>
<p style="text-align: right;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="94" height="67" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O projecto literário que encetei no início de 1990 sobre a Cultura Saloia do Termo de Lisboa, o qual ainda aguarda edição pela Entidade Autárquica Odivelense ou Lourense (das duas, uma… que ambas foram contactadas há muito, e de ambas ainda aguardo resposta), levou-me a inscrever no mesmo e publicar modestamente às minhas próprias custas em edição limitada mas ainda assim muito divulgada, este estudo datado de 1994, com o título original de Transportes saloios no século XIX.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, ainda nos inícios do século XX rareava o transporte regular de pessoas do Termo para a capital, e vice-versa.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia a diligência, antigo meio de transporte do colectivo, puxada por fogosos cavalos, vinda de Torres Vedras, atravessando Loures e procedendo à muda de equídeos na estação da Malaposta, junto ao Olival Basto, antes de seguir para a estação central na Calçada do Combro, junto ao Correio Geral, conforme informa Maria Amélia da Motta Capitão in Subsídios para a História dos Transportes Terrestres em Lisboa no Século XIX, Lisboa, 1974.</p>
<p style="text-align: justify;">O serviço de mala-posta, inaugurado em 17.9.1798, desapareceu por completo no primeiro quartel do século XX, tendo sido o principal meio de comunicação e distribuição de correio na Estremadura. Além do correio, a diligência podia levar quatro passageiros, ao preço de 9.600 réis por pessoa, e mais 320 de gorjeta para o cocheiro e os sotas (isto cerca de 1802). Serviço executado duas vezes por semana, o horário coadunava-se com o aproveitamento da melhor temperatura do dia, no Inverno, sendo a partida às 5 horas; no Verão, às 17 horas (in Maria Amélia Capitão, ob. cit.).</p>
<p style="text-align: justify;">A par da mala-posta, criada para longos cursos, havia as carruagens públicas, ou omnibus (do latim omnes = todas as pessoas, toda a gente), fazendo pequenas carreiras em Lisboa e também ligando esta aos lugares mais próximos no Termo: Oeiras, Cascais, Sintra, Mafra e Loures.</p>
<p style="text-align: justify;">A Companhia de Carruagens Omnibus de Lisboa foi constituída com estatutos aprovados em Abril de 1836 (ou em 29.4.1837), tendo as carreiras começado com dez carros, em 1835. O omnibus era um carro pesado e barulhento de grandes dimensões, com quatro rodas, cinco janelas de cada lado, porta na retaguarda, estribo para os passageiros subirem, etc. Podia transportar quinze pessoas. Era puxado por duas parelhas de cavalos ou de muares, indo um sota na parelha da frente e o cocheiro sentado no tejadilho, com as rédeas bem seguras.</p>
<p style="text-align: justify;">A aparição da concorrência de outras companhias de carruagens, ditou o declínio desta primeira empresa de omnibus (nome que se popularizou no Brasil sob o designativo ónibus, que entre nós, portugueses, é o autocarro) por volta de 1868, o qual já começara em 24.2.1865, quando um violento incêndio nas suas cocheiras matara mais de metade dos cinquenta cavalos (in Vasco Callixto, As Rodas da Capital – História dos Meios de Transporte da Cidade de Lisboa, Junta Distrital de Lisboa, 1967).</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1870, o lisboeta e o saloio conheceram um “exótico” comboio de tracção mecânica: o larmanjat (nome herdado do francês seu criador, J. Larmanjat). Este comboio deslizava sobre um carril central e duas “passadeiras” de madeira, para as rodas laterais. Em 31.1.1870 foi inaugurado este sistema em Lisboa, no trajecto Largo de Santa Bárbara – Alameda do Lumiar, gastando cerca de uma hora na viagem de ida e volta. A estação central ficava no Palácio dos Condes de S. Miguel, na Rua de Arroios.</p>
<p style="text-align: justify;">O larmanjat foi mal aceite por utentes e não utentes, cocheiros e carroceiros, poetas e toda a imprensa, ridicularizaram-no, chamaram-lhe “comboio de areia”, “demónio negro”, etc. Houve mesmo espancamento de maquinistas e actos de sabotagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Para revigorar este sistema foi fundada uma empresa inglesa, que recebeu as concessões da anterior: a Companhia dos Tramways a Vapor, com escritórios em S. Sebastião da Pedreira e estação central nas Portas do Rego, de onde partiam duas novas linhas: a de Sintra, inaugurada em 2 de Julho (ou Junho) de 1873, sendo aberta ao público no dia 5. Gastava 1 hora e 55 minutos na viagem; e a de Torres Vedras, cujo serviço começou em 6.9.1873, levando cerca de 5 horas por viagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve muito entusiasmo das populações que vitoriaram o rei D. Luís, a soberana inglesa, o marechal Saldanha, etc., quando se mostraram viajando neste comboio, num acto político público visando demonstrar que este era um meio de transporte seguro, o que não convenceu praticamente ninguém, e foram aclamados só pela sua grande coragem, ousadia ou loucura em viajar no “comboio da morte”, fama de que nunca se livrou enquanto existiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o larmanjat teve vida curta por causa dos frequentes descarrilamentos, dos tombos dos passageiros, das avarias, da muita poeirada, dos grandes atrasos e, em especial, da má administração da empresa. Apesar de terem sido organizados serviços especiais para as feiras do Campo Grande e das Mercês, o larmanjat acabou de vez em 1877 (in Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa, Lisboa, 1994).</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda acerca da via monocarrilada Larmanjat, Torres Vedras – Lisboa, atravessando Loures, escreveu Adão de Carvalho (in Memórias de Torres de Vedras, Assembleia Distrital de Lisboa, Serviços de Cultura, 1991):</p>
<p>“Em 6 de Setembro de 1873, foi inaugurado o caminho-de-ferro Larmanjat, entre Lisboa e Torres Vedras, sendo a estação desta vila situada no Bairro Tertuliano, no velho prédio de primeiro andar existente por detrás da casa do Sr. Venceslau dos Santos.</p>
<p>“As estações eram: Turcifal, Freixofeira, Barras, Vila Franca do Rosário, Malveira, Venda do Pinheiro, Lousa, Pinheiro de Loures, Loures, Santo Adrião, Nova Sintra (nome de armazém ainda existente ao início da Calçada do Carriche, no Olival Basto, um pouco adiante do edifício da Mala Posta – Nota V.M.A.), Lumiar, Campo Grande, Campo Pequeno e Lisboa.</p>
<p>“O preço das passagens para Lisboa era de novecentos réis, em 1.ª classe, e setecentos réis, em 3.ª. Não tinha 2.ª classe.</p>
<p style="text-align: justify;">“A linha, muito rudimentar, com um carril central de ferro e calhas laterais de madeira, acompanhava em quase toda a extensão a estrada real (de Mafra); porém, este sistema deu tão maus resultados, pelos contínuos descarrilamentos e tombos em toda a viagem que os passageiros sofriam, que estes preferiam as diligências. E assim, ao fim de poucos meses de exploração, acabou o caminho-de-ferro Larmanjat.”</p>
<p style="text-align: justify;">Os até aqui citados eram os principais meios de transporte colectivo em Oitocentos, no Termo dos Saloios. No entanto, não há a esquecer que por norma o saloio não era pessoa de largos recursos económicos, sendo por força do destino obrigado a recorrer a meios de locomoção mais acessíveis à sua magra bolsa. Então, vê-se a presença quase permanente do burro, animal aplicado a todos os serviços pelo “homem do campo” estremenho que fez dele o “camelo” da Europa, o seu prestimoso servidor, ajudando-o na labuta do agro, nas idas à cidade, sempre dócil e sempre infatigável. Como o seu dono, de pouco se alimenta. Comprar um jumento no século XIX era relativamente barato: em 1890 um burro valia 10.000 réis e uma burra, meia moeda. Os burritos novos, com menos de um ano, davam-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, 1948), o modo como o saloio aparelha o seu burro é o mesmo utilizado na Idade Média: é ainda o albardão mourisco com arção em meia-lua. E os ceirões de esparto bifurcados no dorso da azémola, são a cópia flagrante dum costume persistente em Marrocos.</p>
<p style="text-align: justify;">A aparelhagem do burro saloio consta do albardão, albarda e almantricha. O albardão para os serviços do campo, a albarda para a viagem, e a almantricha (com cadeirinha ou sem ela) para transporte de pessoas do sexo feminino, geralmente saloias abastadas. Algumas vezes os ceirões eram substituídos por cestos convenientemente ligados (in Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, “Boletim Cultural´93”, Câmara Municipal de Mafra).<br />
Bom caminhante, tanto o saloio mendigo como o feirante ou o romeiro, não se escusavam a fazer longas jornadas a pé. Por vezes, conseguiam boleia desta ou aquela galera (carroça destinada a transportar cargas), puxada por uma ou duas parelhas de cavalos ou muares, carregadas de produtos hortícolas de Torres Vedras para Lisboa, ou com as trouxas de roupa lavada das lavadeiras de Caneças e Loures para as freguesas da cidade. Às portas do Lumiar, ainda subjaze a memória toponímica dum tempo não muito afastado: a “Rua das Lavadeiras” da Ameixoeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao saloio abastado, deslocava-se montado num cavalo, aparelhado de forma simples. A saloia abastada, preferia tanto a jumenta como a égua ou a mula.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o avanço do século XX e a evolução dos meios de transporte, aos poucos o Termo dos Saloios foi perdendo o folclore singular das suas locomoções próprias, muar ou asinina, substituindo-as por camionetas de caixa aberta ou tractores. Outros, para irem à cidade, hoje basta comprarem um bilhete de autocarro, de comboio ou até de metropolitano.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta a memória desta vertente social da vivência saloia. Cabe à Museologia conservá-la e transmiti-la aos presentes e vindouros, desta maneira preservando-os das malfazejas anemias culturais.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vitor Manuel Adrião<br />
</em><a href="mailto:vitoradriao@portugalis.com"><em>vitoradriao@portugalis.com</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">________<br />
<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.<br />
</em></p>
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		<title>Quinta do Barruncho, Granja da Paradela</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 13:48:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[ Dr. Vitor Manuel Adrião
(Investigador na área da História medieval)
vitoradriao@portugalis.com

 
Granja da Paradela &#8211; A Barruncha Maltês
Quinta do Barruncho
Entre a Póvoa de Santo Adrião e Odivelas, defronte ao Olival Basto, encontra-se a quinta hoje conhecida pelo nome de Quinta do Barruncho, outrora, Quinta da Granja (da Paradela) ou Quinta de Nossa Senhora do Rosário, a quem tinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-407" href="http://odivelas.com/2010/01/16/quinta-do-barruncho-granja-da-paradela/ponte_medieval/"></a> Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Investigador na área da História medieval)<br />
</em><a href="mailto:vitoradriao@portugalis.com"><em>vitoradriao@portugalis.com</em></a></p>
<p style="text-align: right;"><a href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="102" height="74" /></a><br />
 </p>
<h2 style="text-align: left;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-402" href="http://odivelas.com/2010/01/16/quinta-do-barruncho-granja-da-paradela/barruncho_brasao/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/barruncho_brasao.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-402" title="barruncho_brasao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/barruncho_brasao.jpg" alt="" width="269" height="201" /></a>Granja da Paradela &#8211; A Barruncha Maltês<br />
Quinta do Barruncho</h2>
<p style="text-align: justify;">Entre a Póvoa de Santo Adrião e Odivelas, defronte ao Olival Basto, encontra-se a quinta hoje conhecida pelo nome de Quinta do Barruncho, outrora, Quinta da Granja (da Paradela) ou Quinta de Nossa Senhora do Rosário, a quem tinha sido dedicada a sua capela. Invocava-se também, aí, o Senhor do Bom Princípio.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Anne de Stoop (in Quintas e Palácios nos arredores de Lisboa, pp. 53-56. Livraria Civilização, Porto, 1986), “a casa, construída por volta do ano 1700, teria sido uma comendadoria da Ordem de Malta, o que explicaria o tamanho imponente da capela”.</p>
<p style="text-align: justify;">Concordo com a ilustre autora mas o tema carece desenvolvimento, pois já se regista datada neste lugar a presença armoriada junta à cruz signatária da Ordem de São João de Malta, muito antes do início do século XVIII.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, à beira do caminho que leva a esta Quinta do Barruncho, muito próxima dela conserva-se um pórtico barroco armoriado tendo na trave horizontal superior gravada a Cruz da Ordem de Malta, com a data 1638. Seria a entrada para a granja maltesa de que ainda subsistem as ruínas da casa e da capela anexa, num estado de verdadeira lástima, no cimo do Morro da Codiceira.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa seria a primitiva granja maltesa, antes de ser comenda num espaço novo, e segundo as crónicas antigas recuando ao tempo de D. Dinis, pertenceria ao espaço vastíssimo da antiga coutada real nesta parte do Termo, sendo também afamada pela abundância de trigo e de fruta que aí se plantavam. Vários autores reputados falam dela. Por exemplo, Américo Costa no seu Diccionário Chorographico de Portugal Continental e Insular (Porto, 12 vols., 1929-1949), assinala-a como “Codiceira ou S. João da Coidiceira” (vol. V, p. 535), situando abaixo dela a “Granja da Paradela, ou Casal da Paredela, ou Paradela, ou Granja da Póvoa” (vol. VIII, p. 1117). Nesta viria a ser a edificada posteriormente a Quinta do Barruncho, tudo pertencendo originalmente ao mesmo espaço maltês, antes da sua repartição em várias e pequenas quintas, possivelmente após 1700. De maneira que “a Granja da Paradela conserva o nome antigo, achando-se agora uma parte na freguesia da Póvoa”, como atesta, após consultar o autor por último citado, Pinharanda Gomes (in Santo António dos Cavaleiros – Monografia Histórica. Edição da Paróquia de Santo António dos Cavaleiros, Loures, 1992), historiando nas páginas 117-118 dessa sua Monografia este espaço monumental em causa, seguindo a descrição de Anne de Stoop a qual, aliás, sei-o, havia consultado pessoalmente este autor para a feitura do seu precioso livro com belíssimas fotografias.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, já antes Joaquim José da Silva Mendes Leal (in Admiravel Egreja Matriz de Loures (Uriunda do V. Seculo, edificada pelos Templarios, analiticamente historiada em livro ornado de estampas. Lisboa, 1909) descrevia no capítulo XIV dessa sua obra rara repartida em três partes: “Granja da Paradela – Tem ermida particular da quinta dos Barrunchos”. Pondo uma nota marginal: “Entre a Póvoa de Santo Adrião e Odivelas, defronte de Olival Basto. A capela já não existe”. Mesmo assim indica os nomes de vários confrades da Irmandade dos Escravos do Santíssimo da igreja da Mealhada (conventinho arrábido) moradores na Granja da Póvoa em 1827, como sejam os seculares António Lourenço e Isidoro António.<br />
<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-403" href="http://odivelas.com/2010/01/16/quinta-do-barruncho-granja-da-paradela/prim_granja_povoa/"></a></p>
<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-403" href="http://odivelas.com/2010/01/16/quinta-do-barruncho-granja-da-paradela/prim_granja_povoa/"></a></p>
<div id="attachment_403" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/prim_granja_povoa.jpg"><img class="size-full wp-image-403" title="prim_granja_povoa" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/prim_granja_povoa.jpg" alt="" width="300" height="163" /></a><p class="wp-caption-text">Primitiva Granja da Póvoa com capela anexa</p></div>
<p style="text-align: justify;">O Padre Álvaro Proença (in Subsídios para a História do Concelho de Loures, I Volume (Loures). Lisboa, 1940), diz deste lugar na página 13 dessa sua obra hoje raridade: “Codiceira – Está situada num monte e tem um sítio anexo chamado Granja. Deu-lhe outrora muita importância a quinta eu foi de António Vamprat e a sua abundância de trigo e fruta”. E na página 80, quase de corrida, assinala a ermida do “Senhor do bem Princípio – Existiu na Granja da Paradela e pertencia à Quinta dos Barrunchos. Era primorosa, muito bem acabada e com lindíssimas imagens de devoção popular”.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o período da ocupação Filipina de Portugal, esta Granja da Póvoa (onde me informaram terem achado nela algumas moedas dessa época) terá mantido o seu recato de propriedade agrícola, não se sabendo se sob esse aspecto encobria o outro mais importante de centro conspirador contra as Cortes de Madrid, mas se sabendo a Ordem em Portugal ser absolutamente desfavorável à ocupação espanhola, como se observa no apoio político, militar e fiduciário que discretamente deu ao partido independentista do duque de Bragança, futuro rei D. João IV, o Restaurador em 1640, mesmo sendo em 1638 um espanhol o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Juan de Lascaris-Castellar (1636-1657). Após a Restauração Nacional e o afastamento das personalidades e políticas de Espanha, a propriedade da Paradela terá começado a perder a sua influência até falecer por inteiro a favor do levantamento cerca de 1700 da Quinta do Barruncho, mais ampla, rica e condigna à condição fidalga dos seus primeiros moradores. Como golpe de misericórdia, com a vitória da revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, a cruz que encimava a capela primitiva da Granja foi deitada abaixo por um jacobino contrariado, e a casa transformada ora em armazém de cereais (o mesmo aconteceu à do Barruncho, que desde essa data esteve abandonada por largo tempo), ora em palheiro, ora em viveiro de cobras e ratos degradante da condição humana que aí vive paredes meias com a miséria mais constrangedora.</p>
<p style="text-align: justify;">Por esta granja maltês, cuja capela presumo dedicada a São João Baptista, Orago da Ordem, cujo domínio era reputado como um dos primeiros do Termo, terão passado proeminentes figuras nobiliárquicas da História de Portugal. Vê-se, por exemplo, no brasão esquartelado de 1638 encimando o portal no sopé da Codiceira, as Armas dos Coelhos e dos Carvalhos, com isto pressupondo que alguns membros dessas famílias entrecruzadas por laços nupciais tivessem pertencido à Ordem de Malta e deste sítio fossem donatários.</p>
<div class="mceTemp">
<div id="attachment_404" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/portal_ordem_malta.jpg"><img class="size-full wp-image-404" title="portal_ordem_malta" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/portal_ordem_malta.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a><p class="wp-caption-text">Portal barroco armoriado, datado e assinalado pela Cruz da Ordem de Malta, na Paradela</p></div>
<p style="text-align: justify;">Para melhor se enquadrar a orgânica medieval e renascentista das mais-valias imóveis ou prediais da Ordem do Hospital, depois de Malta, tem que cada Província desta estava repartida em espaços maiores ou menores dentro da jurisprudência e geografia Hospitalária primeiro, depois Maltesa. As possessões maiores chamavam-se Priorados ou Preceptorias, as menores Bailios ou Comendas, e as ínfimas Granjas ou Fazendas (vd. de minha autoria, Portugal Templário – Vida e Obra da Ordem do Templo. Via Occidentalis Editora Lda., Lisboa, Setembro de 2007).</p>
</div>
<p style="text-align: justify;">O primeiro nome dessa Instituição religiosa e militar foi o de Ordem de São João de Jerusalém (fundada em 1113), também conhecida por Ordem do Hospital ou dos Hospitalários, e depois de Rodes (1312). Após a sua transferência para a Ilha de Malta (1530), herdou desta o nome que se universalizou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nomeada Congregação em 1113 por bula do Papa Pascoal II, que lhes deu o Orago São Baptista e a Regra de Vida, cedo os Hospitalários transferiram-se para o Médio Oriente durante as primeiras Cruzadas, acompanhando a Ordem dos Templários, e ambas viriam a fixar a sua Casa-Mãe em Jerusalém. A Cruz do Hospital, originalmente simples, de braços iguais, evolui com o tempo e por meados do século XIII já assumia a forma patada de oito pontas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1122 a Ordem de São João do Hospital já ocupava o mosteiro de Leça do Bailio, a NE do Porto, tendo sido D. Afonso Pires Farinha, valido de D. Afonso III, o primeiro a usar o título de Prior em Portugal. Em 1350 a cabeça da Ordem foi estabelecida no Priorado do Crato.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto à Quinta da Azinhaga do Barruncho – termo este associado ao medieval barragão, “companheiro”, mas que Pinharanda Gomes, aventando sem afirmar (in ob. cit., p. 117), diz que “a etimologia é duvidosa: Barruncho = alguidar de barro? – dela faz registo uma carta datada de 12 de Maio de 1758, em resposta ao célebre inquérito do Padre Luís Cardoso, assinalando que “na Quinta da Granja, onde vive a viúva de António van Praet, existe uma magnífica capela dedicada ao Senhor do Bom Princípio, extremamente bem feita e bem decorada de imagens piedosas, muito particularmente a do Senhor que está sobre o altar-mor… obra muito singular” (in Inquérito Paroquial de 1758. Arquivo Nacional da Torre do Tombo).</p>
<p style="text-align: justify;">A família Praet, que habitou este palácio, provém do condado da Flandres, onde teve cargos principais, nomeadamente, os de burgomestres e vereadores de Bruges e Dermonde. Quanto a António van Praet, filho de Jácome van Praet e de D. Micaela da Silva, foi homem de negócio, o mais rico particular de Lisboa no seu tempo, tendo palácio na cidade e grande quinta na Granja da Paradela. Mereceu grande estimação do rei D. João V e serviu o Tribunal do Santo Ofício no cargo de familiar, tendo-se recebido com D. Antónia Mariana Teresa Salgado, filha herdeira de Gaspar Salgado, cavaleiro da Ordem de Cristo e secretário da Junta dos Três Estados, e de sua mulher D. Águeda Maria Josefa Leopoldina Cardoso de Vargas, de cujo matrimónio proveio a geração belgo-portuguesa de apelido van Praet, usado com ou sem preposição (vd. de minha autoria, Granja da Paradela – A Barruncha Maltês. Revista Loures Magazine, Ano VI, n.º 22, Abril/Junho, 1994).</p>
<p>As Armas usadas, eram: de prata, com três folhas de golfão de verde. Timbre: uma folha do escudo (in Armorial Lusitano – Genealogia e Heráldica, pp. 449-450. Lisboa, 1961).<br />
 </p>
<div class="mceTemp">
<div id="attachment_405" class="wp-caption alignleft" style="width: 114px"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/brasao_praet.jpg"><img class="size-full wp-image-405" title="brasao_praet" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/brasao_praet.jpg" alt="" width="104" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">Armas da Família Praet</p></div>
<p style="text-align: justify;">Quanto à ligação da família Praet com a Barruncho cujo nome ficou perpetuado na toponímia deste lugar, ter-se-á de situar a genealogia de Vicente Ferrer Barruncho (n. Lisboa, Socorro, 17.07.1726), fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo tal como seu pai, Filipe Simões Barruncho (n. 10.05.1692), sendo sua mãe Catarina da Encarnação (n. 24.11.1694).</p>
</div>
<p style="text-align: justify;">Em 03.10.1756, na ermida de Nossa Senhora do Pópulo, Lisboa, Vicente Ferrer Barruncho casou com Maria Leonor Antónia da Nazaré Teixeira (n. 07.05.1731), de quem tiveram os seguintes filhos: João Pedro Barruncho (n. 03.09.1757) e Manuel Joaquim Barruncho, que viria a casar com Maria do Carmo Rebelo de Vasconcelos.</p>
<p style="text-align: justify;">João Pedro Barruncho casou com Efigénia Rosa Salgado van Praet e tiveram a seguinte descendência: Antónia Maria Brígida van Praet Barruncho (que viria a casar com António Joaquim Bandeira), Henrique Eduardo Barruncho e João Vicente Barruncho.</p>
<p style="text-align: justify;">Efigénia Rosa Salgado van Praet (n. 21.09.1773) era filha de António Salgado van Praet (c. 1740) e de Mariana Tomásia Felizarda da Fonseca Varela da Bandeira de Oliveira da Mata (n. 14.03.1744) – in D. Luís de Lancastre e Távora, Dicionário de Famílias Portuguesas, Lisboa, 1989.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitíssimo mais tarde, em 1905, passando pela Póvoa de Santo Adrião aquando do seu périplo De Benfica à Quinta do Correio Mor (Lisboa, 1905), Gabriel V. Pereira recorda ter aí visto “algumas boas construções antigas, agora em ruínas”. Tal era, provavelmente, nessa altura, o estado em que se encontrava a Quinta do Barruncho que chegou a ser depósito de cereais antes de ter sido esplendidamente restaurada, de 1957 a 1959, pelo Cônsul português no Luxemburgo, Dr. João Maria Bravo, cedendo às insistências da sua esposa que o impeliu a realizar a feliz obra de restauro do imóvel.</p>
<p style="text-align: justify;">A fachada da construção principal, evocando um tanto o barroco dos países nórdicos, é de uma grande originalidade. Tendo por centro a capela, é sobrepujada por uma larga empena trabalhada, no cimo da qual implanta-se uma cruz com um campanário de cada lado. Ao centro da fachada e sobre o janelão central, o brasão dos van Praet.</p>
<p style="text-align: justify;">No interior, o altar-mor da capela ostenta ainda o famoso Senhor do Bom Princípio, magnífico e impressionante crucifixo de tamanho elevado remontando ao período da construção do edifício (século XVIII). Dois missais antigos (um do mesmo século XVII e outro do XVIII) mantêm a memória do culto já não celebrado mas que teve grande fama na região. Os candelabros são da mesma época. A arquitectura do templo, majestoso apesar de não muito comprido mas de paredes elevadas com coro e janelas laterais destinadas aos senhores da casa acompanharem de cima as celebrações litúrgicas, um pouco austera, foi enriquecida mais tarde, por volta de 1740, com uma decoração de azulejos azuis e brancos, de excelente qualidade. Esses silhares de ambos os lados, primitivamente cercados por uma bordadura recortada, podem ser atribuídos à oficina de Bartolomeu Antunes (cf. Anne de Stoop, ob. cit.). Vêem-se ainda dois quadros de grande primor artístico possivelmente do século XVIII, um deles retratando São Domingos de Gusmão recebendo o Rosário das mãos da Virgem.</p>
<div class="mceTemp">
<div id="attachment_406" class="wp-caption alignleft" style="width: 360px"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/capela_barruncho.jpg"><img class="size-full wp-image-406" title="capela_barruncho" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/capela_barruncho.jpg" alt="" width="350" height="258" /></a><p class="wp-caption-text">O Senhor do Bom Princípio na capela da Quinta do Barruncho </p></div>
</div>
<p> <br />
Na nave, à esquerda, pode identificar-se a hagiografia de São Maximino pela legenda “Maximino, eu te baptizo”, escrita por debaixo da cena que representa o Cristo baptizando o santo. À direita, é ilustrada a célebre Batalha Naval de Lepanto, onde, em 1571, as forças cristãs, comandadas por D. João de Áustria, esmagaram a frota otomana, ajudadas maioritariamente pelos cavaleiros da Ordem de Malta, vitória retumbante que veio a dar lugar a uma grande devoção por Nossa Senhora do Rosário, a quem é dedicada este templo. Por isso, nesse combate naval se podem distinguir, nos pavilhões içados ao alto de soberbos mastros, as imagens de Cristo e da Senhora do Rosário, lado a lado com o Crescente turco.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo o resto da habitação foi profundamente remodelado quando dos trabalhos de restauro nos fins dos anos 50 do século passado. Ainda assim, algumas salas conservam o seu tecto em masseira, cujas pinturas puderam ser recuperadas. Sobre um deles, de todos o tecto mais belo, o espaço é enquadrado por um conjunto de caixotões e cantoneiras, no centro dos quais, além dos monogramas da Virgem e do Cristo, se vêem saborosas carrancas e molduras, interpretadas num tom jubiloso que não deixa de evocar um tanto a fachada.</p>
<p style="text-align: justify;">Por entre os móveis e os quadros, escolhidos cuidadosamente, pode admirar-se uma pequena tela do século XVIII, apaixonante caricatura da morte, onde se vê num quarto luxuoso – coberto por um tecto em masseira “rocaille” – um homem que agoniza, comprimindo-se à sua volta médicos e serviçais, herdeiros e amigos, anjos e diabos…</p>
<p style="text-align: justify;">No terraço, aprecia-se uma interessante fonte barroca defronte a uma mesa do mesmo estilo, ainda que sem dúvida seja no jardim que pode apreciar-se o “ex-libbris” desta quinta: a monumental fonte barroca, que descendo pela parede constitui-se de um engenhoso empilhamento em patamares de pedras esculpidas e rochedos em equilíbrio, formando oito quedas de água de uma cascata caindo dentro de espaçosa bacia redonda.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das primitivas pedras de mó e gárgulas de goteiras esparsas pela propriedade, vêem-se ainda pequenas estátuas de meninos fáunicos, belos tanques, silhares de azulejos (observando-se num o pormenor curioso e raro de um dentista operando um paciente segundo o costume do século XVIII, como seja um assistente agarrando-lhe as pernas e, provavelmente após emborcar uns copos de aguardente a guisa de anestesia, o operador arrancar-lhe sem mais nem quê o dente afectado) e uma pequena imagem em terracota (recentemente roubada) de Santo António com o Menino, possivelmente dos inícios da capela. Há muita harmonia em todo este espaço palaciano, autêntico oásis face ao meio circundante (exterior).</p>
<p style="text-align: justify;">Os tanques e fontes desta quinta, assim como de toda a região circunvizinha, são alimentados pelas águas subterrâneas descendo da zona do Monte, parte delas canalizadas por mina cuja entrada alpendrada abria para uma escadaria levando ao interior repartido em várias galerias. Era assim que um aqueduto primitivo de vários arcos recebia o líquido puro canalizando-o para o interior da herdade. Hoje, com as obras recentes de urbanização que vêm desde a Cidade Nova e se estendem pela Paradela e Granja, tanto a mina quanto o aqueduto desapareceram sem que fosse feita coisa alguma. E coisa alguma foi feita para poupar à inclemência recente uma ponte medieval (possivelmente românica, antes, romano-árabe) que terá servido e muito aos moradores deste sítio da Granja da Paradela em 1638.</p>
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<div class="mceTemp">
<div id="attachment_407" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/ponte_medieval.jpg"><img class="size-full wp-image-407" title="ponte_medieval" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/ponte_medieval.jpg" alt="" width="400" height="191" /></a><p class="wp-caption-text">Ponte medieval da Granja da Paradela</p></div>
<p style="text-align: justify;">Todo o património histórico da Granja da Paradela carece de inventariação e intervenção imediata por parte da autoridade municipal de Odivelas, ao abrigo da protecção legislativa existente da Assembleia da República (Imóvel de Interesse Público. Decreto-Lei 516/71, de 22 de Novembro).</p>
</div>
</div>
<p style="text-align: justify;">O progresso social, urbanístico, não deverá colidar com a manutenção da memória histórica testemunha da evolução de um povo. Um povo que não conheça a sua origem, a sua História, é como aquele que não sabem quem foram os seus pais, não tem norte familiar, anda sem referências como um órfão qualquer. Certamente o Concelho de Odivelas não merece isso, e mais que ninguém a antiga Granja da Póvoa, hoje Póvoa de Santo Adrião, e todo o espaço do Barruncho – Granja da Paradela.</p>
<p>A Paradela é, pois, paragem obrigatória no roteiro fabuloso do património histórico monumental de Odivelas. Vale a pena visitá-la.</p>
<p> <br />
Vitor Manuel Adrião<br />
historiador, com diversos trabalhos sobre a Região Saloia.<br />
- &#8220;Santo António dos Cavaleiros &#8211; História e Tradição&#8221;<br />
- &#8220;Mitos e Tradições Saloias&#8221;<br />
- &#8220;Loures e os Templários&#8221;<br />
- &#8220;Frielas &#8211; Memorial Histórico&#8221;<br />
- &#8220;O Giro do Círio dos Saloios&#8221;</p>
<p><em>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</em></p>
<p><em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor</em>.</p>
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		<title>O Castro da Amoreira</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 01:09:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Castro da Amoreira]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)
 
Para falar da Freguesia da Ramada, devo iniciar obrigatoriamente pelo seu antigo Presidente, sr. Ilídio Ferreira, que foi quem disponibilizou todos os meios tendo pessoalmente me conduzido à estação arqueológica no topo da Serra da Amoreira, no actual Concelho de Odivelas, e que desde há muito era foco das atenções [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-365" href="http://odivelas.com/2010/01/16/o-castro-da-amoreira-2/castro2/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/castro2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-365" title="castro2" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/castro2.jpg" alt="" width="269" height="201" /></a>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<br />
</em><a href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="90" height="71" /></a> </p>
<p style="text-align: justify;">Para falar da Freguesia da Ramada, devo iniciar obrigatoriamente pelo seu antigo Presidente, sr. Ilídio Ferreira, que foi quem disponibilizou todos os meios tendo pessoalmente me conduzido à estação arqueológica no topo da Serra da Amoreira, no actual Concelho de Odivelas, e que desde há muito era foco das atenções dos estudiosos do assunto, nas áreas histórica, arqueológica, paleontológica e antropológica.</p>
<p>Com essa finalidade, publiquei este estudo pela primeira vez na Revista Loures Magazine, Ano VI – N.º 21 – Janeiro/Março de 1994, precisamente com o título O Castro da Amoreira.</p>
<p style="text-align: justify;">A Serra da Amoreira ou Monte da Bica – que não existe, visto ser um topónimo inventado para efeitos de geodesia; o marco trigonométrico BICA tomou, como é costume, o nome da povoação mais próxima, neste caso, a Ponte da Bica – tem merecido várias referências pelos especialistas da área, atendendo ao seu especial relevo e constituição geológica de complexidade basáltica.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 1910 e 1912, o professor de Medicina, e também arqueólogo, Joaquim Fontes, descobriu a estação proto-histórica da Serra da Amoreira e aí recolheu materiais que atribuiu ao período do Paleolítico Inferior (Mustierense). E entre 1912 e 1915, o professor de História de Arte, igualmente arqueólogo, Vergílio Correia, também fez investigações no local, tendo recolhido novas peças desse mesmo período, as quais estão mencionadas em O Arqueólogo Português 17, pág. 61, Lisboa, 1912, no estudo do autor portando o título: O Paleolítico em Portugal. Estado actual do seu estudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, o geólogo e arqueólogo O. da Veiga Ferreira, que participou nas escavações na diáclase de Salemas e na gruta do Correio-Mor, vem a ser o único a referir a descoberta dum fragmento de cerâmica tipo &#8220;campaniforme&#8221; (Época do Cobre) na Serra da Amoreira, em condições e datas que se desconhecem (in Guia Descritivo da Sala de Arqueologia. Museu dos Serviços Geológicos de Portugal, pág. 21, Lisboa, 1982).</p>
<p style="text-align: justify;">Em Janeiro de 1983, um estudante de nome Carlos Valverde, morador em Odivelas, quando recolhia terra negra para vasos com flores junto ao depósito de água no topo da Serra da Amoreira, ocasionalmente desenterrou um machado de pedra polida. Deu notícia deste achado ao seu professor de História a quem mostrou a peça, assim como aos alunos presentes. Entre estes contava-se Ana Paula Rodrigues da Silva<br />
(funcionária da Câmara Municipal de Loures), que informou ao seu conhecido dr. João Ludgero da descoberta.</p>
<p>Assim, houve motivo para uma breve exploração do local, realizada em Julho de 1985, pelos referidos dr. João Ludgero, Ana Paula da Silva, Carlos Valverde e o motorista sr. Armando. Recolheram-se então vários fragmentos de cerâmica de fabrico manual, na mesma cova onde fora achado o machado.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquando da inauguração do Museu Municipal de Loures, em 28 de Dezembro de 1985, o sr. José Lino Valverde, pai do supradito estudante Carlos Valverde, cedeu a título de empréstimo o referido machado para ser exposto no sector de Arqueologia, o que foi feito. Em Fevereiro de 1986 retirou-o do Museu, só restando a sua memória numa fotografia a preto e branco.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 20 de Abril de 1986, o professor Gustavo Marques (a quem muitíssimo se deve a divulgação desta estação arqueológica), acompanhado pelos dr. Renato Monteiro, Pedro M. Pereira e João Marques, fizeram outra prospecção no local e recolheram mais cerâmicas do mesmo tipo, além de resíduos de fabrico de instrumentos de sílex. Na ocasião foram observados muros envolventes – possíveis restos de muralhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudando o espólio recolhido pelo dr. João Ludgero e por si mesmo, Gustavo Marques concluiu estar perante mais uma estação da Cultura de Alpiarça (Época do Ferro inicial), sobre a qual já escrevera dois importantes trabalhos: Arqueologia de Alpiarça. As Estações Representadas no Museu do Instituto de Antropologia do Porto. Porto, 1972. E Aspectos da Proto-História do Território Português. I &#8211; Definição e Distribuição Geográfica da Cultura de Alpiarça (Idade do Ferro). Porto, 1974.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1987 e na mesma linha, Gustavo Marques escreverá um novo trabalho, desta feita precisa e exclusivamente dedicado à Serra da Amoreira: Aspectos da Proto-História do Território Português. III – Castelo da Amoreira (Odivelas, Loures). Nele expõe um breve catálogo do material recolhido na supradita estação, desde o Paleolítico, passando o Neolítico até à Alpiarça ou do Ferro, ilustrado com gravuras das peças recolhidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Face a tantas provas cabais, inegáveis, nos meados de 1993 o Presidente da Junta de Freguesia da Ramada, Ilídio Ferreira, intercedeu junto do IPPAR (Instituto Português do Património Arqueológico e Arquitectónico), ex-IPPC, solicitando uma equipa de arqueólogos capacitados a avaliar da importância da estação. Durante várias semanas ela esteve aí, escavando e peneirando o solo, tendo descoberto vários fragmentos de cerâmica tipo alpiarça.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa ocasião, foi posta em dúvida a antiguidade dos amuralhamentos e que fosse um castelo, antes e talvez, quanto muito, um acampamento. Concordo parcialmente.</p>
<p style="text-align: justify;">A datação atribuída à Cultura Alpiarça ou do início da Idade do Ferro, ronda a passagem do século IV para o V a.C., sendo este último o período da principal ocupação da Amoreira pelos primitivos Lusitanos da Estremadura, os Alpiarças, assim chamados por mero convencionalismo antropológico, os quais na vasta região saloia repartiram-se em diversos ramos, como esse dos Galérios que habitaram a região limítrofe de Sintra, Negrais e Lousa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por esse motivo é que se deduz ser do século V a.C. (Época do Ferro) a data de origem dos restos do pressuposto castro amoreirense, cujas muralhas serão dessa altura. Eu mesmo dei com o trecho de uma muralha em muitíssimo bom estado no meio do mato, e no morro próximo, ombreando com a Serra da Amoreira, com o resto de uma calçada típica desse período, em excelente condição, além do que pressupus serem restos de habitações. Tudo, repito, sugerindo ser da mesma época, atestando pelos materiais e disposição envolventes.</p>
<p style="text-align: justify;">Um acampamento acastelado, porque amuralhado, para mim terá sido esta estação durante largo tempo, uma magnífica atalaia senhoriando, vigiando e protegendo a população agrária sediada em Casais, neste Concelho. Quando havia o perigo eminente dos ataques de tribos inimigas, certamente o “castelo alpiarça” servia de refúgio seguro para os modestos casais, de cuja presença proto-histórica foram encontrados inúmeros vestígios intra-muralhas.</p>
<p style="text-align: justify;">A importância do local ressalta da esplêndida descrição do Padre Luís Cardoso, de que transcrevo breve excerto quanto à sua situação geográfica (in Diccionario Geografico&#8230; 1, págs. 457-458. Lisboa, 1747):</p>
<p style="text-align: justify;">AMOREIRA. Serra na Provincia da Estremadura, Termo da Cidade de Lisboa, limites da Freguesia de Odivellas: no cume faz seu plano, ou coroa, que de Norte a Sul tem trezentos palmos, e do Nascente a Poente seiscentos. Vai descendo em ladeiras, que em circumferencia terá três quartos de legua. Tem este cabeço, e toda a mais serra muita pedra negra de alvenaria; e naõ produz outro mato, ou plantas mais que fétos. Nas suas ladeiras para a parte do Norte se tiraõ pedrarias finas de excelente qualidade, como as que se tiraõ do Lugar de Trigache, aonde daremos mais especifica noticia dellas. Dahi principia o rife das pedreiras da Paradella, pertencentes à Freguesia de Loures, e vay findar junto ao Casal da quinta da Pipa da mesma Freguesia.</p>
<p>Igualmente Raúl Proença (in Guia de Portugal, I, pág. 469, Lisboa, 1924) alude ao deslumbrante panorama estratégico da Serra da Amoreira, com cujo pressuposto fortificado alpiarça há semelhantes indesmentíveis em Lisboa (Castelo), St.ª Eufêmia (Sintra), Socorro (Torres Vedras) e em Pena do Barro (Torres Vedras).</p>
<p style="text-align: justify;">Com a cultura Alpiarça nasce a arte do Ferro &#8211; a metalurgia. O fogo torna-se o elemento central da vida social: os alimentos passam a ser assados e a cozer-se as peças de barro, dando-lhes robustez antes desconhecida. Desenvolve-se a cultura pictórica e arquitectónica, os primeiros indícios de religiosidade ordenada pelo culto astrolátrico, o respeito à família e ao clã, a devoção aos antepassados e aos mortos, dando a estes sepultura.</p>
<p style="text-align: justify;">Será José Leite de Vasconcelos o primeiro a apontar as sepulturas de Alpiarça, no Ribatejo, e a chamar ao Lusitano estremenho Alpiarça, o proto-histórico homem do campo simultaneamente religioso e artista, criador dos bem conhecidos vasos campaniformes ou caliciformes, lembrando enormes tulipas, belamente ornados de desenhos geométricos (in Antigos Povos da Nossa Terra, por António Carlos Leal da Silva pág. 39, Lisboa, 1967).</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio termo alpiarça, proveniente do ligure-ibérico alaba, &#8220;Grande Mãe &#8220;, indicia quer o nascituro culto telúrico à Magna Mater através da Lua, quer, afinal, o desenvolvimento da agricultura por meio de ferramentas de ferro, e cuja implosão maior terá sido nesta região saloia onde ainda hoje é a sua principal actividade, recolhendo-se da &#8220;Grande Mãe&#8221; Terra – a Divina Alpiarça – quanto nela se semeia e quanto dela se colhe, para usufruto das suas humanas criaturas.</p>
<p style="text-align: justify;">Alpiarça é, pois, o povo consagrado àquele divino luzeiro nocturno, Alaba, fiel companheira do Astro-Rei, Alabo, dador do Fogo Vital que, na Ramada, irá encontrar o seu expoente na arte dos soldadores metalúrgicos, cujos instrumentos figuram, aliás, no seu mais que digníssimo Brasão autárquico enobrecendo, a par do “Castelo” da Amoreira, esta alpiarcíssima Freguesia.<br />
____________________________________________<br />
 <br />
<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.<br />
</em> </p>
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		<title>Falar Saloio</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 09:19:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

Tragam-nos o estrangeiro, mas
não nos levem o saloio!
Alfredo Mesquita in   
Os Saloios, 1907
A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos usos e costumes vão falecendo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="99" height="78" /></a><br />
</em></p>
<p style="text-align: left;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-228" href="http://odivelas.com/2010/01/15/falar-saloio/falar/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/falar.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-228" title="falar" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/falar.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Tragam-nos o estrangeiro, mas<br />
não nos levem o saloio!<br />
Alfredo Mesquita in   <br />
</em>Os Saloios, 1907</p>
<p style="text-align: justify;">A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos usos e costumes vão falecendo de maneira célere assim se perdendo toda a tradição etnográfica do Termo, ainda assim vai sobrevivendo no falar dos mais idosos, cuidando de a transmitir aos mais novos e a legar aos diversos ranchos folclóricos e etnográficos que, a despeito das maiores dificuldades económicas com que se debatem, conseguem manter viva a cultura “sui-generis” do Termo de Lisboa que é a região etnograficamente demarcada Saloia.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o falar saloio é ainda preservado pelos mais antigos na Murteira, em Caneças, em Bucelas e em Lousa, com um e outro foco esporádico nesta e naquela aldeia resistente aos modernos usos e costumes urbanos, por norma descambando em vícios novos por lhes faltar a argamassa das regras morais de conduta ancestral de uma sociedade tradicional rural, que ao absorvê-los inevitavelmente se desintegrará e fenecerá.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois sim, apesar de o falar saloio parecer todavia não é linguajar algaraviado, antes, linguagem cujos vocábulos insistem no português arcaico que possui tanto de verbos gregos quanto latinos, e, principalmente no vocabulário do Termo, árabes. Originalmente este “linguajar” seria puro arábico, e após a Reconquista cristã do Termo e em contacto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, tornar-se-ia arcaico face às novas falas da urbe tomada pelo estrangeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem, hoje rústica, é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” (saloio) entrou na literatura e nas falas da cidade através do Teatro vicentino.</p>
<p style="text-align: justify;">A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar e deste ao português arcaico (luso-galaico) que chegou até hoje. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábicos, como “azebro”, e mudéjares, como “almácega”, “almácica” ou “almaça”.</p>
<p style="text-align: justify;">A vastíssima Literatura de Cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico pela estropiação de palavras e incorrecções sintácticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com a intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.</p>
<p style="text-align: justify;">Por essa Literatura vislumbra-se também a sabedoria saloia, orbitando entre o jocoso e o grave, a par de teimar manter-se independente das coisas e loisas das gentes finórias da cidade, mesmo que, anacronicamente, certamente por sobrevivência, participando indirectamente da vida delas, resistindo assim à «colonização» do campo pela cidade, pois que terminando a agricultura a indústria pouco mais poderá sobreviver, assim também o núcleo citadino. Tamanha resistência saloia poderá ser igualmente interpretada como resquício subconsciente da original marginalidade a que foi remetido o árabe após a Reconquista, sendo arrojado para fora de portas ou de muralhas da cidade. Tem-se aí o conflito entre o agrário e o industrial, cada vez menor por ambos os tipos se sedentarizarem numa sociedade altamente tecnológica e tecnocrática, desfavorecendo a sobrevivência das profissões tradicionais, a maioria manuais, assim como os usos e costumes tradicionais ou folclóricos, no sentido filológico exacto de folclore significar tradição.</p>
<p style="text-align: justify;">Na comédia O Saloio Cidadão alinharam-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo”; “por linha lhe vem a tinha”; “filho de burro não pode ser cavalo”; “ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou, então, a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cotejo deles atrás, carregados de trouxas de roupa, atira-lhe o seguinte remoque, ao que ela riposta, com a maior compostura e desembaraço:</p>
<p>        <em>   – Adeus, mãe de burros!<br />
           – Adeus, meu filho!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Com essa, parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento; encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, tudo está em mudança célere. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, de escritório ou de centros comerciais, e a dos rapazes primeiro para a tropa e depois para empregos no comércio e na indústria, aproximaram a cidade do campo por aquela tomado, e assim os saloios foram tomados por novos costumes e novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam completamente despercebidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Memória desse Passado recente aí está o vastíssimo património etnológico e etnográfico tradicionais dos Concelhos de Odivelas e Loures, a estudar quanto antes e a preservar a todo o custo.</p>
<p style="text-align: justify;">Do falar arcaico no Termo e em desfecho final, recolhi alguns termos orais e escritos (para isso tendo também recorrido a algumas bibliografia da especialidade: parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra. Esse trabalho baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol. 2, pp. 65-72, 1930-31, e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário de termos como homenagem à mais singular etnia luso-arábica que já conheci e a quem a cidade tudo deve: a Saloia.</p>
<p>Abafar = Tornar mais confortável a casa, e, por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou, ainda, nivelar o terreno com a grade.<br />
Aboticado = Hipotecado.<br />
Abrincadura = Brincadeira.<br />
Acanho = Acanhamento.<br />
Àcenha e cênha = Azenha.<br />
Acólitos = Incógnitos.<br />
Acolhia-se = Tirava-se.<br />
Acostumar = Costumar.<br />
Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.<br />
Alembranças = Lembranças.<br />
Alembrar = Lembrar.<br />
Alemões = Alemães.<br />
Alimais = Animais.<br />
Álinterna = Lanterna.<br />
Almaça = Tanque.<br />
Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.<br />
Amanhem = Amanhã.<br />
Amerdois = Ambos os dois.<br />
Almuinha = Horta.<br />
Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.<br />
Antoino = António.<br />
Apartar = Dividir.<br />
Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.<br />
Apolinhado = Pálido.<br />
Assistir = Morar.<br />
Atamoiçado = Adoentado.<br />
Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.<br />
Bailharito = Bailharico.<br />
Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.<br />
Balizar = Pensar.<br />
Balhar = Bailar.<br />
Baltizado = Baptizado.<br />
Baltizar = Baptizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.<br />
Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.<br />
Bi caúdo = Bico calado, expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.<br />
Breçozinho = Berçozinho.<br />
Brincar = Dançar.<br />
Botou = Deitou.<br />
Buscari = Buscar.<br />
Cabedulho = Tracto de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.<br />
Cabidela = Cabimento.<br />
Cabrêro = Cabreiro.<br />
Cacetim = Cacete, moca.<br />
Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando a expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.<br />
Cachaporrada = Pancada com pau.<br />
Calçães = Calções.<br />
Caganeiroso = Presumido, afectado.<br />
Calibre = Clima.<br />
Cal-te = Cala-te.<br />
Caminhito = Caminho.<br />
Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.<br />
Campou = Ganhou.<br />
Canêra = Caneira.<br />
Capitões = Capitães.<br />
Carronca (levar) = Levar pancada.<br />
Catacismos = Sinapismos.<br />
Catramalhos = Sinapismos.<br />
Cedade = Cidade.<br />
Charficar = Mortificar.<br />
Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.<br />
Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: aquèl home é mêmo chaparrão.<br />
Cinzêro = Barriga, bucho, papo. Exemplo: onde tá a ánha marenda? Já cá tá no cinzêro.<br />
Claustro = Cáustico.<br />
Confurtativo = Facultativo.<br />
Conspirar = Transpirar.<br />
Córteirão = Quarteirão.<br />
Delgado = Delegado.<br />
Desenchugar = Enxugar.<br />
Déspio = Déspota.<br />
Eclesiástico = Entusiasmo.<br />
Eiva = Doença da fruta.<br />
Emplasmação = Inflamação.<br />
Engulhos = Vómitos.<br />
Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.<br />
Enodada = Suja.<br />
Ensabocar = Estrangular, estrafogar.<br />
Entulhar = Enjoar.<br />
Estar em pensamentos = Estar moribundo.<br />
Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).<br />
Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.<br />
Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: uma estragação de sopas.<br />
Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.<br />
Espinhola = Espinhela. Exemplo: ter a espinhola caída.<br />
Faliseu = Jargão.<br />
Fanado = Doente.<br />
Faniquito = Desmaio.<br />
Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: um fartão de gente.<br />
Flautenta = Flatulenta.<br />
Foro = Foram.<br />
Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.<br />
Friâmulos = Porcos.<br />
Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupa.<br />
Gomitoiro = Vomitório.<br />
Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.<br />
Graviel = Gabriel.<br />
Humanidade = Unanimidade.<br />
Hume = Homem.<br />
Idovelas = Odivelas.<br />
Intrépio = Adversário.<br />
Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.<br />
Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.<br />
Juros = Júri.<br />
Lavandêra = Lavadeira.<br />
Lídico = Líquido.<br />
Liquori = Licor.<br />
Lisbom = Lisboa.<br />
Loires = Loures.<br />
Mafrão = Mafrense.<br />
Ma-lo = Mais.<br />
Manchita = Mão cheia.<br />
Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.<br />
Marjabantes = Bonecos.<br />
Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas destinado a ampará-las ou reforçar a sua resistência.<br />
Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.<br />
Matrona = Mama, seio.<br />
Mê = Meu.<br />
Mecê = Você.<br />
Memoira = Memória.<br />
Mentéus = Toalha de mesa.<br />
Merca = Compra.<br />
Milordens = Milordes.<br />
Murta e Murtar = Multa e multar.<br />
Murtêra = Murteira.<br />
Nã = Não.<br />
Noa = Nódoa.<br />
Ofa = Cansaço.<br />
Ofender = Magoar, tocar, ferir.<br />
Olivél = Libelo.<br />
Orate = Louco.<br />
Orfo = Órfão.<br />
Órina = Urina.<br />
Passeira = Útero.<br />
Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.<br />
Pescuradores = Procuradores.<br />
Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.<br />
Pilémica = Polémica.<br />
Piloto = Galo.<br />
Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: piscalhar o olho.<br />
Planta forma = Plataforma.<br />
Palateia = Plateia.<br />
Plefice = Superfície.<br />
Polucia = Polícia.<br />
Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.<br />
Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.<br />
Pra = Para.<br />
Prove = Pobre.<br />
Pulga = Purga.<br />
Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.<br />
Ratinho = O bombo da festa.<br />
Reizes = Reis.<br />
Riba = Ripa.<br />
Rio = Pode também ser o lavadouro público.<br />
Rustigo = Forte.<br />
Saibo = Sábio.<br />
Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.<br />
Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.<br />
Senhora = Nome dado à freguesa.<br />
Sintrão = Sintrense.<br />
Sismatura = Cisma.<br />
Solitos = Solicitações.<br />
Suscetivle = Susceptível.<br />
Suspiração = Respiração.<br />
Tenica = Ténue.<br />
Testães = Tostões.<br />
Tiorgo = Órgão.<br />
Tocador = Músico.<br />
Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.<br />
Tolã = Logro, burla.<br />
Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.<br />
Tosse confúcia = Tosse convulsa.<br />
Treato = Teatro.<br />
Tresler = Delirar com febre.<br />
Trouxa = Embrulho.<br />
Tu = Tua. Exemplo: tu mãe, tu horta, etc.<br />
Vei = Vê.<br />
Verdigairo = verde-gaio.<br />
Vesionário = Revolucionário.<br />
Vitro = Vitorioso, Vitor.</p>
<p>NOMES</p>
<p>Também as corruptelas filológicas não são a expressão da verdade, pois apenas demonstram a dificuldade gutural em exprimir o termo exacto no falar arcaico do campo, cuja pronúncia colectiva não acompanha o desenvolvimento verbal correcto não estar conformado ao modelo cerebral de pronunciar uma língua que lhe era estranha, alheia e assim diminuir ou alterar os termos pronunciados num entrechoque rítmico entre o português arábico e o português moderno. Mesmo assim, a expressão de tais nomes variam de lugar para lugar. De modo que: José, deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco, Fercisco e Chico; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes.<br />
____________________________________________<br />
 <br />
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.</p>
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		<title>Cenas e Humores do Termo</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 00:13:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)
 
Para a efectuação dum trabalho desta natureza sem descambar literalmente para o sarcástico pueril do anedótico fácil, tem-se primeiro que situar o estilo de vida local, o porque dos epítetos de desagravo e, por fim, a razão de haver anedotário saloio.
 Tomei por bases bibliográficas, para a feitura do presente estudo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="87" height="79" /></a><br />
</em> </p>
<p style="text-align: justify;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-222" href="http://odivelas.com/2010/01/15/cenas-e-humores-do-termo/saloios1/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-222" title="saloios1" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios1.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Para a efectuação dum trabalho desta natureza sem descambar literalmente para o sarcástico pueril do anedótico fácil, tem-se primeiro que situar o estilo de vida local, o porque dos epítetos de desagravo e, por fim, a razão de haver anedotário saloio.</p>
<p style="text-align: justify;"> Tomei por bases bibliográficas, para a feitura do presente estudo, o magnífico livro do padre Álvaro Proença, Benfica Através dos Tempos (Depositária União Gráfica – Lisboa, 1964), e o excelente artigo de Maria Eugénia Borges, Anedotário, Provérbios e Idiomatismos Mafrenses, inserto no Boletim Cultural´94 da Câmara Municipal de Mafra, além da recolha oral que procedi no Concelho de Loures, na época (1995) englobando o actual Concelho de Odivelas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Termo de Lisboa foi o lugar de fixação do antigo saloio, espaço confirmado sobretudo durante o reinado de D. João I, como recompensa dos seus habitantes haverem participado na defesa de Lisboa contra Castela. Muitas terras reais foram então distribuídas por doação. Os colonos francos e flamengos, vindos na época do (re) povoamento saloio, instalaram-se em ricas quintas e mansões ao longo da estrada principal Odivelas – Loures (exemplos: Quinta da Flamenga dos De Rouze, Quinta do Barruncho dos Van Praet), tendo colaborado na formação social do tipo clássico do saloio e, simultaneamente, influído no desaparecimento etnológico dos últimos focos de moçarabismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moçárabes haviam florescido nos séculos VIII-IX d.C., aquando da ocupação Árabe da Península Ibérica. O etimólogo moçárabe, nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que D. Afonso VI de Leão e Castela concedeu (1101) à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos «quos vulgo mozarabes vocitant», de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas (in Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84). O moçárabe é o “como que árabe”, o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Fisiologicamente, em toda a região saloia ou campesina o seu habitante tradicional era, ordinariamente, baixo, entroncado, resistente e trabalhador. De tez morena, pele encorreada e queimada pelo sol, por norma mostrava-se fortemente barbado; cabelo preto, nariz grosso, bem saliente e abatatado, com pernas por vezes arqueadas, aparecia por toda a parte com as suas célebres suíças, mais largas em baixo a acompanhar o alargamento da zona pilosa. Por sua vez, a saloia era morena: a partir dos trinta anos já pouco ou nada lhe restava da beleza ou simpatia da mocidade. Umas vezes, devido aos trabalhos esforçados no campo, ora se apresentava feia e ossuda, ora avantajada e requeimada, acompanhando bem o homem que, por regra, não era o tipo exacto de Adonis ou Apolo. Por vezes e não raro, trabalhava ainda mais que ele…</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, não deixa de haver muita beleza no rusticismo do tipo saloio. Homens aptos para as lides do campo, mulheres fortes, psicologicamente, por herança genética árabe, todos um pouco esquivos, manhosos, astutos nos negócios, teimosos nos sentimentos, assim armados naturalmente contra a esperteza citadina. E quanto mais desprezados ou incompreendidos, tidos por «chaparrões», maiores as suas defesas naturais: astúcia, habilidade e, às vezes, egoísmo, se tornavam mais fortes e aguçadas. Com boa saúde, atingiam idades avançadas, pouco se ralando com o porvir mesmo porque, habitualmente pacíficos e não se poupando ao trabalho duro, consentiam cada coisa ter o seu tempo para ser feita.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos seus meios de transporte preferidos era o pachorrento burro, companheiro precioso, aparelhado com albardão para os serviços do campo, com albarda para uma simples viagem, e com almantricha para o transporte de qualquer saloia rica.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes aparece com ceirões de esparto semelhantes aos de Marrocos, ou de albardão mourisco, com arção em meia-lua. O jumento é um amigo fiel, um meio seguro de locomoção, nada caro, pouco exigente e razoavelmente rápido para as andanças da época.</p>
<p style="text-align: justify;">Por seu lado, o vestuário também evoluiu. Por estas bandas de Odivelas – Loures, no século XIX, já aparecia muita gente vestida “à cidade”, embora a gente da terra e com raízes de avós e bisavós aqui bem lançadas, apenas admitisse uma leve evolução no vestuário. Como por toda a parte, havia sempre uma certa diferença entre o vestuário habitual e o de “ver a Deus” ou de festa. Também o saloio janota, com peneiras e a aproximar-se da cidade, arranjava andaina mais catita. De colete, jaleca azul e botas brancas, faixa e carapuço pretos, fazia um vistão. Barretes verdes, poucos se viam, mas chapéus desabados à Mazantini, esses apareciam sobretudo em dias de festa nas feiras e romarias. Nos actos solenes, um capote azul, parecido com o albornoz mourisco, dava-lhe uma certa imponência. Em tempos relativamente modernos, há uns cem anos, já apareciam as calças de “boca-de-sino”, justas às pernas e alargadas em baixo, cinta preta para os casados e encarnada para os solteiros, jaleca a contornar os quadris, camisa mole sem gravata, colarinho mole e barrete de borla preta para os casados e encarnada para os solteiros. O barrete, à entrada da igreja, era deixado no muro das carapuças; agora o chapéu à Mazantini esse era verdadeiramente estimado e não saía das mãos do seu dono, pois aguentava, ordinariamente, uma vida inteira. De aba larga e copa redonda, dava a cada saloio rico – pois eram esses os que o usavam – um verdadeiro ar de grande senhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, a saloia, de saia rodada, botas de cano, casaquilho apertado aos seios, xaile aos ombros e lenço na cabeça, fazia um vistão. As botas, mantéus e carapuças que também usou, tornaram-se quase instituições regionais. Mantéu de “parrilha”, saragoça, e de cor berrante como o colete, saia debruada, xaile do melhor e, por cima do lenço, a carapuça, fazia um vistão.</p>
<p style="text-align: justify;"> Sempre sujeita a evoluções, embora ligeiras, em tempos mais modernos a saloia calçava botas pregadas, vestia jaleca, uma saia de chita sobre a outra de beata encarnada, sempre bastante curtas… para os costumes da época. Na cabeça, sempre o indispensável lenço.</p>
<p style="text-align: justify;">A saloia rica ia à feira na sua égua se não dispunha de uma jumenta mais ou menos ricamente arranjada. A saloia pobre arranjava montada menos ajaezada, ou ia a pé. Aliás, o saloio andava habitualmente a pé; apenas, se chovia, tinha o cuidado de cobrir o chapéu com um lenço de chita. De resto, para jornadas mais ou menos longas, tenha sempre o cuidado de se munir do seu inseparável guarda-chuva garrido, ou de um varapau.</p>
<p style="text-align: justify;">Económico como era, arrumava os fatos, em cómodas, cuidadosamente dobrados e guardados no meio de toalhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Deitando-se logo após as Ave Marias, “com as galinhas”, sempre complicado no falar e em mostrar o que pretendia, era também um madrugador de alto lá com ele, sobretudo se o seu negócio na cidade o exigia: os produtos das hortas, o leite, etc., tinham que estar de madrugada em Lisboa. Havia pouco tempo para dormir.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo o saloio manhoso por temperamento e educação, se o queriam enganar coçava a cabeça, passava os dedos pelos lábios, muito lentamente, calado, resistindo sempre. Pacato, incapaz de assaltar uma pessoa ou uma casa, também raras vezes armava desordem, a não ser nas feiras, aquecido pela bebida ou estimulado por rivalidades de terras, ou freguesias.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes essas rivalidades manifestavam-se da maneira como se alcunhavam uns aos outros. Os de Odivelas eram os “rapa-caldos”, certamente por rasparem os pingos sobrados no fundo da malga de magra sopa; os da Póvoa de Santo Adrião, eram os “cágados” e “cagádos”, não sei se por haverem cágados nas margens da ribeira ou se, por certo, haver o costume de aí praticar-se as necessidades fisiológicas; os de Frielas, “rãs”, pela abundância destas nas terras encharcadas da várzea; os de Loures, “socas da cana”, epíteto inspirado nos canaviais ribeirinhos da freguesia, com cujas canas se armavam as latadas; os de Caneças, “animais”, por estes terem confundido, durante um sermão do padre local, no século XVIII, referente a terem sido poupados à peste que assolou as regiões vizinhas, a frase «animar os vossos filhos» com «animais os vossos filhos»! É possível que provenha desse episódio anedótico alcunha semelhante para os de Montemor: “animal-mor”! Os de Benfica, “enforcados”; os de Carnide, “cães”; os de A-da-Beja ou Daveja, “não lhes tem inveja”; os do Lumiar, “cadelas”; os da Ameixoeira, “catalões”; e os da Charneca eram assinalados por alcunha mais ofensiva: “lobos” e “ladrões”, decerto por causa das desavenças comerciais havidas aí por ocasião da feira do gado (in Caneças, por Padre J.T.T.R. (Amora). Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por Raymundo Alves. Lisboa, 1911).</p>
<p>Até em quadras essa rivalidade se exprimia:</p>
<p><em>Cágados da Póvoa<br />
Rãs de Frielas<br />
Invejai os rapa-caldos<br />
Da feira de Odivelas. </em></p>
<p><em> <br />
Cães de Carnide<br />
Cadelas do Lumiar<br />
Acudi aos de Benfica<br />
Que se querem enforcar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Por essas e outras, às vezes, nas feiras e romarias, havia pancadaria grossa. De resto, o saloio era o homem mais pacato e sofredor do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes, um ou outro lá furtava uns frutos de uma árvore ou as aves de uma capoeira, ou as roupas de um secadoiro, mas havia de ser um reles ladrão. Mil vezes pior do que “estar reles” (estar doente), era um desgraçado roubador. De resto, o fiel cão saloio fazia a polícia aos bens do seu dono, e com toda a dedicação e competência de um bom animal amestrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por seu temperamento rústico talhado nas durezas da vida no campo, dando-lhe o tipicismo rural que o caracterizou mas também o maginalizou como ente inferior naturalmente estúpido aos olhos do sabido da cidade, o saloio viu cair sobre si um chorradilho anedótico destinado a demonstrar, por via do humor sarcástico, a sua natural propensão para a estupidez.</p>
<p style="text-align: justify;">Encaixou os golpes injustos e, servindo-se de armas iguais às do agressor, inventou um anedotário demonstrativo de quanto o finório alfacinha propende para a estupidez natural.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, muitas dessas anedotas só são lembradas pelos mais velhos e já despossuídas do sentido agressivo de outrora, sendo contadas por diversão e nada mais. Eis algumas:</p>
<p>            <em>O filho chega a casa bêbado e diz-lhe a mãe:<br />
            – Ai filho, como tu vens…<br />
           O filho olha para a mãe e pergunta:<br />
            – A gente, mãe?&#8230;</em></p>
<p><em>            (Gradil e Loures)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Antigamente, muitas das pessoas que iam à festa de Nossa Senhora da Saúde, na Serra de Montemor, freguesia de Loures, pernoitavam encostadas umas às outras, debaixo do alpendre, pois não tinham meio de transporte nocturno para regressar a suas casas.</p>
<p style="text-align: justify;">A certa altura da noite, um homem começa a agarrar a respectiva mulher que se encontrava a seu lado. Ela, espantada com um segundo apetite do marido, diz-lhe, admirada:</p>
<p>            <em>– Outra vez?&#8230;<br />
            – Outra vez o quê? Comigo é a primeira!!!<br />
</em>            (Loures)</p>
<p>Um saloio, que tinha vindo para a cidade servir em casa de um carniceiro, escrevia tempos depois à mãe:</p>
<p><em>“Minha querida mãe, escrevo-lhe estas duas regras para lhe dar uma boa notícia: o meu amo está contentíssimo comigo. Já me mandou sangrar algumas vezes, hoje mandou-me esfolar e disse-me que, se assim continuar, me manda matar para a Páscoa.”<br />
                                                     (Loures)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Quando um avião sobrevoou pela primeira vez Loures, vários homens que estavam a trabalhar no campo ficaram muito assustados, começando a correr atrás da sombra do avião com as enxadas, para tentar apanhar aquele bicho. Como viram a sombra entrar num palheiro, correram na sua direcção, fecharam-lhe a porta e deitaram-lhe fogo.<br />
                                                    (Loures)</p>
<p style="text-align: justify;">É muito frequente o saloio não ter sempre presente o seu nome, assim como os nomes dos parentes mais chegados. Isto também se deve em grande parte ao abuso de alcunhas que chega a fazer esquecer o nome verdadeiro. Durante muitos anos, e talvez ainda hoje aqui e acolá no que resta da cultura rural saloia, estropiavam tanto os nomes que não raro se tornava difícil saber qual o nome verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;"> Numa determinada aldeia da nossa região saloia, há muitos anos, o pai de uma criança pequena que tinha falecido, foi ao médico, para que este lhe passasse o documento de óbito. É o próprio médico, dr. Fernando da Cunha (da Câmara Municipal de Loures), que nos conta o seguinte:</p>
<p> Ouvi tudo resignado e passei a preencher o impresso da certidão de óbito, fazendo as perguntas habituais:</p>
<p>            <em>– Nome da criança?<br />
             – Pedro Luís.<br />
</em>            – <em>Seu nome?<br />
            – Luís Francisco.<br />
            – Nome da sua mulher?</em></p>
<p> O saloio coçou a cabeça, costume saloio para ganhar tempo ou para avivar as ideias, e respondeu-me:</p>
<p>              <em>– Não m´alembra.<br />
             – Não se lembra? Então como é que lhe chama lá<br />
               em casa?<br />
            – Eu, chamo-lhe ó mulher!</em></p>
<p> E teve que voltar a casa, duas léguas bem puxadas, para perguntar o nome à mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">(Fernando da Cunha, Etnografia Saloia: Subsídios para o seu Estudo. In Boletim da Junta da Província da Estremadura, s. 2, n.º 18, Mai. – Ago. 1948, pág. 284)</p>
<p style="text-align: justify;">Um saloio entra numa repartição pública da sede do seu concelho e pergunta a um amanuense:</p>
<p>            <em>– Vancê saberá-me dizer onde mora aqui o<br />
               senhor juiz?<br />
            – Qual deles? Só nesta vila há nem menos de três.<br />
            – O mais reles… o mais reles que eu pescuro.<br />
</em>             <em>– O mais reles?<br />
            – Sim senhor, o mais reles… de menos estimação.<br />
            – Você procura talvez mas é o juiz ordinário?<br />
            – Deu no vinte! É como canta! Juiz ordinário é que<br />
              eu queria dizer, mas não m´alembrava!</em></p>
<p><em>              (O Mafrense, 4 Dez. 1890)</em></p>
<p>E para terminar</p>
<p>Quando vinha para cá, uma púrria afadista que se apeou no Cacém, com os farnéis, os garrafões e a sua estupidez, entretivera-se com graçolas uns aos outros toda a viagem, e porque um deles quisesse ripostar a um outro que lhe diminuíra a inteligência, perguntou-lhe assim:</p>
<p> <em>– Ó pá! Tu julgas que eu sou saloio? Olha que eu, pá, não tenho cara de saloio!</em></p>
<p> Eu ando com muito pouca vontade de falar, seja com quem seja, e muito menos com quem não me interessa, mas aquela cara de saloio com dois pás, buliu-me cá com o fígado que anda, como já disse ao leitor, há uns dias para cá, do lado esquerdo, e não me contive:</p>
<p> <em>– O sr. faz-me um favor? Podia informar-me que cara têm os saloios pela qual logo se vê que são parvos?<br />
 – Mas eu não me referi ao senhor.<br />
 – Claro que se referiu, pois se eu lhe estou a dizer que sou saloio.<br />
– Mas isso que eu disse foi para reinar, e não para ofender ninguém.<br />
– Está bem, mas para a outra vez, quando lhe chamarem parvo, mesmo que para reinar, não se meta com os saloios que não têm nada com isso.</em></p>
<p>(O Concelho de Mafra, 16 Fev. 1949, extraído do livro O Saloio, de Paulo Freire)</p>
<p>___________________________________________________<br />
 <br />
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.</p>
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		<title>O Giro do Círio dos Saloios</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 23:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Círio dos Saloios]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)
Conferência Pública Proferida pelo Autor, em 10 de Junho de 2003,
No Anfiteatro da Antiga Cisterna Subterrânea da Cidadela Militar
de Cascais, Perante as Autoridades Civis, Militares e Religiosas,
Além de Vasto Povo, por Ocasião da Chegada do Círio Real dos
Saloios da Virgem do Cabo Espichel aí, e Posterior ida para a
Paróquia do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-163" href="http://odivelas.com/2010/01/14/o-giro-do-cirio-dos-saloios/saloias/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloias.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-163" title="saloias" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloias.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a><em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador</em>)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="112" height="77" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Conferência Pública Proferida pelo Autor, em 10 de Junho de 2003,<br />
No Anfiteatro da Antiga Cisterna Subterrânea da Cidadela Militar<br />
de Cascais, Perante as Autoridades Civis, Militares e Religiosas,<br />
Além de Vasto Povo, por Ocasião da Chegada do Círio Real dos<br />
Saloios da Virgem do Cabo Espichel aí, e Posterior ida para a<br />
Paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, Sede de Concelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, Dia de Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo como País soberano cerca de 500 anos à dianteira dos demais europeus estruturados em feudos cujos duques e condes isentavam-se dum poder central, é pois neste velhinho rectângulo Pátrio que irrompe a Diáspora da Fé, do Saber e das Armas assinaladas inicialmente a todas as parte da Europa, e depois do Mundo!&#8230; Ser Português é uma maneira de estar, de sentir, pensar e ser&#8230; sempre duvidoso das suas capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre ansioso de realizar.</p>
<p style="text-align: justify;">Num aspecto particular regista-se isso mesmo no Saloio, etnia arábica vinda de Saleh, nas fronteiras do Egipto, no finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa e miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo Árabe ocupante, pelo que em breve eles mesmo se tornariam moçárabes, desde logo mal vistos pelos de puro sangue Árabe, não corrompido pela mistura ao de outras etnias que consideravam inferiores, pelo que foram remetidos ao desprezo das fainas mais humildes, contudo imprescindíveis, do cultivo dos campos arredores das grandes urbes estremenhas, particularmente de Lisboa. De maneira que ao natural de Saleh deverá depois a sua origem o &#8220;homem do campo&#8221;, o Saloio.</p>
<p style="text-align: justify;">Devo informar que o moçárabe, nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos &#8220;quos vulgo mozarabes vocitant&#8221;, de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas.1 Essencialmente o moçárabe é o &#8220;como que árabe&#8221;, ou seja, o cristão inserido e subordi- nado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele.2</p>
<p>Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos judeus (e após a Reconquista judaico-cristã criar-se-ia, imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a mouraria), com a diferença de que a paróquia &#8211; nome gótico &#8211; se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela, nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia cristã: a sede paroquial.3<br />
________<br />
1) Alexandre Herculano, Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84.<br />
2) Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do Autor subsidiada pelo Município, Loures, 1994.<br />
3) Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista cristã alerta para a função da freguesia nas acções da conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram, ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as populações desse gueto cristão tornado mais importante em regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra, Sintra e CASCAIS, as quais se estendiam etnologicamente, por um lado, até Torres Vedras e inclusive registando-se vestígios da Cultura Saloia em Óbidos, e por outro lado, indo até à zona Sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e ESPICHEL.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito, freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, &#8220;filho da Igreja&#8221; (donde a Freguesia ser extensão da paróquia, tal qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo que a mulher sirva de lavadeira ao Califa.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica, serviria de inspiração ao Senado latino dos cristãos, reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D. Afonso II. O Senado islâmico era a Shari&#8217;a, o tribunal no qual o Cadi ou Juiz agia como representante do Califa. Por via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na prática o Estado encarregava-se da maior parte da última. Ora era exactamente isto que o Senado latino fazia: mantinha a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do Estado vigente.4</p>
<p style="text-align: justify;">Com tudo isto, premissas indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui nos traz, pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades, tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do Cultuísmo do Saloio moçárabe ao tempo da Ocupação árabe, cuja lei era permissiva e não repressiva da Fé cristã submetida, desde que a mesma não se convertesse em Política anti-estatal subversiva. Ficar-se pela Fé, respeitava-se; extravasar-se para a Política, reprimia-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a leitura obrigatória na área Historiográfica, como Frei Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, parte I, livro IV) e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX), afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de MUA, de MU ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1414, e mesmo a 1215 onde se notícia culto à Mãe Divina no terreiro do Cabo Espichel. 1414 é o ano em que D. João I doou ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no sítio do Cabo Espichel para que ele, devoto confesso de Nossa Senhora do Carmelo, desse ao povo Casa condigna à devoção da Virgem, sendo edificada em 1490 a Ermida de Santa Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde resto de formato Kaábico do antigo espaço Carmelita de que ainda sobejam as ruínas ao lado da actual Catedral. A pequena Ermida, mais sendo Oratório de Ermitão ou homem do Deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data das suas inscrições azulejares, as quais indiciam que foi aí mesmo nesse &#8220;próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada&#8221;, segundo Frei Bernardo de Brito.</p>
<p style="text-align: justify;">O Culto estremenho dos Celtas à Grande Deusa-Mãe ir-se-á prolongar ao período Moçárabe já na forma hagiográfica da Mãe Divina, e fixar definitivamente, por via do Santo Condestável, D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, no Culto Votivo Popular à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria do Cabo, por influência notória da Ordem do Carmelo, associando Espichel a novel Carmelo Lusitano.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável, devotadíssimo a Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção feminil saloia de lhe ter consagrado várias danças e cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe o &#8220;poder de ressuscitar os mortos&#8221;, o que vai bem com o Culto da Deusa-Mãe agora na figura do &#8220;Cavaleiro Santo&#8221;, do &#8220;Galaaz do Carmelo&#8221;, no dizer de Pinharanda Gomes, e tanto mais que a Iniciação Cavaleiresca é sinónima de Iniciação Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com Cavalaria Militar. A propósito da &#8220;Chacona do Condestável&#8221;, medieval, ela foi<br />
_________<br />
4) Augusto Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.<br />
recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e Etnográfico &#8220;Os Frieleiros&#8221;, que gentilmente cedeu-ma pela mão do seu Presidente na altura, sr. José Henriqueta.5 Passo a descrevê-la:</p>
<p>DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Esta dança, tal como na Judenga, eram obrigatórias a sua comparência, e em caso de falta seriam multados.</p>
<p>MÚSICA: É baseada em quatro notas, que procedem por graus unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas sempre com a mesma volta.</p>
<p>LETRA (ortografia semi-medieval):</p>
<p>A CHACONA</p>
<p>Do Restelo a Sacavém<br />
Nem ningola nem ninguém<br />
Tem semelho ao Condestabre<br />
Que le prouge e que le preze<br />
Ho fazermos tanto bem.</p>
<p>E BEM E BEM</p>
<p>O rapaz das coberturas<br />
Que mórre, e cahe pra tráz,<br />
Já não vai à sepultura<br />
Que outra vez, vive o rapaz:<br />
E ho Conde le fizo o bem.</p>
<p>E BEM E BEM</p>
<p>Á filha de Joana estés<br />
Que finou por non mamar<br />
Ao do moinho Cubo<br />
Que finou por se afogar<br />
Viventa o Conde também.</p>
<p>E BEM E BEM</p>
<p>O mal daquela alfayata<br />
O gram dor de Lopo Afonso<br />
Nos les chega aos corações<br />
Que o Santo Conde los guarde:<br />
Y todo por fazer bem.</p>
<p>E BEM E BEM</p>
<p>E bem Condestabre Santo<br />
Cobrimos com nosso manto<br />
Com nosso manto de Galés<br />
Defendimentos dos males<br />
E fagamos muito bem.</p>
<p>E BEM E BEM<br />
________<br />
5) Vitor Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.</p>
<p>É ainda a Arqueologia a comprovar quão antigo é o Culto à Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos imperantes no tempo de dado espaço histórico, no Cabo Espichel, outrora conhecido dos cronistas como Promontório Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo de Capris ou da Cabra.6</p>
<p>Com efeito, as lapas do Bugio e do Fumo, ambas muito dificilmente acessíveis pela alcantilada escarpa costeira, forneceram dentre outro espólio eneolítico (c. 3000 a.C.), diversas descobertas surpreendentes: junto à entrada da lapa do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar, tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos serrados,7 o que sugere um tipo de ritual funerário Isíaco, o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra.8 Na outra lapa do Fumo, mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e cerâmica de fabrico demasiado esmerado, para que se possa considerar de carácter meramente utilitário, campaniforme, argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro, e Medieval, designadamente do Período Muçulmano, também representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as sepulturas de presumíveis homens santos (mulâs) venerados pelo Islão.9 Que terá o mulâ a ver com a mula por que subiu Nossa Senhora escarpa acima, segundo a lenda? Ou mesmo essa outra mula em que subiu ao Céu Mahometh? Haverá algum ponto de encontro entre o Islão sufítico e o Templo cristão, sendo a Virginis Aeternis, a Marah corânica, o ponto de intercessão?</p>
<p>A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a Senhora encosta acima,10 transpondo-se assim o óbvio geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o Povo e assim está muito bem, na sua maneira simples mas pura de pensar e sentir o Sobrenatural, insensível à discussão científica esclarecida mas sensível à simplicidade da Fé iluminada por Graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza lhes concede. São motivos mais que suficientes para se cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos Saloios que vivem da terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.</p>
<p>É assim que nasce a fruição da história hagiográfica da aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs literalmente ao seu &#8220;Santuário Mariano&#8221; (liv. II, tit. 72), tendo por personagem central o Nauta irlandês S. BRANDÃO, o que coloca o Cabo de MU na rota marítima das &#8220;Ilhas Perdidas ou Encantadas&#8221; de algum finado e mítico Continente da ATLÂNTIDA aqui reachado.11 Convém recordá-la:</p>
<p>&#8220;(Cerca) de 1215 pouco mais ou menos (&#8230;) uma nau em direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau naquela brava costa; porque além de serem (como estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem, lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão da nau, ou de um fidalgo, que também ali<br />
__________<br />
6) Vitor Manuel Adrião, Os Trilhos da História Sadina. In revista &#8220;Cidades&#8221;, S. Pedro do Estoril, 1988.<br />
7) João Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In &#8220;Setúbal Arqueológico&#8221;, V. 9 &#8211; 10, pp. 89 &#8211; 225, 1992.<br />
 <img src='http://odivelas.com/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande Deusa na Estremadura. In &#8220;Comunicações&#8221;, publicadas pela Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura Saloia &#8211; 2 e 3 de Dezembro de 1994.<br />
9) Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica proto-histórica da Lapa do Fumo &#8211; Sesimbra &#8211; com ornatos coloridos e brunidos. In &#8220;Zephyrus&#8221;, 9, n.º 2, pp. 177- 186, 1958.<br />
10) Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácicos de Lagosteiros. Lisboa, 1976.<br />
11) W. Scott-Elliot, Lendas de Atlântida e Lemúria. Editora Madras Ltda., S. Paulo, 2002.</p>
<p style="text-align: justify;">vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia esta bom Religioso consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial devoção (&#8230;) a foi buscar no seu camarote para se recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a trazia (&#8230;): começou a dar vozes ao céu para que lhe valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os ventos, quando a nau em Lua tranquila bonança. Entenderam por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e assim animados e seguros navegaram para ela, até que vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que de tão evidente perigo, os havia livrado. Notaram que a luz os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o principal voto desta deliberação o do nosso Eremita Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa, lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis acompanhar naquela solidão tão áspera (&#8230;).&#8221;</p>
<p>Desconheço se São Brandão acaso seja o capitão de mar Sancho Brandão, da mesma época, pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que, segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à &#8220;Ilha Perdida do Mar do Ocidente&#8221;, apontada como o Brasil, notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI, em 12 de Fevereiro de 1343.12 Igualmente desconheço se Sancho Brandão acaso será São Brandão&#8230; Para todos os efeitos, tem-se a Navegação Sobrenatural como Via Húmida da Alquimia &#8211; Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, estes aliás iconografados dentro da Catedral do Cabo, daí também o significado da legenda do azulejo junto ao altar-mar: &#8220;Ver o outro sentido além do aparente&#8221; -, Arte Magna de Espírito Santo; e assim igualmente a presença oculta da Ordem do Templo na feitura da santidade do Cabo Espichel 13, e só depois a Carmelita.</p>
<p>A publicação em Lisboa em 1707 desse feito miraculoso que o coloca no Ciclo e no Circuito Hipertúlico ou das Aparições Miraculares da Virgem, veio corroborar o que antes, em 1409-10, acontecera a uma velha saveira do Monte da Caparica (a Capa-Rica, tanto quanto aquela que depois se depôs sobre a Imagem) e a um velho saloio de Alcabideche, vizinho de Sintra e freguês de Cascais, ambos tido uma visão idêntica: visto uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali achariam a sua Imagem, escondida desde há séculos numa fraga pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos lhe deveriam prestar culto.14 O romeiro saloio e a velha caparicana, viriam a encontrar-se, a rumarem ao Cabo, e depois de aí orarem, fizeram ambos uma ermidinha de alecrim, arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Negra achada entre fragas.</p>
<p>Quer isso dizer, descodificando o sentido imediato do acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por essa data de 1410 que o Condestável Santo &#8211; esse novel &#8220;São Malaquias&#8221; da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo por estar sob a chancela do Carmelo, que<br />
___________<br />
12) St. Brendan&#8217;s Search for Paradise. In A brief history of the European Myth of de Garden, Press American Studies at the University of Virginia, 2001.<br />
13) Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição &#8211; 1986.<br />
14) J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo Histórico), pp. 8/9. Sintra, 1928.</p>
<p>em egípcio se diz Espichel, logo tornando este um CARMELO LUSITANO nesta &#8220;Ocidental Ish-Ra-El&#8221; aonde confluíram as três grandes religiões monoteístas afro-mediterrânicas (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) &#8211; começou a interessar-se pela Fé Popular de Saloios e Saveiros à Virgem do Cabo, e, com o amplo apoio Popular, acrescido do Real e do Carmelitano, seria iniciada em 1490 a construção da Ermida da Memória do &#8220;Milagre&#8221; de 1215 aí, ou seja, o ano em que o Culto à Virgem Celeste terá assumido a definitiva forma Cristã e, possivelmente, largado a primitiva de feições Arábicas, antes, Moçarábicas.</p>
<p>Ambos esses acontecimentos, crónica hagiográfica posterior às visões de pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado, serviram para publicitar o privilégio da &#8220;descoberta&#8221; do Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização pelas autoridades eclesiásticas da Igreja Católica do Culto Mariano aí levado a efeito pelo Povo desde, quiçá, muito antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três lendas (duas já estão narradas, a do Nauta S. Brandão e a dos velhos romeiros de visões comuns) do Cabo Espichel, cuja origem poderá remontar ao Período Moçárabe, apesar do seu forte e, quiçá, acrescido sabor Carmelitano. Diz ela:</p>
<p>&#8220;Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por um clarão extraordinário, que iluminou por completo o Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella Maris), onde se sumiu (&#8230;).&#8221;15</p>
<p>Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de Lisboa, a oficialização do Círio terá tido início cerca de 1430, &#8220;21 anos depois do aparecimento da milagrosa imagem&#8221;,16 presume-se por acordo tácito popular, tendo sido canonicamente organizado com o tempo: a Bula Apostólica confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697, estabelecia que não se criaria aos romeiros &#8220;algum impedimento em os caminhos ou passagens de mar ou Carreiros, Almocreves, Barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo Meirinho dos Clérigos ou outras justiças&#8221;. O ano de 1606 será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo, estando o seu compromisso datado de 1672, aquando os &#8220;Giros&#8221; já se efectuavam há largo tempo.17 Foi pouco depois dessa última data que D. Pedro II mandou construir a Catedral de Santa Maria de Mua, com terreiro (arraial) anexo debruado de casas sobre arcaria, para alojar os romeiros. Também D. José I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí.</p>
<p style="text-align: justify;">O Círio Popular dos Saloios à Senhora de MU inclusive chegou, cerca de 1849 e pela pompa que a Realeza lhe devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, pois a fama de que goza advém sobretudo da protecção que a Coroa lhe dispensou. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina confeccionou o manto riquíssimo (Caparica &#8211; analogia com o Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a Imagem do Santuário, tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os &#8220;anjos&#8221; usaram no Círio desse ano.</p>
<p style="text-align: justify;">O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves18: &#8220;Hia antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado, e levava uma Botica (&#8220;Farmácia&#8221;) volante para acudir aos Romeiros em cazo de necessidade&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Círio é a Vela consagrada pela devoção comum a um Orago único, no caso Santa Maria qual expressão do Espírito Santo sobre o Oceano da Vida, tornado votivo e itinerante qual seja a identificação gradual com o Divino em lugar prévia e tradicionalmente sagrado. No fundo, o Círio não deixa de ser Peregrinação, e Peregrinação é sempre, não importa se consciente ou inconscientemente, uma Iniciação, neste caso, Iniciação Hipertúlica da etnia Saloia, esta que,</p>
<p>__________<br />
15) J. Raposo Botelho, ob. cit., pp. 6/7.<br />
16) B.N.L., Memórias, cod. Pombalina 98.<br />
17) Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares em Loures, Museu Municipal de Loures, 1993.<br />
18) Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 &#8211; 1916.</p>
<p style="text-align: justify;">acaso, não se gosta à primeira, vai-se aprendendo a gostar&#8230; Hoje mesmo ela é a nata do Povo, simples e rude, mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de &#8220;seus senhores&#8221;, esses &#8220;mandantes lá de Lixbôa&#8221; que, desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar o rural do citadino. De maneira que ambos sofrem na mesma medida!&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro perpétuo. Inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711), Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26, número que se mantém até hoje.19 Vejamos a sua ordenação:</p>
<p>1 &#8211; S. Vicente de Alcabideche<br />
2 &#8211; S. Romão de Carnaxide<br />
3 &#8211; S. Julião do Tojalinho<br />
4 &#8211; S. Pedro de Penaferrim de Sintra<br />
5 &#8211; Nossa Senhora da Misericórdia de Belas<br />
6 &#8211; Santa Maria de Loures<br />
7 &#8211; S. Lourenço de Carnide<br />
8 &#8211; Nossa Senhora da Purificação de Bucelas<br />
9 &#8211; S. Pedro de Barcarena<br />
10 &#8211; S. Pedro de Lousa<br />
11 &#8211; S. Silvestre de Unhos<br />
12 &#8211; Santo Antão do Tojal<br />
13 &#8211; Nossa Senhora da Purificação de Oeiras<br />
14 &#8211; Nossa Senhora do Amparo de Benfica<br />
15 &#8211; S. Domingos de Rana<br />
16 &#8211; S. João das Lampas<br />
17 &#8211; S. Lourenço de Arranhó<br />
18 &#8211; Nossa Senhora da Purificação de Montelavar<br />
19 &#8211; Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro<br />
20 &#8211; Nossa Senhora da Ajuda de Belém<br />
21 &#8211; Ascensão e Ressurreição de Cascais<br />
22 &#8211; Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas<br />
23 &#8211; S. Martinho de Sintra<br />
24 &#8211; Santo André de Mafra<br />
25 &#8211; S. Pedro de Almargem do Bispo<br />
26 &#8211; Santo Estevão das Galés<br />
27 &#8211; Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova<br />
28 &#8211; S. João Degolado da Terrugem<br />
29 &#8211; S. Saturnino de Fanhões<br />
30 &#8211; Santa Maria e S. Miguel de Sintra</p>
<p>Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de uma Freguesia do Giro a outra, era feita no próprio Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da bandeira da Confraria pelo juiz da Freguesia que sai ao juiz da Freguesia que entra. Saliente-se que, tendo em conta o número de Freguesias participantes no Giro (26), cada uma delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano de 1751 foi essa bandeira substituída por uma imagem da Virgem feita à semelhança da original &#8211; que nunca saiu do Santuário &#8211; e que a partir dessa data começou a acompanhar os Círios.</p>
<p style="text-align: justify;">Inicialmente a procissão do Círio organizava-se segundo uma coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos, seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os romeiros &#8211; o que se ajustava a um ludismo que, situado na transição do popular folclórico para o ritmo sagrado, orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.<br />
_________<br />
19) Vitor Manuel Adrião, Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes, Cascais, 2002.</p>
<p>Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os festeiros se limitariam a levar a Imagem peregrina de Freguesia em Freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só quando chegasse a vez da última Freguesia do Giro &#8211; St.ª Maria e S. Miguel de Sintra &#8211; todas elas iriam em procissão ao Santuário de Mua e aí seria entregue a Imagem aos festeiros da primeira Freguesia &#8211; Alcabideche -, recomeçando assim um novo Ciclo ou Giro &#8211; o que se enquadra naquele princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas, evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes. O facto é que, desde essa data a Imagem peregrina nunca mais voltou ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual primitivo, por ela passar directamente de Freguesia para Freguesia, após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada ano, para aí serem prestadas as contas.</p>
<p>Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de Alcabideche onde se encontrava a Imagem, provocando-lhe vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em 1926, tendo sido Odivelas a primeira Freguesia a reclamar a Imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de Cascais, para onde fora recolhida do vendaval carbonário ou jacobino,20 tanto valendo por um executar o que o outro ordenava, e assim o Círio do Santíssimo de Odivelas suscitar a retoma do Giro.</p>
<p>Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da grande pompa que detinham outrora, até que foram uma vez mais interrompidas, desde 1976 a 1979.</p>
<p>Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias.21 Saía da Freguesia que tinha a Imagem da Senhora na terça-feira que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa: quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), indo depositar a Imagem na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome do Santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de Santa Maria).</p>
<p>Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão, entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este, antes de se dirigir para o interior do Santuário.</p>
<p>Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado, com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da Virgem Maria) e no domingo acontecia a festa que faziam os que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os festeiros dessa Freguesia e da que ali a iam receber. Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do Santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e três anjos todos se colocavam do lado direito do altar-mor, e os que recebiam do lado esquerdo. O Mestre de Cerimónias, que era o prior do Santuário, tirava a capa de<br />
asperges dos ombros do prior da Freguesia que entregava, pondo-a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem o Círio os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães,22 apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias, lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.</p>
<p>Depois da travessia do Tejo para Belém iniciava-se a caminhada para o respectivo destino, para a Freguesia de eleição do Giro. Abria uma força de Cavalaria, de imediato o carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos<br />
________<br />
20) Vitor Manuel Adrião, Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Dinapress Editores, Lisboa, Setembro de 2002.<br />
21) Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.<br />
22) Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa, 1872.</p>
<p>a cavalo, vestidos de soldados romanos. A Imagem peregrina era conduzida na sua berlinda puxada a duas parelhas, ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela os carros triunfal dos anjos das loas, do padre, dos procuradores, uma galera que levava a música e o habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros.23</p>
<p>Houveram oito Freguesias que não foram abrangidas pelo compromisso Seiscentista,24 as quais organizaram os seus próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel: Lisboa (terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela (2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra (primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do Giro das Freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era dividida em 4 Varas: 1.ª &#8211; Monte da Caparica (onde vivi nove meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo igualmente o segredo que lhe dá acesso &#8211; são observáveis dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo &#8220;força misteriosa&#8221; ou &#8220;mão de anjo caritativo&#8221; empurrou-me para terra seca. São coisas que não se esquecem&#8230;); 2.ª &#8211; Trafaria; 3.ª &#8211; Costa da Caparica; 4.ª &#8211; Sobreda, as quais se revezavam anualmente na organização do Círio e na manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa seguinte.25</p>
<p>Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A Fé, acaso não. Como também não as Freguesias do Giro, e assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios.26 Ele lá está, solitário e solene, debruado sobre o Mar Atlântico lavrando as escarpas de MU.27 Nada falta, em remate final, para devolver à Solenidade Litúrgica a pompa mais que justificada merecida de outrora, não faz muito tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa Maria dos Saloios, de Espichel, de todo o Portugal que é dele este dia.28</p>
<p>Honra e Glória, pois, à Pátria Amada que nos é berço, Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos, votando nos do Porvir, fizeram as suas Grandezas que tão bem e imortalmente a Musa de Camões soube cantar cujo eco abrasa o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e a Pátria, sempre!</p>
<p>Com esta Oração, tenho dito.<br />
__________<br />
23) Olegário Paz, Loas a Nossa Senhora. In &#8220;Jornal de Sintra&#8221;, 12 de Setembro de 1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Comunidade Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures &#8211; 1979. O Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa, Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa &#8211; 1991.<br />
24) Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa Senhora do Cabo, Lisboa, 1817.<br />
25) Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas, 1974.<br />
26) Diogo Francisco de Piedade e Costa, História de Nossa Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.<br />
27) Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2, liv. II, tit. 34, pp. 348 &#8211; 353. Lisboa, 1707.<br />
28) Tanto o Círio à Virgem Negra de Mu &#8211; secundado pelo outro à Virgem Negra da Nazaré, cristianizados ambos por possível influência da Ordem do Templo &#8211; como a Festa Popular do Império do Divino Espírito Santo, celebrações Molhada e Seca, Costeira ou Marítima e Interior ou Campestre, não raro esta assumindo aquela, e vice-versa, assim justificando o aparelhamento de &#8220;Sol e Lua&#8221; adiante de Terris et Maris Nostrum, com efeito não deixam de correlacionar-se à influência solene e suprema, num misto de velada e patente, da Soberana ORDEM DE MARIZ em todo o Portugal, em toda a Portugalidade, que é dizer em todo o Mundo de expressão Portuguesa do qual é a mais bela Jóia o BRASIL bojo do Futuro da Humanidade.</p>
<p>__________<br />
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.</p>
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		<title>A Casa Saloia</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 22:48:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
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Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.
 
Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou de terra [...]]]></description>
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<p style="text-align: right;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/casa_saloia.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-155" title="casa_saloia" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/casa_saloia.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a> <br />
<em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="101" height="77" /></a></em></p>
<p style="text-align: left;"><em><br />
</em>Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.<br />
 <br />
Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou de terra batida que era o mais usual; casario isolado em meio de hortas e quintedos onde, destacado ou discreto, o solar apalaçado dum nobre ou o convento exíguo de alguma freiria de vocação ermitã abrilhantavam ainda mais o já de si soberbo quadro rural lourenho, cujo tipicismo peculiar ou singular é hoje lembrado pelos mais idosos com nostalgia e saudade.<br />
 <br />
Tal quadro rural de Loures não será muito diferente do da Sintra Saloia de há não muitos anos atrás, como descreve Vitor Serrão (in Sintra (os aglomerados saloios). Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989):<br />
«A chamada Região dos Saloios – a região que integra os limites cistaganos do Município Olisiponense, ou seja, o território da península de Lisboa, cingido a norte pelos actuais concelhos de torres Vedras e de Alenquer – tem no concelho de Sintra uma das suas zonas mais interessantes sob o ponto de vista de genuíno património edificado. São vários os núcleos que subsistem, com maior ou menor grau de integridade, característicos da arquitectura dos «saloios», isto é, autóctones moçárabes, herdeiros da cultura hispano-romana florescente nos agrido Município Olisiponense: são eles, entre outros, o casal de A-dos-Rolhados (freguesia de Algueirão), a aldeia de Broas – nos limites confluentes do concelho com o de Mafra –, o casal de Bolelas e, apesar das contaminações abusivas provocadas pelo urbanismo desordenado e sem critério, as aldeias de S. João das Lampas, Barreira, Cabrela, Azóia, Penedo, Ulgueira, e outras.<br />
 <br />
«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc., reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio, que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»<br />
 <br />
Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual. Sobre isto, diz Maria Micaela Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):<br />
«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura.»<br />
 <br />
Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser compreendida devidamente,   ter-se-á de recorrer à intenção do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve à Estremadura, passando os Alentejos (vd. Casas Portuguesas (Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933).<br />
Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a segunda fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas: tratava-se do universo fechado em quatro dimensões (centro, comprimento, largura, altura), e cujo jardim central, proibido a estranhos à casa, era uma evocação do “Jardim Proibido” do Éden, aberto exclusivamente à influência celeste (in Dicionário de Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Paris, 1906).<br />
 <br />
Para Abu Ya´qûb, o quaternário era o número perfeito: o da inteligência e o do nome divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no Mundo Islâmico (cf. Arquitectura Alentejana: o Quadrado, por Jaime Manuel Sousa. In O Estudo da História, Boletim dos Sócios da Associação dos Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988).<br />
 <br />
Na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um local sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho (in       Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. Revista História, n.º 96, Outubro de 1986). Afirma o        Al-Corão, cap. XLIX: «O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do Céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige».<br />
Sendo a casa a imagem do homem, de seu morador e dono, vimos na Idade Média a combinação das proporções, a unidade de medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, e geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico fosse comum o uso de um sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum), no traçado de plantas de catedrais. Esta concepção foi traduzida na célebre imagem de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito num círculo e num quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, formando portanto uma cruz (o quaternário), e corresponde à medida do lado do quadrado. Considerado o centro do Universo, segundo Pico de Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da natureza), através do Homem, cuja individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, de sua casa, se concretiza a quadratura do círculo, problema geométrico designativo da ascese mística, corrente entre os neo-platónicos, permissor da elevação do homem racional à esfera divina.<br />
 <br />
Por princípio a casa saloia é térrea, chã, encrostando-se no chão como que arrancando a este a seiva telúrica dos veios da Terra, e ao mesmo tempo como que se ocultando das influências funestas da Lua: o saloio é um homem do dia, não da noite. Madruga com os animais e as plantas, não é noctívago e dorme encostado ao seio da Grande Mãe Atégina, a Deusa da Terra, das semeaduras e colheitas, enfim, da Agricultura.<br />
Geralmente o saloio, mesmo o abonado, não comprava casa para sua moradia: fazia-a ele mesmo, e por isso as aldeias progrediam aumentando permanentemente os seus fogos (in O Saloio de A a Z, por Maria Isabel Ribeiro. Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra).<br />
 <br />
A casa saloia quase nunca se limitava a dois compartimentos. Geralmente tinha três divisões: cozinha, casa de fora e alcova. Outras, quatro; e outras, seis divisões, segundo João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948). Raramente havia casas de banho. E a azoteia árabe ou mourisca foi sistematicamente substituída pelo terraço alpendrado, característico do casal saloio.</p>
<p>O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas. Para o lado do norte, a casa geralmente não tinha janelas. Na arribana as teias de aranha eram mantidas, porque “fazia mal tirá-las”, e para aconchego do gado. Dava-lhes uma quentura especial que beneficiava o ambiente. O água-vai do saloio, era o indispensável condimento para que o mato se transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas do pequeno lavrador saloio. Ele não perdia pitada do água-vai, e o mato que o recebia, apodrecia e ganhava aquela fortaleza que o tornava o melhor e o mais barato dos adubos.<br />
 <br />
A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional era a mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais evoluídas apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois pisos.<br />
 <br />
A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada cujos habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso, existiam anexos – palhêros ou abogoarias – para acomodação do gado e alfaias; no segundo, somente as divisões destinadas a habitação.<br />
 <br />
Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas maiores, com o rés do chão lajeado e uma escada exterior para o sobrado, onde estavam os quartos para toda a família.<br />
A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris pintados de azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter dois pisos corridos: o térreo – as lojas – como arrecadação de aprestos de lavoura, abogoaria, etc., e o andar nobre como local de habitação (cf. Benfica Através dos Tempos, por Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).<br />
 <br />
Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o portão do pátio. O frontão que o encima geralmente revela apurado sentido estético, com o seu fino recorte, ladeado por volutas de cal e areia, terminando por elegante pináculo. Tais ornamentos são milagres de alvenaria. Não é raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora ou São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios, ou ainda Santo António, santo brejeiro e meio pagão na crença popular.<br />
 <br />
As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e sagrada do “homem do campo”, ainda hoje e mesmo que rareando, são património a preservar e divulgar, nisto, no que nos toca como concelhio, pelos devidos órgãos dos Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.<br />
________<br />
<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.</em></p>
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		<title>Crenças Sobrenaturais Saloias</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 22:32:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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Dr. Vitor Manuel Adrião
(Professor e investigador)

O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-130" href="http://odivelas.com/2010/01/14/crencas-sobrenaturais-saloias/vadriao/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-134" href="http://odivelas.com/2010/01/14/crencas-sobrenaturais-saloias/saloios/"></a></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-134" title="saloios" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="111" height="82" /></a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><br />
</em>O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de cariz exclusivamente recreativo mas cuja narração é constantemente envolta num halo sobrenatural e que, igualmente, não raro se remata numa lição moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessas últimas lembro a lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, que já descrevi num livro meu editado pela Câmara de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993) e ainda num outro também meu editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996), além dessas outras narrativas orais sobre grutas mágicas e santões misteriosos, como essa da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) ligando ao Mosteiro de Odivelas, ou então da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, assim pouco importando que realmente a improbabilidade subsista.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sendo eu, por natureza e brio profissional, um teórico ficando-me por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos miraculosos” que as lendas contam para tentar comprovar se, acaso, haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…</p>
<p style="text-align: justify;">Respeitante à lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela está atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), estando desaparecida a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a observar, mas hoje estando plantado por sobre o seu lugar um prédio.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra situação, aquela das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam vestígios manuelinos. A Quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a Serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, mesmo que tenha adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o de preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolático, como seja, à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar, dou um terceiro exemplo na lenda atlante de Bucelas a qual acabou levando-me à anta celtibera do Zambujal, onde realmente confirmei que “não há fumo sem fogo”… Essa lenda bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):</p>
<p style="text-align: justify;">Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.</p>
<p>Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixando de lado a interpretação ctónica remetendo para o deus Vulcano dessa lenda, passo de seguida às lendas de foro mágico, as quais têm diversas origens quase sempre misturadas inextrincavelmente: célticas, judaicas e arábicas. O factor celta para o culto dos elementos da Natureza; o judaico para a magia talismânica revestida do cunho agrícola; e o arábico para a espargiria ervanária, natural, revelando-se como base da medicina popular, campesina, através dos unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esses ingredientes celtas, judaicos e árabes, de uma forma ou de outra, por norma entram todos juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a Vida e a Morte num contexto marginal ao crédito científico e à religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.</p>
<p style="text-align: justify;">Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas «pessoas com virtudes», com dotes sobrenaturais capazes de falar com os «espíritos», fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo num mesmo efeito causas divinas e diabólicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993), conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, os saloios fazem distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.</p>
<p style="text-align: justify;">As bruxas, geralmente médiuns, na magia campesina representam por norma o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro «endireitas» dos ossos quebrantados e conhecedoras de plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agem assim como as antigas druidisas assinalando o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isto o exercício de «endireitar ossos» e da ervanária seja exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade mediúnica cabe sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção entre mulheres de “bem” e de “mal”, recorda o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas ao ponto de se transformarem em simples adivinhas animistas, degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que se regista ainda hoje nas bruxas que vivem isolados e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas a par da religião de facto.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre este tema aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos acontecem também em todo o interior rural do Concelho de Loures, pois deparo com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar nos de Odivelas, Sintra e Mafra.</p>
<p style="text-align: justify;">Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de «pessoa de virtude» e «uma santa», não importando que «a igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro e que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos»…</p>
<p style="text-align: justify;">De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento deste tema não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida a Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar, nas proximidades dos estábulos ou “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre o simbolismo da figueira, aproveito aqui este espaço para rectificar o seguinte: ao contrário do que ouvi dizer acerca do fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo não está correcta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, na cultura judaico-cristã ocidental estará para sempre associada ao episódio bíblico de Jesus ter amaldiçoado a figueira (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem duplo interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege se terá enforcado. De maneira que, associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador tenha abjurado ao Progenitor da Criação…</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.</p>
<p>Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.</p>
<p>Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.</p>
<p>Não era bom partir vidros.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, mesmo assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, e a qual seria ministrada no esconso reservado das Caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a expulsão posterior dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico dum período áureo irrevogavelmente morto.  Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.</p>
<h3><span style="color: #31839b;">ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS</span></h3>
<p>Acoitar – Abrigar do tempo.<br />
Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.<br />
Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.<br />
Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.<br />
Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.<br />
Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.<br />
Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.<br />
Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.<br />
Aventar – Fazer muito vento.<br />
Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o sol aparece por detrás de nuvens leves.<br />
Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.<br />
Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.<br />
Borriçar – O mesmo que amolinhar.<br />
Borriços – Chuva leve e pouca intensa.<br />
Cair um banquete – Chover abundantemente.<br />
Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.<br />
Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.<br />
Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.<br />
Chover borriços – O mesmo que amolinhar.<br />
Chover molinha – Chover com pouca abundância.<br />
Choverão – O mesmo que casacada d´auga.<br />
Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.<br />
Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.<br />
Dia de amores – Dia de sol.<br />
Dia cerrado – Dia enevoado.<br />
Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.<br />
Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.<br />
Escurecer a noite – Anoitecer.<br />
Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.<br />
Estar brabo – Dia de chuva e vento.<br />
Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.<br />
Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado.<br />
Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.<br />
Estrada-de-Santiago – Nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.<br />
Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.<br />
Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.<br />
Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.<br />
Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.<br />
Forrar o escuro – Amanhecer.<br />
Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.<br />
Inchente – Cheia dos cursos de água.<br />
Invernêra – O mesmo que dia brabo.<br />
Luzir o buraco – Nascer o dia.<br />
Mingante – Fase da lua; quarto minguante.<br />
Mudar o tempo – Deixar de chover.<br />
Néuva – Nevoeiro.<br />
Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.<br />
Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.<br />
Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.<br />
Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.<br />
Relampo – Relâmpago.<br />
Restelazinha de sol – Pequeno raio de sol.<br />
Revalho – O mesmo que o orruvalho.<br />
Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.<br />
Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.<br />
Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.<br />
Tempo vil – Mau tempo.<br />
Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.<br />
Vintinho – Vento fraco e agradável.<br />
Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.</p>
<h3><span style="color: #31839b;">SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS</span></h3>
<p>Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.<br />
Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.<br />
Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.<br />
Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.<br />
Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.<br />
Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.<br />
Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.<br />
Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.<br />
Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.<br />
Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.<br />
Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.<br />
Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.<br />
Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.<br />
Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.<br />
Labisongo – O mesmo que labisome.<br />
Males – Bruxedos.<br />
Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.<br />
Mardomo – O mesmo que labisome.<br />
Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.<br />
Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.<br />
Penar – Cumprir um fadoiro.<br />
Remorsos – Pressentimento.<br />
Sumo – Desaparecimento atribuído supersticiosamente a causas fantásticas.<br />
Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.<br />
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