breaking news

Editorial

A primeira fila

Os portugueses compraram bilhete, caríssimo, e foram ao teatro. Ontem foi dia de festival de teatro na sala Portugal.

À hora das pancadas de Moliére a sala estava meia, e mesmo essa metade eram convites a excelências e bilhetes de claque.

Sala meia… do meio para trás. Nas primeiras filas… ninguém.

O espetáculo decorreu como se esperava. Os grupos sucederam-se no palco, cada um mais amador do que o anterior, e foram muitos, excepto um que, honra lhe seja feita, se apresenta e comporta de facto como profissional. A peça é sempre a mesma, repete-se a cada festival, mas haja Deus, é bem representada. Ao menos isso.

Em cima do palco os Tartufos sucederam-se. São conhecidos, mais do que conhecidos, mas o público pagante e espectador mantém a expectativa de uma surpresa, sempre na esperança do aparecimento, sob os holofotes de cena, do tal D.Sebastíão que lhe prometem desde há séculos.

Mas não, não foi ainda no espetáculo de ontem que isso aconteceu. Da última vez que o anúncio foi feito está à vista o resultado do engano. Alguém se convenceu que “agora” é que é, vem aí o nosso D.Sebastião. E a cegueira foi tal que acabaram confundindo o cavalo real com um Citroen manhoso a fazer a rodagem. Está à vista o resultado do engano.

Pelo menos desta vez não sucedeu nada disso. Cedo se percebeu que o espetáculo era de Tartufos declarados e só deles. Alguns ensaiando o acompanhamento por atores e atrizes estagiários, mas coitados, são estagiários e terão muitos “sins” para dizer até terem o direito a ocuparem o centro do palco.

Depois o que acontecerá é o terrível efeito das luzes da ribalta. Cegam e vão deixar de ver seja o que for da realidade, tal como aconteceu aos que lá estão agora.

Com a aproximação do fim do espetáculo de, pelo menos um dos grupos, ainda se abriu uma janela de expectativa de êxito, e isso viu-se pelo preencher das primeiras filas da plateia. Com o cheiro a boa representação, com o cheiro a êxito popular, a claque chegou-se à frente e apareceram as primeiras filas bem preenchidas.

Sol de pouca dura. A realidade da fraquíssima representação veio ao de cima. Alguns, sentados na 1ª fila, agarrados às primeiras figuras em cartaz, lembravam náufragos agarrados a boias de salvação num naufrágio. Foi um final de espetáculo tristíssimo, final de tragicomédia, risível naquelas piruetas de saltimbancos, a clamarem uma vitória que tanto fez recordar o ministro da guerra do Irão, quando da invasão dos Estados Unidos.

Espetáculo fraquíssimo. Representação péssima. Os encenadores, além de estarem longe, estão-se nas tintas para este festival. É um festival menor no contexto das grandes salas europeias.

Face aos resultados obtidos anuncia-se a mudança dos “compères”. Ficamos para ver. Mas atores de encher o palco… são cada vez menos. Também aqui a crise é devastadora. E note-se que para estas peças não faltam subsídios, não…

26/Maio/2014

J.Paiva Setúbal