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	<title>odivelas.com &#187; Saloio</title>
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		<title>Pregões Saloios</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 09:29:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Odivelas.com</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador)   Não vai muito longe o tempo em que Lisboa acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do Termo com que nutriam as gentes da cidade. A pé ou em seus burricos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/pregoes.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-235" title="pregoes" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/pregoes.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="95" height="72" /></a>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<br />
</em> </p>
<p style="text-align: justify;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-235" href="http://odivelas.com/2010/01/15/pregoes-saloios/pregoes/"></a>Não vai muito longe o tempo em que Lisboa acordava, logo após as primeiras luzes da aurora, ao som do vozerio dos saloios apregoando por toda a cidade os bens essenciais trazidos do Termo com que nutriam as gentes da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A pé ou em seus burricos, os saloios formavam um tipo sui-generis de graça e cor que há muito o alfacinha se habituara a não dispensar. Lisboa não era só a tagana varina canastreira, mas igualmente a alcandorada saloia garrida. Uma e outra davam vida e movimento ao bem típico espírito popular, misto de bairrista com campesino.</p>
<p style="text-align: justify;">O grande olisipógrafo Júlio de Castilho (in Lisboa – Revista Municipal, n.º 116-117, pág. 73, 1968), no seu estudo Pregões de Lisboa, Música do Coração do Povo, escreveu:</p>
<p style="text-align: justify;">«A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das bandadas casaleiras. Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»</p>
<p style="text-align: justify;">Diz, ainda, Júlio de Castilho: «Há pregões ternos e melancólicos; há outros engraçados e burlescos; há outros indiferentes, sem inteligência e sem cor; uns são preguiçosos e estiraçados como lazarones; outros, finos e flexíveis como enguias; outros, fleumáticos e calculistas como os onzeneiros da Rua Nova; uns são gordos, outros, magros; estes são garotos, aqueles circunspectos. (…) Em suma: o pregão é feição especialíssima da comédia das nossas ruas, e espelho do carácter nacional de uma classe. O certo é que, salvas algumas excepções, os pregões de Lisboa são afectuosos, afinados, e teatrais.</p>
<p style="text-align: justify;"> «Finalmente, lembraremos que há (ou havia) pregões que se ouviam com mais frequência neste ou naquele bairro, nesta ou naquela zona. Dependia do produto vendido, o qual, muito naturalmente, tinha um maior número de interessados em determinadas partes da capital. Também variam com as horas do dia e as estações do ano. Melancias e sorvetes, por exemplo, não eram vendidos no Inverno, e as castanhas, ontem como hoje, aparecem no Outono, adivinhando o Inverno que se aproxima…» (in Lisboa Antiga – Bairro Alto, vol. V, pp. 223-224, 3.ª ed., 1966)</p>
<p style="text-align: justify;">Neste estudo, apenas indicarei os pregões saloios que Lisboa foi ouvindo ao longo dos tempos, em especial nos últimos 110 anos que vão dos meados do século XIX até cerca de 1960. Contudo, não se deve esquecer, como informa Júlio de Castilho, que os pregões de Lisboa são muito antigos e que já no século XVI eram apregoados os produtos vindos nas naus da Índia.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1980 ainda se ouvia, por uma ou outra ruela dos bairros alfacinhas, a voz de uma ou outra velha varina, tentando perpetuar os seus encantadores mas já moribundos pregões… era o seu canto de cisne!</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo hoje, 2008, ainda ouço quase fantasmagoricamente, tal a raridade, os pregões de um amolador de facas e tesouras ou dum vendedor ambulante de mantilhas e capachos. São raridades etnográficas em rápida extinção…</p>
<p style="text-align: justify;">Mas vamos aos pregões saloios que recolhi, aconselhando, a quem queira fazer um estudo mais pormenorizado deste tema, a consulta à bibliografia no final do presente.</p>
<p>Água: Áá-Áá! – Áúúú! (1903); Á–ú! – Áááuga! (1903).</p>
<p>Alecrim: Mér-c´Àlecriim! (1903); Mérc-c´ò mólho d´alecriim! (1903).</p>
<p>Alhos: Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos! (1903).</p>
<p>Amêijoas da Ribeira de Frielas: Quem quér a-mêêi-joas, pr´à àrrõz?! (1903); Amêêijôas p´r àrrôôz! (1940).</p>
<p>Amoras: Riic´àmóra da hóórta – Amóóra-friia! (1903).</p>
<p>Azeite, petróleo e vinagre: Azêêêti dôôci! (1903); Aa-zêite dôôce! (1903); Aazêite duuce! – Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine! – Azêite dôô-c´i bom vináágre! (1903); Óh petroliiii-ne… Azêite dôôce i vináágre! (1903).</p>
<p>Azeitonas: A trinta réis ô salamiin! Quem quer azêitõonas nóóóvas? (1903); Déz tostões – salamiim! Quem quer azêitõonas nóóóvas?! (1940).</p>
<p>Broas: Nem p´lô Natal… há brõa igual! Ó meniinas, vinde comprár as brõas do Manél, que curam a tosse – e sábem a mél! (1903).</p>
<p>Vassouras, abanos, chapéus de palha: O abano fáz ô bento – bis, Par´ácender ô fõgão…, Báárre, báárre, bassourinha – bis, Bassourinha bárr´ô chão…, Ólh´ò lindo cestiinho!!! (1940).</p>
<p>Favas: Fáva tôrradiinha! (1903); Fáva riiica! – Fááá-va rii-ca! (1903 e 1940).</p>
<p>Figos: Quem quér fiigos, quem quér álmôcáár? Quem quér fiigos de capa rôôta?! (1903); Óh figui-nhu de capa rôôta!&#8230; Quem quér fiigos –, quem quér álmôçáár…! (1940).</p>
<p>Galinhas: Éh! Galiiinhas! (1903); Mérca frâangos! (1903); Galiiiiiiiii-nhas! Quem nas quér i com ôvo?! (103).</p>
<p>Hortaliças: Ólh´à cou-ve lombar-da! (1903); Mérc´à mão de náá-bos! (1903); Méérc´ò mólho de náábos! (1903); Ólh´ò timááti, quem quér timááti? O móó-di cinou-las… (1940); Ólh´àbóbra, quem quér abóóbra? Côrteirão de pimentos… Ólh´àlfácia, quem quér àlfáácia…? (1940); Cá estão nábos, cenouras, tomátes ou pepinosi tud´ô mais que a hórta dá! (1940).</p>
<p>Laranjas: Mééc´à la-rããnja da Chii-na! (1864); Quem quér do rããmo?! Quem quér larããnjas nóóvas?! (1940); É do rããmo!&#8230; Quem quér laranja bõõa?! (1940).</p>
<p>Leite: Éééé, chêga lá vaquiii-nha, chêêga! – Anda lá, Rosita… Então estás a fazer-te esquerda?! (estas palavras, este pregão de 1903, eram dirigidas à vaca que o saloio trazia até à porta da freguesa. Leite mais fresco não havia… Este uso de vender leite levando as vacas ou as cabras às portas dos compradores, terminou em 1920, com proibição imposta por lei, apesar de não serem raras as transgressões à mesma).</p>
<p>Marmelos: Óólha ô marméé-lo – assadiinho nô fôrno! (1940); Quem quér – ôs ricos marmelos – assadiinhos no fôrno?!!! (1940).</p>
<p>Melancia e melão: Mérc-c´ ò par de melancii-as! (1903); Mérc-c´ ò par de melõões! (1903); É da Váárzia… Melanci´à – fááca! (1903).</p>
<p>Mexilhão da Ribeira de Frielas: I-érre, I-éérre, me-xi-lhão! Ih! Êrre-érre, mexilhão! P´r´à patroa i p´r´ò patrão!&#8230; (1903); Éérri éérre, mexilhão! Cá está ô mexilhãão, óh mexilhãão! (1940).</p>
<p>Morangos: Mérc-c´ò cabáz de môran-gos! (1903); Ólh´òs môrãangos! São de Siintra! (1940).</p>
<p>Ovos: Mérc´à dúzia de óóvos! (1903).</p>
<p>Pão: Pãizinhos quentiinhos – com linguiiça! (antes de 1903).</p>
<p>Pêras: A vintém o quarteirão! – Quem acáb´às pê-ras?! (1903).</p>
<p>Perús: Méér-c´ò casál de perús!&#8230; – Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!! (1903).</p>
<p>Queijo saloio: Méérca ô quêi-jo sa-lôôio! (1864); Quem n´ô quér salôôio – ?! (1903); Queijô sa-lôô-io! – Ái! Ô quêi-jô salôôio…!!! (1903); Óh quêêijô salôôi-ô! Óh quêêijô frêês-co! (1940).</p>
<p>Rebuçados caseiros: A tôstãão, cada matacãão! (1940).</p>
<p>Tremoços: Óh tremôô-ço saalôôio! – Tremôôç´salôôi-ô! – Tremôô-çôs salôôi-ôs! (1940).</p>
<p>Uvas: A quin-ze réis – Quem acá-b´àzúú-vas?! (1903); Quem quér úvas de vi-nha! Quem quér bôô-as úúvas! (1903).</p>
<p style="text-align: justify;">Os saloios, depois de venderem as hortaliças e terem almoçado, encetavam o regresso ao Termo percorrendo as ruas da cidade apregoando: Léév´às fôôlhas – Léév´às cááscas… E as donas de casas davam as sobras imprestáveis do que haviam comprado, pois “não ficavam com lixo em casa”, o qual se destinava aos animais da horta.</p>
<p>Lamento não ser possível que todos esses pregões não estejam acompanhados das respectivas músicas. Mas voto que, mesmo assim, tenha dado uma ideia tanto quanto possível aproximada dos pregões saloios, pedindo a compreensão do leitor. A quem interessar a transcrição musical pode consultar a obra de Calderon Dinis, indicada na bibliografia final, que transcreve 25 pregões, com música do pianista Norberto Wolmar Silva.</p>
<p>OBRAS CONSULTADAS</p>
<p>Francisco Santana e Eduardo Sucena, Dicionário da História de Lisboa. Lisboa, 1994.</p>
<p>Júlio de Castilho, Ribeira de Lisboa e Lisboa Antiga, em especial o volume V do Bairro Alto.</p>
<p>Luís Chaves, Notas de Etnografia de Lisboa. In Lisboa – Revista Municipal, n.º 6, Ano II, 1940, pp. 39-53.</p>
<p>Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, em especial o volume 3, 1992.</p>
<p>Calderon Dinis, Tipos e factos da Lisboa do meu Tempo. 2.ª edição, s/d 1993, Editorial Notícias.</p>
<p>Guilherme Felgueiras, Comércio Popular Errante em Lisboa e Subúrbios. In Boletim Cultural – Assembleia Distrital de Lisboa, III Série, n.º 87, 2.º Tomo, 1981, pp. 39-58.</p>
<p>Alfredo Mesquita, Portugal Pittoresco e Illustrado – Lisboa – Compilação e Estudo por… Lisboa, 1903.<br />
____________________________________________<br />
 <br />
<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.<br />
</em></p>
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		<title>Falar Saloio</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 09:19:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador) Tragam-nos o estrangeiro, mas não nos levem o saloio! Alfredo Mesquita in    Os Saloios, 1907 A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="99" height="78" /></a><br />
</em></p>
<p style="text-align: left;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-228" href="http://odivelas.com/2010/01/15/falar-saloio/falar/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/falar.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-228" title="falar" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/falar.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Tragam-nos o estrangeiro, mas<br />
não nos levem o saloio!<br />
Alfredo Mesquita in   <br />
</em>Os Saloios, 1907</p>
<p style="text-align: justify;">A fala bem típica do çalaio originário do moçárabe, perante a industrialização cada vez maior da sociedade e a urbanização citadina absorvendo cada vez mais o espaço rural e os seus habitantes cujos usos e costumes vão falecendo de maneira célere assim se perdendo toda a tradição etnográfica do Termo, ainda assim vai sobrevivendo no falar dos mais idosos, cuidando de a transmitir aos mais novos e a legar aos diversos ranchos folclóricos e etnográficos que, a despeito das maiores dificuldades económicas com que se debatem, conseguem manter viva a cultura “sui-generis” do Termo de Lisboa que é a região etnograficamente demarcada Saloia.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, o falar saloio é ainda preservado pelos mais antigos na Murteira, em Caneças, em Bucelas e em Lousa, com um e outro foco esporádico nesta e naquela aldeia resistente aos modernos usos e costumes urbanos, por norma descambando em vícios novos por lhes faltar a argamassa das regras morais de conduta ancestral de uma sociedade tradicional rural, que ao absorvê-los inevitavelmente se desintegrará e fenecerá.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois sim, apesar de o falar saloio parecer todavia não é linguajar algaraviado, antes, linguagem cujos vocábulos insistem no português arcaico que possui tanto de verbos gregos quanto latinos, e, principalmente no vocabulário do Termo, árabes. Originalmente este “linguajar” seria puro arábico, e após a Reconquista cristã do Termo e em contacto com o latinismo borgonhês, portanto, franco, tornar-se-ia arcaico face às novas falas da urbe tomada pelo estrangeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia e enfrentando os posteriores séculos de civilização, o saloio manteve-se fiel às raízes arábicas e a sua linguagem, hoje rústica, é bem um monumento mudéjar, cujo apogeu teria sido a primeira metade do século XVI, aquando o “homem do campo” (saloio) entrou na literatura e nas falas da cidade através do Teatro vicentino.</p>
<p style="text-align: justify;">A língua saloia terá passado do árabe ao mudéjar e deste ao português arcaico (luso-galaico) que chegou até hoje. No seu vocabulário ainda se encontram termos arábicos, como “azebro”, e mudéjares, como “almácega”, “almácica” ou “almaça”.</p>
<p style="text-align: justify;">A vastíssima Literatura de Cordel do século XIX deu ao falar saloio um efeito cómico pela estropiação de palavras e incorrecções sintácticas a par de alterações fonéticas. Vale por ter trazido a terreno termos já há muito caídos em desuso, com a intenção de reproduzir o falar meridional ou estremenho do saloio.</p>
<p style="text-align: justify;">Por essa Literatura vislumbra-se também a sabedoria saloia, orbitando entre o jocoso e o grave, a par de teimar manter-se independente das coisas e loisas das gentes finórias da cidade, mesmo que, anacronicamente, certamente por sobrevivência, participando indirectamente da vida delas, resistindo assim à «colonização» do campo pela cidade, pois que terminando a agricultura a indústria pouco mais poderá sobreviver, assim também o núcleo citadino. Tamanha resistência saloia poderá ser igualmente interpretada como resquício subconsciente da original marginalidade a que foi remetido o árabe após a Reconquista, sendo arrojado para fora de portas ou de muralhas da cidade. Tem-se aí o conflito entre o agrário e o industrial, cada vez menor por ambos os tipos se sedentarizarem numa sociedade altamente tecnológica e tecnocrática, desfavorecendo a sobrevivência das profissões tradicionais, a maioria manuais, assim como os usos e costumes tradicionais ou folclóricos, no sentido filológico exacto de folclore significar tradição.</p>
<p style="text-align: justify;">Na comédia O Saloio Cidadão alinharam-se, entre muitos, os seguintes desaparecidos ou hoje transformados ditos: “galinha de monturo não quer covo”; “por linha lhe vem a tinha”; “filho de burro não pode ser cavalo”; “ao médico, ao confessor e ao letrado deve-se falar toda a verdade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou, então, a bem gostosa anedota: um taful da cidade, ao encontrar uma saloia alcandorada no seu jumento, com um longo cotejo deles atrás, carregados de trouxas de roupa, atira-lhe o seguinte remoque, ao que ela riposta, com a maior compostura e desembaraço:</p>
<p>        <em>   – Adeus, mãe de burros!<br />
           – Adeus, meu filho!</em></p>
<p style="text-align: justify;">Com essa, parece-se uma outra: caminhava um saloio com o seu jumento; encontrou-o um janota que lhe perguntou por caçoada: – Onde ides vós ambos? Respondeu o rústico: – Buscar palha para nós três.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, tudo está em mudança célere. A saída das raparigas para a cidade, como empregadas domésticas, de escritório ou de centros comerciais, e a dos rapazes primeiro para a tropa e depois para empregos no comércio e na indústria, aproximaram a cidade do campo por aquela tomado, e assim os saloios foram tomados por novos costumes e novas formas de vida, de tal maneira que hoje passam completamente despercebidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Memória desse Passado recente aí está o vastíssimo património etnológico e etnográfico tradicionais dos Concelhos de Odivelas e Loures, a estudar quanto antes e a preservar a todo o custo.</p>
<p style="text-align: justify;">Do falar arcaico no Termo e em desfecho final, recolhi alguns termos orais e escritos (para isso tendo também recorrido a algumas bibliografia da especialidade: parcialmente ao interessante estudo de Maria Isabel Ribeiro, O Saloio de A a Z, em Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra. Esse trabalho baseia-se nos estudos anteriores de João de Almeida Lucas, O Falar Saloio, em A Língua Portuguesa: revista de Filologia: publicação mensal para o estudo, divulgação e defesa da Língua Portuguesa, vol. 2, pp. 65-72, 1930-31, e de João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948), com os quais compus um pequeno glossário de termos como homenagem à mais singular etnia luso-arábica que já conheci e a quem a cidade tudo deve: a Saloia.</p>
<p>Abafar = Tornar mais confortável a casa, e, por extensão, resguardar e aquecer o fermento para que levede. Ou, ainda, nivelar o terreno com a grade.<br />
Aboticado = Hipotecado.<br />
Abrincadura = Brincadeira.<br />
Acanho = Acanhamento.<br />
Àcenha e cênha = Azenha.<br />
Acólitos = Incógnitos.<br />
Acolhia-se = Tirava-se.<br />
Acostumar = Costumar.<br />
Ajeitivado = Ajeitado, acomodado, posto a jeito.<br />
Alembranças = Lembranças.<br />
Alembrar = Lembrar.<br />
Alemões = Alemães.<br />
Alimais = Animais.<br />
Álinterna = Lanterna.<br />
Almaça = Tanque.<br />
Almácega = Pequeno tanque ou lavadouro particular.<br />
Amanhem = Amanhã.<br />
Amerdois = Ambos os dois.<br />
Almuinha = Horta.<br />
Andar na maltosinha = Andar com a malta, ou na brincadeira, referindo-se a garotos.<br />
Antoino = António.<br />
Apartar = Dividir.<br />
Aplique de proplexe = Ameaça de apoplexia.<br />
Apolinhado = Pálido.<br />
Assistir = Morar.<br />
Atamoiçado = Adoentado.<br />
Azebro = Tabuado que serve de divisória numa casa. Do árabe azzarbe, “a sebe”.<br />
Bailharito = Bailharico.<br />
Balaizo = Balázio, no sentido de pedregulho.<br />
Balizar = Pensar.<br />
Balhar = Bailar.<br />
Baltizado = Baptizado.<br />
Baltizar = Baptizar. Empregam-se também os derivados baltismo e baltizado.<br />
Bonecrêro = Saltimbancos que corriam de aldeia em aldeia apresentando os bonecros.<br />
Bi caúdo = Bico calado, expressão intimidando ao silêncio, “boca fechada”.<br />
Breçozinho = Berçozinho.<br />
Brincar = Dançar.<br />
Botou = Deitou.<br />
Buscari = Buscar.<br />
Cabedulho = Tracto de terreno entre a estrada ou caminho público e a terra cultivada.<br />
Cabidela = Cabimento.<br />
Cabrêro = Cabreiro.<br />
Cacetim = Cacete, moca.<br />
Cadino e cadinar = O termo cadino aparece formando a expressão com guloso, dizendo-se guloso cadino, talvez no sentido de inveterado. Daí o sentido que o verbo cadinar tomou, exprimindo o facto de se andar às frutas nas herdades, roubando por guloseima.<br />
Cachaporrada = Pancada com pau.<br />
Calçães = Calções.<br />
Caganeiroso = Presumido, afectado.<br />
Calibre = Clima.<br />
Cal-te = Cala-te.<br />
Caminhito = Caminho.<br />
Campicho = Indivíduo canejo ou que possui deformação nas pernas.<br />
Campou = Ganhou.<br />
Canêra = Caneira.<br />
Capitões = Capitães.<br />
Carronca (levar) = Levar pancada.<br />
Catacismos = Sinapismos.<br />
Catramalhos = Sinapismos.<br />
Cedade = Cidade.<br />
Charficar = Mortificar.<br />
Chafurdas = Etimólogo popular do francês chauffeur.<br />
Chaparrão = Mal-educado, grosseiro. Exemplo: aquèl home é mêmo chaparrão.<br />
Cinzêro = Barriga, bucho, papo. Exemplo: onde tá a ánha marenda? Já cá tá no cinzêro.<br />
Claustro = Cáustico.<br />
Confurtativo = Facultativo.<br />
Conspirar = Transpirar.<br />
Córteirão = Quarteirão.<br />
Delgado = Delegado.<br />
Desenchugar = Enxugar.<br />
Déspio = Déspota.<br />
Eclesiástico = Entusiasmo.<br />
Eiva = Doença da fruta.<br />
Emplasmação = Inflamação.<br />
Engulhos = Vómitos.<br />
Enha = Minha. Pode também pronunciar-se ánha.<br />
Enodada = Suja.<br />
Ensabocar = Estrangular, estrafogar.<br />
Entulhar = Enjoar.<br />
Estar em pensamentos = Estar moribundo.<br />
Estar vestido = Estar bem arranjado; em gíria, estar lichado (estar linchado).<br />
Estarraçar-se = Cair de chapa, estampar-se.<br />
Estragação = Diz-se de qualquer coisa estragada. Exemplo: uma estragação de sopas.<br />
Estragador do Concelho = Administrador do Concelho.<br />
Espinhola = Espinhela. Exemplo: ter a espinhola caída.<br />
Faliseu = Jargão.<br />
Fanado = Doente.<br />
Faniquito = Desmaio.<br />
Fartão = Termo que exprime uma grande porção de qualquer coisa. Exemplo: um fartão de gente.<br />
Flautenta = Flatulenta.<br />
Foro = Foram.<br />
Franfantão = Indivíduo que mete vista, por ter um perfeito tipo de beleza ou por vestir bem.<br />
Friâmulos = Porcos.<br />
Galera = Carro puxado por muares ou bois, destinado a transportar produtos hortícolas ou as trouxas de roupa.<br />
Gomitoiro = Vomitório.<br />
Graçôna = Galinhas de pescoço pelado. Deve derivar do termo francês garçonne.<br />
Graviel = Gabriel.<br />
Humanidade = Unanimidade.<br />
Hume = Homem.<br />
Idovelas = Odivelas.<br />
Intrépio = Adversário.<br />
Joelheira = Espécie de caixote sobre o qual a lavadeira se ajoelhava à beira-rio.<br />
Juiz espanadeiro = Juiz pedâneo.<br />
Juros = Júri.<br />
Lavandêra = Lavadeira.<br />
Lídico = Líquido.<br />
Liquori = Licor.<br />
Lisbom = Lisboa.<br />
Loires = Loures.<br />
Mafrão = Mafrense.<br />
Ma-lo = Mais.<br />
Manchita = Mão cheia.<br />
Mané = Manuel. Exemplo: Mané Bimbas, Mané Manso.<br />
Marjabantes = Bonecos.<br />
Maroiço d´imparar = Bloco construído de pedra e areia, junto das paredes das casas mais antigas destinado a ampará-las ou reforçar a sua resistência.<br />
Matchecar = Comer, patuscar; escarnecer, amesquinhar.<br />
Matrona = Mama, seio.<br />
Mê = Meu.<br />
Mecê = Você.<br />
Memoira = Memória.<br />
Mentéus = Toalha de mesa.<br />
Merca = Compra.<br />
Milordens = Milordes.<br />
Murta e Murtar = Multa e multar.<br />
Murtêra = Murteira.<br />
Nã = Não.<br />
Noa = Nódoa.<br />
Ofa = Cansaço.<br />
Ofender = Magoar, tocar, ferir.<br />
Olivél = Libelo.<br />
Orate = Louco.<br />
Orfo = Órfão.<br />
Órina = Urina.<br />
Passeira = Útero.<br />
Pedra-lavadiça = Pedra negra e grande dos rios, boleada pela acção mecânica das águas.<br />
Pescuradores = Procuradores.<br />
Piano de cavalariça = Harmónica, realejo.<br />
Pilémica = Polémica.<br />
Piloto = Galo.<br />
Piscalhar = Piscar, mas em sentido irónico. Exemplo: piscalhar o olho.<br />
Planta forma = Plataforma.<br />
Palateia = Plateia.<br />
Plefice = Superfície.<br />
Polucia = Polícia.<br />
Ponto de palaio ou ponto de orela = Ponto que remata as bainhas das saias de baixo.<br />
Pós lombrigatigos = Pós para lombrigas.<br />
Pra = Para.<br />
Prove = Pobre.<br />
Pulga = Purga.<br />
Ràpaterrão = Exprime uma limpeza geral, de cima a baixo, por exemplo, quando se está a lavar uma casa muito suja, diz-se que vai de ràpaterrão.<br />
Ratinho = O bombo da festa.<br />
Reizes = Reis.<br />
Riba = Ripa.<br />
Rio = Pode também ser o lavadouro público.<br />
Rustigo = Forte.<br />
Saibo = Sábio.<br />
Sansodorninho = São Saturnino, significando também beato falso.<br />
Se = Senhor. Exemplo: Se Tònho.<br />
Senhora = Nome dado à freguesa.<br />
Sintrão = Sintrense.<br />
Sismatura = Cisma.<br />
Solitos = Solicitações.<br />
Suscetivle = Susceptível.<br />
Suspiração = Respiração.<br />
Tenica = Ténue.<br />
Testães = Tostões.<br />
Tiorgo = Órgão.<br />
Tocador = Músico.<br />
Toicinho mastrunçado = Toucinho esmigalhado com pão.<br />
Tolã = Logro, burla.<br />
Toque = Stock, no sentido de loja. Exemplo: na avenida há um grande toque com muita fazenda.<br />
Tosse confúcia = Tosse convulsa.<br />
Treato = Teatro.<br />
Tresler = Delirar com febre.<br />
Trouxa = Embrulho.<br />
Tu = Tua. Exemplo: tu mãe, tu horta, etc.<br />
Vei = Vê.<br />
Verdigairo = verde-gaio.<br />
Vesionário = Revolucionário.<br />
Vitro = Vitorioso, Vitor.</p>
<p>NOMES</p>
<p>Também as corruptelas filológicas não são a expressão da verdade, pois apenas demonstram a dificuldade gutural em exprimir o termo exacto no falar arcaico do campo, cuja pronúncia colectiva não acompanha o desenvolvimento verbal correcto não estar conformado ao modelo cerebral de pronunciar uma língua que lhe era estranha, alheia e assim diminuir ou alterar os termos pronunciados num entrechoque rítmico entre o português arábico e o português moderno. Mesmo assim, a expressão de tais nomes variam de lugar para lugar. De modo que: José, deu Jzé e Zé; Manuel, Manel e M´nel; Joaquim, Jaquim, Jequim e Quim; Francisco, Fracisco, Farcisco, Frecisco, Fercisco e Chico; Inácio, Nácio; Jerónimo, Jerolmo e Jarolimo; Isabel, Zabel; Gertrudes, Estrudes.<br />
____________________________________________<br />
 <br />
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.</p>
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		<title>Cenas e Humores do Termo</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 00:13:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador)   Para a efectuação dum trabalho desta natureza sem descambar literalmente para o sarcástico pueril do anedótico fácil, tem-se primeiro que situar o estilo de vida local, o porque dos epítetos de desagravo e, por fim, a razão de haver anedotário saloio.  Tomei por bases bibliográficas, para a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="87" height="79" /></a><br />
</em> </p>
<p style="text-align: justify;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-222" href="http://odivelas.com/2010/01/15/cenas-e-humores-do-termo/saloios1/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-222" title="saloios1" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios1.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Para a efectuação dum trabalho desta natureza sem descambar literalmente para o sarcástico pueril do anedótico fácil, tem-se primeiro que situar o estilo de vida local, o porque dos epítetos de desagravo e, por fim, a razão de haver anedotário saloio.</p>
<p style="text-align: justify;"> Tomei por bases bibliográficas, para a feitura do presente estudo, o magnífico livro do padre Álvaro Proença, Benfica Através dos Tempos (Depositária União Gráfica – Lisboa, 1964), e o excelente artigo de Maria Eugénia Borges, Anedotário, Provérbios e Idiomatismos Mafrenses, inserto no Boletim Cultural´94 da Câmara Municipal de Mafra, além da recolha oral que procedi no Concelho de Loures, na época (1995) englobando o actual Concelho de Odivelas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Termo de Lisboa foi o lugar de fixação do antigo saloio, espaço confirmado sobretudo durante o reinado de D. João I, como recompensa dos seus habitantes haverem participado na defesa de Lisboa contra Castela. Muitas terras reais foram então distribuídas por doação. Os colonos francos e flamengos, vindos na época do (re) povoamento saloio, instalaram-se em ricas quintas e mansões ao longo da estrada principal Odivelas – Loures (exemplos: Quinta da Flamenga dos De Rouze, Quinta do Barruncho dos Van Praet), tendo colaborado na formação social do tipo clássico do saloio e, simultaneamente, influído no desaparecimento etnológico dos últimos focos de moçarabismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moçárabes haviam florescido nos séculos VIII-IX d.C., aquando da ocupação Árabe da Península Ibérica. O etimólogo moçárabe, nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira vez no foral que D. Afonso VI de Leão e Castela concedeu (1101) à cidade de Toledo, onde o monarca refere os súbditos «quos vulgo mozarabes vocitant», de onde se infere que o nome carecia de uso nas instituições culturais e jurídicas (in Portugalia Monumenta Historica, Scriptores, 84). O moçárabe é o “como que árabe”, o cristão inserido e subordinado à estrutura social muçulmana, excepto na religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se identifiquem através dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Fisiologicamente, em toda a região saloia ou campesina o seu habitante tradicional era, ordinariamente, baixo, entroncado, resistente e trabalhador. De tez morena, pele encorreada e queimada pelo sol, por norma mostrava-se fortemente barbado; cabelo preto, nariz grosso, bem saliente e abatatado, com pernas por vezes arqueadas, aparecia por toda a parte com as suas célebres suíças, mais largas em baixo a acompanhar o alargamento da zona pilosa. Por sua vez, a saloia era morena: a partir dos trinta anos já pouco ou nada lhe restava da beleza ou simpatia da mocidade. Umas vezes, devido aos trabalhos esforçados no campo, ora se apresentava feia e ossuda, ora avantajada e requeimada, acompanhando bem o homem que, por regra, não era o tipo exacto de Adonis ou Apolo. Por vezes e não raro, trabalhava ainda mais que ele…</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, não deixa de haver muita beleza no rusticismo do tipo saloio. Homens aptos para as lides do campo, mulheres fortes, psicologicamente, por herança genética árabe, todos um pouco esquivos, manhosos, astutos nos negócios, teimosos nos sentimentos, assim armados naturalmente contra a esperteza citadina. E quanto mais desprezados ou incompreendidos, tidos por «chaparrões», maiores as suas defesas naturais: astúcia, habilidade e, às vezes, egoísmo, se tornavam mais fortes e aguçadas. Com boa saúde, atingiam idades avançadas, pouco se ralando com o porvir mesmo porque, habitualmente pacíficos e não se poupando ao trabalho duro, consentiam cada coisa ter o seu tempo para ser feita.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos seus meios de transporte preferidos era o pachorrento burro, companheiro precioso, aparelhado com albardão para os serviços do campo, com albarda para uma simples viagem, e com almantricha para o transporte de qualquer saloia rica.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes aparece com ceirões de esparto semelhantes aos de Marrocos, ou de albardão mourisco, com arção em meia-lua. O jumento é um amigo fiel, um meio seguro de locomoção, nada caro, pouco exigente e razoavelmente rápido para as andanças da época.</p>
<p style="text-align: justify;">Por seu lado, o vestuário também evoluiu. Por estas bandas de Odivelas – Loures, no século XIX, já aparecia muita gente vestida “à cidade”, embora a gente da terra e com raízes de avós e bisavós aqui bem lançadas, apenas admitisse uma leve evolução no vestuário. Como por toda a parte, havia sempre uma certa diferença entre o vestuário habitual e o de “ver a Deus” ou de festa. Também o saloio janota, com peneiras e a aproximar-se da cidade, arranjava andaina mais catita. De colete, jaleca azul e botas brancas, faixa e carapuço pretos, fazia um vistão. Barretes verdes, poucos se viam, mas chapéus desabados à Mazantini, esses apareciam sobretudo em dias de festa nas feiras e romarias. Nos actos solenes, um capote azul, parecido com o albornoz mourisco, dava-lhe uma certa imponência. Em tempos relativamente modernos, há uns cem anos, já apareciam as calças de “boca-de-sino”, justas às pernas e alargadas em baixo, cinta preta para os casados e encarnada para os solteiros, jaleca a contornar os quadris, camisa mole sem gravata, colarinho mole e barrete de borla preta para os casados e encarnada para os solteiros. O barrete, à entrada da igreja, era deixado no muro das carapuças; agora o chapéu à Mazantini esse era verdadeiramente estimado e não saía das mãos do seu dono, pois aguentava, ordinariamente, uma vida inteira. De aba larga e copa redonda, dava a cada saloio rico – pois eram esses os que o usavam – um verdadeiro ar de grande senhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, a saloia, de saia rodada, botas de cano, casaquilho apertado aos seios, xaile aos ombros e lenço na cabeça, fazia um vistão. As botas, mantéus e carapuças que também usou, tornaram-se quase instituições regionais. Mantéu de “parrilha”, saragoça, e de cor berrante como o colete, saia debruada, xaile do melhor e, por cima do lenço, a carapuça, fazia um vistão.</p>
<p style="text-align: justify;"> Sempre sujeita a evoluções, embora ligeiras, em tempos mais modernos a saloia calçava botas pregadas, vestia jaleca, uma saia de chita sobre a outra de beata encarnada, sempre bastante curtas… para os costumes da época. Na cabeça, sempre o indispensável lenço.</p>
<p style="text-align: justify;">A saloia rica ia à feira na sua égua se não dispunha de uma jumenta mais ou menos ricamente arranjada. A saloia pobre arranjava montada menos ajaezada, ou ia a pé. Aliás, o saloio andava habitualmente a pé; apenas, se chovia, tinha o cuidado de cobrir o chapéu com um lenço de chita. De resto, para jornadas mais ou menos longas, tenha sempre o cuidado de se munir do seu inseparável guarda-chuva garrido, ou de um varapau.</p>
<p style="text-align: justify;">Económico como era, arrumava os fatos, em cómodas, cuidadosamente dobrados e guardados no meio de toalhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Deitando-se logo após as Ave Marias, “com as galinhas”, sempre complicado no falar e em mostrar o que pretendia, era também um madrugador de alto lá com ele, sobretudo se o seu negócio na cidade o exigia: os produtos das hortas, o leite, etc., tinham que estar de madrugada em Lisboa. Havia pouco tempo para dormir.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo o saloio manhoso por temperamento e educação, se o queriam enganar coçava a cabeça, passava os dedos pelos lábios, muito lentamente, calado, resistindo sempre. Pacato, incapaz de assaltar uma pessoa ou uma casa, também raras vezes armava desordem, a não ser nas feiras, aquecido pela bebida ou estimulado por rivalidades de terras, ou freguesias.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes essas rivalidades manifestavam-se da maneira como se alcunhavam uns aos outros. Os de Odivelas eram os “rapa-caldos”, certamente por rasparem os pingos sobrados no fundo da malga de magra sopa; os da Póvoa de Santo Adrião, eram os “cágados” e “cagádos”, não sei se por haverem cágados nas margens da ribeira ou se, por certo, haver o costume de aí praticar-se as necessidades fisiológicas; os de Frielas, “rãs”, pela abundância destas nas terras encharcadas da várzea; os de Loures, “socas da cana”, epíteto inspirado nos canaviais ribeirinhos da freguesia, com cujas canas se armavam as latadas; os de Caneças, “animais”, por estes terem confundido, durante um sermão do padre local, no século XVIII, referente a terem sido poupados à peste que assolou as regiões vizinhas, a frase «animar os vossos filhos» com «animais os vossos filhos»! É possível que provenha desse episódio anedótico alcunha semelhante para os de Montemor: “animal-mor”! Os de Benfica, “enforcados”; os de Carnide, “cães”; os de A-da-Beja ou Daveja, “não lhes tem inveja”; os do Lumiar, “cadelas”; os da Ameixoeira, “catalões”; e os da Charneca eram assinalados por alcunha mais ofensiva: “lobos” e “ladrões”, decerto por causa das desavenças comerciais havidas aí por ocasião da feira do gado (in Caneças, por Padre J.T.T.R. (Amora). Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por Raymundo Alves. Lisboa, 1911).</p>
<p>Até em quadras essa rivalidade se exprimia:</p>
<p><em>Cágados da Póvoa<br />
Rãs de Frielas<br />
Invejai os rapa-caldos<br />
Da feira de Odivelas. </em></p>
<p><em> <br />
Cães de Carnide<br />
Cadelas do Lumiar<br />
Acudi aos de Benfica<br />
Que se querem enforcar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Por essas e outras, às vezes, nas feiras e romarias, havia pancadaria grossa. De resto, o saloio era o homem mais pacato e sofredor do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes, um ou outro lá furtava uns frutos de uma árvore ou as aves de uma capoeira, ou as roupas de um secadoiro, mas havia de ser um reles ladrão. Mil vezes pior do que “estar reles” (estar doente), era um desgraçado roubador. De resto, o fiel cão saloio fazia a polícia aos bens do seu dono, e com toda a dedicação e competência de um bom animal amestrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por seu temperamento rústico talhado nas durezas da vida no campo, dando-lhe o tipicismo rural que o caracterizou mas também o maginalizou como ente inferior naturalmente estúpido aos olhos do sabido da cidade, o saloio viu cair sobre si um chorradilho anedótico destinado a demonstrar, por via do humor sarcástico, a sua natural propensão para a estupidez.</p>
<p style="text-align: justify;">Encaixou os golpes injustos e, servindo-se de armas iguais às do agressor, inventou um anedotário demonstrativo de quanto o finório alfacinha propende para a estupidez natural.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, muitas dessas anedotas só são lembradas pelos mais velhos e já despossuídas do sentido agressivo de outrora, sendo contadas por diversão e nada mais. Eis algumas:</p>
<p>            <em>O filho chega a casa bêbado e diz-lhe a mãe:<br />
            – Ai filho, como tu vens…<br />
           O filho olha para a mãe e pergunta:<br />
            – A gente, mãe?&#8230;</em></p>
<p><em>            (Gradil e Loures)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Antigamente, muitas das pessoas que iam à festa de Nossa Senhora da Saúde, na Serra de Montemor, freguesia de Loures, pernoitavam encostadas umas às outras, debaixo do alpendre, pois não tinham meio de transporte nocturno para regressar a suas casas.</p>
<p style="text-align: justify;">A certa altura da noite, um homem começa a agarrar a respectiva mulher que se encontrava a seu lado. Ela, espantada com um segundo apetite do marido, diz-lhe, admirada:</p>
<p>            <em>– Outra vez?&#8230;<br />
            – Outra vez o quê? Comigo é a primeira!!!<br />
</em>            (Loures)</p>
<p>Um saloio, que tinha vindo para a cidade servir em casa de um carniceiro, escrevia tempos depois à mãe:</p>
<p><em>“Minha querida mãe, escrevo-lhe estas duas regras para lhe dar uma boa notícia: o meu amo está contentíssimo comigo. Já me mandou sangrar algumas vezes, hoje mandou-me esfolar e disse-me que, se assim continuar, me manda matar para a Páscoa.”<br />
                                                     (Loures)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Quando um avião sobrevoou pela primeira vez Loures, vários homens que estavam a trabalhar no campo ficaram muito assustados, começando a correr atrás da sombra do avião com as enxadas, para tentar apanhar aquele bicho. Como viram a sombra entrar num palheiro, correram na sua direcção, fecharam-lhe a porta e deitaram-lhe fogo.<br />
                                                    (Loures)</p>
<p style="text-align: justify;">É muito frequente o saloio não ter sempre presente o seu nome, assim como os nomes dos parentes mais chegados. Isto também se deve em grande parte ao abuso de alcunhas que chega a fazer esquecer o nome verdadeiro. Durante muitos anos, e talvez ainda hoje aqui e acolá no que resta da cultura rural saloia, estropiavam tanto os nomes que não raro se tornava difícil saber qual o nome verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;"> Numa determinada aldeia da nossa região saloia, há muitos anos, o pai de uma criança pequena que tinha falecido, foi ao médico, para que este lhe passasse o documento de óbito. É o próprio médico, dr. Fernando da Cunha (da Câmara Municipal de Loures), que nos conta o seguinte:</p>
<p> Ouvi tudo resignado e passei a preencher o impresso da certidão de óbito, fazendo as perguntas habituais:</p>
<p>            <em>– Nome da criança?<br />
             – Pedro Luís.<br />
</em>            – <em>Seu nome?<br />
            – Luís Francisco.<br />
            – Nome da sua mulher?</em></p>
<p> O saloio coçou a cabeça, costume saloio para ganhar tempo ou para avivar as ideias, e respondeu-me:</p>
<p>              <em>– Não m´alembra.<br />
             – Não se lembra? Então como é que lhe chama lá<br />
               em casa?<br />
            – Eu, chamo-lhe ó mulher!</em></p>
<p> E teve que voltar a casa, duas léguas bem puxadas, para perguntar o nome à mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">(Fernando da Cunha, Etnografia Saloia: Subsídios para o seu Estudo. In Boletim da Junta da Província da Estremadura, s. 2, n.º 18, Mai. – Ago. 1948, pág. 284)</p>
<p style="text-align: justify;">Um saloio entra numa repartição pública da sede do seu concelho e pergunta a um amanuense:</p>
<p>            <em>– Vancê saberá-me dizer onde mora aqui o<br />
               senhor juiz?<br />
            – Qual deles? Só nesta vila há nem menos de três.<br />
            – O mais reles… o mais reles que eu pescuro.<br />
</em>             <em>– O mais reles?<br />
            – Sim senhor, o mais reles… de menos estimação.<br />
            – Você procura talvez mas é o juiz ordinário?<br />
            – Deu no vinte! É como canta! Juiz ordinário é que<br />
              eu queria dizer, mas não m´alembrava!</em></p>
<p><em>              (O Mafrense, 4 Dez. 1890)</em></p>
<p>E para terminar</p>
<p>Quando vinha para cá, uma púrria afadista que se apeou no Cacém, com os farnéis, os garrafões e a sua estupidez, entretivera-se com graçolas uns aos outros toda a viagem, e porque um deles quisesse ripostar a um outro que lhe diminuíra a inteligência, perguntou-lhe assim:</p>
<p> <em>– Ó pá! Tu julgas que eu sou saloio? Olha que eu, pá, não tenho cara de saloio!</em></p>
<p> Eu ando com muito pouca vontade de falar, seja com quem seja, e muito menos com quem não me interessa, mas aquela cara de saloio com dois pás, buliu-me cá com o fígado que anda, como já disse ao leitor, há uns dias para cá, do lado esquerdo, e não me contive:</p>
<p> <em>– O sr. faz-me um favor? Podia informar-me que cara têm os saloios pela qual logo se vê que são parvos?<br />
 – Mas eu não me referi ao senhor.<br />
 – Claro que se referiu, pois se eu lhe estou a dizer que sou saloio.<br />
– Mas isso que eu disse foi para reinar, e não para ofender ninguém.<br />
– Está bem, mas para a outra vez, quando lhe chamarem parvo, mesmo que para reinar, não se meta com os saloios que não têm nada com isso.</em></p>
<p>(O Concelho de Mafra, 16 Fev. 1949, extraído do livro O Saloio, de Paulo Freire)</p>
<p>___________________________________________________<br />
 <br />
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.</p>
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		<item>
		<title>A Casa Saloia</title>
		<link>http://odivelas.com/2010/01/14/a-casa-saloia/</link>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 22:48:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[  Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador) Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.   Casas chãs aglomeradas formando curtas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-155" href="http://odivelas.com/2010/01/14/a-casa-saloia/casa_saloia/"></a></p>
<p style="text-align: right;"><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/casa_saloia.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-155" title="casa_saloia" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/casa_saloia.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a> <br />
<em>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="101" height="77" /></a></em></p>
<p style="text-align: left;"><em><br />
</em>Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas nuances e comparando-as às descrições de crónicas e fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a paisagem do Termo.<br />
 <br />
Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou de terra batida que era o mais usual; casario isolado em meio de hortas e quintedos onde, destacado ou discreto, o solar apalaçado dum nobre ou o convento exíguo de alguma freiria de vocação ermitã abrilhantavam ainda mais o já de si soberbo quadro rural lourenho, cujo tipicismo peculiar ou singular é hoje lembrado pelos mais idosos com nostalgia e saudade.<br />
 <br />
Tal quadro rural de Loures não será muito diferente do da Sintra Saloia de há não muitos anos atrás, como descreve Vitor Serrão (in Sintra (os aglomerados saloios). Editorial Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989):<br />
«A chamada Região dos Saloios – a região que integra os limites cistaganos do Município Olisiponense, ou seja, o território da península de Lisboa, cingido a norte pelos actuais concelhos de torres Vedras e de Alenquer – tem no concelho de Sintra uma das suas zonas mais interessantes sob o ponto de vista de genuíno património edificado. São vários os núcleos que subsistem, com maior ou menor grau de integridade, característicos da arquitectura dos «saloios», isto é, autóctones moçárabes, herdeiros da cultura hispano-romana florescente nos agrido Município Olisiponense: são eles, entre outros, o casal de A-dos-Rolhados (freguesia de Algueirão), a aldeia de Broas – nos limites confluentes do concelho com o de Mafra –, o casal de Bolelas e, apesar das contaminações abusivas provocadas pelo urbanismo desordenado e sem critério, as aldeias de S. João das Lampas, Barreira, Cabrela, Azóia, Penedo, Ulgueira, e outras.<br />
 <br />
«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos, adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc., reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio, que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»<br />
 <br />
Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele que é o seu tecto habitual. Sobre isto, diz Maria Micaela Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):<br />
«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País, ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na Estremadura.»<br />
 <br />
Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser compreendida devidamente,   ter-se-á de recorrer à intenção do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve à Estremadura, passando os Alentejos (vd. Casas Portuguesas (Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933).<br />
Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por onde se acedia às restantes divisões, enquanto a segunda fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas: tratava-se do universo fechado em quatro dimensões (centro, comprimento, largura, altura), e cujo jardim central, proibido a estranhos à casa, era uma evocação do “Jardim Proibido” do Éden, aberto exclusivamente à influência celeste (in Dicionário de Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Paris, 1906).<br />
 <br />
Para Abu Ya´qûb, o quaternário era o número perfeito: o da inteligência e o do nome divino, ALLH. Não há, pois, diferenças marcantes entre o significado atribuído às construções de planta quadrada, no Ocidente e no Mundo Islâmico (cf. Arquitectura Alentejana: o Quadrado, por Jaime Manuel Sousa. In O Estudo da História, Boletim dos Sócios da Associação dos Professores de História, n.º 5-6 (II Série), 1988).<br />
 <br />
Na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A casa, como a mesquita e a madrasa, é um local sagrado, como diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho (in       Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. Revista História, n.º 96, Outubro de 1986). Afirma o        Al-Corão, cap. XLIX: «O interior da tua casa é um santuário: os que o violam chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem ao intérprete do Céu. Devem esperar que saias de lá: a decência o exige».<br />
Sendo a casa a imagem do homem, de seu morador e dono, vimos na Idade Média a combinação das proporções, a unidade de medida ser determinada a partir das dimensões da figura humana, e geometricamente representada pelo quadrado, aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento, ainda que durante o Gótico fosse comum o uso de um sistema de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad quadratum), no traçado de plantas de catedrais. Esta concepção foi traduzida na célebre imagem de Leonardo da Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito num círculo e num quadrado. A largura dos seus braços estendidos é igual à altura do tronco e pernas unidas, formando portanto uma cruz (o quaternário), e corresponde à medida do lado do quadrado. Considerado o centro do Universo, segundo Pico de Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da natureza), através do Homem, cuja individualidade está impressa na robustez, humilde ou rica, de sua casa, se concretiza a quadratura do círculo, problema geométrico designativo da ascese mística, corrente entre os neo-platónicos, permissor da elevação do homem racional à esfera divina.<br />
 <br />
Por princípio a casa saloia é térrea, chã, encrostando-se no chão como que arrancando a este a seiva telúrica dos veios da Terra, e ao mesmo tempo como que se ocultando das influências funestas da Lua: o saloio é um homem do dia, não da noite. Madruga com os animais e as plantas, não é noctívago e dorme encostado ao seio da Grande Mãe Atégina, a Deusa da Terra, das semeaduras e colheitas, enfim, da Agricultura.<br />
Geralmente o saloio, mesmo o abonado, não comprava casa para sua moradia: fazia-a ele mesmo, e por isso as aldeias progrediam aumentando permanentemente os seus fogos (in O Saloio de A a Z, por Maria Isabel Ribeiro. Boletim Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra).<br />
 <br />
A casa saloia quase nunca se limitava a dois compartimentos. Geralmente tinha três divisões: cozinha, casa de fora e alcova. Outras, quatro; e outras, seis divisões, segundo João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948). Raramente havia casas de banho. E a azoteia árabe ou mourisca foi sistematicamente substituída pelo terraço alpendrado, característico do casal saloio.</p>
<p>O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas. Para o lado do norte, a casa geralmente não tinha janelas. Na arribana as teias de aranha eram mantidas, porque “fazia mal tirá-las”, e para aconchego do gado. Dava-lhes uma quentura especial que beneficiava o ambiente. O água-vai do saloio, era o indispensável condimento para que o mato se transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas do pequeno lavrador saloio. Ele não perdia pitada do água-vai, e o mato que o recebia, apodrecia e ganhava aquela fortaleza que o tornava o melhor e o mais barato dos adubos.<br />
 <br />
A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional era a mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais evoluídas apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois pisos.<br />
 <br />
A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada cujos habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso, existiam anexos – palhêros ou abogoarias – para acomodação do gado e alfaias; no segundo, somente as divisões destinadas a habitação.<br />
 <br />
Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas maiores, com o rés do chão lajeado e uma escada exterior para o sobrado, onde estavam os quartos para toda a família.<br />
A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris pintados de azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter dois pisos corridos: o térreo – as lojas – como arrecadação de aprestos de lavoura, abogoaria, etc., e o andar nobre como local de habitação (cf. Benfica Através dos Tempos, por Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).<br />
 <br />
Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o portão do pátio. O frontão que o encima geralmente revela apurado sentido estético, com o seu fino recorte, ladeado por volutas de cal e areia, terminando por elegante pináculo. Tais ornamentos são milagres de alvenaria. Não é raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora ou São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios, ou ainda Santo António, santo brejeiro e meio pagão na crença popular.<br />
 <br />
As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e sagrada do “homem do campo”, ainda hoje e mesmo que rareando, são património a preservar e divulgar, nisto, no que nos toca como concelhio, pelos devidos órgãos dos Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.<br />
________<br />
<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença do autor.</em></p>
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		<title>Crenças Sobrenaturais Saloias</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 22:32:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vitor Adrião</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Saloio]]></category>
		<category><![CDATA[Património]]></category>

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		<description><![CDATA[Dr. Vitor Manuel Adrião (Professor e investigador) O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-130" href="http://odivelas.com/2010/01/14/crencas-sobrenaturais-saloias/vadriao/"></a><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" rel="attachment wp-att-134" href="http://odivelas.com/2010/01/14/crencas-sobrenaturais-saloias/saloios/"></a></p>
<p style="text-align: right;"><em><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-134" title="saloios" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/saloios.jpg" alt="" width="216" height="162" /></a>Dr. Vitor Manuel Adrião<br />
(Professor e investigador)<a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1741 alignright" title="vadriao" src="http://odivelas.com/wp-content/uploads/vadriao1-150x112.jpg" alt="" width="111" height="82" /></a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><br />
</em>O espaço demográfico do Termo dos Saloios – mormente os Concelhos de Odivelas e Loures, como igualmente os de Sintra e Mafra – é prenhe de lendas e tradições que, quando descodificadas, não raro apresentam base mágica de natureza quase inevitavelmente evocatória e sempre com fundo moral, mesmo havendo outras de cariz exclusivamente recreativo mas cuja narração é constantemente envolta num halo sobrenatural e que, igualmente, não raro se remata numa lição moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessas últimas lembro a lenda do Senhor da Ribeira de Frielas, que já descrevi num livro meu editado pela Câmara de Loures (Ode a Loures – Monografia Histórica, 1993) e ainda num outro também meu editado pelo Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Frieleiros” (Frielas – Memorial Histórico, 1996), além dessas outras narrativas orais sobre grutas mágicas e santões misteriosos, como essa da pressuposta gruta do Conventinho da Mealhada (Loures) ligando ao Mosteiro de Odivelas, ou então da igreja matriz de Frielas comunicando subterraneamente com a ermida desfeita da Senhora do Monte da Ramada. Todos dizem que é verdade, sim senhor, porque “fulano ouviu de sicrano que já lá foi”, remetendo-se sempre para o passado e para outro, assim pouco importando que realmente a improbabilidade subsista.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sendo eu, por natureza e brio profissional, um teórico ficando-me por respigos bibliográficos de outréns, senti necessidade de deslocar-me ao terreno onde se deram esses “factos miraculosos” que as lendas contam para tentar comprovar se, acaso, haveria “algum fogo no meio de tanto fumo”…</p>
<p style="text-align: justify;">Respeitante à lenda do Senhor da Ribeira, ainda hoje ela está atestada num pequeno silhar de azulejos coloridos e legendado (“Senhor da Ribeira”), junto ao Casal do Monte, no cimo da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), estando desaparecida a fonte de “água santa” que o mesmo silhar decorava. Ao lado, havia um aparelho de azenha medieval que cheguei a observar, mas hoje estando plantado por sobre o seu lugar um prédio.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra situação, aquela das grutas da Idade do Cobre na Quinta das Gaitadas, cujas casas apresentam vestígios manuelinos. A Quinta está no sopé da Serra de Montemor (Loures), dizendo-se que as grutas prolongam-se por toda a Serra e sob a Cidade Nova – Santo António dos Cavaleiros. Isso não pude comprovar, mesmo que tenha adentrado uma dessas cavidades e avançado, cerca de um quilómetro e meio, com água pela cintura até esbarrar numa obstrução natural. De maneira que não posso afirmar a verdade ou a mentira da lenda… Mas posso afirmar que o Casal do Monte é a maior jazida paleolítica do Vale do Tejo (até agora poupada à inclemência da construção civil graças ao bom senso da edilidade, cujo presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Cavaleiros aconselhou-se pessoalmente comigo nesse sentido, o de preservação desse espaço patrimonial), habitada por povos colectores e inclusive havia aí até há pouco restos circulares do que pareciam templos dedicados a algum tipo de culto astrolático, como seja, à Lua (nas grutas das Gaitadas) e ao Sol, deste os seus restos ficaram sob o centro comercial que se construiu no cimo da Cidade Nova, junto às Torres da Bela Vista e vizinho da estrada de Montemor.</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar, dou um terceiro exemplo na lenda atlante de Bucelas a qual acabou levando-me à anta celtibera do Zambujal, onde realmente confirmei que “não há fumo sem fogo”… Essa lenda bucelense, pouquíssimo conhecida, consta da Lenda dos Ferreiros e assim se passou em tempos esquecidos na memória dos homens (in Almanaque do Concelho de Loures para 1912, dirigido por João Raymundo Alves. Lisboa, Instituto Geral das Artes Graphicas, Rua das Pretas, 17, 1911):</p>
<p style="text-align: justify;">Nas proximidades de Bucelas há dois montes bastante elevados e de forma mais ou menos cónica. É crença popular que dois ferreiros, dizem que irmãos, foram estabelecer as suas forjas cada um em seu monte, mas que possuindo ambos um só malho, dele se serviam alternadamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os montes, na sua parte superior, distam uns dois quilómetros um do outro, e quando o Melo (assim se chamava um dos ferreiros) precisava do malho, chegava à porta da forja e gritava pelo Jerumelo (assim se chamava o outro), para este lho atirar. Isso repetia-se todas as vezes que trabalhavam.</p>
<p>Os dois ferreiros eram gigantes, porque só assim podiam ter força para arremessar o malho a tão grande distância.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez zangou-se o Jerumelo com o companheiro, e atirou-lhe o malho com tanta violência que, desencravando-se este no ar, foi cair o ferro na encosta do monte Melo, e logo daí brotou uma fonte de água férrea, e o cabo, que era de madeira de zambujo, foi espetar-se na terra a mais de dois quilómetros de distância, reproduzindo-se um zambujo, que deu o nome a uma povoação que fica a quatro quilómetros dos referidos montes, e a que por isso se chama Zambujal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixando de lado a interpretação ctónica remetendo para o deus Vulcano dessa lenda, passo de seguida às lendas de foro mágico, as quais têm diversas origens quase sempre misturadas inextrincavelmente: célticas, judaicas e arábicas. O factor celta para o culto dos elementos da Natureza; o judaico para a magia talismânica revestida do cunho agrícola; e o arábico para a espargiria ervanária, natural, revelando-se como base da medicina popular, campesina, através dos unguentos, defumações, rezas, benzeduras, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esses ingredientes celtas, judaicos e árabes, de uma forma ou de outra, por norma entram todos juntos no imobiliário das lendas saloias, susceptível de explicar a Vida e a Morte num contexto marginal ao crédito científico e à religião por todos aceite mas “à maneira de cada um”, assim o plural presente sujeito ao singular assente.</p>
<p style="text-align: justify;">Imobiliário esse até há pouco tempo atrás sustentado pelos velhos da terra e pelas «pessoas com virtudes», com dotes sobrenaturais capazes de falar com os «espíritos», fazer quebrantos e enguiços, enfim, as bruxas d’aldeia. Elas eram o pilar-mor da religião popular, mais animista que espiritual, reunindo num mesmo efeito causas divinas e diabólicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Loures, como em todo o território saloio, o que o padre-cura não resolvia consertava a bruxa ou a curandêra. Maria Rosa Lila Dias Costa (in Murteira – Uma Povoação do Concelho de Loures. Junta Distrital de Lisboa, 1961, com reedição em Dezembro de 1993), conta que na Murtêra não era estranho nem misterioso as pessoas, mais mulheres que homens, consultarem pessoalmente a feitecêra.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, os saloios fazem distinção entre bruxa, a mulher que faz males ou bruxedos, e curandeira, que por meio de benzeduras vê e cura o mal que as bruxas fizeram.</p>
<p style="text-align: justify;">As bruxas, geralmente médiuns, na magia campesina representam por norma o lado psíquico e lunar da Natureza, enquanto as curandeiras, não raro «endireitas» dos ossos quebrantados e conhecedoras de plantas medicinais com que exerciam a sua medicina, agem assim como as antigas druidisas assinalando o lado espiritual e solar da Natureza. Talvez por isto o exercício de «endireitar ossos» e da ervanária seja exercido maioritariamente por homens, pólo sexual positivo, activo ou solar, enquanto a actividade mediúnica cabe sobretudo a mulheres, pólo sexual negativo, passivo ou lunar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distinção entre mulheres de “bem” e de “mal”, recorda o episódio homérico da perda do sentido de sacralidade pelas vestais, sibilas e pitonisas ao ponto de se transformarem em simples adivinhas animistas, degredadas para fora das urbes por causa da sua influência nociva, o que se regista ainda hoje nas bruxas que vivem isolados e marginalizadas da restante sociedade, principalmente nos lugares rurais onde a magia campesina disputa as almas a par da religião de facto.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre este tema aliciante, não deixo de aconselhar o interessante estudo de Amália Caetano, Medicina Popular na Região de Mafra, inserto no Boletim Cultural´94 publicado pela Câmara Municipal de Mafra.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos exemplos que Maria Lila Costa dá da feitiçaria popular na Murteira, a verdade é que os mesmos acontecem também em todo o interior rural do Concelho de Loures, pois deparo com crenças idênticas em Bucelas, Lousa, Pinheiro, etc., para não falar nos de Odivelas, Sintra e Mafra.</p>
<p style="text-align: justify;">Acreditava-se na existência de lobisomens, labisongos, meio-homens e meio-lobos que ficaram assim por serem munto pucadores, dando-lhes Deus como castigo transformarem-se em bestas demoníacas todas as meias-noites de Lua Cheia. Os fantasmas, pantasmas ou búltemos, eram outra crença. Com eles só os médiuns ou “intermediários” podiam comunicar directamente. Como não podia deixar de ser, numa sociedade rural fechada, tais médiuns, geralmente mulheres, eram muito concorridos pelo povo local e dos subúrbios, assediando-os com os mais diversos tipos de pedidos que, se fossem satisfeitos, lograriam para tal médium a fama de «pessoa de virtude» e «uma santa», não importando que «a igreja não aceite, porque o padre não sabe senão as rezas escritas no Livro e que não me curaram dos males que a bruxa da vizinha me fez, mandando-me búltemos»…</p>
<p style="text-align: justify;">De passagem mas com importância maior do que se possa presumir, anoto que o exercício da mediunidade e a prática de todo e qualquer culto animista encontra pela frente a desaprovação total da Tradição Espiritual assumida por toda e qualquer corrente religiosa tradicional (seja católica, islâmica, judaica, hindu, etc.), mas o desenvolvimento deste tema não vem ao caso e, por conseguinte, prosseguirei o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Rosa Lila refere ainda, para além das benzeduras e rezas utilizadas pelos endireitas dos ossos afectados e das más colheitas, havendo nisto, mais uma vez, certo sabor de nostalgia druídica, algumas regras de astrologia agrícola e mesmo cabalística. Por exemplo: os sentomas davam-se de 3 a 14 de Dezembro, quando os velhos, reparando no estado de tempo, prediziam que as condições meteorológicas de cada um dos doze dias corresponderia ao estado de tempo de cada mês do ano seguinte. Também se acreditava na influência magnética das fases da Lua, agindo nos diversos aspectos da vida quotidiana; assim, toda a novidade hortícola deveria ser semeada sempre em quarto minguante, e as galinhas recolhidas sempre em quarto crescente. Os números nonos, isto é, nunes ou ímpares, preferiam-se aos números pares: na quinta-feira da Ascensão guardavam-se, para dar sorte e ter pão todo o ano, 3, 5 ou 7 espigas de trigo; para o fabrico de chouriços, esperava-se que a carne estivesse de conserva 5, 7 ou 9 dias, para que ficasse bem curtivada e não se estragasse durante o ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando alguém tinha a espinhola caída, para se curar deveria estar deitado 3, 5, 7 ou 9 dias, conforme a gravidade da doença.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todas as benzeduras e rezas empregavam-se, como ingredientes de defumação, 3 ou 5 pedaços de certas plantas, sendo 3 as vezes que se repetia uma reza, em 3 (ou múltiplo de 3) dias sucessivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros costumes, fazendo parte das crenças sobrenaturais do saloio, sem dúvida supersticiosas desviadas e alteradas irremediavelmente de alguma tradição mais séria e menos absurda, mais espiritual e menos psíquica, e tomando por partida a Murteira, eram os seguintes: a partir do meio-dia não se devia deitar lixo nem água-vai para a rua. Também não se devia levantar a mesa logo que terminassem as refeições, porque os “inginhos tem fome e quer comer”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que o leite não secasse nas vacas, nunca se devia queimar, nas proximidades dos estábulos ou “palheiros”, onde elas viviam, madeira de figueira.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre o simbolismo da figueira, aproveito aqui este espaço para rectificar o seguinte: ao contrário do que ouvi dizer acerca do fruto da figueira simbolizar o Pai Eterno por Este se manifestar súbita e misteriosamente tal qual a figueira que não dá flor e aparece o fruto sem que se espere, a verdade é que aparecem os bolbos a partir dos meados de Abril para que em Junho-Julho se colham os figos, que nos finais de Agosto já estão secos. Foi assim que os vi nas muitas figueiras que varejei em minha infância, no Algarve junto dos pais da minha mãe adoptiva. Portanto, essa interpretação do símbolo não está correcta, não se devendo esquecer que a figueira ou kurma, em árabe, ajustando-se ao tema hindustânico karma, “acção”, na cultura judaico-cristã ocidental estará para sempre associada ao episódio bíblico de Jesus ter amaldiçoado a figueira (Mateus, 21:19; Marcos, 2:12 s.). Segundo é tradição geral, o simbolismo da figueira tem duplo interpretação: como árvore viçosa, repleta de frutos, simboliza a Ciência Sagrada cujos frutos são os preferidos dos seus postulantes; como árvore seca, morta, expressa a heresia e o mal representados pelos seus ramos dissecados, num dos quais Judas herege se terá enforcado. De maneira que, associar o símbolo do figo ao Pai e esquecer que Jesus amaldiçoou essa árvore, vale o mesmo que o absurdo do Salvador tenha abjurado ao Progenitor da Criação…</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos saloios, no tratamento de certas doenças, como a erisipela, empregava-se para pincelar a parte do corpo afectada uma pena de galinha preta.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o lume estava a fagulhar, era bom deitar-lhe algumas pedras de sal e de seguida voltar-lhe as costas.</p>
<p>Não era bom tocar caxa velha, pois acontecia alguma desgraça.</p>
<p>Era de mau agoiro ouvir piar os mochos, pois era sinal de morte no lugar.</p>
<p>Não era bom partir vidros.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que as bruxas não entrassem em casa, era conveniente colocar atrás da porta um banco de pernas para o ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo esse ritualismo crencista, supersticioso e pagão ou paissan, “camponês”, mesmo assim não deixa de ter a sua razão de ser, o que me leva a deduzir, mais uma vez, de resquícios degenerados muitíssimo e irredutivelmente afastados de uma original, verdadeira e completa Tradição Iniciática talvez moçarábica, mista de Cristianismo oriental com Arianismo ocidental, tudo com halo arábico, e a qual seria ministrada no esconso reservado das Caneças não raro anexas às mourarias, detentoras do supervisionamento. Com a expulsão posterior dos mouros para fora dos muros das cidades onde tinham os seus colégios, a cultura moçarábica seguiu-os e aos poucos foram extinguindo-se como etnias distintas, com eles a cultura e religião próprias só ficando, como testemunho fragmentado ainda assim mantendo-se por herança genética alimentada por via oral de velhos a novos, as crenças sobrenaturais do Termo, resquício psíquico dum período áureo irrevogavelmente morto.  Ao Homem cabe nascer, crescer, decrescer, morrer… assim também com as civilizações, logo, igualmente aos seus usos e costumes, sejam sagrados, sejam profanos, sejam ambas as coisas inter-relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar esta ligeira abordagem às crenças sobrenaturais do saloio estremenho, desfecho com um breve glossário de termos saloios, extraído, com a devida vénia, do livro de Maria Rosa Lila Dias Costa (ob. cit.), dividido em duas partes: a primeira, sobre astros e fenómenos atmosféricos; a segunda, sobre superstições e crenças.</p>
<h3><span style="color: #31839b;">ASTROS E FENÓMENOS ATMOSFÉRICOS</span></h3>
<p>Acoitar – Abrigar do tempo.<br />
Alando d´auga – Grande quantidade de chuva.<br />
Amolinhar – Chuviscar ou chover com pouca intensidade.<br />
Andar numa ruvadoura – Diz-se dos dias ventosos e frios.<br />
Arco-Novo – Arco-íris; meteoro luminoso, em forma de arco, que apresenta as sete cores do espectro solar.<br />
Arco-da-Velha – O mesmo que arco-íris.<br />
Armar uma trevoada – Tornar-se o céu escuro para trovejar.<br />
Auga à granela – O mesmo que alando d´auga.<br />
Aventar – Fazer muito vento.<br />
Barbas-de-gato – Diz-se do aspecto do céu quando o sol aparece por detrás de nuvens leves.<br />
Biquêras – Pingos de água que caem dos telhados.<br />
Biquêra-morta – Pingos de água barrenta caindo das telhas.<br />
Borriçar – O mesmo que amolinhar.<br />
Borriços – Chuva leve e pouca intensa.<br />
Cair um banquete – Chover abundantemente.<br />
Carmêlo branco – Gelo que se forma à superfície da água deixada ao relento durante o Inverno.<br />
Carmêlo negro – Gelo de cor terrosa, que se forma sobre as novedades e as encarquilha e queima.<br />
Casacada d´auga – Grande bátega de chuva grossa.<br />
Chover borriços – O mesmo que amolinhar.<br />
Chover molinha – Chover com pouca abundância.<br />
Choverão – O mesmo que casacada d´auga.<br />
Corisco – Designação vulgar de algumas pedras polidas da Idade Neolítica; o mesmo que pedra-de-raio.<br />
Derremunho – Encontro de ventos opostos em rajada, movendo-se circularmente.<br />
Dia de amores – Dia de sol.<br />
Dia cerrado – Dia enevoado.<br />
Dia de cravos – O mesmo que dia de amores.<br />
Dia desnorteado – Dia de chuva e vento.<br />
Escurecer a noite – Anoitecer.<br />
Estar de boiça – O mesmo que amolinhar.<br />
Estar brabo – Dia de chuva e vento.<br />
Estar d´estoirões – Chover abundantemente e trovejar.<br />
Estar de nèvoêro – Diz-se do dia cerrado.<br />
Estar à panga – Estar à chuva sem se recolher.<br />
Estrada-de-Santiago – Nebulosa ou mancha esbranquiçada que se vê no céu, em noites claras; Via Láctea.<br />
Estrela-boiante – Estrela de alva, ao nascer da qual os vaqueiros se levantam para ir tratar do gado.<br />
Estrela-da-madrugada – O mesmo que estrela boiante.<br />
Estrela-da-manhã – Vénus, o mesmo que estrela boiante.<br />
Fazer sol – Diz-se quando já despontou o sol.<br />
Forrar o escuro – Amanhecer.<br />
Geada – Orvalho congelado que forma camada branca sobre os telhados, solos, plantas, etc.<br />
Inchente – Cheia dos cursos de água.<br />
Invernêra – O mesmo que dia brabo.<br />
Luzir o buraco – Nascer o dia.<br />
Mingante – Fase da lua; quarto minguante.<br />
Mudar o tempo – Deixar de chover.<br />
Néuva – Nevoeiro.<br />
Nuve encarnada – Nuvem avermelhada indicadora de bom tempo.<br />
Orruvalho – Camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita, durante a noite, sobre os corpos expostos ao ar livre.<br />
Panção d´auga – O mesmo que alando d´auga.<br />
Porrada d´auga – O mesmo que alando d´auga.<br />
Relampo – Relâmpago.<br />
Restelazinha de sol – Pequeno raio de sol.<br />
Revalho – O mesmo que o orruvalho.<br />
Sete-estrelos – Constelação, o mesmo que Plêiades.<br />
Tempo arriba – Tempo mau com tendência para melhorar.<br />
Tempo péssemo – o mesmo que dia desnorteado.<br />
Tempo vil – Mau tempo.<br />
Ventanêra – Vento forte e contínuo, ventania.<br />
Vintinho – Vento fraco e agradável.<br />
Xaroco – Vento frio que sopra da ponta do mar.</p>
<h3><span style="color: #31839b;">SUPERSTIÇÕES E CRENÇAS</span></h3>
<p>Aime – Qualidade que uma pessoa tem de interrogar os espíritos.<br />
Aperseguir – Acção de atormentar, por parte dos maus espíritos.<br />
Bruxa – Mulher que faz pactos com o demónio e realiza sortilégios malfazejos.<br />
Búltemo – Suposta aparição de silhueta imprecisa, fantasmagórica, que se atribui a artes mágicas, aparecendo de noite.<br />
Cubrante – Resultado mórbido produzido pelo mau-olhado.<br />
Curadêra – Curandeira, mulher a que o povo atribui supostos poderes para curar certas doenças.<br />
Espirtos – Entes imaginados e malignos que vêm habitar o coração das pessoas.<br />
Estoiro – Estampido forte provocado pelos lobisomens.<br />
Fadoiro – Encanto que uma pessoa possui dado por um poder sobrenatural.<br />
Feitecêra – Feiticeira, mulher possuidora de artes maléficas.<br />
Figa – Acto de fechar a mão, metendo o dedo polegar entre o indicador e o médio; emprega-se para afugentar os maus espíritos.<br />
Hora mortal – Hora tardia da noite em que aparecem os vultos fantasmagóricos e os lobisomens.<br />
Incruzilhada – Cruzamento de caminhos, onde as bruxas e os lobisomens costumam passar.<br />
Labisome – Homem que se transforma em animal para cumprir um fadoiro.<br />
Labisongo – O mesmo que labisome.<br />
Males – Bruxedos.<br />
Mestero – Mistério, acontecimento estranho e inexplicável.<br />
Mardomo – O mesmo que labisome.<br />
Nonos – Diz-se de dias ímpares, julgados benfazejos e propícios à realização de certos trabalhos, tanto agrícolas, como medicinais e mesmo mágicos.<br />
Pantasma – Fantasma, imagem ilusória de aspecto macabro; abantesma.<br />
Penar – Cumprir um fadoiro.<br />
Remorsos – Pressentimento.<br />
Sumo – Desaparecimento atribuído supersticiosamente a causas fantásticas.<br />
Terpel – Tropel, barulho intenso e medonho que se supõe provocado por entes sobrenaturais.<br />
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<em>Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos apresentados, sem licença prévia do autor.</em></p>
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